Royal Raymond Rife


Sabem como é… uma coisa leva a outra — e se for meu velho e cego cachorro Mozart se enredando nos fios do video-game do meu neto, vai sair uma cagada daquelas! — e assuntos desconexos arrumam um jeito de aparecerem em uma seqüência que deixam um místico como eu desconfiado…
Primeiro, foi uma pergunta no “Queremos Saber” (o link está aí do lado), sobre os processos de tratamento imaginados pelo personagem que dá título a este artigo. É extremamente curioso que um personagem real possa se chamar “Royal Raymond Rife”, mas o cara existe. Não só existe, como também inventou uma trapizonga de microscopia – lá pelos idos do século passado – que, segundo seus seguidores, era capaz de observar um vírus individual. E, alegadamente, criou um tratamento para o câncer com base na emissão de ondas eletromagnéticas (na faixa do ultravioleta) que funcionava como uma espécie de “forno de microondas” para os microorganismos específicos: explodia eles!
Uma rápida busca no Google me indicou um site sobre os méritos alegados de Rife. A linguagem do site alcançava uma alta pontuação no “Crackpot Index” do Baez (vide artigo anterior). Mas, como eu sou apenas um burrinho esforçado que tem a sorte de conhecer gente que realmente entende do assunto, fui encher o saco de meu amigo da juventude, o Professor Paulo Paes de Andrade, Biofísico do Departamento de Biologia da UFPE. A resposta que ele me mandou merece ser transcrita:

João, entrei lá no site que você linkou. Desculpe ter sido tão extenso na resposta, mas acho que você vai ler com prazer.
É interessante como um amontoado de coisas técnicas/ científicas pode soar verossímil, mas uma análise mais cuidadosa um pouco mostra que não é.
Abaixo tem um texto colado da página do tal Rife. [observação: o texto original é em inglês, portanto – para não perder o hábito – eu vou traduzir]

Por volta de 1920, Rife tinha acabado de construir o primeiro microscópio para vírus do mundo. Por volta de 1933, ele tinha aperfeiçoado essa tecnologia e construído o incrivelmente complexo Microscópio Universal, composto por quase 6.000 diferentes peças e que era capaz de aumentar os objetos 60.000 vezes. Com este incrível microscópio, Rife se tornou o primeiro ser humano a realmente ver um vírus vivo e, até bem recentemente, o Microscópio Universal era o único capaz de ver vírus vivos.
Os modernos microscópios eletrônicos matam instantaneamente qualquer coisa que fique sob eles, mostrando apenas os resíduos mumificados e escombros. O que o microscópio de Rife podia ver era a enorme atividade dos vírus vivos, à medida em que eles se modificam para se acomodar às mudanças no ambiente, se reproduzir rapidamente em resposta a carcinogênicos e transformar células sadias em células de tumor.
Mas como foi que Rife foi capaz de conseguir isso, em uma época na qual a eletrônica e a medicina ainda estavam apenas evoluindo? Aqui vão alguns detalhes técnicos para aplacar os céticos…
Rife, com muito esforço, identificou a assinatura espectroscópica individual de cada micróbio, usando um espectroscópio de fenda acessório. Então, ele lentamente girava os prismas de blocos de quartzo para focalizar a luz de um único comprimento de onda sobre o microorganismo que queria observar. Esse comprimento de onda era selecionado porque ele estava em ressonância com a assinatura de freqüência espectroscópica do micróbio, com base no, agora estabelecido, fato de que cada molécula vibra em uma freqüência específica própria.
Os átomos que se juntam para formar uma molécula são presos nessa configuração molecular com uma ligação energética covalente que tanto emite, como absorve sua própria freqüência eletromagnética específica. Não há duas espécies de moléculas que tenham as mesmas oscilações eletromagnéticas ou assinatura energética. A ressonância amplifica a luz, do mesmo modo que duas ondas no oceano se intensificam, uma a outra, quando se combinam.
O resultado de empregar um comprimento de onda ressonante é que os micro-organismos que são inivisíveis na luz branca, subitamente se tornam visíveis, em um brilhante clarão de luz, quando são iluminados com a freqüência de cor que entra em ressonância com sua característica assinatura espectrográfica. Rife, assim, foi capaz de ver esses organismos, de outro modo invisíveis, e observá-los invadindo ativamente culturas de tecidos. A descoberta de Rife permitiu-lhe ver organismos que ninguém mais podia ver com microscópios comuns.
Mais do que 75% dos organismos que Rife pode ver com seu Microscópio Universal, somente são visíveis com luz ultravioleta. Mas a luz ultravioleta fica fora da faixa da visão humana, ela é “invisível” para nós. O brilhantismo de Rife permitiu que ele vencesse esta limitação, por meio da heterodinização, uma técnica que se tornou popular com as primeiras emissões radiofônicas. Ele iluminava o micróbio (usualmente um vírus ou bactéria) com dois comprimentos de onda diferentes da mesma freqüência de luz ultravioleta que entrava em ressonância com a assinatural espectroscópica do micróbio. Esses dois comprimentos de onda produzidos, interferiam entre sí ao se misturarem. O resultado dessa interferência era, com efeito, uma terceira onda, mais longa, que ficava dentro do espectro visível da radiação eletromagnética. Foi assim que Rife tornou os inivisíveis micróbios visíveis sem matá-los, um feito que os atuais microscópios eletrônicos não conseguem igualar.

Esta conversa toda acima é para falar que o cabra tinha um microscópio ótico que ampliava 60.000 vezes.
Primeiro ponto: a física prova (não importa quão genial seja o inventor, isto não será mudado) que uma radiação eletromagnética só pode identificar dois pontos como sendo distintos, se a distância entre eles for maior que o comprimento da radiação empregada. Para a luz visível isto vai até 2.000 vezes, para o ultravioleta vai talvez a 5.000 vezes, nunca a 60.000 vezes! O tal Rife afirma que o microscópio dele “via” coisas vivas, então tinha que ser iluminado com luz (visível ou ultravioleta) e não com elétrons.
Segundo ponto: ele afirma que o ultravioleta não é visível, e portanto ele usava o recurso da ressonância para visualizar os objetos (vírus e outros) que ele examinava. As duas coisas estão certas, mas é preciso lembrar que a luz emitida por esta ressonância tem sempre comprimento de luz maior do que a radiação incidente (o próprio texto revela isso), portanto, menos poder de separar objetos próximos. Muitos organismos e moléculas fluorescem naturalmente, e é disso que o autor, de forma elíptica e retórica, fala. Ocorre que o conhecimento deste fenômeno é muito antigo e já foi aproveitado em microscopia. Mas só ganhou contornos de uso comum quando se começou a usar marcadores fluorescentes, isto é, moléculas ligadas a fluoróforos que por sua vez se ligavam especificamente a certos componentes celulares (ou virais, ou do espaço intercelular) para se transformar na microscopia confocal que temos hoje, uma versão muuuuuuito melhorada da proposta simplória do Rife. Mas mesmo a microscopia confocal (que usa vários, se não todos, os princípios enumerados pelo Rife) não consegue ampliar mais do que o limite definido pela física (usualmente 2000 X).
Para ter uma idéia das imagens, olhe o site
http://www.feinberg.northwestern.edu/cif/lsm510.htm .
Outro trechinho do site:

Não obstante, muitos cientistas e doutores têm, desde então, confirmado a descoberta de Rife do vírus do câncer e sua natureza pleiomórfica, usando técnicas de “dark field”, o microscópio Naessens e experiências em laboratório.

Há coisas certas e outras nem tanto. A descoberta do vírus do câncer é atribuída a vários pesquisadores, e não a um só. A natureza pleiomórfica dos vírus (não só o do câncer) é bem conhecida, mas não se reflete na sua estrutura física, e sim na organização genômica e na forma como os vírus expressam seus genes e modificam suas proteínas. As técnicas de campo escuro (dark field) não são capazes de mostrar vírus, a menos que eles estejam envoltos com muito material do hospedeiro (fragmentos de membrana da célula hospedeira e coisas assim). O tal microscópio Naessens é essencialmente igual ao do Rife, e da mesma forma, posto em dúvida e declarado fraude por quase todo mundo. É claro que experimentos de laboratório confirmam o pleiomorfismo: que mais poderia confirmar, a inspiração divina?
Deste ponto em diante:

Por meio do aumento da intensidade de uma freqüência que entrava naturalmente em ressonância com esses micróbios, Rife ampliava suas vibrações naturais até que eles se distorcessem e se desintegrassem por fadiga estrutural. Rife chamava essa freqüência de “the mortal oscillatory rate” (taxa de oscilação mortal) ou “MOR” e ela não causava qualquer dano aos tecidos adjacentes

O site envereda pela teoria de que o aumento da energia da freqüência de ressonância é capaz de destruir o objeto ressonante. E dá como exemplo um copo de cristal destruído pelo som. De novo, há aí coisas certas e erradas (faça uma mistura equilibrada de verdades e mentiras, e você consegue convencer qualquer um de qualquer coisa, veja o Ciro Gomes com a transposição do São Francisco, por exemplo).
Primeiro, o som não é uma radiação eletromagnética e o exemplo já começa mal.
Segundo, a radiação incidente tem que atingir o alvo, e os vírus estão dentro de células, por trás da pele e de outros tecidos. As radiações que conseguem penetrar nos tecidos estão todas na faixa dos raios X ou mais intensas ainda, e nada têm a ver com as radiações visíveis ou UV de que ele falava antes.
Terceiro, a ressonância só ocorre se não há outros fatores de atenuação envolvidos, que dispersem a energia, o que não é definitivamente o caso no ambiente celular.
Quarto: o objeto (ou vírus) deveria ser composto todo de uma mesma substância, o que não é o caso da maioria dos vírus, mesmo se levarmos em conta só o capsídeo (a casca deles). Só os vírus filamentosos e bacteríofagos são tão simples, os nossos vírus estão longe disso.
Quinto: para tristeza de todos, muitos dos nossos vírus (inclusive o perigoso HPV) deixam de existir como quase cristais e integram o seu DNA em nosso DNA, de forma que desaparecem completamente do alcance da técnica que é citada no site.
O texto depois se alarga numa discussão estéril de coisas que aconteceram há muitos anos e não têm mais como ser investigadas a não ser lá nos EUA. Nem vou comentar.
Minha análise final é a seguinte: mais uma técnica sem fundamento para engambelar aqueles que estão desesperados (e isso se aplica ao câncer ou a qualquer outra doença, e mesmo aos problemas humanos mais triviais, como falta de dinheiro, calvície, gordura, etc.

Em resumo – exatamente como eu esperava, ao consultar o Dr. Andrade – mais um exemplo de misturar fatos científicos não relacionados entre si e aparecer com “curas milagrosas”.
E, aí, me aparece o Physics News Update n° 777 (ver dois artigos atrás) com uma matéria sobre o uso de laser de extremo ultravioleta para observar objetos da ordem de dezenas de nanômetros.
Aí você para e pensa nos seguintes exemplos:

• Voltaire, em um artigo, relatava o hábito que as mães turcas tinham de, quando surgia uma epidemia de varíola, levar seus filhos à casa dos sobreviventes, na fase de “seca” da doença, e esfregar a pele das crianças contra as chagas em processo de cicatrização. Mas os médicos franceses desprezavam essa “crendice” de um “povo atrasado e supersticioso” como os Turcos. Pasteur e todas as noções sobre micro-organismos ainda estavam séculos à frente e “vacina” era um conceito totalmente desconhecido.

• Quando Amedeo Avogadro raciocinou que um mesmo volume de qualquer gás, em iguais condições de temperatura e pressão, deveria conter o mesmo número de moléculas, não se sabia direito o que eram “moléculas” ou “átomos”.

• A mesma coisa aconteceu com Mendeleyev e sua Tabela Periódica de Elementos. Ela foi baseada no cálculo do “peso atômico” dos elementos (quando nem se imaginava a existência de isótopos) e só foi devidamente esclarecida com o advento da mecânica quântica.

Será que o “crackpot” do Rife tinha algum fundo de razão? Será que ele realmente disse que podia enxergar os micróbios, ou será que disseram que ele disse? Existe uma técnica para cessar o crescimento de tumores malignos que “queima” com laser as células cancerosas periféricas do tumor. Isso teria alguma relação com os estudos de Rife?
A primeira coisa que o Dr. Andrade “passa batido” – porque é um fato tão conhecido que nem precisa mencionar – é que a técnica de Laser é muito posterior aos experimentos de Rife. Como é que ele conseguiria um feixe coerente de ultravioleta de forma a “mirar” em uma única bactéria? Que pontaria, né?… (Também, com uma acuidade visual como a dele – que conseguia “ver” vírus que ninguém mais conseguia ver…)
A segunda é que a nanotecnologia necessária para construir um microscópio, tal como o descrito no PNU n° 777, é extremamente recente. Com as válvulas e botões do tempo de Rife (e aqueles mostradores de ponteirinho), conseguir o grau de acurácia reivindicado é simplesmente impossível.
O Dr. Andrade fala de uma “técnica sem fundamento”. Eu acho que é coisa pior: é uma aldrabice com falsos fundamentos. Coisa que pessoas razoavelmente ignorantes – tais como yours truly – podem até ser convencidas de que realmente são fundamentadas, se derem meia dúzia de fontes de referência suficientemente vagos e não inter-relacionados, contendo as poucas “verdades” que formam uma grande mentira.

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