Um Oceano de Problemas

“Na terra onde o mar não bate,
não bate o meu coração.
O mar onde o céu flutua,
onde morre o Sol e a Lua,
e acaba o caminho do chão”

(Gilberto Gil, Beira Mar)

É, no mínimo, curioso que, tendo mais de 71% de sua superfície coberta por águas, este planeta seja chamado “Terra”. E este “bairrismo” do ser humano vai mais longe.
Vai tão longe quanto o Sputnik 1, lançado para além da atmosfera em 04 de outubro de 1957, enquanto que o fundo da Fossa das Marianas só foi atingido pelo “Trieste” em 23 de janeiro de 1960…
O fascínio pelas estrelas é quase tão velho como a humanidade e seu estudo, como as mais antigas civilizações. Mas o mar – berço de toda a vida no planeta – continuou a ser um inimigo a ser conquistado. Os “anjos” habitavam o “céu”, enquanto as profundezas marinhas eram a morada de “monstros”. O “Gigante Adamastor” estava lá, à espreita, para destruir aquele que se atrevesse a cruzar sua superfície. E, se a vastidão das terras maravilhava os homens, a vastidão ainda maior dos oceanos o intimidava. Nos astros, a humanidade buscava indícios de seu futuro. Mas o mar era a sepultura dos destemidos e incautos. Para nós, macumbeiros, o Cemitério é a “Calunga Pequena”, o mar é a “Calunga Grande”… Jeová, quando resolveu se livrar da humanidade que criou e que não lhe prestava as devidas homenagens, mandou que as águas cobrissem as terras…
Pois é…
Mapeamos os céus muito antes de conhecermos mais sobre as profundezas dos mares. Até mesmo “recuperamos” áreas de terra, não só dos pântanos e alagadiços, mas até do próprio mar. Dos mares, só se tirou… Tiraram os peixes, cetáceos e crustáceos. Nas últimas décadas, até o bendito petróleo conseguiram tirar do fundo dos mares. Minto!… Não “só se tirou”… Ao contrário: todos os dejetos e lixos que produzimos foram atirados às águas (afinal, os mares são grandes…)
E, como mariposas atraídas pela lâmpada, nos esforçamos em arte e engenho para desvendar os segredos do Cosmo… e esquecemos daquilo que estava do nosso lado, o tempo todo: o mar. Só agora os físicos aplicam seus modelos matemáticos (criados para explicar as curvaturas do espaço-tempo) para estudar as interações entre as correntes marinhas e o clima (no que afeta os continentes, é claro… quem se importa – além dos marinheiros – se chove ou neva nos mares?…)
Apenas agora é que esses habitantes de parte dos 29% restantes da superfície do planeta estão se dando conta de que aqueles 71% são bem mais importantes do que nossa vã filosofia percebia…
Se as condições climáticas mudarem – pouco importa se brusca ou paulatinamente – e esta espécie arrogante que chama a si mesma de “Sábia” for varrida da face da terra, junto com o restante da vida nesses 29% da superfície, a natureza voltará a povoar o planeta… a partir dos mares. Os registros fósseis estão aí para comprovar isso: vide “Oceanos Tóxicos?”. E ainda há tempo suficiente: o Sol ainda vai continuar estável por tempo suficiente para que outra espécie evolua o suficiente para se adonar da Terra.
E, afinal?… Essas mudanças climáticas serão somente decorrentes das ações humanas ou serão um ciclo natural do planeta?… Que as emissões de poluentes estão agravando o problema, não há mais dúvida plausível. Corais branqueados, corais macios derretidos, níveis de acidez crescentes nas águas rasas, saturação da capacidade dos mares em absorver o CO2, concentrações de O3 na superfície, furacões e tufões cada vez mais freqüentes e devastadores… faltou alguma coisa?… sei lá!… Plantar árvores para “sequestrar CO2” é uma boa medida… Mas – e o CO2 nos mares?… 71% da superfície, lembram?… Não adianta coisa alguma tentar salvar as terras, se os mares estiverem mortos. E mortos não só pela absorção direta das emissões de poluentes atmosféricos, mas também pela poluição dos rios que vazam para os mares, com lixo, agrotóxicos, esgoto in natura e até com resíduos de transgênicos.
Qual terá sido o erro maior: interromper a conquista do espaço exterior (pelo menos teríamos para onde fugir) ou ignorar sistematicamente a maior parte da superfície do planeta?
Ah!… Tanto faz… Daqui a pouco o H5N1 arruma uma mutação que vai tornar isso tudo bem mais fácil de resolver…
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