Biocombustíveis ou bioeletricidade?

Duas notícias do EurekAlert sobre o mesmo artigo, me soaram um tanto estranhas… O artigo, da edição online da Science de 07 de maio (edição impressa de 22 de maio) é assinado pelo professor-assistente Elliot Cambell da Universidade da Califórnia em Merced (press-release aqui), e Chris Field, diretor do Departamento de Ecologia Global Ecology na Instituição Carnegie (press-release aqui), é bem direto na afirmação: Produzir eletricidade a partir da queima de bio­massa é mais econômico e causa menos emissão de poluentes, do que produzir biocombus­tíveis para veículos de motor de combustão interna. Em outras palavras: gerar eletricidade em termoelétricas que queimam biomassa, para abastecer veículos elétricos, é melhor do que pro­duzir biocombustíveis para veículos com motor de combustão interna (leia-se – aliás, eles dizem com todas as letras – etanol).

O cálculo apresentado no estudo (segundo os press-releases) indica que “comparado com o etanol
usado para motores de combustão interna, a bioelectricidade usada para veículos acio­nados por baterias daria, em média, 80% mais quilometragem por hectare de colheita e a metade da emissão de gases de efeito estufa
“. (os grifos são meus)

Field, que também é professor de biologia na Universidade Stanford e membro senior do Ins­tituto Woods para o Ambiente em Stanford, argumenta:

A bioeletricidade sai como clara vencedora na comparação “transporte x quilômetros por hec­tare, indiferentemente de se a energia for produzida a partir de milho ou do capim tipo switchgrass (panicum virgatum). Por exemplo, um pequeno SUV alimentado por bioeletrici­dade pode cobrir perto de 14.000 milhas em estrada com a energia líquida produzida por um acre de switchgrass, enquanto que um veículo comparável com motor de combustão interna só cobriria 9.000 milhas em estrada. (A milhagem médica para cidade e estrada seria de 15.000 milhas para um SUV bioelétrico e 8.000 para um de combustão interna).

“O motor de combustão interna simplesmente não é muito eficiente, especialmente em com­paração com veículos elétricos. Mesmo as melhores tecnologias de produção de etanol com veículos híbridos não são suficientes para superar isso”

É… Pode ser…

O que não fica bem claro nos press-releases é quais veículos foram usados como base de comparação. Os SUV a gasolina são famosos “Pantagruel-da-goela-seca” com um ren­dimento de ruim a ridículo. Colocar um motor a álcool super-dimensionado em um SUV é pe­­dir para ter um enorme consumo de combustível. Se o negócio é queimar álcool à toa, po­diam ter calculado o consumo de um motor de navio (engraçado, né?.. ninguém fala nesses super-poluidores…) E qual é esse “SUV elétrico”?… Os que existem, são protótipos e ficam muito longe do desempenho dos SUV a gasolina, em termos de potência e “esportivida­de”. Será que não foram comparar uma A-10 com um furgão elétrico?…

Outra coisa que não fica nem um pouco clara dos press-releases é o que quer dizer “produ­zir eletricidade a partir de biomassa”? Queimar exatmente o que?… A planta seca e sem qualquer beneficiamento ou o combustível (etanol, novamente…) gerado a partir dessa biomassa?

E, finalmente, como assim “não importa se é switchgrass ou milho”?… Faz toda a dife­rença! Todo o grão que for desviado da produção de alimentos, causa um terrível impacto na economia global (que já não anda lá muito bem das pernas… em parte, graças aos “queri­dos” SUV dos gringos).

Sem brincadeira: parece mais um daqueles estudos patrocinados pela “Coalizão do Clima Global”… “Vamos lançar uma cortina de fumaça para deixar tudo como está”…

Belo exemplo de “Bad Science”!


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Discussão - 4 comentários

  1. Luiz Bento disse:

    Ainda prefiro esperar o artigo. Títulos como esses são bem comuns com assuntos polêmicos. Muitas vezes esse não é o ponto principal e o conteúdo pode ter outro caminho. Não estou defendendo o grupo que fez a pesquisa, só prefiro não jogar pedra enquanto não tenho conhecimento do artigo completo.
    Minha crítica aos biocombustíveis não tem nada relacionado a forma de combustão, então posso falar com mais propriedade 🙂

  2. João Carlos disse:

    E nem que fosse de encomenda… Olha só o título que o ScienceNow botou na chamada para o artigo: Keep Biofuels Out of the Gas Tank.
    Na minha opinião, uma atitude que beira o criminoso…

  3. João Carlos disse:

    Eu até gostaria de esperar, Luiz Bento… O raio é o tom grandioso com que ele está sendo anunciado.
    Eu aposto que, no estudo, não se vai encontrar grandes novidades. Que motores elétricos aproveitam melhor a energia do que motores de combustão interna, até o Lobão sabe.
    Mas o cálculo de “autonomia” dos carros elétricos me parece, no mínimo, wishful thinking. A diferença é que um veículo convencional (para usar um termo mais curto) basta enfiar o combustível no tanque e está pronto para a estrada. Um elétrico não é bem assim…
    Outra coisa que me aborreceu: os maiores emissores de gases são os motores de navios. Só que ficaria ridículo sugerir navios a bateria… Em inglês corrente, isso se chama to beg the question.
    Finalmente, o cultivo “indiscriminado” de lavouras para a produção de biocombustíveis é um problema e dos grandes. Será que o tal estudo aborda essa questão?… duvido muito.

  4. Luiz Bento disse:

    João,
    Não é melhor esperarmos os artigos? Discutir baseado nos press-releases acho um pouco precipitado. Para discutir biocombustíveis temos que contabilizar a emissão total, de todo o ciclo de vida da planta. Na última Science saiu uma nota que o etanol de milho pode ter uma emissão maior de gases estufa por litro consumido do que a gasolina. E o nosso tão falado etanol de cana não fica tão atrás…
    Tirando os interesses de ambas as partes, os biocombustíveis atuais estão bem longe de serem tão mocinhos. Ainda escrevo sobre isso. Aguardemos a próxima geração.

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