Como pegar uma idéia boa e esculhambá-la com politicagem barata

Dia Mundial Sem Carro

Uma iniciativa louvável, né?… Não se você deixar na mão de idiotas que gostam de dar a bunda dos outros barretadas com o chapéu alheio.

Reproduzido da página do G1: (os grifos são meus)

Fiscalização intensa

A fiscalização foi intensa na manhã desta terça-feira (22) no
Centro do Rio, onde o estacionamento foi proibido em algumas
ruas por
causa do Dia Mundial Sem Carro.
Agentes da CET-Rio,
Guarda Municipal e da Secretaria Especial de Ordem Pública
(Seop) começaram cedo o trabalho. Com a proibição, muita gente
optou por deixar o carro em casa
e seguir de ônibus, metrô ou
trem para o Centro. Com isso, o trânsito ficou melhor em
diversos pontos da cidade.

A conclusão do parágrafo é patética: se nem com a remoção de uma porrada de carros, o trânsito melhorasse, estava na hora de demolir o centro da cidade e construir outro. Grande novidade!…

Mas o parágrafo começa traindo nas entrelinhas o verdadeiro móvel: onde se lê “fiscalização intensa”, leia-se “oba! mais umas multinhas!” Porque se fosse para a Prefeitura gastar algo em prol da sociedade, o “entusiasmo” das “otoridades” seria bem outro (meu neto estuda em uma Escola Municipal… preciso dizer mais?…)

Segunda mentira deslavada: ninguém “optou” por deixar o carro em casa; “foi constrangido”, isso sim! E o que diz o Código Penal a respeito?

Constrangimento ilegal

Art. 146 – Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, ou depois de lhe
haver reduzido, por qualquer outro meio, a capacidade de resistência, a não fazer o que
a lei permite, ou a fazer o que ela não manda:

Pena – detenção, de três meses a um ano, ou multa.

Como é que fica esse negócio de “fazer o que ela [a lei] não manda”? No meu entender, a “violência” fica caracterizada com a ação excepcional da fiscalização e a restrição, também excepcional, do número de vagas disponíveis – sem falar da “grave ameaça”… Ou bem há uma legislação que restringe a circulação de carros particulares no centro da cidade (como há em São Paulo), ou não há. No momento em que o poder público se vale de uma “otoridade”, bem ao gosto dos tão xingados governos da ditadura militar, que, de resto, ninguém lhe conferiu, para constranger o cidadão, alguma coisa está podre… Ou há regras nesse jogo, ou não há: o que não pode haver é uma mudança das regras só porque o prefeito quer parecer “preocupado com o meio ambiente” e, a título de “dar o exemplo”, vai demagogicamente para o trabalho de bicicleta, mas, antes, cuida de estar em boa companhia: você também não vai poder ir de carro!

Trânsito e poluição nos centros das grandes cidades são questões sérias e merecem medidas até drásticas.

Não medidas “para inglês ver” e obter espaço na mídia (que deveria, também, ter vergonha na cara e não publicar asneiras).


PS: Me ocorreu que eu posso ser mal entendido por estar sempre defendendo os proprietários de carros particulares. Então, eu quero sugerir um outro cenário.

Ninguém vai discutir que os ônibus contribuem enormemente para a poluição, certo?… E, se juntássemos às restrições de tráfego de carros particulares, uma restrição aos ônibus?… Com uma “fiscalização intensa” em cima daqueles com motor desregulado, pneus carecas, suspensão defeituosa, ou simplesmente em péssimas condições de conservação?…

Será que a população pedestre (e a prefeitura, por falar nisso…) ia topar?…

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Discussão - 12 comentários

  1. João Carlos disse:

    @nelas:
    Ahá!… Então, vamos esmiuçar mais um pouco esse negócio. Para começar, a idéia do Dia Mundial Sem Carros nasceu na Europa e não duvido nada que a data tenha tudo a ver com o início do outono (retorno da estação de férias)… no Hemisfério Norte. Aqui, no Hemisfério Sul, é um dia como tantos outros. Os europeus têm mesmo essa tendência em achar que o mundo é a Europa. Talvez fosse bom os ambientalistas do Hemisfério Sul proporem uma data significativa para o movimento.
    Você chama a atenção para dois pontos muito importantes (em seu último comentário):
    1 – a maior parte da população dos centros urbanos, aqui no Brasil, pelo menos, não usa carros para ir trabalhar, comprar, etc. Muitos, porque nem um carro têm; outros porque os custos para o uso de carros particulares nos centros urbanos já é proibitivo.
    2 – durante as campanhas eleitorais, as promessas são de melhoria na qualidade do transporte público. Durante os mandatos, a prioridade vai para os carros particulares (ou não exatamente particulares, mas carros oficiais e taxis). No Rio de Janeiro, há um exemplo gritante disso (bem no bairro de Laranjeiras, onde moro): o túnel Rebouças não deveria ter acessos a Laranjeiras entre as duas galerias – a decisão de transformar as rampas de serviço em acesso permanente foi tomada pelo então governador do Estado da Guanabara, Negrão de Lima, porque ele morava na Lagoa e queria um acesso rápido ao Palácio das Laranjeiras…
    Bem… Eu não estou exatamente preocupado com os executivos que usam carrões da firma (com um motorista… dirigir no caminho para o trabalho é estressante demais…), mas com o bando de pobres coitados que dependem de seus veículos particulares para o trabalho (me ocorre logo o caso dos moto-boys – e foram eles quem mais teve aporrinhações com os esbirros da CET-RIO).
    Então (para não me alongar demais), é tão ruim nada fazer, como fazer algo “para inglês ver” que não beneficia pessoa alguma, mas prejudica muitas que não têm outra opção. E mais grave ainda é a mídia sair apregoando falsidades e banalidades inócuas, por puro puxa-saquismo para com as “otoridades” e aproveitando para desancar o “vilão” escalado da vez: o motorista.

  2. nelas disse:

    Está com sorte que ainda não apareceu ambientalista por aqui, Luiz.

    Melhor é fazer algo que realmente faça a diferença do que fazer algo apenas por ser “simbólico”.

    Sim, mas isso é óbvio, não? É ingênuo achar que o dia mundial sem carro se resuma querer convencer as pessoas a deixar seu carro na garagem hoje ontem (22/09). Ele simplesmente é uma marca (símbolo, se você preferir) da discussão sobre mobilidade urbana, com foco nas consequências da priorização do transporte individual motorizado. Não é uma campanha, como o xixi no banho ou a hora do planeta que, como você, considero inúteis.
    A idéia não é salvar o mundo proibindo os carros de saírem da garagem em um dia mágico, mas gerar discussão sobre o excesso de veículos nas cidades. Criar massa crítica. Pouco importa o fato de você ter saído de carro ontem ou não. O que importa é ter pensado a respeito, considerado ou mesmo aprendido outras maneiras pra se deslocar. Para que isso ocorra de maneira generalizada o suporte do governo é fundamental. Sem ele a discussão perde a eficácia.
    Entendo que vocês do Rio devem estar se mordendo com alguém que não melhora nada e resolve simbolicamente virar do bem (e acho que esse foi o intuito do post). Eu mesmo fiquei constrangido com o simples anúncio do governo de SP (cidadão saindo de bicicleta e pedalando feliz sobre uma ciclofaixa compartilhada; sendo que não existe nenhuma ciclofaixa compartilhada em SP muito menos projeto cicloviário, mesmo com lei, plano diretor, etc; não movem 1 dedo e lançam propaganda mentirosa). Mas percebam que isso não tem a ver com o motivo de existir o dia sem carro, nem com as ações que são feitas comumente em outras cidades do mundo.
    O governo de SP fez justamente o que vocês estão criticando. Resumiu a história toda em pedir timidamente pra população sair sem carro, sem contexto, sem discussão, sem nada. Aí não tem jeito, fica fadado ao fracasso. Todas as iniciativas, que não estão restritas a um único dia, partiram de organizações civis que estão envolvidas com o tema e que fazem alguma diferença no debate e cobrança por melhorias durante o resto do ano. Enquanto isso, ao invés de priorizar a construção de corredores de ônibus e ampliar o metrô, o governo, por exemplo, constrói pontes exclusivas para carros (não pode ônibus, nem pedestre, nem ciclista).

    Então 70% da população de SP vive a vida inteira sem carro e não apenas 1 dia.

    Bom, segundo a pesquisa Origem-Destino 2007 do Metrô de SP (feita de 10 em 10 anos) 50% das famílias possuem carro particular. Acho que o que você viu se refere às viagens diárias, onde ~30% são feitas por modo individual (o resto é transporte coletivo, a pé e bicicleta, nessa ordem). De qualquer modo, essa minoria é a principal responsável pela lentidão e sobrecarga (i.e. lotação) das viagens de ônibus, por exemplo, na hora do rush. Diminuir o número de carros faz com que mais ônibus passem recolhendo passageiros numa frequência maior e, assim, evitando a lotação. O dobro de ônibus provavelmente não vai melhorar a qualidade da viagem na hora do rush, em ruas sem corredores; eles continuarão presos entre carros com 1 pessoa dentro. Mas isso já é senso comum, não??
    Transporte público flexível, rápido e confiável é a solução. Contudo não dá pra esperar a utopia se concretizar para deixar o carro de lado, pelo menos para algumas coisas. Por isso, acho no mínimo interessante que existam maneiras criativas de levantar essa discussão.

  3. Somel Serip disse:

    João Carlos , olá !
    Foi ridícula , a imagem de um “vagxxxxxx” “babxxx” andando de bicicleta , sem qualquer maior preocupação com suas responsabilidades na Prefeitura ! Pois é , num País que fica sendo presidido por um vice internado , na UTI em coma induzido , o Prefeito do Rio tem acha no direito de curtir um ventinho na sua cara-de-pau ! É pura politicagem barata , mesmo !
    Outra é limitar à 30 Km/h , a velocidade dos veículos em Copacabana ! Assim , até as bikes vão ser mais velozes !
    No fundo , o objetivo desta imposição é permitir que o policiamento possa perseguir os criminosos no trânsito ou , no mínimo é aumentar a arrecadação com as multas por “excesso” de velocidade !
    Abraços à todos !
    Somel Serip .

  4. Viscondi disse:

    Temos a solução para os problemas, mas não temos como pô-la em prática?
    Os assessores dos vereadores e senadores que nós [o povo] elegemos jogar cartas e emails com sugestões no lixo sem ler?
    Falta profissional competente para executar ordens, ou verbas para isso?

  5. Luiz Bento disse:

    @nelas
    “Politicagem ou não é um dia simbólico, melhor fazer algo do que deixar passar em branco”
    O tempo passa, o tempo voa. E o argumento não muda. Segundo os ambientalistas é sempre melhor fazer xixi no banho, mesmo não ajudando em nada no total de gasto de água (efetivo). Sempre é melhor apagar a luz da varanda por 1 dia, mesmo não diminuindo em nada o consumo de energia elétrica. Sempre é assim. “Melhor fazer algo do que não fazer nada!”. Não. Melhor é fazer algo que realmente faça a diferença do que fazer algo apenas por ser “simbólico”.
    Concordo com o João em gênero, número e grau. Ele fez o post que eu gostaria de ter feito hoje, mas que tive preguiça de fazer e de responder comentários de ambientalistas. Fica registrado aqui o meu descontentamento com mais um dia em que os ambientalistas acham que vão salvar o planeta, mas não vão salvar nem o seu prédio.
    Ano que vem vou de bicicleta para o trabalho, pegando a linha vermelha e depois a linha amarela aqui no Rio. Área chamada pelos locais de “Faixa de Gaza”. Espero chegar no trabalho inteiro.
    Só mais uma coisa. Achei na internet um número interessante (mas sem fonte confiável) em uma entrevista com o Secretário de Meio Ambiente de SP. Apenas 30% das pessoas em São Paulo têm carro. Então 70% da população de SP vive a vida inteira sem carro e não apenas 1 dia. Elas não querem andar de bicicleta. Elas querem transporte público de qualidade. Ou senão vão investir o seu suado dinheiro para comprar um Uno Mille em 96 vezes com juros.
    Link para a reportagem:

  6. nelas disse:

    Não acho que seja proibir por proibir, o motivo é bem claro. E a prefeitura do Rio, pelo que entendi, colocou mil ônibus a mais em circulação, diminui o limite de velocidade de ruas e disponibilizou 100% da frota de trens. Além da proibição que você postou.
    O que isso ajuda efetivamente nos outros dias? Como você colocou, nada (não é uma norma efetiva e tal). Mas pelo menos “algo” aconteceu, alguém deve ter parado pra pensar, alguém deve ter deixado o carro em casa. Migalhas, mas melhor do que nada. Em SP só fizeram uma propagandinha na TV, mais nada. Nem migalhas vamos ganhar…

  7. João Carlos disse:

    Nelas, proibir só por proibir, para criar um “factóide” (tão ao gosto do prefeito anterior – e de má memória) é constrangimento ilegal, sim. Como eu disse, ou há uma norma, ou não há.
    Se é para banir definitivamente a circulação de carros particulares pelo centro do Rio (há! há!… ver para crer…) que isso seja feito. Mas é a velha desculpa: “é só um dia…” Ou seja: não resolve nada, mas fica parecendo que algo foi feito.
    Você mesmo sugeriu algo muito mais defensável: aumentar a frota de coletivos, mesmo que seja por um único dia. Fora outras providências, tais como escalonar os horários de funcionamento das repartições públicas (com o consequente escalonamento dos horários das firmas que lidam com essas repartições), incentivar (com dinheiro, mesmo) o uso das ciclovias e sei-lá-mais-o-que…
    E eu não sugeri restringir o trânsito dos ônibus. Apenas sugeri uma “fiscalização rigorosa” sobre os coletivos, para diminuir a poluição e os riscos de acidentes.
    Mas enfim….

  8. João Carlos disse:

    Igor, eu acredito que a idéia do “Dia Mundial Sem Carros” seja fazer com que pessoas se animem a tentar deixar seus carros em casa e usarem o transporte coletivo – e ver que não morreram por causa disso (algo que seria surpreendente para um americano… não para um brasileiro).
    Eu fico me perguntando se – em paralelo com “sacanear os vilões de sempre” (leia-se: os proprietários de automóveis) – houve alguma iniciativa para melhorar o transporte público… A julgar pela enorme lambança que estão fazendo, a título de “regulamentar o transporte alternativo”, procurando mascarar o fato de que as “vans”-piratas só existem porque há demanda para elas, não…
    Mas as contibuições para as campanhas políticas vêm do mesmo lugar que os anúncios da grande mídia… e a Fetranspor no Rio, manda…

  9. nelas disse:

    Opa, discordo.
    Você acha que proibir vagas de estacionamento de carros particulares (por um dia) nas ruas públicas é um constragimento ilegal?
    Ninguém foi obrigado a deixar o carro em casa, é só ir de carro e parar em outro lugar.
    Mesmo que 70% dos deslocamentos não sejam feitos de carro, o espaço público dá total prioridade aos automóveis. E o excesso de veículos é um problema (grave) de todos, vide poluição e trânsito. Politicagem ou não é um dia simbólico, melhor fazer algo do que deixar passar em branco, como em São Paulo onde o governo não mexeu um dedo (e.g., colocar ônibus extras nas ruas). Infelizmente sabemos que no restante dos dias o esforço para promover um transporte mais eficiente é quase nulo…
    Ônibus polui também, mas não chega nem perto da poluição da frota de veículos particulares (é claro que todos os motorizados deveriam estar regulados e afins). Além disso, 1 ônibus pode levar 50 pesssoas, 1 carro leva na média 1 pessoa. Restringir a circulação de ônibus é um contra-senso.
    Infelizmente, o carro é o “príncipe da cidade” e seus “direitos” se sobrepõem ao das pessoas. Mas enfim…
    Abs!

  10. João Carlos disse:

    Concordo em gênero, número e grau, Paula! Mas esse incentivo tem que ser uma política permanente e séria. Até mesmo a face menos simpática de criar restrições.
    Mas causar incômodo porque é “dia disso ou daquilo” é greenwashing da pior qualidade!

  11. Igor Santos disse:

    Não leio como “defender proprietários de veículos”, mas como “defender o direito alheio”.
    Esse Dia Mundial Sem Carro nem é boa idéia ao meu ver, pois além de ser apenas uma sugestão é apenas um dia.
    Melhor que isso, puxando da sua ideia, seria o Mês Mundial da Revisão Automotiva e Conscientização dos Motoristas e Pedestres.

  12. Paula disse:

    O que eu entendo sobre isso: que ninguém pode proibir ninguém de sair de casa de carro hoje. É uma escolha pessoal deixar o carro em casa. O que se pode fazer é incentivar que as pessoas façam adesão à campanha, disponibilizando mais transporte público e liberando faixa para ciclistas (e assegurando que elas sejam seguras) por exemplo.
    Agora… que ônibus e carros, públicos ou particulares deveriam ser proibidos de rodar problemas de motor, pneus ou mau conservados é um fato. Não só um fato. É um caso de polícia.

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