Um Americano Intranqüilo

“Pirateado” da Newsweek:

“Nosso País Está em Perigo”
Um ex-caçador de bin Laden explica porque os EUA não venceram a Al Qaeda.
Por John Barry | Newsweek Web Exclusive 13 de fevereiro de 2008
Michael Scheuer é um homem preocupado — e zangado. Ele está preocupado com o que ele vê como o fracasso dos Estados Unidos em traçar uma estratégia de sucesso contra Osama bin Laden e zangado com o que ele vê como uma timidez política por trás desse fracasso. Scheuer tem motivos para ser ouvido. Ele foi um agente da CIA por quase 20 anos. Nos anos 1980 ele esteve envolvido com o fornecimento de armamentos para os mujahedin do Afeganistão contra os Soviéticos. Pela maior parte da década de 1990 ele liderou a equipe que caçou Osama bin Laden. Em 2004 ele deixou a CIA e escreveu um livro, intitulado “Imperial Hubris” (“Arrogância Imperial”), um relato dos anos de fracasso do Ocidente em tratar seriamente a crescente ameaça do terrorismo Islâmico. Agora Scheuer escreveu um novo livro, “Marching Toward Hell: America and Islam After Iraq” (“Caminhando para o Inferno: a América e o Islam depois do Iraque”). Ele falou ao repórter da NEWSWEEK, John Barry, acerca do livro. Extratos:
NEWSWEEK: Por que você escreveu este novo livro?
Michael Scheuer: Porque eu acho que nosso país está em perigo. O inimigo que estamos encarando, Osama bin Laden e o movimento que ele chefia, é muito mais perigoso do que qualquer um acredita. É muito mais esperto, muito mais talentoso e, agora, está recrutando, cada vez mais, uma nova geração que é melhor educada, não somente em termos de escolaridade, mas em termos operacionais e tecnológicos. Nós derrotamos os espadachins. Os Errol Flynns do jihad se foram; eles estão perto de serem julgados em Guantánamo. Agora, nós temos os mocinhos de terno cinza que são calmos, não atraem atenções para si, mas são tremendamente sabidos.
Nós subestimamos Osama bin Laden?
Eu acho que existe um tremendo racismo em nossa resposta a bin Laden. Ele usa uma barba e umas roupas esquisitas e vive em uma caverna. (Eu duvido que isso seja verdade, por falar nisso. Esta a versão feita-para-Hollywood). De forma que desprezamos ele. Mas é incrível tratar seu inimigo como um idiota, especialmente quando você está perdendo duas guerras para ele, e quando seu diretor da Inteligência Nacional está avisando que a Al Qaeda foi reconstruída, reequipada e está mais forte do que nunca.

Nós estamos combatendo bin Laden a mais tempo do que lutamos na Segunda Guerra Mundial. Por que não ganhamos?
Porque nossa elite política não quer se rebaixar a explicar ao povo americano as reais razões porque bin Laden nos odeia e se opõe a nós. Nossos líderes dizem que ele e seus seguidores nos odeiam por causa de quem somos, porque temos primárias antecipadas em Iowa a cada quatro anos e deixamos nossas mulheres trabalharem. Isto é idiotice. Eu não acho que ele queira essas coisas no país dele. Mas não é por isso que ele se opõe a nós. Eu leio os escritos de bin Laden e aceito a palavra dele. Ele e seus seguidores nos odeiam por causa de aspectos específicos de nossa política externa. Bin Laden expõe esses motivos para qualquer um que queira ler. Seis elementos: nosso inqualificável apoio a Israel; nossa presença na península Arábica, cuja terra eles julgam sagrada; nossa presença militar em outros países Islâmicos; nosso apoio a outros estados que oprimem muçulmanos, especialmente Russia, China e India; nossa política de longo prazo de manter os preços do petróleo artificialmente baixos para beneficiar os consumidores ocidentais em detrimento do povo árabe; e nosso apoio às tiranias árabes que concordam com isso.
Você diz que bin Laden explicou tudo isto. Mas não é o que se ouve na corrente campanha presidencial.
Eu cheguei à conclusão de que isto é apenas inconveniente demais para nossa classe política. É muito mais fácil dizer aos americanos que uns malucos estão querendo pegar você e que amanhã sua filha vai ter que ir para a escola usando uma burqa. E nós temos pouquíssimas pessoas, ainda hoje, com conhecimentos sobre o mundo árabe. No mesmo ano do ataque de 11/9, houve três PhDs concedidos sobre assuntos árabes. Três, no país todo. Um foi sobre Arquitetura Islâmica. Um foi sobre a Poesia Islâmica. O terceiro foi sobre a História Islâmica. E as coisas não melhoraram muito desde então. Nós ainda estamos construindo o capital intelectual que precisamos. Na Guerra Fria, será que nós dizíamos: “Nós não precisamos realmente entender o que Marx, Lênin ou Stálin escreveram, porque eles são gangsters, não pessoas brilhantes, são somente niilistas e nós podemos vencer eles porque nós somos ‘os mocinhos'”? Não. Nos construímos, com dinheiro do governo, instituições para estudar a União Soviética. Mas nada comparável a isso está sendo feito agora. O esforço é mínimo. E, cada vez mais, você descobre que os institutos existentes são financiados por dinheiro saudita. O que significa que existem limitações reais sobre o que eles podem dizer. Então eu leio na National Review ou no Weekly Standard acerca de Osama bin Laden ser um gangster ou um idiota, ou ambos. Mas eu tenho que dizer que há um toque de gênio aí. Pegar em seis elementos da política externa americana que são os mais identificados com nossas políticas domésticas é uma grande peça de análise. Porque isso torna o debate franco tão difícil.
E se não tivermos este debate?

Veja, nós temos uma classe política neste país que vive e morre com base em pesquisas. Eles não vão ao banheiro sem ver as pesquisas. Pois bem, as pesquisas nos dizem que, no mundo muçulmano, algo como 75 a 80 % concordam com Osama bin Laden em que a política externa americana é destinada a prejudicar ou destruir o Islam. Bem, pouquíssimos deles vão pegar em uma AK-47. Mas quantos são precisos para causar um problema? Osama bin Laden está, de alguma forma, falando de uma guerra de libertação. E é verdade que por 50 anos nós apoiamos tiranias que oprimiam muçulmanos, tiranias com fortes elementos fascistas. Nós ouvimos um bocado sobre os “Islamofascistas”. Sim, existem muitos deles por aí. E eles estão todos do nosso lado. Eles estão em Riyadh, Amman, Kuwait City, Cairo. Até Bernard Lewis, o santo patrono de nossos “neocons”, escreveu que os governos que dominam os muçulmanos estão praticando basicamente um Facismo Europeu adaptado às areias… Nós podemos manter o atual curso da política externa americana, mas temos que compreender que, com o tempo, isto pode acabar nos envolvendo em enviar tropas para lutar em cada continente, na medida em que novos jovens muçulmanos se alistem na bandeira da Al Qaeda. Os candidatos na campanha presidencial estão falando de ressuscitar empregos e salários, e partir para uma saúde universal. Nada disso vai ser possível se nosso país estiver envolvido. Meu próprio ponto de vista é que é mais sensato enfrentar o fato de que nossa política externa com relação aos árabes é o único aliado indispensável para Osama bin Laden.
© 2008 Newsweek, Inc.

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Caramba! Contrariando todos os indícios, existe vida inteligente em Washington!… Só que deveria ser inscrita entre as espécies ameaçadas de extinção…

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Discussão - 1 comentário

  1. Carlos Hotta disse:

    Quando vi que ele era da CIA já pensei que vinha besteira… mas não é que o cara me pareceu sensato?

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