Você vai doar sangue? Lembre-se que ele pode ir para um hospital religioso…

Eu andava afastadoda blogsfera, andando às turras com Declarações de Imposto de Renda, mas tive que sair de meu esconderijo…

O motivo foi ter recebido através do Google Reader não uma, mas duas recomendações para a matéria intitulada “Você doaria brinquedos aos nazistas?“, publicada no Liberal, Libertário, Libertino. (Se você ainda não leu, siga o link e leia, antes de prosseguir aqui.)

Não dá para acreditar que gente bem pensante consiga se atolar tanto em um maniqueísmo barato que comece a misturar tanto as frequências… Lamentável!… Se há alguma coisa que se salva nas igrejas, é justamente o trabalho assistencialista. Concedo que esse trabalho vem conspurcado de propaganda, como, aliás, qualquer trabalho assistencialista. Isso inclui até os Médicos Sem Fronteiras e outras organizações menos famosas e não-religiosas. É inevitável que as opiniões pessoais dos agentes acabem sendo transmitidas aos assistidos. (Pausa: seria até uma boa idéia se os ateus militantes, em lugar de pagar anúncios provocativos em ônibus urbanos, empregassem esse dinheiro para obras assistencias ateístas…)

A pergunta que eu faço no título desse post é apenas uma extensão da falácia do post comentado.

As bolsas de sangue colhidas nos Institutos de Hematologia são distribuídos aos hospitais que delas precisam: sejam religiosos ou não… E aí?… Vou exigir uma declaração do Posto de Coleta de que o meu sangue não vai ser usado por ateus, flamenguistas, nazistas, ou por alguém que votou no PMDB?… A preocupação de “não botar azeitona na empada do rival” vai falar mais alto do que a solidariedade?…

Por falar em “solidariedade”, que mancada a “solidarização” com a atitude tacanha dos jogadores “evangélicos” do Santos FC que se recusaram a descer do ônibus porque era um Centro Espírita!… É uma “solidariedade” mal colocada como essa que, por exemplo, leva alguém que não concorda com o que o Estado de Israel está fazendo com os palestinos, a apoiar os nazistas “porque são anti-sionistas”… Ridículo!

Um ditado britânico diz: “quando for jogar a água suja da banheira fora, lembre-se de não jogar junto o bebe”… Foi exatamente o que o artigo em apreço fez.

Enfim, sabem por que o “ateísmo militante” me aborrece?… Porque, cada vez mais, está assumindo os modos de quem ele critica: os radicais religiosos.

Com toda a sinceridade, isso se chama “perder uma excelente oportunidade de ficar calado”…

 


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Discussão - 9 comentários

  1. João Carlos disse:

    Bem, Alexandre… Você diz que eu não entendi NADA do seu texto. Entendi pelo menos a parte que você argumenta que, ao contribuir com uma obra assistencial de uma organização qualquer, você está TAMBÉM ajudando a propagar a ideologia por trás dessa organização.
    Isso, eu dou de barato.
    O que eu absolutamente não concordei foi, primeiro, com seu exemplo extremo de buscar uma organização nazista (e equacionar a Igreja Católica ao NSDAP… A ICAR reúne desde os Ratzinger da vida, até os Boff e Helder Câmara). Segundo, com o corolário implícito de que é melhor não cooperar com quem não concordamos, e aí não há como fugir de entrar no mérito de QUEM está sendo ajudado. Isso não é de modo algum “irrelevante”. Em terceiro, sua argumentação sobre o caso específico dos jogadores do Santos FC. A atitude deles é CONDENÁVEL até mesmo pela óptica da religião que eles declaram professar.
    Note, entretanto, que não fui só eu que “não entendeu NADA do texto”… Isso eu observo dos comentários em seu blog e aqui no meu.

  2. alex castro disse:

    Opa, perdão, mas o texto com que vc está dialogando não é o meu.
    Eu jamais disse que deveriamos “olha a quem” antes de ajudar. Jamais disse, por exemplo, que um ateu nao deveria ajudar criancinhas catolicas. Alias, o meu texto NUNCA entra no mérito de QUEM está sendo ajudado. Isso é totalmente irrelevante pro meu argumento.
    Claro que devemos ajudar quem precisa, independente de raça, cor, credo ou religião. O seu exemplo do sangue simplesmente não tem nada a ver com nenhum dos meus pontos e prova que vc não entendeu NADA do texto.
    TODO o meu texto fala sobre quem ORGANIZA a ação, não quem recebe os benefícios, e que eu me recuso a participar de ações organizadas por instituições que abomino, justamente para não ajudá-las em seus objetivos políticos – e NAO TEM NADA A VER com quem é ajudado por essa ação. Eu já cansei de ajudar brancos e negros, católicos e espiritas, mas como particular, não como parte de um mutirão de igreja.
    E, mais, o texto não tem como objetivo convencer ninguém. Se vc é ateu e quer ajudar no bingo beneficente da igreja do seu bairro e se isso não te incomoda, vai fundo, ué! O que é que EU tenho a ver com isso??
    Mas, em suma, só o TITULO desse seu post já mostra uma dissonancia cognitiva enorme. Você não entendeu NADA do que escrevi e está, na prática, discutindo com um texto que só existe na sua cabeça, não com o meu.
    Abraços,
    Alex

  3. João Carlos disse:

    O grande problema com a atitude dos jogadores é por que eles não concordavam com a parada,
    Se fosse uma parada da Diocese de Santos, eles iam quietinhos, de bico calado… Mas para a maioria dos “crentes”, Centro Espírita é sinônimo de “coisa do demo”… Mal sabem eles que os Kardecistas são cristãos (e, em minha opinião, até enjoativamente cristãos),
    Agora, uma pessoa que despreza igualmente todo e qualquer tipo de religião, devia ter, pelo menos, se eximido de dar opiniões sobre algo que não conhece e faz questão de não conhecer.
    Volto a dizer: perdeu uma excelente ocasião de ficar calado.

  4. Larangeira disse:

    Ler uma barbaridade dessas tão cedo só estraga meu dia, é ver este tipo de pensamento que me faz dizer que eu não sigo religião alguma a admitir que sou ateu. Por que ajudar aqueles poucos que eu posso se isso vai beneficiar causas que eu não concordo? Mais facil deixar esses necessitados se ferrarem a fazer o que é mais correto como ser humano e deixar meu “desafetos” ganharem os creditos. Eu não consigo nem argumentar com uma pessoa que consegue ter uma visão tão estreita assim.
    Relmente é impressionante como é facil se tornar igual aquilo que somos contra.
    E como bem dito pelo Igor, infelizmente “fazer o bem sem olhar a quem”, não vale mais nada mesmo, independente de crenças hj em dia.

  5. rodrigot disse:

    Acho que tentaram usar os jogadores para promover uma parada q os mesmos não concordavam.
    Qq um ficaria puto e com razão se fosse consigo independente dos argumentos em torno (salvar baleias, crianças ou o mundo).
    E no meu entender foi isso q o Alex defendeu. Livre-arbítrio não é militância.
    Na lei de Goodwin a proposta aos jogadores foi: “Oi, você que é celebridade e qq espirro seu sai em capa de jornal, vêm aqui tirar uma fotinha dentro da minha convenção neo-nazista”

  6. Igor Santos disse:

    Assim como doar roupa rasgada e comida azeda não é caridade, também não o é quando o doador cria restrições às opções ideológicas do ajudado.
    Hoje em dia não basta doar e se sentir bem com isso. Faz-se necessário propagandear o feito para que a opinião alheia o faça se sentir bem. Parece que não existem mais pessoas “boas de coração”, só “boas de sociedade”.
    Eu acho esse tipo de pensamento tacanho de uma mesquinhez nojenta.
    Lendo o texto do LLL eu pensei “por que doar para os Médicos Sem Fronteiras? Por que não cortar o intermediário e doar o mesmo montante para uma família pobre que more ao lado da sua casa?”
    Mas esse tipo de doação não tem recibo. Especialmente para um ateu.
    Vergonhoso.

  7. Raph4 disse:

    Concordo fortemente, João.
    Sim, as igrejas, os partidos políticos e toda e qualquer instituição que fizer alguma ação recebe publicidade, explícita ou implicitamente, mesmo que sem intenção.
    A questão é, vamos deixar de fazer o bem quando for possível – e olha que as oportunidades são raras para a maioria – por motivos completamente “birrentos”?
    Okay, ajuda a igreja, ajuda o DEM, etc.. mas se estão fazendo uma campanha do agasalho na frente da minha casa e estou cheio de roupas para doação, vou olhar de quem é e preferir jogar no lixo? Sou agnóstico, quase ateu, mas não consigo conceber um negócio desses.
    Como muito bem dito, uma das poucas coisas que se salvam nas igrejas é a filantropia.
    E sim, eu também achei lamentável a postura dos “crentes” do Santos FC.
    Belo artigo. Abs!

  8. João Carlos disse:

    Infelizmente, parece que sim, Igor… O saudável argumento de “não precisa ser religioso para ser uma boa pessoa” fica muito comprometido com esse tipo de raciocínio falacioso.

  9. Igor Santos disse:

    “Fazer o bem sem olhar a quem” é só uma rima rica hoje em dia.

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