Pior do que pseudo-ciência: pseudo-pesquisa.

O New York Times de hoje (30 de setembro), traz um artigo initulado: “Aplicando o Método Científico na Medicina Alternativa” (“Applying Science to Alternative Medicine“), assinado por Wlliam J. Broad, que traz algumas reflexões e mesmo constatações preocupantes.

Já é um fato para lá de notório que as ditas “pesquisas médicas” não são, de modo algum, confiáveis. A isenção dos “pesquisadores” é sempre questionável e, em diversos casos, se comprovou que vários desses “pesquisadores” nem chegaram perto das “pesquisas”: apenas emprestaram seus nomes para dar prestígio a um artigo (não vêm ao caso os motivos… o resultado é que muitas “pesquisas” falsas ganharam “um ar respeitável” — vide “Estudos Médicos: quem realmente os escreve“).

Agora, o Centro Nacional para Medicina Alternativa e Complementar (National Center for Complementary and Alternative Medicine) do governo dos EUA está exigindo um maior rigor para esses estudos, como declara a sua diretora, Dra. Josephine P. Briggs. O artigo prossegue citando um estudo feito pela Universidade de Harvard:

Por exemplo, um estudo de Harvard de 2004 identificou 181 artigos de pesquisas sobre terapia com yoga que relatavam que a prática podia ser usada no tratamento de uma impressionante gama de doenças — inclusive asma, doenças cardíacas, hipertensão, depressão, dores nas costas, bronquite, diabetes, câncer, artrite, insônia, doenças pulmonares e pressão alta.

Acontece que somente 40% desses estudos usaram grupos de controle — a maneira usual de se comprovar a eficácia e a segurança de uma droga, dieta ou qualquer outra intervenção. Nas pesquisas sérias, os cientistas designam aleatoriamente os pacientes para os grupos de tratamento e de controle, como forma de eliminar as meras opiniões de clínicos e pacientes.

Sat Bir S. Khalsa, o autor do estudo e um pesquisador do sono na Harvard Medical School, declarou que uma complicação adicional era que “a grande maioria desses estudos tinha sido muito restrita”, com uma média de 30 ou menos indivíduos em cada ramo do teste aleatório. Quanto menor for a amostragem, alertou ele, maior o risco de erros, inclusive falsos resultados “positivos” ou “negativos”.

O Centro da Dra. Briggs recebeu, para este ano, fundos da ordem de US$ 122 milhões para realizar pesquisas mais amplas que envolvam populações maiores e um controle mais eficaz dos resultados.

Por exemplo, o Centro está conduzindo um grande estudo para verificar se extratos de ginkgo biloba podem retardar os efeitos do Mal de Alzheimer. O teste clínico envolve centros na Califórnia, Maryland, Carolina do Norte e Pennsylvania, e recrutou mais de 3.000 pacientes, todos com idade superior a 75 anos. O estudo termina no ano que vem.

Outro estudo grande alistou 570 participantes para verificar se a acupunctura realmente alivia as dores e melhora o desempenho de pessoas com osteoartrite do joelho. Em 2004, foram relatados resultados positivos. O Dr. Brian M. Berman, diretor do estudo e professor de medicina na Universidade de Maryland, declarou que a pesquisa “estabelece que a acupunctura é um complemento eficaz para o tratamento convencional da artrite”.

Por outro lado, esse maior rigor na realização dos estudos flagrou outro problema: no estudo sobre gingko biloba, 75% das amostras de medicamentos não continham a quantidade indicada do princípio ativo. Com um maior número de médicos clínicos envolvidos, esse tipo de problema é mais facilmente detectável. No entanto, o maior problema está no financiamento para pesquisas de grande porte para as Terapias Alternativas. Essas pesquisas encontram uma forte resistência por parte da indústria farmacêutica e raramente se encontra fundos para patrocinar estudos como o do Dr. Khalsa de Harvard, sobre o efeito da yoga sobre a insônia. “É um grande problema. Os financiamentos ainda são muito difíceis de conseguir e a ênfase continua na medicina convencional, na pílula ou no processo mágico que vai levar embora todas essas doenças”, declara ele ao NYT.

É uma questão de opinião se e onde a “panacéia” vai ser encontrada: na medicina convencional ou na alternativa. Por incrível que possa parecer, a princípio, eu ponho as minhas fichas na medicina alternativa… Pelo menos, enquanto ela não cair totalmente nas mãos da indústria farmacêutica… o que, infelizmente, já está acontecendo.

A medicina busca tratamentos e curas para as doenças. A indústria farmacêutica busca vender remédios (se as doenças forem todas curadas, ela vai à falência…)

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Discussão - 5 comentários

  1. João Carlos disse:

    @ Leonardo:
    Bom… Seu primeiro comentário, apesar de correto, me leva a questionar diversos artigos, supostamente rigorosamente científicos, que exaltam as qualidades – por exemplo, da camomila – para o controle da diabete.
    Quanto aos gastos com pesquisa, era apenas de se esperar, não?…

  2. Leonardo disse:

    Sou farmacêutico, mestre em farmacologia e futuro (se tudo der certo) doutorando na mesma área. Se eu fosse colocar minhas opiniões sobre as ditas terapias complementares, teria que escrever uma gama enorme de artigos (sou extupendamente contra), mas tenho algumas colocações podem ser postas nesse exíguo espaço:
    1. Terapias COMPLEMENTARES: é uma grande sacada. Leva a vítima (ops, paciente) a usar da terapia sem deixar de fazer uso da tradicional. Geralmente, se esse indivíduo tem melhora, atribui a mesma à terapia complementar, convenientemente se “esquecendo” da tradicional. Esse fenômeno é muito comum. Quem não conhece um tiozinho diabético que (supostamente) controla sua doença um com chazinho, mas que em hipótese alguma deixa de se injetar insulina.
    2. As condições patológicas onde são mais frequentemente usadas as terapias complementares são as auto-limitantes, como gripe. Mesmo a asma apresenta uma tendência a desaparecimento no período pré-púbere (e as pessoas que usaram chá a vida toda atribuem a melhora ao chá).
    3. Ninguém, em sã consciência, faz uso somente de terapias complementares para o tratamento de doenças realmente sérias como câncer ou AIDS. Se o faz, a seleção natural se encarrega do resto.
    4. Agora, falar que a indústria farmacêutica se encontra em “berço esplêndido” por muito tempo é um equívoco. Nunca se gastou tanto para o desenvolvimento de novas drogas e o número de novas moléculas que passam nos testes de provas-conceito é cada vez menor. (dados do FDA, depois procuro a referência e coloco aqui).
    5. A situação tem feito com que a indústria farmacêutica apele para drogas “me-too”, além de outras canalhices (vide sequência de 7 vídeos no youtube, http://br.youtube.com/watch?v=Qc5MPhOfW6M).

  3. João Carlos disse:

    Não… Eu não esqueci as doenças degenerativas, nem os medicamentos preventivos, muito menos os de tratamentos sintomáticos (que são o maior filão para “gueutas” de todo tipo) e o onipresente ramo dos cosméticos. (Sem contar que acidentes sempre acontecem e precisam de tratamento).
    E a medicina está muito longe de começar a compreender, realmente, o funcionamento do corpo humano. Portanto, os acionistas das indústrias farmacêuticas, durante muito tempo, não vão ter com o que se preocupar.
    Mesmo assim, a indústria farmacêutica continua “jogando sujo”… Em caso de dúvidas, consultem um livro da década de 1950 de Estes Kefauver, que no Brasil ganhou o título “Em poucas mãos”, e vejam se, neste meio século, a situação mudou em algo…
    Quanto à “Indústria Farmacêutica Alternativa”, o melhor indício de que ela não tem nada de melhor do que a Convencional é dado no próprio artigo: na parte em que fala nos medicamentos à base de gigko biloba e da falta da quantidade mínima do princípio ativo… O “rótulo” de “alternativa” não muda em nada os velhos hábitos…

  4. Caro, você escreveu que “se as doenças forem todas curadas, ela vai à falência”: será mesmo? Sempre existirá uma nova geração para adoecer. Além disso as doenças degenerativas, muitas vezes, não têm cura, só tratamento. Por outro lado, um ser humano que vive até os 30 anos tem pouca chance de ter câncer; um que vive até os 80 tem mais. Assim, o aumento na vida média de uma população pode trazer à tona uma nova gama de doenças. Ainda: há medicamentos preventivos: anticoncepcionais, por exemplo. Por fim, há o surgimento de novas doenças, como a AIDS. Veja, não defendo a indústria, mas ela não é necessariamente má. O ruim mesmo é a busca de lucro a qualquer custo, seja com a indústria tradicional, seja com a indústria alternativa (que não deixa também de ser indústria).

  5. Igor Santos disse:

    Não creio que jamais falte doenças.
    E se algum laboratório encontrar uma cura para uma doença séria, vai ficar quadrilionária.
    Mesmo que a doença acabe, o remédio VAI ser vendido e eles VÃO ganhar dinheiro.

Envie seu comentário

Seu e-mail não será divulgado. (*) Campos obrigatórios.

Sobre ScienceBlogs Brasil | Anuncie com ScienceBlogs Brasil | Política de Privacidade | Termos e Condições | Contato


ScienceBlogs por Seed Media Group. Group. ©2006-2011 Seed Media Group LLC. Todos direitos garantidos.


Páginas da Seed Media Group Seed Media Group | ScienceBlogs | SEEDMAGAZINE.COM