Ficção Científica e Divulgação das Ciências

Três dias antes de meu 7º aniversário uma notícia espantosa correu o mundo: a União Soviética tinha colocado um satélite artificial em órbita!… Em um mundo ainda sob os efeitos da perplexidade das armas atômicas e dos horrores da 2ª Guerra Mundial (e da recente Guerra da Coréia), havia um campo fértil para as lendas sobre “Discos Voadores” (o Projeto “Blue Book” estava, ainda, a plena carga) e começavam a surgir, na esteira de previsões sombrias de “1984”, os temores de que os “Cérebros Eletrônicos” (a versão em “estado-da-arte” do monstro de Frankenstein) pudessem “dominar o mundo” (embora não esclarecessem bem para que uma máquina “inteligente” iria se preocupar em dominar um mundo habitado por uma espécie tão idiota a ponto de deixar de instalar um interruptor “liga/desliga” em algo tão perigoso…)

Como os editores portugueses ainda tinham preferência e exclusividade na obtenção de “direitos de tradução para a lingua portuguesa”, o jeito que eu arrumei foi aprender a ler na lígua da família de minha mãe e tentar saber mais sobre os “Oceanos de Vênus” e a “Moribunda Civilização de Marte”…

Ainda era a época em que o Projeto “Bluebook” andava a pleno vapor e os “cinemas-poeiras” exibiam “trashes” como “Plan 9 from outer space”…

É de espantar que a Ficção Científica tenha tido uma influência tão grande na minha vida?…

Entretanto eu me confesso decepcionado em ter tido razão, quando respondi ao Osame, no post dele, que achava que “cientistas detestam sic-fi“. Os autores de Ficção Científica geralmente são cientistas, mas escrevem sob pseudônimos (existem as honrosas exceções tais como Sagan e Hoyle, mas esses tinham adquirido, antes, uma sólida reputação como pesquisadores, depois como divulgadores de “ciência séria” e só depois se aventuraram na sci-fi…)

E, é claro, como em todo gênero artístico, a Ficção Científica produz 99% de lixo para cada “obra prima”. O raio é que “Ficção Científica” virou um termo portemanteau, onde cabe desde um “futurismo” a lá Orwell (1984) e Huxley (Admirável Mundo Novo), até as mais palermas space operas (de boa qualidade, com a série Star Wars) e filmes trash, como Invasion of Body Snatchers.

E tudo se resume em um “não pode” que continua não podendo: viagens em velocidades superiores à da luz. (Lá se foram os “Impérios Galáticos” e a “Federação dos Planetas” da série Star Trek).

Os “Cérebros Eletrônicos” não metem mais medo em niguém e nem são mais chamdos de “computadores”: viraram coisinhas triviais que atendem por nomes prosáicos como “PC”, “Laptop”, “Ipod”, etc.

E até os tour-de-force dos imaginativos escritores que “inventavam” coisas “impossíveis” para a época, viraram lana caprina. Eu nem sei dizer se batizar o primeiro submarino atômico de “Nautilus” foi uma homenagem ou uma gozação com Jules Vernes. O fato é que você encontra nos EurekAlert da vida argumentações perfeitamente cientificamente embasadas que dizem que o “dispositivo Klingon de invisibilidade” não é absolutamente impossível com a atual tecnologia

Como supunha (meu “Guru”) Robert Heinlein, em breve a tecnologia iria tornar a sci-fi obsoleta. As inovações tecnológicas tornam o “impossível” de ontem no “corriqueiro” de hoje (no meio do século passado, uma das “modas” da sci-fi eram os “videofones” — ou “teletelas” de Orwell — coisa que qualquer celular pode fazer atualmente e qualquer um com uma webcam pode fazer há muito tempo…)

Uma coisa que nenhum escritor de sci-fi (que eu conheça) jamais poderia imaginar é o brutal desenvolvimento da nano-tecnologia: quem imaginaria que as “fullerenes” iriam se mostrar tão inúteis, mas um Carbeno iria revolucionar toda a nano-eletrônica?…

A Ficção Científica ficou relegada a uma “Ficção Histórica de um Futuro Possível” (Stand on Zanzibar e The Squares of the City, de John Brunner) e a mais prosáica “Aldeia Global” de McLuhan é mais atual do que nunca nos Orkut, Facebook e MSN da vida… Os “Jetsons” são tão prováveis quanto os “Flintstones”…

E a ciência se tornou tão “esotérica” com seus “genomas” e “quarks” (“saborosos” e “coloridos”) que se dissociou totalmente do dia-a-dia do Joe, the Plumber (nosso famoso Zé Ninguém). Simplesmente não dá para explicar a um secundarista uma “trama” que tenha como base as “quebras de simetria” derivadas de uma “quiralidade”. Restam as profundamente chatas especulações moralistas sobre “engenharia genética”, de resto antigas como Frankenstein de Shelley…

Será que a Ficção Científica ainda é capaz de estimular a imaginação de algum jovem e fazê-lo sonhar com “viajar para as estrelas e entrar em contato com raças alienígenas”?…

Ou será que os vetustos “rigores científicos” que levam os “cientistas sérios” a enaltecer o chatíssimo “Profeta Dawkins” estão matando, de uma vez, os sonhos de muita gente?

Eu já ando com sérias dúvidas se a Ficção Científica é um meio válido para promover a divulgação das ciências, porque o que empolga na Ficção é, exatamente, uma “momentânea aceitação do impossível” (assim como nos desenhos animados ninguém estranha um rato usando roupas e luvas que é amigo de um cachorro humanizado que usa chapéu, mas tem um cão de estimação)

(Este post faz parte da discussão do corrente mês do “Roda de Ciência. Por favor, comentários aqui.)

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