Os Reis Magos eram cientistas?… Hmmm…

Hoje eu vou dar uma de “Dan Brown dos Pobres”. E a motivação não poderia ser mais esdrúxula: a afirmação do Papa Bento que (eles) “eram homens de ciência em um sentido amplo” (segundo a notícia do portal G-1).

Isso me lembrou uma antiga ideia que eu tive para um sci-fi (de quinta) que acabou nunca saindo do domínio do “um-dia-eu-escrevo”.

O cerne da ideia é o seguinte “poderia-ser” (Asimov dizia que um bom sci-fi deve conter apenas um “poderia-ser” e o resto tinha que ser historica e cientificamente plausível): os “antigos” realmente tinham grandes conhecimentos científicos, disfarçados de “religião” para não cairem nas mãos da plebe e dos politiqueiros governantes.

Ah!… Sim… Um pressuposto é que as narrativas da época de Jesus tenham sido distorcidas pela ignorância e o fanatismo “milagreiro”, notadamente na Idade Média, e coisas corriqueiras tenham sido tomadas ao pé da letra, causando grandes confusões na exegese.

Chega de preâmbulos.

A ideia é que os sacerdotes Judaicos, não só tinham conhecimentos (um tanto rudimentares) de engenharia genética, como usaram isso para criar um “Messias”. Infelizmente (para eles), o plano “vazou”… Começou a vazar quando alguns membros da elite sacerdotal – impacientes com o andamento dos estudos e experimentos – começaram a “profetizar” a vinda do  Messias. Um pouco parecido com certos press-releases das academias atuais que, com base em uma experiência bem sucedida em laboratório, anunciam uma revolução tecnológica.

Bom… Uma coisa que até hoje é assim: a ciência ignora solenemente as fronteiras. Supondo que as elites sacerdotais tivessem mesmo conhecimentos “ocultos” de ciência, essa “ciência” jamais estaria restrita à Judéia. Portanto, não seria em nada espantoso que, uma vez publicado o “vellum” (naquele tempo os papers eram bem mais raros…), uma comissão de notáveis estrangeiros viesse fazer uma peer-revision. Entram em cena Gaspar, Melchior e Baltazar que vêm dos confins da Terra (pelo menos segundo a visão bairrista e limitada do povo judaico – no que são seguidos até hoje pelos habitantes dos países que se tornam Mecas científicas: um gari de Cambridge, Massachusetts, pode se achar superior a um colega seu de outra cidade porque varre as ruas do MIT).

Essas suposições “explicam” diversas passagens do Novo Testamento que jamais me convenceram. A primeira é a embaraçosa dupla-árvore-genealógica de Jesus. Não só os Evangelistas discordam na linhagem de Davi até Jesus, como discordam até no número de gerações. E ambas as linhagens levam a José que, segundo os dogmas católicos, não tinha nada a ver com o peixe… A segunda é a (ridícula) “virgindade” de Maria (tá bem!… eu sei que é um erro de tradução!… mas deixe eu delirar…): inseminação artificial!  O processo de manutenção do esperma “perdeu-se, junto com a Biblioteca de Alexandria” (a desculpa favorita…) Mas, pelo menos, tira José da incômoda posição de “Anfitrião” (essa eu vou deixar para vocês procurarem…)

Já existem especulações de que o “ouro, incenso e mirra” que teriam sido ofertados pelos Reis Magos (uma corruptela de “reitor” ou título semelhante…), fossem, na verdade, medicamentos cuja aparência e fragrância causou a confusão nos registros.

Só que os Reis Magos – decerto acostumados a confiarem nos governos de seus locais de origem – cairam na asneira de confiar em Herodes e até de revelar a ele as linhas gerais do experimento, o que teve duas consequências: uma foi o episódio conhecido como “a matança dos inocentes”; outra foi uma mobilização sem par dos conspiradores para fazer a Sagrada Família escapar da Judéia. Eu nunca consegui entender como uma família, descrita como ‘pobre”, conseguiu cruzar o deserto, escapando das patrulhas, e chegar… ora, ora!… ao Egito!…

E essa estadia (longa, concedam…) no Egito não consta de relato evangélico algum… o que dá margem a toda sorte de especulação sobre a educação de Emanuel Bar Josef… Mas, curiosamente, a próxima passagem lembrada dá conta de que o menino foi, certa feita, encontrado por sua preocupada mãe (“onde será que esse menino foi se meter?”…) discutindo teologia com os “Doutores” do Templo. Unmöglich, não é?… Altos Sacerdotes discutindo a Torá com um moleque?… Só se eles soubessem que tinham que ensinar àquele menino.

O resto já foi exaustivamente debatido: como a “criatura” escapou ao controle dos “criadores” e, em lugar de liderar a rebelião libertadora contra os romanos, passou a contestar a elite Sacerdotal; como a elite sacerdotal acabou por se aliar aos opressores para se livrar daquele “subversivo” que ensinava que era melhor orar às escondidas do que oferecer sacrifícios no Templo (tratando de maneira extremamente rude os bons comerciantes que tanto$ $acrifício$ faziam pela administração do Templo), como ele foi preso, torturado (a troco de que, ninguém sabe…) e executado, mas, após dado (oficialmente) como morto, reapareceu e sumiu novamente, sem dar maiores satisfações.

Talvez o Papa esteja correto: os “Reis Magos” talvez fossem mesmo cientistas da época. E – quem sabe?… – a “fé” deles fosse a mesma que a dos atuais cientistas: foram in loco apreciar o experimento…

Se isso for verdade e for do conhecimento (como dizem que é…) dos “Guardiões dos Segredos do Vaticano”, estes devem estar comentando: “Esse Papa Bento!… Mas, será o Benedito?…”


(Pronto! Se o Dan Brown vier com uma estória parecida, eu já posso acusar de plágio!…)

“Por dentro da ciência” do Instituto Americano de Física (12/02/09)

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12 de fevereiro de 2009

200 Anos de Darwin: A Luta Contra a Evolução Continua

Por Jim Dawson
ISNS

Hoje (12/02) é 200º aniversário do nascimento do biólogo evolucionista Charles Darwin, cujo livro, publicado em 1859, “Da Origem das Espécie” mudou profundamente a natureza da ciência biológica e nossa compreensão sobre de onde viemos e quem somos. A Teoria da Evolução de Darwin, reforçada pela atual pesquisa genética, é tida por virtualmente todos os biólogos como o princípio básico, ou “conceito central”, da moderna biologia.

No entanto — fundamental como é para a ciência moderna — a evolução permanece sob ataque organizado e difundido por parte de grupos religiosos e outros que insistem em tentar diminuir sua importância no ensino de ciências nas escolas públicas dos Estados Unidos.

A guerra contra a evolução é focalizada nos conselhos estaduais de educação e alguns dos 15.000 distritos escolares dos EUA. O esforço para fazer cessar o ensino daquilo que Darwin dscobriu quando estudou a estranha mistura de espécies nas Ilhas Galápagos em 1835, começou com toda a força no “Julgamento dos Macacos” (“Scopes Monkey Trial”) em 1926.

O resultado do julgamento foi a primeira e última vitória dos criacionistas.  “Nós perdemos o caso Scopes, mas, desde então, não perdemos uma”, declarou Glenn Branch, subdiretor do Centro Nacional para Educação em Ciências (National Center for Science Education = NCSE) em Oakland, Califórnia. O centro que descreve sua missão como “defender o ensino da evolução nas escolas públicas”, monitora os esforços dos anti-evolucionistas para inserir alguma forma de criacionismo nos padrões de ciências para as escolas públicas e nos livros-texto de biologia.

A grande  preocupação atual do NCSE e outros que defendem o ensino da evolução nas aulas de ciências, é uma lei, aprovada no verão passado pelo legislativo do Estado de Louisiana, chamado de “Lei de Educação em Ciências da Louisiana” (Louisiana Science Education Act).  A lei cujo propósito ostensivo é apoiar a liberdade acadêmica, permite aos professores utilizar “material suplementar” quando forem ensinar “evolução biológica, as origens químicas da vida, aquecimento global e clonagem de seres humanos”.

“Essa lei foi criada por conservadores com o auxílio do Instituto Discovery Institute”, declarou Barbara Forrest, professora de filosofia na Universidade Estadual do Sudeste da Louisiana, em Hammond,.  (O Instituto Discovery, com base em Seattle, Estado de Washington, tem estado na vanguarda do movimento anti-evolucionista desde sua fundação em 1990).  Forrest, que lidera a luta contra os esforços para incluir o material criacionista nas aulas de ciencias, explica que o governador sancionou a lei e os que tentam defender o ensino científico da evolução estão “perdendo a cada rodada” no estado.

“Nesta semana a linha de ataque é contra os padrões de ensino de ciências usados pelas escolas do estado”, diz ela. “Eu acredito que os livros-texto de biologia sejam o alvo do ano que vem. Eles (os anti-evolucionistas) estão estendendo seus tentáculos por todas as partes”. Organizações científicas no estado, assim como cientistas de várias universidades da Louisiana, estão finalmente ficando alarmados, diz ela, “e eu estou recebendo ofertas de assistência”.

Mas existe pouco que Forrest ou o NCSE possam fazer, a menos que um pai em um dos distritos escolares registre uma queixa contra o que está sendo ensinado. “A carga de fazer alguma coisa recai sobre os pais”, diz ela, mas a legislação também tornou o processo de registrar uma queixa difícil e demorado.

Embora a Louisiana esteja atraindo a maior parte da atenção no momento, as tentativas sempre mais elaboradas dos criacionistas para intrometer suas idéias nos currículos de ciências, continuam em diversos legislativos e conselhos de educação em vários outros estados:

  • No Mississippi, uma lei que teria determinado que o conselho de educação exigisse que todo livro texto que discutisse a evolução, incluísse uma ressalva que descrevesse a evolução como uma “teoria controversa”, foi rejeitada em uma Comissão. A ressalva, que teria a forma de um adesivo colado aos livros, seria similar àquela atualmente obrigatória no Alabama. Embora a lei do Mississippi tenha sido rejeitada, sua autor, Gary Chism, declarou que ele pensa em apresentar novo projeto no ano que vem. “Ou você acredita na história do Gênesis, ou você acredita que um peixe andou para a terra”, ele declarou.
  • Um projeto de lei, apresentado em 3 de fevereiro na Câmara de Deputados de Iowa, intitulado de “Lei da Liberdade Acadêmica sobre a Evolução” (“Evolution Academic Freedom Act”), permitiria que os professores apresentassem “um completo espectro de pontos de vista cinetíficos” quando fossem ensinar a evolução. Apesar de parecer inócuo, esses “pontos de vista científicos” incluem o “intelligent design”, que aponta de maneira bem anti-científica para um criador sobrenatural.
  • Um projeto de lei similar sobre “liberdade acadêmica” foi apresentado no legislativo do Alabama em 3 de fevereiro, com a intenção de minar o ensino da evolução, de acordo com o NCSE.
  • No Novo México foi apresentado recentemente um projeto de lei que exige que as escolas permitam aos professores informar aos estudantes “acerca de informações científicas relevantes com respeito à solidez científica ou às fraquezas científicas a respeito da evolução biológica ou evolução química”. Segundo Branch do NCSE, essa discussão sobre “solidez e fraquezas”, assim como a “liberdade acadêmica”, nas leis propostas pelos anti-evolucionistas, são fórmulas casuísticas para criar leis que não mencionem “Deus” ou “Religião” e, assim, possam sobreviver ao questionamento no judiciário.
  • No Texas uma votação recente no Conselho Estadual de Educação aprovou uma revisão dos padrões de ensino de ciências estaduais que removeu o dispositivo que falava da “solidez e fraquezas”, introduzido pelos criacionistas nos padrões. Enquanto o jornal Dallas Morning News descreveu como “uma grande derrota para os conservadores”, o Conselho não adotou o que o NCSE descreve como “revisões cientificamente indefensáveis” para outros padrões para o ensino de ciências.

Branch se delarou encorajado pela declaração do Presidente Barack Obama, durante a campanha presidencial, de que: “Eu penso que é um erro tentar obnubliar o ensino de ciências com teorias que — francamente — não se mantém frente a uma análise científica”.

“O governo federal não está diretamente envolvido nisto porque é uma tarefa atribuída aos estados e aos conselhos de educação”, exlica Branch. “Porém [Obama] pode estabelecer o tom, usando de seu púpito agressivamente”.

Nota de pé de página: O Julgamento Scopes e Além

John Scopes, um professor de ciências da escola secundária no Tennessee, foi acusado, em 1926, de ensinar o evolucionismo, em violação à Lei Butler, que declarava ilegal “ensinar qualquer teoria que negue a estória da Criação Divina do homem, tal como ensinada na Bíblia, e ensinar, em lugar disso, que o homem descende de uma forma inferior de animais”.

Depos de oito dias de debates entre o promotor Williams Jennings Bryant e o advogado de defesa Clarence Darrow, o juri deliberou por apenas nove minutos, até decidir que Scopes era culpado. O tribunal o multou em US$ 100. O julgamento foi retratado em uma peça,“ Inherit the Wind” (“Herdará o vento”), em 1955 e, cinco anos depois, um filme com o mesmo título recebeu quatro indicações para o Oscar.

Os ataques de hoje em dia vêm ostensivamente de grupos religiosos tais como o “Respostas no Gênesis” (com base no Kentucky) e organizações quse-científicas, tais como o Instituto Discovery em Seattle, Washington.  A preocupação fundamental das organizaçõesanti-evolucionismo é que o ensino da evolução nas escolas mine a autoridade do criacionismo bíblico.


Este texto é fornecido para a media pelo Inside Science News Service, que é apoiado pelo Instituto Americano de Física (American Institute of Physics), uma editora sem fins lucrativos de periódicos de ciência. Contatos: Jim Dawson, editor de notícias, em [email protected].

“Depressão” e “religião”

Também via EurekAlert:
Temple University

A “espiritualidade” é uma proteção melhor contra a depressão do que “ir à Igreja”

Aqueles que cultuam um “poder maior” freqüentemente o fazem de diversas maneiras. Existe uma diferença entre ser um membro ativo de uma comunidade religiosa, ou preferir apenas orar ou meditar, e uma nova pesquisa da Universidade Temple sugere que a religiosidade de uma pessoa pode dar indícios sobre os riscos dessa pessoa entrar em depressão.

A pesquisadora-chefe Joanna Maselko, Sc.D., caracterizou as religiosidade dos 918 participantes do estudo em termos de três domínios de religiosidade: participação em serviços religiosos, que se refere a estar envolvido com uma Igreja; bem-estar religioso, que se refere à qualidade do relacionamento da pessoa com esse “poder superior”; e bem-estar existencial, que se refere à sensação pessoal de ter um significado e um propósito na vida.

Em um estudo publicado on-line neste mês em Psychological Medicine, Maselko e seus colegas pesquisadores compararam cada domínio da religiosidade a seus riscos de depressão, e ficaram surpresos em descobrir que que os grupos com altos níveis de bem-estar religioso apresentavam 1,5 vezes mais riscos de apresentar depressão do que aqueles que se diziam com menos bem-estar religioso.

Maselko teoriza que isso se deve ao fato de pessoas com depressão tenderem a usar a religião como mecanismo de “ajuda”. Como resultado, elas se relacionam mais com Deus e rezam mais.

Os pesquisadores também descobriram que aqueles que freqüentam serviços religiosos tinham um risco 30% maior de passar por depressões durante suas vidas, e que aqueles que tinham altos níveis de bem-estar existencial tinham menos 70% de chance de entrarem em depressão do que os que tinham baixos níveis neste quesito.

Maselko diz que o envolvimento com uma Igreja fornece a oportunidade para a interação comunitária, o que pode ajudar a criar laços com outras pessoas, um fator importante na prevenção da depressão. Ela acrescentou que aqueles com maiores níveis de bem-estar existencial têm uma forte noção de seu lugar neste mundo.

“Pessoas com altos níveis de bem-estar existencial tendem a ter bases sólidas o que os torna emocionalmente bem centrados”, argumenta Maselko. “Pessoas que não têm essas coisas, correm um risco maior de depressão e essas mesmas pessoas podem se voltar para a religião como um meio de ajuda”.

Maselko admite que os pesquisadores ainda têm que estabelecer o que vem primeiro: a depressão ou a religiosidade, porém está, correntemente, investigando o histórico de vida dessas pessoas para descobrir a resposta.

“Para médicos, psiquiatras e psicólogos, é difícil desemaranhar esses elementos quando se está tratando de distúrbios mentais”, disse ela. “Não se pode apenas perguntar a um paciente se ele ia à Igreja, para medir seu grau de religiosidade e comportamentos de busca de ajuda. Existem outros componentes a considerar quando se trata pacientes e essa é uma informação importante para os terapeutas”.

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Os outros autores do estudo são Stephen Gilman, Sc.D., e Stephen Buka, Sc.D., do Departamento de Saúde Pública da Universidade Harvard e da Escola de Medicina da Universidade Brown. A pesquisa foi patrocinada por verbas dos Institutos Nacionais de Saúde Mental e pelo Prêmio Jack Shand da Sociedade para o Estudo Científico da Religião.

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Comentário do tradutor: pessoas “bem resolvidas” são menos passíveis de cair em depressão?… Isso eu podia dizer de graça…

E eu bem gostaria de saber que instrumentos de medição foram usados na aferição de conceitos tais como “bem-estar religioso” (se é que isso quer dizer alguma coisa, além de: “você está em dia com seu dízimo, cara?…”)

Também gostaria de saber quais as “religiões” que os participantes dessa pesquisa professam, porque existe uma enorme diferença entre o “relacionamento com Deus” de um Buddhista (uma religião que não tem um “Deus”) e um “fundamentalista” bíblico ou islâmico… Ou uma bruxa Wiccan…

E – apenas para criar um “grupo de controle” – por que não foram acompanhados alguns ateus, também?… Eu acredito que conheço um monte de ateus com altíssimos níveis de “bem-estar existencial”.

Ah!… Sim, eu ia me esquecendo: o título do artigo fala que “espiritualidade é mais eficaz do que ‘ir à Igreja’ (no original: Spirituality protects against depression better than church attendance). De onde se infere isso no texto?

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Darwin e Deus…

Interessante esta matéria do Times: “Deus, Evolução e Charles Darwin”. Vá lá que o autor, Nick Spencer, não é nenhum cético militante — exatamente o contrário… E que uma das primeiras coisas que ele concede é que Darwin perdeu sua fé religiosa. Mas as 10 citações de Darwin que ele apresenta, são matéria para reflexão e, como o autor diz, dificilmente seriam ouvidas da boca de um ateu militante ou de um criacionista:
1. “O mistério do começo de todas as coisas é insolúvel para nós; e eu mesmo devo me contentar em permanecer um Agnóstico”, (Autobiografia)
2. “Me parece um absurdo duvidar que uma pessoa possa ser um ardente Teísta e um Evolucionista”. (Carta a John Fordyce, 7 de maio de 1879)
3. “Eu dificilmente posso ver como religião e ciência podem ser mantidas separadas como [Edward Pusey] deseja… Mas eu tenho que concordar inteiramente… que não existe razão alguma para que os discípulos de cada escola devam se atacar entre si com amargura”. (Carta a J. Brodie Innes, 27 de novembro de 1878)
4. “Em minhas Indecisões mais extremas, eu jamais fui um ateu, no sentido de negar a existência de um Deus”. (Carta a John Fordyce, 7 de maio de 1879)
5. “Eu penso que, de maneira geral (e cada vez mais, na medida em que envelheço), mas não sempre, que “agnóstico” seria a mais correta descrição do estado de minha mente”. (Carta a John Fordyce, 7 de maio de 1879)
6. “Eu lamento informar que não acredito que a Bíblia seja uma revelação divina e, portanto, nem que Jesus Cristo seja o filho de Deus”. (Carta a Frederick McDermott, 24 de novembro de 1880)
7. [Durante uma conversa com o ateu Edward Aveling, 1881] “Por que você tem que ser tão agressivo? Existe algo a se ganhar tentando forçar essas novas idéias sobre a massa da humanidade?” (Edward Aveling, The religious views of Charles Darwin, 1883)
8. “Alguém confiaria nas convicções da mente de um macaco, se é que existem coinvicções em uma mente assim?” (Carta a Graham William, 3 de julho de 1881)
9. “Minha teologia é uma simples confusão: eu não consigo olhar para o universo e achar que tudo é o resultado do acaso cego, embora eu não consiga ver qualquer indício de um projeto benevolente”. (Carta a Joseph Hooker, 12 de julho de 1870)
10. “Eu jamais consigo me decidir o quanto uma convicção pessoal de que deve existir um Criador ou uma Causa Primeira pode ser considerado um indício confiável”. (Carta a Francis Abbot, 6 de setembro de 1871)

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A parte que eu julgo importante, é que Darwin, embora convicto de que os dogmas religiosos eram tolices, não aderiu, igualmente, ao proselitismo ateísta, que o tem como ícone…

Para acabar de decorar o bolo, talvez alguém queira ler o texto de uma conferência dada por Einstein sobre “ciência e religião”, aqui.

O Papel do Cientista nas Decisões Éticas

Por mais que se queira dissociar o tema deste mês do confronto “ciência vs. religião”, não há como fugir a isto, uma vez que o próprio tema surgiu da atualidade da decisão que o Supremo Tribunal Federal vai ter que tomar (em minha opinião, já devia ter tomado…) sobre uma questão de suposta “ética”, que, na verdade, é apenas sobre um dogma religioso.
Sendo assim, não me resta outro remédio senão analisar, desde a origem, a convivência entre “ciência e religião”, uma vez que sou suspeito por ambos os “lados” desse confronto.
Eu afirmei, em comentário ao artigo do Osame, que as religiões tiveram como base a “ciência” (na sua acepção de “conhecimento adquirido”), só que as religiões não foram capazes de se adaptar ao progresso da ciência e se tornaram, mesmo, um entrave ao progresso da humanidade, quando deveriam ser, ao contrário, um esteio ético para este desenvolvimento.
Voltemos à pré-história e analisemos a “ciência” de então, para podermos avaliar de onde surgiu toda essa idéia de “religião” e qual papel ela deveria ter, bem como sua ligação com os conceitos de “moral” e “ética”.
A primeira coisa que nossos ancestrais devem ter reparado, deve ter sido a alternância quase regular entre o dia e a noite. Recém saídos de uma Era Glacial que, por pouco não encerrou a promissora carreira desse bando de primatas, o Sol e o calor devem ter sido particularmente proeminentes, apesar da grande importância da Lua, principalmente da Lua Cheia que permitia uma melhor vigilância contra os predadores noturnos. [Parêntesis (primeiro de uma série de muitos): existe muita discussão quanto à coincidência dos ciclos lunares e a fertilidade das mulheres. Usando um raciocínio bem primário, se pode aventar a hipótese de que as mulheres que ficavam férteis no período da Lua Nova, teriam uma melhor chance de procriação; nessas noites mais escuras, é de se esperar que os caçadores estivessem de volta à proteção da caverna…] Bom, já temos duas entidades cujo comportamento era particularmente importante para os humanos e, portanto, sérios candidatos a serem deificados…
Mas qual seria a idéia de um “Deus”?… Afinal, com quem os homens podiam se comparar para criar os seres superiores?… Certos animais eram mais fortes, outros mais rápidos, outros demonstravam habilidades especiais de visão, audição, alguns, mesmo, pareciam possuir um “sentido” desconhecido aos homens. Ora, se os homens eram “superiores” aos animais, os “Deuses” deveriam ser “superiores” aos homens na mesma medida: mais fortes, mais inteligentes, mais belos, mais tudo… “Super-homens”. E é exatamente o que vamos encontrar nas primeiras civilizações: “super-homens” com atributos animais. E, como toda tribo tinha um chefe, normalmente escolhido entre os mais “sábios” (ou seja, mais velhos – a figura do guerreiro-chefe só veio aparecer mais tarde) e as mulheres eram naturalmente mais longevas, o matriarcado parece ser apenas um resultado natural. Logo, as Deusas-Mães são apenas um passo lógico adiante. [Parêntesis: em diversas culturas a associação de gênero é inversa à que temos hoje em dia: é A Sol e O Lua…] A “civilização” (“reunião em cidades”) parece ter acabado com o matriarcado: os antigos caçadores-coletores já podiam ficar nas habitações, sem se afastar demais dos rebanhos e plantações, e a força física dos machos da espécie, combinada à fragilidade da mulher gestante, parece ter relegado as mulheres a uma função “subordinada” – a de “reprodutora”, uma vez que a sobrevivência ainda dependia muito dos números. Os Deuses machos começam igualmente a assumir o comando…
E, de uma pletora de “Deuses” que “governavam” todos os fenômenos naturais, cuja imprevisibilidade era uma ameaça à sobrevivência da espécie e precisava de alguma maneira de “ser propiciada”, à exemplo dos homens que os criaram, os Deuses precisavam de um “chefe”. E, como tudo que se conhece e é vivo, nasceu e morre, também os Deuses precisavam ter nascido de algum lugar. “É claro” que vamos precisar de um “criador” que, do nada, criou tudo o que existia…
E chega de digressão acerca de Deuses e Deus… O importante é que todas essas noções nasceram da “ciência” disponível: a observação da Natureza e a comparação das coisas da natureza à única medida disponível: o ser humano.
Passando à questão de “moral” e “ética”, a Teoria dos Jogos está aí mesmo para comprovar, matematicamente, que o “jogo da sobrevivência da espécie” passa, necessariamente, pelo “altruísmo”. Embora em questões menores o “gene egoísta” seja preponderante, para a sobrevivência de uma sociedade é fundamental que o altruísmo seja incentivado. Qual incentivo melhor para forçar um comportamento harmonioso e devidamente cooperativo do que “a vontade divina”?… O medo da morte pode ser habilmente explorado com a crença em uma “vida eterna”, na qual o indivíduo será “julgado” por tudo o que fez e deixou de fazer – segundo um conjunto de normas atribuídas ao(s) Deus(es) – e terá recompensa pelos eventuais sofrimentos injustos a que se submeteu, enquanto os infratores serão severamente punidos, por mais “poderosos” que possam ter sido nesta Terra.
Essa é a base de toda e qualquer religião: “esta vida não é tudo” e “quem se comportar bem, ganha um presente”… E este “se comportar bem” geralmente inclui todas as normas necessárias ao “jogo cooperativo” entre os vivos (e os “mais vivos”, diria o Barão de Itararé…). Toda a ética humana pode ser resumida a: “não faça com os outros o que você não gostaria que fizessem com você”. E todas as “normas morais” que forem além de “mulheres e crianças primeiro, depois os idosos (sua sabedoria é útil…)” é pura conveniência local.
E a humanidade poderia ter ficado nisso e apenas deixado que a inveja, a cobiça e a preguiça assumissem seus aspectos positivos: a inveja estimulando o aperfeiçoamento pessoal (não que os demais piorem); a cobiça estimulando a “ter mais” (não necessariamente tirando de quem tem; quando toda a sociedade prospera, cada indivíduo é beneficiado); e a preguiça buscando soluções mais eficientes e menos trabalhosas para realizar o trabalho inevitável (não postergando o que tem que ser feito).
Mas o ser humano é um bichinho curioso… Quer porque quer saber como, quando, onde e por que… E não descansa enquanto não conseguir controlar tudo, desde o meio-ambiente até a “vontade de (os) Deus(es)”. E como (os) Deus(es) é(são) caprichoso(s) e nunca desvenda todos os seus segredos, o ser humano resolveu que ia estudar, até entender, pelo menos os mistérios da Natureza. E, de repente, descobriu que não morava no Centro do Universo, mas em um planetinha xinfrim, que orbita uma estrela de quinta, na periferia de uma galáxia perfeitamente medíocre, entre um nunca-acabar de galáxias… Aquele “Super-homem” com poderes compreensíveis e bajulável para ser propício, corruptível com meia-dúzia de louvaminhas e “protestos de elevada estima e consideração” (junto com um suborninho…), já não dava mais para a tarefa para lá de hercúlea de criar um universo desse tamanho… O(s) Deus(es) ficou(aram) irremediavelmente paroquiano(s).
Pior: o ser humano descobriu que nem seu aparente controle do meio-ambiente é suficiente… Nem a velha “Mamãe Natureza” está disposta a aguentar indefinidamente os maus modos desse filho bestalhão que gasta como se não houvesse amanhã… Tudo o que o homem tira da Natureza, está fadado a voltar para ela, com direito a uma catástrofezinha para ensinar ao moleque que com “Mamãe não se brinca”… De “ápice da Criação” e “imagem e semelhança do Criador”, o ser humano se viu reduzido, por sua própria curiosidade, a um triste macaquinho “melhorado” que – por muito favor – tem um planeta para morar, mas tem que cuidar dele, senão, é “despejado” e o Planeta nem liga… (e (os) Deus(es) também não…)
Sem este “Deus-bedel” para vigiar e punir/recompensar, sem sequer um “referencial inercial absoluto” para calcular, de onde derivar as certezas sobre o que é “certo” ou “errado”?… Da velocidade da luz no vácuo?… Da absoluta amoralidade da “seleção natural”, um “Jogo de Soma Zero”, onde a fome do lobo tem o mesmo valor que a vida do carneiro?…
Não… Certamente a ciência não tem respostas para a eterna pergunta da humanidade: “o que é que eu estou fazendo aqui?” E pode apenas apontar, estatisticamente, qual comportamento – a curto prazo – pode trazer uma recompensa maior. O ser humano é muito pequeno, mesmo se comparado apenas com o planetinha xinfrim onde vive… A humanidade pode ser apenas uma doença cutânea temporária no planeta e toda a sua filosofia e ciência serem uma “ilusão impermanente”, como afirmam os buddhistas…
E, afinal, qual é o papel do cientista nas Decisões Éticas?…
Apenas isso: buscar os fatos!… Apontar as inconsistências da auto-imagem que o ser humano tem de si próprio e lembrá-lo, sempre, que, se existe um Deus (ou Deusa, ou Deuses…), ele(a, es) é(são) profundamente indiferente(s) a detalhes insignificantes como os enormes dinossauros ou toda a nossa “ciência” E TEMOS QUE PARAR DE NOS COMPORTAR COMO CRIANÇAS MIMADAS E ASSUMIR RESPONSABILIDADE POR NOSSOS ATOS, PORQUE NÃO ADIANTA REZAR QUE A ÁGUA NÃO VAI SUBIR O MORRO!…
Nota de rodapé: seja qual for a decisão do STF sobre as células-tronco embrionárias, nada vai mudar o fato de que aquele embriões estão vivos, mas não são gente… Quer o Papa (o Dalai Lama, ou o Bispo Macedo) goste disso ou não!…
(Comentários aqui, por favor).

Depois, nós, os Macumbeiros, é que somos malucos…

Lembram da 1ª eleição do W. Bush (2000) e de toda aquela confusão sobre a contagem dos votos na Flórida? Lembram que a decisão sobre a validade dos votos foi delegada a uma senhora chamada Katherine Harris (que acabou por determinar a vitória de W. Bush)?
O Mark Trodden, do Blog Cosmic Variance, lembra, e publicou esta matéria. Eu só vou traduzir duas citações de citações da antiga Secretária de Governo do Estado da Flórida (Governo Jeff Bush, irmão de adivinhem quem), hoje Deputada pelo Estado da Flórida e pré-candidata ao Senado americano:

A Deputada Katherine Harris (R-Fla.) declarou, nesta semana que Deus não queria que os Estados Unidos fossem uma “nação de leis seculares” e que a separação entre Igreja e Estado era “uma mentira que contaram para nós” para manter os religiosos fora da politica.
“Se você não votar nos Cristãos, então, em essência, você estará legislando o pecado”, disse Harris aos entrevistadores da “Testemunha Batista da Flórida”, o semanário da Convenção Batista do Estado da Flórida. Ela citou o aborto e o casamento homossexual como exemplos desse pecado.

E tem mais:

Harris, uma candidata nas primárias de 5 de setembro do Partido Republicano para o Senado dos EUA, disse que suas convicções religiosas “animavam” tudo o que ela faz, inclusive seus votos no Congresso.

Depois, quem arria despacho na encruzilhada é que é maluco e perigoso… Mas eu nunca vi um macumbeiro que fosse, pregando uma Guerra Santa…

Ah!… Eu já sabia!…

Há! Há! Há!… Plutão não é mais planeta! Plutão não é mais planeta! (Ouça-se isto dito naquela cantilena de criança gozando a cara de alguém)
Eu não tenho nada contra Plutão, Sedna, Xena ou qualquer outro objeto no Sistema Solar. Eu estou gozando a cara dos Astrólogos.
Como místico incorrigível que sou, eu cheguei a estudar Astrologia, fazer Cartas Natais, etc. Pode parcer incrível, mas encontrei muitas “coincidências” que me levam a crer que os astrólogos podem até estar certos, pelos motivos errados.
Mas uma coisa jamais me desceu pela goela. Quando descobriram Plutão, os astrólogos resolveram – para não parecerem “anti-científicos” – incluir Plutão nos seus cálculos, contrariando toda uma tradição milenar. Eu não conseguia engolir isto porque, ou eles estavam passando um atestado de que os astrólogos antigos faziam previsões erradas (e, portanto, a astrologia era tão “ciência” como qualquer outro método de adivinhação e não devia ser levada a sério), ou estariam adimitindo que uma porcaria de pedrisco, lá nos confins do sistema solar podia ter a mesma influência sobre as pessoas do que os “astros” mais próximos; então, por que não considerar Ceres, Titan, os asteróides razantes e outros “corpos celestiais” mais próximos, maiores e com influência mais direta sobre a gravidade e o magnetismo terrestre?). Eu já achava duvidosa a suposta influência de Urano e Netuno, quanto mais a de Plutão.
Agora, eu quero ver como os astrólogos vão se sair dessa!…
Em tempo: quando eu disse que os astrólogos poderiam estar certos pelos motivos errados, o que eu quiz dizer é que as datas e horas de nascimento de uma pessoa podem ter influência sobre sua personalidade. E as “coincidências” que eu encontrei, em diversas experiências, me levaram à convicção de que alguma coisa pode ser aproveitada da astrologia (como, de resto, da quiromancia). Algo assim como a Física e a Química atuais terem se originado da “Filosofia Natural” e da “Alquimia” que, em muitas coisas, estavam certas, pelos motivos errados.
Eu acho profundamente estúpido descartar um ramo do conhecimento humano, simplesmente rotulando de “misticismo”. Sir Fred Hoyle quebrou suas lanças contra o “Big-Bang”, exatamente por achá-lo uma hipotese “criacionista”, notadamente pela contribuição do Padre Lemaître à teoria.
É mais honesto (e “científico”) dizer que não existem indícios que comprovem ou “desprovem” um determinado “fato” (que, na maioria das vezes, nem “fato” é…), do que ridicularizar os crentes sonhadores.
Isaac Asimov disse que os cientistas não se sentem na obrigação de explicar tudo; os místicos é que têm “resposta” para tudo.
Eu que sou – ao mesmo tempo – místico para consumo próprio e cético, quando se trata de ciência, adoro ver quando um radical “quebra a cara” (e cientistas “quebram a cara”, também… isso só é vergonha se for provado que os dados da pesquisa foram forjados ou manipulados em favor de sua teoria). Da mesma forma, adoro ver os pseudo-cientistas em apuros quando, logo após terem feito uma “adaptação” de um “fato” de suas pseudo-ciências para parecerem “científicos”, a ciência muda de rumo e eles ficam com mais uma “explicação” furada nas mãos…

Lembranças de uma Estrela Distante


Esta materia foi postada na Comunidade “Astronomia!” do Orkut em 28/04/06, pela personagem Vanessa Love Schrick (não… eu não vou dar o link para a home-page dela… quem quiser que procure).

Lembranças de uma Estrela Distante… 28/04/2006 19:13
Os Dogon, povo tribal da África Ocidental, intrigam os estudiosos pelo conhecimento que têm do universo e pela precisão de suas noções de astronomia.
Como muitas tribos africanas, os Dogon, da República do Mali {antigos Sudão francês}, têm passado obscuro. Sabe-se que se fixaram no planalto Bandiagara, onde vivem até hoje, em alguma época entre os séculos XIII e XVI. Essa região localiza-se a cerca de 500 quilômetros ao sul de Timbuktu e durante a maior parte do ano é desolada e árida. Entre formações rochosas e desfiladeiros, os Dogon construíram seus vilarejos com casa de barro e palha. Seu modo de vida quase não mudou ao longo dos séculos.
Em princípio, não há nada de extraordinário nessa descrição. Para uma tribo “primitiva” e que vive isolada, não deixa de ser espantoso o conhecimento de astronomia. Os Dogon sabem, por exemplo, que Sirius, a estrela mais brilhante do céu, tem uma estrela vizinha, Sirius B, invisível a olho nu {ela está a 11′ da alfa, chamada de Sirius A, e só pode ser observada com auxílio de um telescopio de 320 milimetros}. Contam que é pequena e pesada {sua massa é 36.000 vezes mais densa que a do Sol e 50.000 vezes mais pesada que a da água}. O mais curioso é que os astrônomos nem sequer suspeitavam da existência dessa estrela até meados do século XIX. Uma descrição detalhada de Sirius B só foi feita em 1920 e sua primeira imagem fotográfica data de 1970. E são justamente as informações sobre ela que constituem o fudamento da mitologia dos Dogon. Tal povo cultua Sirius B em seus rituais secretos, representa-a em desenhos na areia, em sua arquitetura sacra, em esculturas e nas estampas dos cobertores, cujos padrões datam de centenas ou talvez de milhares de anos. O mundo ocidental tomou conhecimento da crença dos Dogon por intermédio do trabalho de dois respeitados antropólogos franceses, Marcel Griaule e Germaine Dieterlen. Em 1931, eles decidiram realizar um estudo profundo sobre esse povo. Durante 21 anos conviveram com a tribo.
O trabalho dos dois antrpólogos deixa patente que a crença dos Dogon se baseia num conhecimento profundo de astronomia. Sirius A e os astros e planetas que orbitam em torno dela constituem a referência fundamental de sua cosmovisão. Sirius B, a principal estrela vizinha, é feita de matéria mais pesada que qualquer elemento existente na Terra e seu movimento se dá numa orbita elíptica de cinquenta anos. Os dogons chamam essa estrela de “Po tolo” – referência ao grão de um cereal originário da nascente do rio Níger, cujo peso parece desproporcional a seu tamanho. Já na primeira metade do século XIX, os astrônomos do ocidente verificaram que algo curioso acontecia em torno de Sirius. Notaram, inicialmente, que o movimento da estrela não ocorria em linha reta, mas apresentava oscilações. O fato só poderia ser explicado pela existencia, perto dela, de outra estrela, cujo campo gravitacional atuasse sobre seu movimento. Em 1862, o americano Alvan Graham Clark, ao realizar testes com um novo telescopio, descobriu essa estrela e chamou-a de Sirius B. Após a primeira observação das peculiaridades de Sirius, passaram-se mais de cinqüenta anos até que se chegasse a uma conclusão sobre a estranha capacidade de um corpo tão pequeno exercer atração tão intensa. O responsável pelo esclarecimento foi Arthur Eddington, astrônomo e físico inglês que, na década de 1920, formulou a teoria das estrelas anãs brancas, ou seja, estrelas que no fim da vida, contraem-se e tornam-se superdensas. A descrição do fenômeno coincide com a versão dos Dogon.
“Permanece sem solução o problema de saber como esses homens, sem dispor de nenhum instrumento, podiam conhecer os movimentos e certas características de estrelas virtualmente invisíveis”.
Os Dogon conservaram uma antiga sabedoria que incluía não só informações sobre Sirius B, mas tambem sobre nosso sistema solar. Diziam que a Lua era “seca e morta”. Desenhavam o planeta Saturno com seus aneis, {há dois outros casos conhecidos de tribos que possuem essa informação}. Sabiam que os planetas giram ao redor do Sol e que a Terra gira em torno de seu próprio eixo. Em sua arquitetura sacra havia gravações dos movimentos de Vênus. Mencionavam as quatros “luas principais” de Júpiter – os quatros satelites descoberto por Galileu Galilei {1564-1642}. Que existe um número infinito de estrelas e que uma força em forma de espiral envolve a via-láctea, à qual a Terra está ligada. No caso particular de Sirius B, no entanto, os argumentos são irrefutaveis. Para simbolizar essa estrela, os dogons escolheram de forma deliberada o menor, embora mais importante, objeto que puderam encontrar: um grão de seu cereal básico. Para dar a ideia do peso do conteudo mineral de Sirius B, eles diziam: “Todos os seres da Terra reunidos não podem erguê-la”. A elipse em forma de ovo poderia ser interpretada como a representação do “ovo da vida”, ou algum outro símbolo desse tipo; porém os dogons insistiram que se tratava de uma orbita – fato astrônomico descoberto pelo alemão Johannes Kepler {1571-1630} no século XVI, mas certamente desconhecido por tribos africanas sem instrução. Além disso, eles situavam Sirius em sua posição exata dentro de órbita, isto é, no ponto focal, próximo à margem da elipse, e não no centro, como seria natural.
Esse povo conhecia realmente astronomia?
O mais curioso como teve acesso a esse conhecimento? Ainda é um misterio….

Na página da WikiPedia em inglês sobre o Povo Dogon encontra-se a seguinte argumentação, refutando o mistério (explorado pelo inglês Robert Temple, em seu livro The Sirius Mystery de 1975):

• O astrônomo Carl Sagan lida com o assunto em seu livro “Broca’s Brain” (1974), onde declara que existem muitos problemas com a hipótese, levantada por Temple (de que os Dogons teriam tido contato com civilizações extraterrestres, no estilo “Deuses/Astronautas”). Como exemplo Sagan menciona que os Dogon não parecem ter conhecimento de um outro planeta, além de Saturno, que tenha anéis, o que significaria que seu conhecimento teria origem européia e não extraterrestre.
• Outro astrônomo, Ian Ridpath, publicou um artigo no “The Skeptical Inquirer (1978), apontando diversos erros no livro de Temple. Ridpath declarou que, embora as informações que os Dogon provavelmente obtiveram de europeus, pareçam muito com os fatos sobre Sirius, o presumível conhecimento dos Dogon sobre o planeta é muito diferente dos fatos.
• James Oberg colecionou diversas alegações referentes à mitologia dos Dogon, no capítulo 6 de seu livro UFO’s and Outer Space Mysteries (1982), em seu capítulo 3. De acordo com Oberg, o conhecimento astronômico dos Dogon parece o conhecimento e as especulações do fim da década de 1920. Os Dogon poderiam ter obtido seus conhecimentos de astronomia de europeus visitantes, antes que sua mitologia fosse pesquisada em 1930. Oberg também observa que os Dogons não eram uma tribo isolada, portanto não era sequer necessário que estrangeiros informassem-nos dobre Sirius: eles poderiam ter obtido essas informações em outros lugares e as repassado a sua tribo, posteriormente. Dessa forma, quando Temple visitou os Dogon nos anos 1970, eles já teriam um grande contato com o mundo ocidental e teriam tido tempo de incorporar Sirius B a sua religião.

Pode ser… O que não fica claro, de maneira nenhuma é:
1 – Por que os Dogon – já que estiveram expostos a outras civilizações (não só a européia, mas os pretensiosos europeus não se lembram de que existem outras civilizações, muitas delas muito mais anitgas do que a porcaria da Europa) e, provavelmente, a uma intensa tentativa de cristianização ou maometização, foram incorporar a sua mitologia um fato obscuro da astronomia da década de 1920.
2 – Por que esse e não outro mito, foi tão prontamente incorporado à mitologia de um povo africano, enquanto diversas outras crenças – para os Dogon igualmente fantasiosas, como, por exemplo, os “canais” e a “moribunda civilização Marciana” (então em plena voga, segundo os devaneios de Schiaparelli) – não levantaram qualquer interesse.
3 – Por que – com seiscentos diabos! – um povo, entre todos os existentes na África Equatorial, foi criar uma mitologia nova em folha na década de 1920 e abandonar sua própria mitologia milenar.
Esse é o “modo europeu” de fazer ciência: se os europeus não sabem, ninguém mais pode saber. E se alguém sabe, foram os europeus que ensinaram…
Não vem ao caso se os “Deuses” eram ou não astronautas: bastou um adepto dessa tese (por falar nisso: européia) usar como exemplo o mistério dos Dogon, que, imediatamente, tratam de varrer o mistério para debaixo do tapete.
Se isso é “ciência”, eu sou um bule de chá…
Atualizando em 07/05/2006
O Mike Britto, da Comunidade “Astronomia!” do Orkut, apresentou uma contra argumentação bastante válida, que reproduzo abaixo:

Não precisa ir longe.
Os erros de conceitos na “crença” dos dogons, não só indicam que o conhecimento veio da europa… como também indicam que veio por meio de fontes não totalmente aprofundadas em física.
Contam que é pequena e pesada {sua massa é 36.000 vezes mais densa que a do Sol e 50.000 vezes mais pesada que a da água}.
“Massa mais densa”? “mais pesada do que qual quantidade de água”? Isso não só tem cara de contato cultural… como tem cara de contato cultural “mal aprendido”.
Tal povo cultua Sirius B em seus rituais secretos, representa-a em desenhos na areia, em sua arquitetura sacra, em esculturas e nas estampas dos cobertores, cujos padrões datam de centenas ou talvez de milhares de anos.
Uma pergunta que uma pessoa de bom senso imediatamente faz: Onde estão essas representações? É centenas ou é milhares de anos? Isso normalmente não é conclusão de uma pessoa experiente em datações. Um datador experiente não fornece uma datação dessas (a precisão é menor que o intervalo).
Isso tá parecendo um belo de um chute sem nenhum rigor, dado talvez, por alguem que estivesse interessado em fabricar uma evidência.
O trabalho dos dois antrpólogos deixa patente que a crença dos Dogon se baseia num conhecimento profundo de astronomia. Quem tem um pouco de afinidade com argumentação lógica, normalmente para de ler o texto nessa frase.
O conhecimento mostrado não é profundo:
• É estagnado: eles misteriosamente passaram centenas de anos com um conhecimento equivalente a especulações da década de 20… e misteriosamente pararam aí. O que foi descoberto depois pela astronomia eles não sabiam.
• É mal aprendido: As confusões de conceitos são muito comuns… “massa mais densa”… “mais pesado que a água”.
Isso é exatamente o que acontece quando um conhecimento é trasmitido e não totalmente assimilado.
Vamos direto ao que é muito claro:
«1 – Por que os Dogon – já que estiveram expostos a outras civilizações e, provavelmente, a uma intensa tentativa de cristianização ou maometização, foram incorporar a sua mitologia um fato obscuro da astronomia da década de 1920.»
«2 – Por que esse e não outro mito, foi tão prontamente incorporado à mitologia de um povo africano, enquanto diversas outras crenças – para os Dogon igualmente fantasiosas, como, por exemplo, os “canais” e a “moribunda civilização Marciana” (então em plena voga, segundo os devaneios de Schiaparelli) – não levantaram qualquer interesse.»
Que os dogons cultuavam Sírius já era sabido. Isso não era nenhuma novidade… nem é nada demais… já que Sírius é a estrela mais brilhante do céu.
Então, eles passam tendo contato com todo tipo de cultura. Num determinado momento, eles têm contato com informações sobre exatamente o simbolo maior da mitologia deles. Alguma dúvida sobre o motivo que os levou a incorporarem essas informações tão rápido?
Isso explica 2 coisas muito importantes:
• o fato de incorporar informações específicamente sobre sírius… e não outras informações culturais com as quais tiveram contato.
• sugerir que a mitologia sobre sírius é antiga… mesmo porque, ela é. Mas na verdade, as evidências que apontam apenas para o conhecimento da estrela em si… e não de detalhes dela.
Se colocarmos os fatos de forma lógica:
• Provar que o culto a sírius é antigo, é completamente diferente de provar que o conhecimento de suas caracteristicas também seja.
• O que se vê na pesquisa de Temple, é uma tentativa falaciosa de usar o fato da Sirius ser objeto antigo de mitologia, como argumento para demonstrar que o conhecimento das caracteriscas de Sírius também sejam antigas.
«3 – Por que – com seiscentos diabos! – um povo, entre todos os existentes na África Equatorial, foi criar uma mitologia nova em folha na década de 1920 e abandonar sua própria mitologia milenar.»
Eles não abandoram.
Se vc prestar atenção a todo o contexto, verá que eles apenas incorporaram informação ao que já estava no topo da mitologia deles.
«Esse é o “modo europeu” de fazer ciência: se os europeus não sabem, ninguém mais pode saber. E se alguém sabe, foram os europeus que ensinaram…»
Falácia. Linguagem preconceituosa.
Isso não é argumento para afirmar que o conhecimento em questão não seja europeu.
Além do mais, o tempo demonstrou claramente que a conhecimento dos Dogons estagnou. Era igual ao europeu, naquela época. O conhecimento deles não deu um passo depois disso.
Agora, responda vc:
Porque diabos a astronomia continuou avançou e a cultura dogon não deu 1 passo sequer??
O conhecimento que os dogons têm hoje, é identico ao que tinham quando foram visitados por Griaule e Dieterlen.
E esse conhecimento, se comparado com a astronomia de hoje, está muito longe de poder receber o adjetivo de “preciso”.
Por que?

Atualizando em 16/5/06:
Os pontos levantados pelo Mike são, obviamente, pertinentes. Existem indícios fortes de que houve uma “contaminação cultural”. O que me deixa “doente” é que, quando Griaule e Dieterlen constatarm esta curiosidade, o fato foi deixado de lado, provavelmente porque a maioria dos antropólogos desconhecia o fato astronômico. E – o que importa o que pensa uma tribo perdida no meio da África sobre uma estrêla que é matéria de suas “superstições pagãs”?.
Foi necessário que outro europeu, com idéias “crackpot” sobre “Deuses Astronautas” chamasse a atenção para o fato, de maneira sensacionalista, para que os luminares da ciência prontamente descartassem qualquer outra possibilidade, que não fosse a “contaminação cultural” e com origem européia.
Às perguntas do Mike, eu respondo o seguinte:
1 – A cultura Dogon não se importava com os aspectos “científicos” da estrêla Sirius – apenas com os aspectos mitológicos associados a ela. Provavelmente, como você observou, por ser ela a estrela mais brilhante do céu. Os Dogons nunca foram “cientistas” e sua tecnologia ainda é bastante primitiva.
2 – Os conhecimentos atuais dos Dogon são identicos àqueles constatados pelos antropólogos. Mas ninguém se lembrou de perguntar, em 1930, de onde vinham e a quanto tempo os Dogons acreditavam nisso. Agora, em 2006, é fácil descartar a hipótese de outra fonte para esse conhecimento. Mas o fato é que, na época, ninguém pesquisou.
3 – O conhecimento está longe de ser “cientificamente rigoroso”, mas, volto a dizer, para os Dogon trata-se de “crença”, de “misticismo”, não de um fato essencial a seu dia-a-dia. Um conhecimento expresso dentro de suas limitações culturais, que, evidentemente, não incluem sequer cálculos de paralaxe.
Eu sempre me reporto a um artigo de Voltaire que relata que os turcos tinham por hábito levar suas crianças para junto dos sobreviventes da varíola e esfregar a pele das crianças nas chagas em processo de seca. E constatava que a varíola era muito menos letal entre os turcos do que em outras etnias. Mas, na época, Pasteur ainda estava longe de nascer e esse fato não tinha qualquer “respaldo científico”, de acordo com o “estado da arte” médica.
Não se deve aplicar a “Navalha de Occam”, antes de estarmos certos de que não foram os “Ídolos de Bacon” que afiaram seu gume.

Ciência e Religião

Salve, Pessoal!
O meu professor particular de Física de Altas Energias, Prof. Daniel Doro Ferrante (que, nas horas vagas – eu sou um aluno muito aplicado, portanto ele tem bastante delas – está tirando um PhD em Física de Altas Energias na Universidade de Brown, Providence, Rhode Island, USA, enquanto se diverte como Webmaster do Departamento de Física daquela pequena instiuição acadêmica) tem um irritante hábito de publicar em seu BLOG (o link está aí do lado) uma porção de links para assuntos extremamente interessantes e deixar de comentá-los, sob pretextos vagos de que tem que preparar alguns papers, ou torturar os undergraduates em cursos sobre assuntos triviais como Relatividade Geral (ou – risível – jogar basquete)…
Em 27 de outubro, sob o prosaico título de “As coisinhas interessantes de hoje“, entre outros links, ele deixou um para um artigo, republicado, sobre o tópico deste artigo. Embora o autor seja uma figura obscura, suas idéias me pareceram bastante razoáveis e, como eu adoro traduzir, lá vai:

Sobre ciência e Religião
Uma palestra proferida na Conferência sobre Ciência, Filosofia e Religião em 1941
Por Albert Einstein
Não deveria ser difícil chegar a um acordo sobre o que entendemos por ciência. Ciência é o empreendimento centenário de arrebanhar, por meio do raciocínio sistemático, os fenômenos perceptíveis deste mundo, em uma associção tão abrangente quanto possível. Em uma definição ampla, é a tentativa de reconstruir, a postreriori, a existência, por meio de conceitualizações. Porém, quando me pergunto sobre o que é religião, eu não consigo pensar em uma resposta tão simples. E, mesmo depois de encontrar uma resposta que me satisfaça no momento, eu ainda permaneço convencido de que não posso, sob circunstância alguma, conciliar, nem mesmo um pouco, todos os que deram a esta questão uma consideração séria.
Em primeiro lugar, então, em vez de perguntar o que é religião, eu prefiro perguntar o que caracteriza as aspirações de uma pessoa que me dá a impressão de ser religiosa: uma pessoa que é religiosamente iluminada, me parece ser uma que, na melhor medida de suas habilidades, se libertou das limitações de seus desejos egoístas e se preocupa com pensamentos, sensações e aspirações aos quais se liga por causa de seus valores supra-pessoais. Me parece que o que realmente importa é a força desse contentamento supra-pessoal e a profundidade da convicção acerca de seu supremo significado, a despeito de qualquer tentativa de unir este conteúdo com um Ser Divino, porque, senão, seria impossível contar Buddha e Spinoza como personalidades religiosas. De acordo com esta ideía, uma pessoa religiosa é devota, no sentido de que não tem dúvida alguma sobre o significado e supremacia desses metas e objetivos supra-pessoais, que não necessitam, nem são adequados a fundamentos racionais. Eles existem com a mesma necessidade factual da pessoa. Neste sentido, a religião é o empreendimento da humanidade que se perde nas brumas dos tempos, em se tornar clara e completamente consciente desses valores e metas, e de reforçar e estender, constantemente, seus efeitos. Se alguém concebe religião e ciência de acordo com estas definições, então um conflito entre elas parece impossível. Porque a ciência só pode afirmar aquilo que é, mas não o que deveria ser, e, fora destes domínios, julgamentos de valores de todos os tipos permanecem necessários. A religião, por outro lado, lida apenas com avaliações dos pensamentos e ações humanos: ela não pode falar, justificavelmente, dos fatos e dos relacionamentos entre os fatos. De acordo com esta interpretação, os bem conhecidos conflitos entre religião e ciência, no passado, devem ser atribuídos a uma má compreensão da situação descrita.
Por exemplo, um conflito começa quando uma comunidade religiosa insiste na absoluta veracidade de todos os ensinamentos contidos na Bíblia. Isto significa uma intervenção, por parte da religião, na esfera da ciência; este é o campo no qual se travaram as lutas da Igreja contra as doutrinas de Galileu e Darwin. Por outro lado, representantes da ciência têm tentado chegar a julgamentos fundamentais a respeito de valores e finalidades, com base no método científico, e, deste modo, se colocaram em oposição à religião. Todos estes conflitos nasceram de erros fatais.
Agora, mesmo que os reinos da religião e da ciência, em si, estejam claramente definidos como separados entre si, ainda assim, existem entre os dois fortes vínculos e dependências recíprocos. Apesar da religião ser aquela que determina as metas, ela, não obstante, aprendeu com a ciência, em seu sentido mais abrangente, quais os meios podem contribuir para atingir as metas estabelecidas. Mas a ciência só pode ser criada por aqueles que estejam totalmente imbuídos da aspiração pela verdade e compreensão. A fonte deste sentimento, entretanto, nasce da esfera da religião. Daí vem, também, a fé na possibilidade de que as leis para o mundo da existência sejam racionais, ou seja, compreensíveis para a razão. Eu não consigo pensar em um genuíno cientista sem esta profunda fé. A situação pode ser expressa em uma imagem: a ciência sem religião é capenga; religião sem ciência é cega.
Embora eu tenha afirmado acima que, na verdade, um conflito legítimo entre religião e ciência não pode existir, eu devo, não obstante, qualificar essa assertiva mais uma vez, acerca de um ponto essencial, com referência ao real conteúdo das religiões históricas. Esta qualificação tem a ver com o conceito de Deus. Durante o período juvenil da evolução espiritual da humanidade, a fantasia humana criou deuses à imagem e semelhança dos homens, que, por força de suas vontades, supostamente determinavam, ou, pelo menos, influenciavam, o mundo dos fenômenos. O homem tentou alterar a disposição desses deuses, em seu próprio favor, por meio de mágica e da prece. A idéia de Deus nas religiões atualmente ensinadas é uma sublimação desta velha concepção dos deuses. Seu caráter antropomórfico é mostrado, por exemplo, pelo fato de que as pessoas apelam ao Ser Divino em orações e pedem pela satisfação de seus desejos.
Ninguém, certamente, negará que a idéia da existência de um Deus pessoal onipotente, justo e oni-beneficente, é adequada ao consolo, à ajuda e à orientação dos homens; igualmente, em virtude de sua simplicidade, ela é acessível à mente menos desenvolvida. Mas, por outro lado, existem fraquezas decisivas ligadas a essa idéia, em si, que se fazem sentir dolorosamente, desde o início da história. Isto é, se esse ser é onipotente, então qualquer acontecimento, inclusive todas as ações humanas, todos os pensamentos humanos, e cada sensação e aspiração humanas são, também, obra sua; como será possível, então, responsabilizar as pessoas por seus atos e pensamentos perante um Ser tão todo-poderoso? Ao distribuir punições e recompensas Ele estaria, de uma certa forma, julgando a Si próprio. Como isso pode ser combinado com a bondade e retidão que se Lhe atribuem?
A principal fonte de conflitos, nos dias de hoje, entre as esferas da religião e da ciência, repousa neste conceito de um Deus pessoal. O alvo da ciência é estabelecer regras gerais que determinem as conexões recíprocas entre objetos e eventos no tempo e no espaço. Para essas regras, ou leis da natureza, uma validade absoluta é necessária – não comprovada. Trata-se principalmente de um programa e a fé na possibilidade de seu cumprimento, em princípio é fundamentado somente em sucesso parcial. Mas dificilmente se poderá achar alguém que negue esses sucessos parciais e os atribua à auto-ilusão humana. O fato de que, com base nessas leis, nós sejamos aptos a prever o comportamento temporal dos fenômenos em certos domínios com grande precisão e certeza, está profundamente imbuído na consciência do homem moderno, muito embora ele possa ter compreendido muito pouco do conteúdo dessas leis. Ele só precisa considerar que as órbitas planetárias dentro do sistema solar podem ser calculadas com granda exatidão, com base em um número limitado de leis simples. De uma forma similar, embora não com a mesma precisão, é possível calcular, antecipadamente, o modo de operação de um motor elétrico, um sistema de transmissão, ou um aparelho sem-fio, mesmo quando se lida com um novo desenvolvimento.
Para ser franco, quando o número de fatores intervenientes em um complexo fenomenológico, é grande demais, o método científico, na maior parte das vezes, falha. Basta pensar nas condições climatológicas que são impossíveis de prever, apenas alguns dias à frente. Não obstante, ninguém duvida que estamos nos confrontando com uma conexão causal, cujos componentes causais são, em sua maioria, conhecidos. As ocorrências nesse domínio ficam além do alcance da predição exata, por causa da variedade dos fatores em operação, não por conta de qualquer falta de ordem na natureza.
Nós penentramos muito menos profundamente nas regularidades observáveis dentro do reino das coisas vivas, porém fundo o suficiente para sentir ao menos a regra das necessidades fixas. Só precisamos pensar na ordem sistemática da hereditariedade e nos efeitos dos venenos, como, por exemplo, o álcool, no comportamento dos seres orgânicos. O que ainda está faltando é uma compreensão de conexões de profunda generalidade, mas não o conhecimento da existência de uma ordem.
Quanto mais uma pessoa está imbuída da ordenada regularidade de todos os eventos, mais firme se torna sua convicção de que não existe espaço disponível do lado desta regularidade ordenada para causas de uma natureza diferente. Para esta pessoa, nem as regras humanas, nem as regras divinas poderão existir como uma causa de eventos naturais. Para ser franco, a idéia de um Deus pessoal que interfere nos eventos naturais, nunca pode ser refutada, no sentido real, pela ciência, porque esta doutrina sempre pode se refugiar naqueles domínios onde o conhecimento científico ainda não conseguiu firmar um pé.
Mas eu estou persuadido de que tal comportamento, por parte dos representantes da religião, não só seriam contraproducentes, mas também fatais. Porque uma doutrina que não consegue se manter na clar luz, mas somente na escuridão, perderá, necessariamente, seu efeito sobre a humanidade, com um incrível dano ao progresso humano. Em sua luta pelo bem ético, os professores de religião devem ter a estatura suficiente para desistir de uma doutrina de um Deus pessoal, isto é, desistir dessa fonte de medo e esperança que, no passado, colocou um poder tão vasto nas mãos dos padres. Em seus trabalhos, eles terão que se valer dessas forças que são capazes de cultivar a Bondade, a Verdade e a Beleza no próprio ser humano.
Esta é, certamente, uma tarefa mais difícl, mas incoparavelmente mais valiosa. (Este pensamento é convincentemente apresentado no livro “Crença e Ação” de Herbert Samuel). Depois que os professores de religião consigam obter o processo de refinamento indicado, eles seguramente reconhecerão com alegria que a verdadeira religião foi enorbrecida e tornada mais profunda com o conhecimento científico.
Se uma das metas da religião é libertar a humanidade, tanto quanto possível, dos grilhões das ânsias, dos desejos e dos medos egocêntricos, o raciocínio científico pode auxiliar a religião em ainda outro sentido. Embora seja verdade que a meta da ciência é descobrir regras que permitam a associação e a predição de fatos, este não é seu único alvo. Ela também busca reduzir as conexões descobertas ao menor número possível de elementos conceituais independentes. É nessa busca frenética da unificação racional dos diversos aspectos que ela tem encontrado seus maiores sucessos, embora seja precisamente por conta dessa tentativa que ela corre o maior risco de se tornar uma presa das ilusões. Mas qualquer um que tenha passado pela intensa experiência dos avanços bem sucedidos neste domínio, é movido por uma profunda reverência pela racionalidade que se manifesta na existência. Por meio da compreensão ele alcança uma emancipação de longo alcance das algemas das esperanças e desejos pessoais e, dessa forma, atinge a humilde atitude mental com respeito à grandeza da razão encarnada na existência e que, em suas maiores profundiades, é inacessível ao homem. Esta atitude me parece, entretanto, ser religiosa, no mais alto sentido da palavra. E, assim, me parece que a ciência não só purifica o impulso religioso do ranço de seu antropomorfismo, mas também contribui para uma espiritualização religiosa de nosso entendimento da vida.
Quanto mais a humanidade avançar espiritualmente, mais certo me parece que o caminho para a genuína religiosidade não reside no medo da vida e no medo da morte, e na fé cega, mas na perseguição do conhecimento racional. Neste sentido, eu acredito que o padre deve se tornar um professor, se ele quiser fazer justiça a sua elevada missão educacional.
Traduzido e divulgado sem a adequada permissão de “Science and Religion” in The Conference on Science, Philosophy and Religion © Jewish Theological Seminary, 1941.

Religião e Ciência

“A fé pode ser definida resumidamente como
uma crença ilógica na ocorrência do Improvável”
H. L. Mencken

Salve, Pessoal! Por mais irônica que seja, a colocação de Mencken sobre a fé não poderia ser mais exata. E Religião (a menos que você seja um hipócrita que esfrega lama azul na barriga, para imitar os nativos) é uma questão de fé. Se você não precisa de fé, tanto melhor para você. Como disse Brecht: “Infeliz do povo que precisa de heróis”. Se você se sente bem com o Universo e acha que ele não precisa de um “propósito”, que tudo que existe é resultado do acaso e, mesmo assim, você se propõe a ser uma pessoa decente, a tratar os outros como você gostaria de ser tratado, a achar que cada ser humano é uma pessoa diferente, mas que merece a mesma consideração, se você se preocupa com o Mundo que você vai deixar para as gerações vindouras, e se procura ser uma pessoa melhor, a cada dia, meus parabéns! E, diga-se de passagem, tenho muito prazer em conhecê-lo!
Porque, para mim, não me importa a mínima se você reza para Buda, Alah, Jeová, Jesus Cristo, Krishna, Oxalá, ou se você nem reza. Para mim, a melhor forma de oração não é ficar entoando louvaminhas ao “Criador”: é tratar bem a Criação! Me desculpem os religiosos que enfatizam “o poder da oração”, mas eu acho que ficar pedinchando favores aos Deuses, puxando o saco deles e querer que, por conta disso, o acaso conspire a seu favor, é hipocrisia e perda de tempo. Será que você acha que Deus é tão otário quanto o seu pai e que, quando você diz: “eu fiz tudo errado, mas juro que vou fazer certo, na próxima vez”, Ele vai acreditar? Ele te conhece, nego. Ele já sabe que você, na primeira oportunidade, vai fazer a mesma besteira de novo.
Do mesmo jeito, se você não faz nada para melhorar sua vida (nem a de seus semelhantes — aí inclusos todos os seres vivos e inanimados dessa Terra), senta no meio-fio e fica reclamando: “Deus não faz nada por mim!…”, está errado! Deus faz, sim. Senta a seu lado e faz companhia…
Então, quando me perguntam: “para que serve uma religião?”, eu sou obrigado a responder: “religião não é uma utilidade.” Não serve para coisa alguma, a não ser para você se sentir uma parte útil do Universo e agradecer esse simples fato! Você acha que isso é pouco? Então vá fazer seu universozinho, você mesmo, e ver no que é que dá…
O que poucos querem se dar ao trabalho de ver é que qualquer religião tem uma íntima relação com magia. A magia, sim: essa tenta viciar os dados para que eles rolem a seu favor. Toda cerimônia religiosa é um ato mágico. A procura da integração com poderes maiores, com o intuito de favorecer o praticante. Mas, se você disser a um Católico que a Comunhão (o ato de ingerir a hóstia) é um ato de canibalismo ritual (você está comendo o corpo de Cristo, para ver se absorve um pouco de sua santidade), ele vai se benzer com o pé esquerdo e jogar um balde de água benta na sua cara, esperando que você desapareça, deixando no ar um cheirinho de enxôfre…
Só que, para conseguir essa integração com os poderes superiores, você tem que estar em sintonia com a freqüência deles. Se não estiver, você vai estar assistindo a um televisor desligado… E todas as religiões que praticam atos de magia branca, pregam a mesma coisa: fraternidade, caridade, justiça, tolerância e o perdão. Os quatro primeiros ítens já são bastante difíceis, mas o último!… Se você se acha incapaz de, pelo menos, tentar esses cinco itens, minha recomendação é que você atire às favas a decência e procure algum culto satanista.
Se você acha que decorar a Bíblia (ou o Torá, ou o Corão) e fingir que acredita em cada bendita letra ali escrita, vai salvar sua alma do inferno, vá em frente! Eu já estou vendo você diante do Juiz, recitando versículo após versículo, enquanto o meirinho celestial fica olhando para o relógio, com cara de poucos amigos… E, quando o Juiz lhe perguntar: “E o que você fez com o livre-arbítrio que lhe foi dado?”, você sempre pode dizer: “Ah! Dava muito trabalho pensar com meu próprio cérebro, por isso eu passei a decisão para o Padre (Pastor, Imã, Rabino, Guru, Pai-de-Santo, etc.)”. Aí, meu chapa, você vai ouvir o que todo o mundo sabe, nessa vida daqui mesmo, mas finge que não: você pode delegar autoridade, mas não pode delegar responsabilidade!
E o que esta churumela toda tem a ver com ciência? Tudo e nada. Tudo se você é do tipo que acredita textualmente na “letra” do “Livro Sagrado” (como eu sou Umbandista, fica pior ainda: é tudo tradição oral e, como vem de diversas nações africanas diferentes, cada uma com sua própria tradição, é contradição que não acaba mais…), a ciência é uma blasfêmia. Como diz São Paulo (não gosto do Santo, nem da cidade): “Toda a sabedoria humana é loucura aos olhos de Deus”. Todo Judeu, Cristão e Muçulmano sabe que:

No princípio Deus criou o céu e a terra. A terra, porém, estava vazia e nua; e as trevas cobriam a face do abismo; e o espírito de Deus era levado por cima das águas(que águas?).
Deus disse: Faça-se a luz; e fez-se a luz. E Deus viu que era boa; e dividiu a luz das trevas (realmente, um universo pisca-pisca não era “uma solução elegante”). E chamou a luz de dia, e às trevas noite; e da tarde e da manhã (nesta ordem — pudera: Ele ainda não tinha criado os relógios) se fez o dia primeiro.
Disse também Deus, Faça-se o firmamento no meio das águas e separe umas águas das outras águas [vamos parar por aqui…]

Algum teólogo pode me explicar, por favor, quem criou as águas? Aquelas nas quais Deus boiava… Aí, seus cientistas panacas: antes de existir o primeiro fóton que fosse, já as moléculas de H2O estavam por aí… E olha que eu só citei, e de maneira incompleta, os dois primeiros versículos do Gênesis. Eu prefiro a versão na qual Olorum encarregou Oxalá de criar o mundo. Mas Oxalá era bem chegado a um vinho de palmeira e seu irmão sacana, Exu, deixou um jarro bem cheio no caminho de Oxalá. Não deu outra: Oxalá tomou um porre e dormiu. Quando Olorum veio ver se o mundo tinha ficado pronto, Exu ficou com medo, pegou os planos e saiu criando o mundo. Como ele não tinha a mesma habilidade de Oxalá, saiu tudo com um defeitinho. Aí, Olorum percebeu a tramóia e encarregou Oxalá de cuidar do mundo que ele, se fosse menos beberrão, deveria ter criado. Só que a primeira oferenda tem que ser feita a Exu, senão ele bagunça tudo mais ainda (afinal, Oxalá é o Engenheiro Responsável, mas o Mestre-de-Obras foi Exu; ele é quem sabe onde estão os defeitos…)
Mitos são isso: historinhas bonitinhas para “explicar” aquilo que nós não conhecemos a explicação. Tão úteis como Papai Noel e o Coelinho da Páscoa. Ou como o Passarela ser técnico de time brasileiro. Serve para enganar trouxa, ou a torcida do Corinthians (droga! eu estou me repetindo…). Aliás, essa é a diferença do cientista e do místico: o cientista, quando não sabe algo, vai observar e experimentar (se bem que alguns que usam esse galardão, vão mesmo é montar um modelo matemático que comprove seu “achismo”…); o místico, inventa uma historinha e “explica” qualquer coisa, com “poderes ocultos”, mistérios e dogmas (“É assim, porque Deus me disse, pessoalmente, em uma carta, com firma reconhecida, que eu não posso mostrar para vocês, ímpios, que é assim, e quem não acreditar vai para o Inferno, se não for para a fogueira antes!”).
Será que a desmistificação dos mitos invalida a crença em que o Universo tem um propósito e que nós, seres humanos, temos um papel a desempenhar nesse propósito? Eu acho que não. Por outro lado, propor que a ciência se ocupe em “provar” a existência ou não-existência desse propósito é uma tolice. A ciência tem que se ocupar com aquilo que existe (ou seja, que pode ser medido, pesado ou contado, mesmo que indiretamente). Um Criador de tudo o que existe (os buddhistas não acreditam em um Criador: para eles o Universo todo é uma ilusão “impermanente”) teria, necessariamente, que estar, pelo menos em parte, fora do Universo. Então, quando um ateu me diz: “Deus não existe!”, eu dou plena razão a ele; o “Deus” que eu aceito, transcende a noção de “existência”. Se o Universo for ℵn, Deus será ℵ.
Se eu acredito em milagres: claro! Só que minha definição de milagre é: uma seqüência de eventos de baixíssima probabilidade, em uma ordem de ocorrência de baixíssima probabilidade. E, para acabar de vez com a discussão, eu me recuso a acreditar que um Criador de um Universo tão sutil e com regras tão abrangentes, fosse ficar quebrando essas regras, só para extasiar uns caipiras de um planetinha de trampa, da periferia de uma galáxia medíocre, só para receber elogios e sacrifícios. E, para chatear os crentes na Bíblia, o Levítico me parece direitinho um livro de receitas de Ebós. E, do jeito que Jeová gostava de um Injé (sangue sacrificial), parece que os hebreus e os africanos têm, ambos, razão: quem criou o mundo foi Exu. Laroiê!

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