Afinal quais eram as estranhas idéias de Sir Fred Hoyle?

A recente descoberta de bactérias na estratosfera por cientistas indianos que batizaram uma das novas espécies de Janibacter hoylei, em homenagem a Sir Fred Hoyle, me levou a retomar algo que vinha me incomodando desde que perdi meu tempo e meu dinheiro lendo acabei de ler “Deus, um delírio” de Richard Dawkins: por que será que tantas pessoas citam Hoyle fora de contexto?

Eu fiquei particularmente irritado com essa passagem da catilinária insípida do livro — festejado além da conta — de Dawkins: [Dawkins, Richard. Companhia das Letras, São Paulo, 1ª Edição, 2007, pp. 154-155]

O Boeing 747 definitivo

(….)

O nome vem da interessante imagem do Boeing 747 e do ferro-velho de Fred Hoyle. Não estou certo de que Hoyle tenha colocado no papel, mas ela foi atribuída a ele por sua colega Chandra Wickranasinghe e presume-se que seja verdadeira¹. Hoyle disse que a probabilidade de a vida ter surgido na Terra não é maior do que a chance de um furacão, ao passar por um ferro-velho, ter a sorte de construir um Boeing 747. (…)

A nota de rodapé diz: “¹ O design inteligente já foi descrito, com bastante deselegância, comoo o criacionismo num smoking vagabundo.”

Deselegante, desonesto e desprezível é usar um “argumento do espantalho“, alegando — o que é ainda mais covarde — uma suposta “incerteza” quanto à veracidade sobre a origem de um argumento que não convém. Tanto mais que essa “imagem do Boeing 747” é descrita em detalhes no livro “O Universo Inteligente” de Fred Hoyle, editado em Portugal pelo Editorial Presença (meu exemplar ainda está em algum caixote em Araruama, junto com o resto de minha biblioteca… portanto, não posso transcrever o texto e indicar a página). E — para “entregar” a mal-disfarçada falácia — Dawkins puxa uma nota de pé de página falando de “Intelligent Design” (ID), misturando com absoluta falta de caráter livremente as ideías de Hoyle ao Criacionismo Bíblico.

Em primeiro lugar, o “ferro-velho” de Hoyle contém, especificamente, todas as peças necessárias para a construção de um 747 — coisa que Dawkins omite, para deixar a idéia mais “ridícula”. Em segundo lugar, Dawkins nem se dá ao trabalho de contestar a argumentação de Hoyle com dados e cálculos — apenas passa a mencionar a “Falácia do 747”, como se um astrônomo fosse menos capaz de calcular probabilidades do que um etólogo, e o “erro” de Hoyle tão gritante que qualquer estudante de 2º grau pudesse perceber.

Dawkins poderia, pelo menos, ter-se dado ao trabalho de ler o que Hoyle escreveu para apresentar uma contra-argumentação decente (como eu cai na asneira de fazer fiz para saber o que de tão empolgante os prosélitos do ateísmo encontravam nesse livro).

Bom… Chega de falar de Dawkins! Eu quero falar de Hoyle. E começo com a pergunta:

Hoyle era criacionista?

A resposta é um sonoro e enfático “NÃO!”

Hoyle foi (e é, até hoje) ridicularizado por ter-se oposto ferrenhamente contra o Modelo Cosmológico do “Big Bang”. Aliás, foi ele que cunhou o termo “Big Bang”, a título de gozação com algo que ele julgava insuportavelmente “criacionista”. Em lugar de adotar uma misteriosa “flutuação quântica do nada” para substituir a igualmente misteriosa “Inteligência Criadora”, Hoyle preferiu acreditar que o Universo não tinha começo, nem fim.

Ironicamente, foram dele mesmo as maiores contribuições para solucionar diversos problemas no modelo cosmológico que ele rejeitava. A síntese de elementos “pesados” no interior das estrelas, a previsão de um Fundo Cósmico de Microondas (que Hoyle calculou estar em outra faixa de freqüência), e até uma idéia de um “Campo de Criação” — que, devidamente corrigido, foi o cerne para a “inflação cósmica” do modelo do “Big Bang” — foram problemas que ele contribuiu decisivamente para resolver. O modelo cosmológico defendido por Hoyle, o “Estado Estacionário”, não é mais aceito por cientista algum… mas Hoyle morreu discutindo que diversos indícios que comprovam o modelo do “Big Bang” (inclusive o Fundo Cósmico de Microondas), poderiam ter outra explicação… o que não contribuiu em nada para que suas outras idéias ganhassem mais credibiliade… muito ao contrário.

Mas uma coisa é insistir em uma abordagem científica pouco promissora (ou errada, se quiserem…), e outra, totalmente diferente, é propor uma abordagem totalmente anti-científica e que se baseia em algum “poder sobrenatural”: isso, Hoyle não fez!

O “Universo Inteligente” de Hoyle não foi “projetado” por nehum “ser superior”, nem tem um “propósito” que possamos intuir. Ele apenas favorece a evolução (e não só dos seres vivos — Hoyle se preocupava muito mais com estrelas e galáxias) em um determinado sentido e não em outro. Uma extrapolação da “quebra de simetria” que ocorre com a Força Nuclear Fraca, embora Hoyle jamais use essa analogia. Em seu livro, Hoyle faz uma sugestão tão disparatada como qualquer outra: a “informação” necessária teria origem no futuro. Ou, dito de outra forma, o futuro causa o passado. (Eu acho a idéia mais revoltante do que a de um “ser superior”… mas a matemática funciona…)

Por que, então, Hoyle “desmentia” toda a mainstream da biologia e adotava a panspermia como provável origem da vida na face da Terra?

Por uma questão de coerência, ouso dizer. O universo de Hoyle tinha toda a eternidade para criar a vida. Aliás, mesmo concedendo o modelo do “Big Bang”, se compararmos a idade estimada para o universo, com a idade estimada para a Terra, fica difícil entender como é que a vida poderia ser um fenômeno restrito a este planeta e surgido, graças ao simples acaso, em tão pouco tempo. Sim, porque a Terra apareceu anteontem no universo, mas a matéria-prima para a vida está por aí faz muito mais tempo. Hoyle chegou a explorar “formas de vida extraterrestres” em sua novela de sci-fi, “The Black Cloud“, onde uma nuvem de material (orgânico) interestelar acaba por se revelar dotada de inteligência (e uma inteligência muito maior do que a humana… para variar…)

By the way, uma das “explicações” que Hoyle avançava para o desvio para o vermelho, era a deflexão da luz distante por nuvens interestelares de matéria orgânica (veja aqui). Um delírio? Pode ser…

O fato é que partidários de Hoyle (não sei se de todas as idéias, mas certamente da panspermia), foram buscar indícios de vida na estratosfera… e tiveram sucesso!

Isso “prova” que Hoyle estava certo?… Claro que não! A origem mais provável das bactérias estratosféricas é a Terra, mesmo. Pelo menos há a certeza que existe vida na Terra e as bactérias não são diferentes de outras que encontramos em ambientes profundamente hostís à maior parte dos organismos terrestres. Uma “prova” para as teorias abraçadas por Hoyle, seria a descoberta de organismos (ou de vestígios deles) no material coletado pela sonda Stardust — coisa que, até agora, não aconteceu.

Mas são mais três espécies para a categoria dos extremófilos. A vida na própria Terra é muito mais estranha do que supunha a nossa vã filosofia… E pode muito bem ser que Hoyle, ao remar contra a maré, tenha contribuído, mais uma vez, para solucionar problemas com modelos (neste caso, do Modelo Biológico Evolutivo) que ele próprio rejeitava…

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Discussão - 4 comentários

  1. João Carlos disse:

    Maria e Igor, parem de encher minha bola. Eu já sou cabotino que chegue!… 😉
    Luiz Bento, eu não discuto a autoridade de Dawkins como etólogo, nem discordo do ateísmo militante. O que eu achei uma porcaria foi este livro, especificamente. Toda a argumentação de Dawkins é tendenciosa e arrogante (igualzinho aos fundamentalistas bíblicos: “Eu estou certo porque eu sei mais do que você. Se você discordar, é burro e não entende de nada”…)
    Ninguém precisa entender de religião para fazer uma crítica do papel social da mesma. Mas nem aí a argumentação de Dawkins é honesta: ele atribui somente à religião os desmandos dos poderosos que usaram a religião como pretexto.
    Mas, na hora em que ele escarnece de Hoyle, a coisa muda de figura. Hoyle pode ser um maluco, antipático e ranzinza, mas apresentou uma contra-argumentação embasada em fatos. Se a escolha dos fatos e/ou as deduções dele estão erradas, o contra-contra-argumento deve ser igualmente baseado em fatos, não em “argumentos do espantalho”.

  2. Luiz Bento disse:

    Todos temos nossos pontos fracos. Talvez o de Dawkins foi falar sobre um tema que ele não tinha tanto embasamento, como é a religião. Mas entendo que a discussão gerada em torno do seu livro e de outros lançados recentemente é benéfica. Também não acho correto reduzir Dawkins ao seu último livro e muito menos a uma analogia. Concordo com o exercício de contra-argumento, mas não o do menosprezo do todo.

  3. Igor Santos disse:

    JC, você é um oásis.
    Claro, conciso e brilhante. Adoro ler seus originais!

  4. maria disse:

    joão carlos, o teu mau humor é resposta perfeita ao estilo sabichão do dawkins!

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