Não seja enganado por baboseiras quânticas

Eu sou místico. Eu acredito em magia, em espíritos e em outras coisas absurdas. A meu favor, só posso dizer que não faço a menor ideia do porquê isso funciona; apenas acho que funciona. Se isso é uma prova de que meu raciocínio é tendencioso e baseado em auto-sugestão, problema meu… E, diga-se de passagem, não faço proselitismo de minhas crenças porque acho que isso é uma questão de convicção pessoal.

Este post foi motivado por uma dessas asneiras pseudo-científicas que, infelizmente, vêm sendo repetidamente utilizadas por gente que ouviu cantar um galo, mas não sabe onde, e – o que é mais deplorável ainda – gente que por sua própria formação acadêmica, deveria ter mais cuidado em não tentar impingir suas crenças não fundamentadas com argumentos fantasiosos baseados em sua lamentável ignorância de outro ramo das ciências que não é o seu.

A asneira em particular foi uma argumentação em defesa da homeopatia, publicada na Scientific American, Edição Brasileira (e já fartamente repudiada pela editoria da Scientific American, Matriz). A passagem é esta:

A homeopatia é conhecida como tratamento alternativo para os seres humanos, mas poucos conhecem sua utilização em animais, plantas, solo e águas. Essa técnica é alvo de críticas quanto aos resultados e eficácia. Uma delas diz respeito ao “efeito placebo” de seus remédios, que não contêm nenhum traço da matéria-prima utilizada em sua confecção. Para responder a essa abordagem é necessário um esclarecimento: a homeopatia não se relaciona com a química, mas com a física quântica, pois trabalha com energia, não com elementos químicos que podem ser qualificados e quantificados. (o grifo é meu. JC)

Essa “pérola” é atribuída a “Nina Ximenes, bióloga, […] pós-graduada em educação ambiental” e foi publicada na página 17 da edição brasileira de abril de 2012 da Scientific American. E – faça-se justiça – já foi publicamente repudiada pela Editora-Chefe da Scientific American, Matriz, Mariette DiChristina. É profundamente lamentável que o senhor Ulisses Capozolli, Editor-chefe da edição brasileira da SciAm, tenha “cochilado” e dado o respaldo de uma revista científica respeitada a tamanho non-sequitur.

Então, vamos ao que realmente interessa. Que diabos é essa tal “física quântica”?

O nome já começa por ser infeliz e induzir ao erro. O conceito de quanta (singular: quantum) de energia surgiu com as experiências de Max Planck sobre a energia que corpos aquecidos emitem. Ele descobriu (vou poupá-los dos detalhes técnicos) que a energia era sempre absorvida e emitida em “pacotes discretos”. Se você bombardeasse um alvo com luz de um determinado comprimento de onda, obteria uma radiação com outro comprimento de onda; sempre os mesmos. Se você aumentasse a intensidade da luz, produziria mais radiação, mas sempre com o mesmo comprimento de onda, não com um comprimento de onda maior. Da velha nomenclatura da química (especialmente a bioquímica) veio o termo quantum (= quantidade).

Disso, se deduziu (e, posteriormente, se comprovou fartamente) que no nível subatômico, a energia é absorvida e emitida sempre nesses “pacotes”; sem valores intermediários.

Parece algo sem paralelo em nosso mundo “macro” cotidiano, né?… Nem tanto… Pense na gravidade da Terra; para um objeto se livrar da atração da gravidade terrestre e ser lançado ao espaço (se você pensou em satélites e naves espaciais, acertou!) é preciso que ele alcance uma velocidade de escape de 11,2 km/s. Uma velocidade ligeiramente menor e o objeto cai de volta; se a velocidade for ligeiramente maior, tanto faz: o objeto escapa da atração da Terra.

Isso independe da massa do objeto; a velocidade de escape é sempre a mesma. É claro que, para que um objeto com maior massa (“mais pesado”), você vai precisar de uma energia total bem maior para obter a mesma velocidade de escape.

Nas interações entre as partículas que compõem os átomos, assim como entre os átomos que compõem uma molécula e da mesma forma entre átomos de moléculas próximas (e é isso que chamamos de “química”), tudo é feito com base nessas quantidades mínimas de energia (ou quanta), de modo que qualquer “pacote” de energia pode ser tratado como uma “partícula”.

E os físicos chegaram à conclusão (após longos e tediosos estudos) que só existem quatro tipos de interações entre as partículas subatômicas: as conhecidas gravitacionais e eletromagnéticas, que se manifestam claramente neste universo “macro” onde vivemos, e duas que só funcionam no âmbito restrito dos átomos e principalmente seus núcleos: a forte e a fraca. A fraca tem alguma semelhança com a eletromagnética, só que as partículas portadoras dessa força têm massa e, portanto, não chegam muito longe: não saem de dentro do diâmetro de um núcleo atômico dos pequenos… E a forte ganhou esse nome porque é muito mais forte do que a repulsão eletromagnética e consegue manter juntas duas partículas de cargas iguais (e ainda bem que ela existe, senão este universo nem existiria).

O grande problema em estudar o comportamento das “coisas” no “mundo subatômico” é que o simples ato de observar uma partícula altera essa partícula. Quer um paralelo ‘macro”?… Pense em uma pilha de pratos – uma meia dúzia deles – onde só um tem uma marca no centro (e você não pode olhar por cima da pilha). Para saber qual deles é o prato marcado, você tem que tirar os pratos que estão por cima e, quando chegar no prato marcado, ele já não será mais um “prato no meio da pilha”. Para uma partícula subatômica, seu “lugar na pilha” é extremamente importante (acredite em mim… senão a gente não chega ao fim da estória).

Para agravar o problema citado acima, é extremamente difícil (para não dizer “impossível”) obter algo como  “um único fóton” (“fóton” é a partícula de força eletromagnética, da qual a luz visível é apenas uma faixa extremamente estreita – mas guarde isto: todo e qualquer fóton se move à “velocidade da luz”, o “limite de velocidade” no universo) e – como se isso não bastasse – qualquer “partícula”, enquanto não produzir um efeito mensurável, é uma “onda” e se comporta como tal. Quer outra analogia “macro”?… Uma onda do mar que bate contra uma parede de cais. Se você dotar a parde de sensores que meçam a força exercida por cada onda que bate nela, você pode calcular a quantidade de água (e coisas dissolvidas nela) e a velocidade de cada onda (e eis sua “partícula” de mar…)

E mais uma coisa que confunde os “leigos”: isso tudo acontece no “mundo subatômico” em uma velocidade inimaginável e em quantidades de perder o fôlego. Lembra da onda do mar que eu fiz bater no cais no parágrafo acima?… Sabe como se dá esse “choque”?… Interação eletromagnética! Cada um dos elétrons dos átomos de água (e coisas dissolvidas nela) interage com os elétrons dos átomos dos materiais que compõem a parede, trocando “brazilhões” de “fótons virtuais” a cada “pentelhésimo” de segundo, e se repelem!

OK! E o que isso tem a ver com a homeopatia e os remédios em geral?

Exatamente o que você já pensou: nada! As reações químicas são uma “manifestação” da velha força eletromagnética que junta os átomos em moléculas, com os núcleos positivos atraindo os elétrons negativos dos outros átomos e estes puxam o núcleo do átomo “roubado” mais para perto do átomo “ladrão” de elétrons. E, se surgir uma molécula com capacidade de atrair mais o átomo “ladrão”, ou o átomo “roubado”, ela “rouba” o lugar da outra e cria uma (ou mais) moléculas novas, Isso é uma “reação química”.

Enquanto isso, as interações nucleares fortes e fracas continuam a acontecer dentro dos núcleos dos átomos – “brazilhões” de vezes por fração de segundo – e isso não muda chongas na reação química! 

Para você ter o efeito de um átomo de flúor – o elemento químico mais reativo que se conhece – você precisa da presença de um bendito átomo de flúor! Se o átomo de flúor for reagir em outra freguesia, a molécula abandonada passa a se comportar como se ele nunca tivesse estado lá! E, se você tiver “brazilhões” de átomos de, por exemplo, hidrogênio e um só átomo de flúor, só vai conseguir uma única molécula de ácido fluorídrico, coisa que, em um organismo vivo, não faz a menor diferença.

Já perceberam onde eu quero chegar, né?.. Quanto maior a diluição, menor o efeito, até não haver efeito algum.

E a física quântica não pode fazer nada a respeito, porque ela continua agindo da mesmíssima forma por todo o universo conhecido e nem por isso você é capaz de atravessar uma porta fechada – embora um nêutron seja capaz de escapar de repente de um núcleo atômico (“Radiatividade”).

Então, quando vierem com um papo furado de querer explicar magia, homeopatia, reiki, passes do caboclo ou as preces da rezadeira com a “física quântica”, caia fora!

Como eu disse lá em cima, eu acredito em magia… mas sei que a física não tem coisa alguma a ver!

 

2012 – O último Carnaval?

Pode muito bem ser… Já que o negócio é aproveitar qualquer deixa para vaticinar um Apocalipse, um suposto “fim-do-mundo” com base em uma conta-de-chegar feita a partir de um calendário Maia, é tão bom quanto qualquer algaravia extraída de uma exegese de uma centúria de Nostradamus…

Então, a partir de agosto (mes sabidamente aziago), as oscilações das anomalias do campo magnético da Terra vão começar a se intensificar, acompanhadas de um recrudescimento na atividade tectônica, com amplo fornecimento de terremotos, tsunamis e erupções vulcânicas. Afora os efeitos sobre as condições climáticas locais (que serão acompanhadas de intenso debate sobre se esses fenômenos são decorrentes das “mudanças climáticas” antropogênicas, ou, ao contrário: se as mudanças climáticas tidas como antropogências são uma mera manifestação das forças telúricas), o subito “endoidamento” das declinações magnéticas vai causar efeitos devastadores nas espécies que se pautam pela magnetosfera terrestre para suas migrações sazonais.

As grandes navegações serão muito menos afetadas, porque se pautam mais pelo Sistema de Posicionamento Global (GPS) do que pelas obsoletas bússolas (que os tradutores de programas “científicos” insistirão em chamar de “compassos”, enganados pelo falso-cognato), até que…

Com o campo magnético da Terra instável e enfraquecido, o Sol resolve fazer gracinha: uma inusitada Ejeção de Massa Coronal de proporções épicas é expelida bem na direção do terceiro planeta.

A chuva de parículas altamente energéticas encontra uma magnetosfera enfraquecida e provoca imediatamente um caos nas linhas de transmissão de energia elétrica, causando “apagões” em cascata, desligando usinas geradoras e colocando fora de combate toda a comunicação por fios, inclusive e principalmente a internet. Pior ainda: as redes de satélites de comunicações, GPS e outros monitoramentos (principalmente os satélites meteorológicos) literalmente “vão para o espaço”…

Sem redes de transmissão de eletricidade, sem comuinicações em tempo real, com a indústria pesada (o que inclui as refinarias de petróleo) fora de combate, as redes de transporte público funcionando precariamente (enquanto os estoques de combustível durarem), o mundo subitamente estará devolvido à tecnologia do início do século XX… mas com uma população de século XXI.

Ironicamente, as populações dos rincões mais atrasados do planeta serão as menos afetadas inicialmente. Os ianomâmis não vão sentir imediatamente os efeitos do caos em Wall Street e os habitantes do Sudão do Sul vão continuar morrendo como moscas por causa da fome e de condições sub-humanas de vida, mas nada vai ficar imediatamente “pior” para eles.

Por outro lado, as epidemias vão demorar mais a se transformar em pandemias, em face da quase paralisação do transporte aeronáutico (a essa altura, resumido aos voos militares). Mas os surtos locais vão ser bem mais graves, por conta da dificuldade do acesso a medicamentos e das restrições ao reforço das equipes de agentes da saúde locais.

Para culminar a desgraça, a rede NEAT foi uma das mais prejudicadas na nova atribuição de prioridades e, justamente agora, um asteróide rasante resolveu “rasar” demais e, apesar de ter sido detectado com alguma antecedência pelos telescópios em terra, seu ponto de impacto não pode ser calculado porque o tempo de computação necessário estava empenhado pela FEMA e o a realocação dos recursos ficou parada na Câmara dos Deputados dos EUA por conta de uma feroz oposição do Tea Party a qualquer iniciativa do governo, em um ano eleitoral.

O fato do meteorito ter atingido o Oriente Médio (causando, entre outras coisas, a destrução de Jerusalém) foi interpretado por muitos como “uma demonstração da cólera divina”, com as vertentes religiosas trocando acusações, insultos e atentados terroristas, por conta da “blasfêmia” alheia. No entando, os efeitos sísmicos do impacto causaram danos bem mais permanentes, notadamente nos campos petrolíferos da região (… realmente uma pena o que aconteceu com os arranha-céus de Dubai, mas fazer o que?…)

A coincidência do meteorito ter caido no dia 22 de dezembro de 2012 foi aclamada como a realização da “Profecia Maia” (apesar do suposto calendário Maia apontar o dia 21…), mas o fim-do-mundo não foi o que geralmente se esperava… Na verdade, o mundo não acabou (e precisava muito mais do que isso para realmente acabar com a Terra…): apenas a humanidade ficou em uma merda bem maior do que já estava.

Mas pensam que alguém se emendou?… Ledo engano d’alma!… As dicussões sobre a conservação do meio ambiente foram devidamente arquivadas por conta do “esforço de recuperação”, as preocupações com poluição descartadas em favor da “retomada da normalidade” e as mudanças climáticas foram de volta para a prateleira, com o argumento de que “em face das súbitas mudanças, há que recalcular tudo novamente” (tese adiantada pelo Heartland Institute e rapidamente encampada pelos cacos de midia remanescentes).

Mas 2012 não foi o último Carnaval: em 2013 minha escola, Acadêmicos do Salgueiro, saiu com o enredo: “Os Orixás salvaram a Bahia da urucubaca dos Maias”…

Quando foi mesmo que você nasceu?

Quando eu digo que a Astrologia teve algum fundamento científico que ficou perdido no meio do misticismo, muita gente se ri…

Aí eu encontro uma notícia no EurekAlert no mínimo bastante curiosa: “Month of birth determines who becomes a sports star” , que, caso você tenha pensado que entendeu mal, quer dizer isso mesmo: “O mês de nascimento estabelece quem vai se tornar uma estrela nos esportes”.

Não… Não fala na influência da Lua, ou dos “aspectos” que Urano forma com o Meio-do-Céu… O raciocínio é bem simples e tem a ver, mesmo, com o mês de nascimento.

O Dr. Adrian Barnett do Instituto de Saúde e Inovação Biomédica da Universidade de Queensland, Austrália, realizou uma pesquisa com jogadores de Futebol “Australian Rule” (uma variante ainda mais violenta do Rugby) e descobriu que um número desproporcional de jogadores profissionais da Australian Football League nasceram nos primeiros meses do ano. Em lugar de atribuir essa tendência a “influências ocultas”, ele buscou uma explicação lógica…

E concluiu que é tudo uma questão dessa diferença de meses, quando os garotos são considerados dentro de suas faixas etárias: aqueles que são alguns meses mais velhos são, em média, maiores, mais fortes e mais “maduros” do que seus coleguinhas que nasceram no mesmo ano. Logo, tem tendência a se sobressairem mais nas práticas esportivas e, com isso, de desnvolverem mais auto-confiança, o que realimenta o fator de sucesso.

Agora, considerem as condições de vida na antiguidade.

As chances de sobrevivência de recém-nascidos variavam drásticamente conforme o mês de nascimento (estação, extremos climáticos, épocas de colheita e fartura, ou não, etc). Se isso não bastar, acrescente essa observação feita pelo Dr. Barnett sobre as pequenas diferenças de idade, em um mundo onde esses pequenos detalhes podiam significar a diferença entre o anonimato e a fama de herói.

Para terminar, junte a isso a velha tendência das pessoas de não assumirem a responsabilidade por suas deficiências (“não, eu nunca fui bom nos esportes… nós librianos somos o tipo mais intlectual…”), com o onipresente charlatanismo (“meu sistema cosmológico explica isso tudo… por um módico preço…”) e teremos toda uma indústria de Cartas-Astrais, vaticínios auto-preenchidos (“uma pesoa famosa vai morrer no primeiro semestre de 2010…”) e descrições auto-contraditórias (“… você, libriano, é o poróprio equilíbrio em pessoa, mas, quando se enfurece… oh!…”).

Provavelmente por isso mesmo os Astrólogos do Hemisfério Sul não acertam uma…

Quando um governo embraca em pseudo-ciência

Li no Pharyngula uma notícia de que o jornalista Ben Goldacre que escreve a coluna semanal “Bad Science” no The Guardian, tinha se livrado da restrição judicial a ele imposta e tornado público o “capítulo omitido” de seu livro (“Bad Science”… que outro título teria?…)

Para minha surpresa, o tal capítulo está lá, inteirinho, no post de 9 de abril do blog “Bad Science”, com o sugestivo título: “Matthias Rath — roubem este capítulo”.

Goldacre pede explicitamente a seus leitores que ajudem a divulgar o conteúdo do capítulo proibido… Tentação demais, né?… Eu traduzi…

Veja, a seguir, como um governo pode ser induzido por espertalhões a embarcar em pseudo-ciência e o estrago que isso pode causar a uma população.

Continue lendo…

“Por dentro da ciência” do Instituto Americano de Física (12/02/09)

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12 de fevereiro de 2009

200 Anos de Darwin: A Luta Contra a Evolução Continua

Por Jim Dawson
ISNS

Hoje (12/02) é 200º aniversário do nascimento do biólogo evolucionista Charles Darwin, cujo livro, publicado em 1859, “Da Origem das Espécie” mudou profundamente a natureza da ciência biológica e nossa compreensão sobre de onde viemos e quem somos. A Teoria da Evolução de Darwin, reforçada pela atual pesquisa genética, é tida por virtualmente todos os biólogos como o princípio básico, ou “conceito central”, da moderna biologia.

No entanto — fundamental como é para a ciência moderna — a evolução permanece sob ataque organizado e difundido por parte de grupos religiosos e outros que insistem em tentar diminuir sua importância no ensino de ciências nas escolas públicas dos Estados Unidos.

A guerra contra a evolução é focalizada nos conselhos estaduais de educação e alguns dos 15.000 distritos escolares dos EUA. O esforço para fazer cessar o ensino daquilo que Darwin dscobriu quando estudou a estranha mistura de espécies nas Ilhas Galápagos em 1835, começou com toda a força no “Julgamento dos Macacos” (“Scopes Monkey Trial”) em 1926.

O resultado do julgamento foi a primeira e última vitória dos criacionistas.  “Nós perdemos o caso Scopes, mas, desde então, não perdemos uma”, declarou Glenn Branch, subdiretor do Centro Nacional para Educação em Ciências (National Center for Science Education = NCSE) em Oakland, Califórnia. O centro que descreve sua missão como “defender o ensino da evolução nas escolas públicas”, monitora os esforços dos anti-evolucionistas para inserir alguma forma de criacionismo nos padrões de ciências para as escolas públicas e nos livros-texto de biologia.

A grande  preocupação atual do NCSE e outros que defendem o ensino da evolução nas aulas de ciências, é uma lei, aprovada no verão passado pelo legislativo do Estado de Louisiana, chamado de “Lei de Educação em Ciências da Louisiana” (Louisiana Science Education Act).  A lei cujo propósito ostensivo é apoiar a liberdade acadêmica, permite aos professores utilizar “material suplementar” quando forem ensinar “evolução biológica, as origens químicas da vida, aquecimento global e clonagem de seres humanos”.

“Essa lei foi criada por conservadores com o auxílio do Instituto Discovery Institute”, declarou Barbara Forrest, professora de filosofia na Universidade Estadual do Sudeste da Louisiana, em Hammond,.  (O Instituto Discovery, com base em Seattle, Estado de Washington, tem estado na vanguarda do movimento anti-evolucionista desde sua fundação em 1990).  Forrest, que lidera a luta contra os esforços para incluir o material criacionista nas aulas de ciencias, explica que o governador sancionou a lei e os que tentam defender o ensino científico da evolução estão “perdendo a cada rodada” no estado.

“Nesta semana a linha de ataque é contra os padrões de ensino de ciências usados pelas escolas do estado”, diz ela. “Eu acredito que os livros-texto de biologia sejam o alvo do ano que vem. Eles (os anti-evolucionistas) estão estendendo seus tentáculos por todas as partes”. Organizações científicas no estado, assim como cientistas de várias universidades da Louisiana, estão finalmente ficando alarmados, diz ela, “e eu estou recebendo ofertas de assistência”.

Mas existe pouco que Forrest ou o NCSE possam fazer, a menos que um pai em um dos distritos escolares registre uma queixa contra o que está sendo ensinado. “A carga de fazer alguma coisa recai sobre os pais”, diz ela, mas a legislação também tornou o processo de registrar uma queixa difícil e demorado.

Embora a Louisiana esteja atraindo a maior parte da atenção no momento, as tentativas sempre mais elaboradas dos criacionistas para intrometer suas idéias nos currículos de ciências, continuam em diversos legislativos e conselhos de educação em vários outros estados:

  • No Mississippi, uma lei que teria determinado que o conselho de educação exigisse que todo livro texto que discutisse a evolução, incluísse uma ressalva que descrevesse a evolução como uma “teoria controversa”, foi rejeitada em uma Comissão. A ressalva, que teria a forma de um adesivo colado aos livros, seria similar àquela atualmente obrigatória no Alabama. Embora a lei do Mississippi tenha sido rejeitada, sua autor, Gary Chism, declarou que ele pensa em apresentar novo projeto no ano que vem. “Ou você acredita na história do Gênesis, ou você acredita que um peixe andou para a terra”, ele declarou.
  • Um projeto de lei, apresentado em 3 de fevereiro na Câmara de Deputados de Iowa, intitulado de “Lei da Liberdade Acadêmica sobre a Evolução” (“Evolution Academic Freedom Act”), permitiria que os professores apresentassem “um completo espectro de pontos de vista cinetíficos” quando fossem ensinar a evolução. Apesar de parecer inócuo, esses “pontos de vista científicos” incluem o “intelligent design”, que aponta de maneira bem anti-científica para um criador sobrenatural.
  • Um projeto de lei similar sobre “liberdade acadêmica” foi apresentado no legislativo do Alabama em 3 de fevereiro, com a intenção de minar o ensino da evolução, de acordo com o NCSE.
  • No Novo México foi apresentado recentemente um projeto de lei que exige que as escolas permitam aos professores informar aos estudantes “acerca de informações científicas relevantes com respeito à solidez científica ou às fraquezas científicas a respeito da evolução biológica ou evolução química”. Segundo Branch do NCSE, essa discussão sobre “solidez e fraquezas”, assim como a “liberdade acadêmica”, nas leis propostas pelos anti-evolucionistas, são fórmulas casuísticas para criar leis que não mencionem “Deus” ou “Religião” e, assim, possam sobreviver ao questionamento no judiciário.
  • No Texas uma votação recente no Conselho Estadual de Educação aprovou uma revisão dos padrões de ensino de ciências estaduais que removeu o dispositivo que falava da “solidez e fraquezas”, introduzido pelos criacionistas nos padrões. Enquanto o jornal Dallas Morning News descreveu como “uma grande derrota para os conservadores”, o Conselho não adotou o que o NCSE descreve como “revisões cientificamente indefensáveis” para outros padrões para o ensino de ciências.

Branch se delarou encorajado pela declaração do Presidente Barack Obama, durante a campanha presidencial, de que: “Eu penso que é um erro tentar obnubliar o ensino de ciências com teorias que — francamente — não se mantém frente a uma análise científica”.

“O governo federal não está diretamente envolvido nisto porque é uma tarefa atribuída aos estados e aos conselhos de educação”, exlica Branch. “Porém [Obama] pode estabelecer o tom, usando de seu púpito agressivamente”.

Nota de pé de página: O Julgamento Scopes e Além

John Scopes, um professor de ciências da escola secundária no Tennessee, foi acusado, em 1926, de ensinar o evolucionismo, em violação à Lei Butler, que declarava ilegal “ensinar qualquer teoria que negue a estória da Criação Divina do homem, tal como ensinada na Bíblia, e ensinar, em lugar disso, que o homem descende de uma forma inferior de animais”.

Depos de oito dias de debates entre o promotor Williams Jennings Bryant e o advogado de defesa Clarence Darrow, o juri deliberou por apenas nove minutos, até decidir que Scopes era culpado. O tribunal o multou em US$ 100. O julgamento foi retratado em uma peça,“ Inherit the Wind” (“Herdará o vento”), em 1955 e, cinco anos depois, um filme com o mesmo título recebeu quatro indicações para o Oscar.

Os ataques de hoje em dia vêm ostensivamente de grupos religiosos tais como o “Respostas no Gênesis” (com base no Kentucky) e organizações quse-científicas, tais como o Instituto Discovery em Seattle, Washington.  A preocupação fundamental das organizaçõesanti-evolucionismo é que o ensino da evolução nas escolas mine a autoridade do criacionismo bíblico.


Este texto é fornecido para a media pelo Inside Science News Service, que é apoiado pelo Instituto Americano de Física (American Institute of Physics), uma editora sem fins lucrativos de periódicos de ciência. Contatos: Jim Dawson, editor de notícias, em [email protected].

“Depressão” e “religião”

Também via EurekAlert:
Temple University

A “espiritualidade” é uma proteção melhor contra a depressão do que “ir à Igreja”

Aqueles que cultuam um “poder maior” freqüentemente o fazem de diversas maneiras. Existe uma diferença entre ser um membro ativo de uma comunidade religiosa, ou preferir apenas orar ou meditar, e uma nova pesquisa da Universidade Temple sugere que a religiosidade de uma pessoa pode dar indícios sobre os riscos dessa pessoa entrar em depressão.

A pesquisadora-chefe Joanna Maselko, Sc.D., caracterizou as religiosidade dos 918 participantes do estudo em termos de três domínios de religiosidade: participação em serviços religiosos, que se refere a estar envolvido com uma Igreja; bem-estar religioso, que se refere à qualidade do relacionamento da pessoa com esse “poder superior”; e bem-estar existencial, que se refere à sensação pessoal de ter um significado e um propósito na vida.

Em um estudo publicado on-line neste mês em Psychological Medicine, Maselko e seus colegas pesquisadores compararam cada domínio da religiosidade a seus riscos de depressão, e ficaram surpresos em descobrir que que os grupos com altos níveis de bem-estar religioso apresentavam 1,5 vezes mais riscos de apresentar depressão do que aqueles que se diziam com menos bem-estar religioso.

Maselko teoriza que isso se deve ao fato de pessoas com depressão tenderem a usar a religião como mecanismo de “ajuda”. Como resultado, elas se relacionam mais com Deus e rezam mais.

Os pesquisadores também descobriram que aqueles que freqüentam serviços religiosos tinham um risco 30% maior de passar por depressões durante suas vidas, e que aqueles que tinham altos níveis de bem-estar existencial tinham menos 70% de chance de entrarem em depressão do que os que tinham baixos níveis neste quesito.

Maselko diz que o envolvimento com uma Igreja fornece a oportunidade para a interação comunitária, o que pode ajudar a criar laços com outras pessoas, um fator importante na prevenção da depressão. Ela acrescentou que aqueles com maiores níveis de bem-estar existencial têm uma forte noção de seu lugar neste mundo.

“Pessoas com altos níveis de bem-estar existencial tendem a ter bases sólidas o que os torna emocionalmente bem centrados”, argumenta Maselko. “Pessoas que não têm essas coisas, correm um risco maior de depressão e essas mesmas pessoas podem se voltar para a religião como um meio de ajuda”.

Maselko admite que os pesquisadores ainda têm que estabelecer o que vem primeiro: a depressão ou a religiosidade, porém está, correntemente, investigando o histórico de vida dessas pessoas para descobrir a resposta.

“Para médicos, psiquiatras e psicólogos, é difícil desemaranhar esses elementos quando se está tratando de distúrbios mentais”, disse ela. “Não se pode apenas perguntar a um paciente se ele ia à Igreja, para medir seu grau de religiosidade e comportamentos de busca de ajuda. Existem outros componentes a considerar quando se trata pacientes e essa é uma informação importante para os terapeutas”.

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Os outros autores do estudo são Stephen Gilman, Sc.D., e Stephen Buka, Sc.D., do Departamento de Saúde Pública da Universidade Harvard e da Escola de Medicina da Universidade Brown. A pesquisa foi patrocinada por verbas dos Institutos Nacionais de Saúde Mental e pelo Prêmio Jack Shand da Sociedade para o Estudo Científico da Religião.

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Comentário do tradutor: pessoas “bem resolvidas” são menos passíveis de cair em depressão?… Isso eu podia dizer de graça…

E eu bem gostaria de saber que instrumentos de medição foram usados na aferição de conceitos tais como “bem-estar religioso” (se é que isso quer dizer alguma coisa, além de: “você está em dia com seu dízimo, cara?…”)

Também gostaria de saber quais as “religiões” que os participantes dessa pesquisa professam, porque existe uma enorme diferença entre o “relacionamento com Deus” de um Buddhista (uma religião que não tem um “Deus”) e um “fundamentalista” bíblico ou islâmico… Ou uma bruxa Wiccan…

E – apenas para criar um “grupo de controle” – por que não foram acompanhados alguns ateus, também?… Eu acredito que conheço um monte de ateus com altíssimos níveis de “bem-estar existencial”.

Ah!… Sim, eu ia me esquecendo: o título do artigo fala que “espiritualidade é mais eficaz do que ‘ir à Igreja’ (no original: Spirituality protects against depression better than church attendance). De onde se infere isso no texto?

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Royal Raymond Rife


Sabem como é… uma coisa leva a outra — e se for meu velho e cego cachorro Mozart se enredando nos fios do video-game do meu neto, vai sair uma cagada daquelas! — e assuntos desconexos arrumam um jeito de aparecerem em uma seqüência que deixam um místico como eu desconfiado…
Primeiro, foi uma pergunta no “Queremos Saber” (o link está aí do lado), sobre os processos de tratamento imaginados pelo personagem que dá título a este artigo. É extremamente curioso que um personagem real possa se chamar “Royal Raymond Rife”, mas o cara existe. Não só existe, como também inventou uma trapizonga de microscopia – lá pelos idos do século passado – que, segundo seus seguidores, era capaz de observar um vírus individual. E, alegadamente, criou um tratamento para o câncer com base na emissão de ondas eletromagnéticas (na faixa do ultravioleta) que funcionava como uma espécie de “forno de microondas” para os microorganismos específicos: explodia eles!
Uma rápida busca no Google me indicou um site sobre os méritos alegados de Rife. A linguagem do site alcançava uma alta pontuação no “Crackpot Index” do Baez (vide artigo anterior). Mas, como eu sou apenas um burrinho esforçado que tem a sorte de conhecer gente que realmente entende do assunto, fui encher o saco de meu amigo da juventude, o Professor Paulo Paes de Andrade, Biofísico do Departamento de Biologia da UFPE. A resposta que ele me mandou merece ser transcrita:

João, entrei lá no site que você linkou. Desculpe ter sido tão extenso na resposta, mas acho que você vai ler com prazer.
É interessante como um amontoado de coisas técnicas/ científicas pode soar verossímil, mas uma análise mais cuidadosa um pouco mostra que não é.
Abaixo tem um texto colado da página do tal Rife. [observação: o texto original é em inglês, portanto – para não perder o hábito – eu vou traduzir]

Por volta de 1920, Rife tinha acabado de construir o primeiro microscópio para vírus do mundo. Por volta de 1933, ele tinha aperfeiçoado essa tecnologia e construído o incrivelmente complexo Microscópio Universal, composto por quase 6.000 diferentes peças e que era capaz de aumentar os objetos 60.000 vezes. Com este incrível microscópio, Rife se tornou o primeiro ser humano a realmente ver um vírus vivo e, até bem recentemente, o Microscópio Universal era o único capaz de ver vírus vivos.
Os modernos microscópios eletrônicos matam instantaneamente qualquer coisa que fique sob eles, mostrando apenas os resíduos mumificados e escombros. O que o microscópio de Rife podia ver era a enorme atividade dos vírus vivos, à medida em que eles se modificam para se acomodar às mudanças no ambiente, se reproduzir rapidamente em resposta a carcinogênicos e transformar células sadias em células de tumor.
Mas como foi que Rife foi capaz de conseguir isso, em uma época na qual a eletrônica e a medicina ainda estavam apenas evoluindo? Aqui vão alguns detalhes técnicos para aplacar os céticos…
Rife, com muito esforço, identificou a assinatura espectroscópica individual de cada micróbio, usando um espectroscópio de fenda acessório. Então, ele lentamente girava os prismas de blocos de quartzo para focalizar a luz de um único comprimento de onda sobre o microorganismo que queria observar. Esse comprimento de onda era selecionado porque ele estava em ressonância com a assinatura de freqüência espectroscópica do micróbio, com base no, agora estabelecido, fato de que cada molécula vibra em uma freqüência específica própria.
Os átomos que se juntam para formar uma molécula são presos nessa configuração molecular com uma ligação energética covalente que tanto emite, como absorve sua própria freqüência eletromagnética específica. Não há duas espécies de moléculas que tenham as mesmas oscilações eletromagnéticas ou assinatura energética. A ressonância amplifica a luz, do mesmo modo que duas ondas no oceano se intensificam, uma a outra, quando se combinam.
O resultado de empregar um comprimento de onda ressonante é que os micro-organismos que são inivisíveis na luz branca, subitamente se tornam visíveis, em um brilhante clarão de luz, quando são iluminados com a freqüência de cor que entra em ressonância com sua característica assinatura espectrográfica. Rife, assim, foi capaz de ver esses organismos, de outro modo invisíveis, e observá-los invadindo ativamente culturas de tecidos. A descoberta de Rife permitiu-lhe ver organismos que ninguém mais podia ver com microscópios comuns.
Mais do que 75% dos organismos que Rife pode ver com seu Microscópio Universal, somente são visíveis com luz ultravioleta. Mas a luz ultravioleta fica fora da faixa da visão humana, ela é “invisível” para nós. O brilhantismo de Rife permitiu que ele vencesse esta limitação, por meio da heterodinização, uma técnica que se tornou popular com as primeiras emissões radiofônicas. Ele iluminava o micróbio (usualmente um vírus ou bactéria) com dois comprimentos de onda diferentes da mesma freqüência de luz ultravioleta que entrava em ressonância com a assinatural espectroscópica do micróbio. Esses dois comprimentos de onda produzidos, interferiam entre sí ao se misturarem. O resultado dessa interferência era, com efeito, uma terceira onda, mais longa, que ficava dentro do espectro visível da radiação eletromagnética. Foi assim que Rife tornou os inivisíveis micróbios visíveis sem matá-los, um feito que os atuais microscópios eletrônicos não conseguem igualar.

Esta conversa toda acima é para falar que o cabra tinha um microscópio ótico que ampliava 60.000 vezes.
Primeiro ponto: a física prova (não importa quão genial seja o inventor, isto não será mudado) que uma radiação eletromagnética só pode identificar dois pontos como sendo distintos, se a distância entre eles for maior que o comprimento da radiação empregada. Para a luz visível isto vai até 2.000 vezes, para o ultravioleta vai talvez a 5.000 vezes, nunca a 60.000 vezes! O tal Rife afirma que o microscópio dele “via” coisas vivas, então tinha que ser iluminado com luz (visível ou ultravioleta) e não com elétrons.
Segundo ponto: ele afirma que o ultravioleta não é visível, e portanto ele usava o recurso da ressonância para visualizar os objetos (vírus e outros) que ele examinava. As duas coisas estão certas, mas é preciso lembrar que a luz emitida por esta ressonância tem sempre comprimento de luz maior do que a radiação incidente (o próprio texto revela isso), portanto, menos poder de separar objetos próximos. Muitos organismos e moléculas fluorescem naturalmente, e é disso que o autor, de forma elíptica e retórica, fala. Ocorre que o conhecimento deste fenômeno é muito antigo e já foi aproveitado em microscopia. Mas só ganhou contornos de uso comum quando se começou a usar marcadores fluorescentes, isto é, moléculas ligadas a fluoróforos que por sua vez se ligavam especificamente a certos componentes celulares (ou virais, ou do espaço intercelular) para se transformar na microscopia confocal que temos hoje, uma versão muuuuuuito melhorada da proposta simplória do Rife. Mas mesmo a microscopia confocal (que usa vários, se não todos, os princípios enumerados pelo Rife) não consegue ampliar mais do que o limite definido pela física (usualmente 2000 X).
Para ter uma idéia das imagens, olhe o site
http://www.feinberg.northwestern.edu/cif/lsm510.htm .
Outro trechinho do site:

Não obstante, muitos cientistas e doutores têm, desde então, confirmado a descoberta de Rife do vírus do câncer e sua natureza pleiomórfica, usando técnicas de “dark field”, o microscópio Naessens e experiências em laboratório.

Há coisas certas e outras nem tanto. A descoberta do vírus do câncer é atribuída a vários pesquisadores, e não a um só. A natureza pleiomórfica dos vírus (não só o do câncer) é bem conhecida, mas não se reflete na sua estrutura física, e sim na organização genômica e na forma como os vírus expressam seus genes e modificam suas proteínas. As técnicas de campo escuro (dark field) não são capazes de mostrar vírus, a menos que eles estejam envoltos com muito material do hospedeiro (fragmentos de membrana da célula hospedeira e coisas assim). O tal microscópio Naessens é essencialmente igual ao do Rife, e da mesma forma, posto em dúvida e declarado fraude por quase todo mundo. É claro que experimentos de laboratório confirmam o pleiomorfismo: que mais poderia confirmar, a inspiração divina?
Deste ponto em diante:

Por meio do aumento da intensidade de uma freqüência que entrava naturalmente em ressonância com esses micróbios, Rife ampliava suas vibrações naturais até que eles se distorcessem e se desintegrassem por fadiga estrutural. Rife chamava essa freqüência de “the mortal oscillatory rate” (taxa de oscilação mortal) ou “MOR” e ela não causava qualquer dano aos tecidos adjacentes

O site envereda pela teoria de que o aumento da energia da freqüência de ressonância é capaz de destruir o objeto ressonante. E dá como exemplo um copo de cristal destruído pelo som. De novo, há aí coisas certas e erradas (faça uma mistura equilibrada de verdades e mentiras, e você consegue convencer qualquer um de qualquer coisa, veja o Ciro Gomes com a transposição do São Francisco, por exemplo).
Primeiro, o som não é uma radiação eletromagnética e o exemplo já começa mal.
Segundo, a radiação incidente tem que atingir o alvo, e os vírus estão dentro de células, por trás da pele e de outros tecidos. As radiações que conseguem penetrar nos tecidos estão todas na faixa dos raios X ou mais intensas ainda, e nada têm a ver com as radiações visíveis ou UV de que ele falava antes.
Terceiro, a ressonância só ocorre se não há outros fatores de atenuação envolvidos, que dispersem a energia, o que não é definitivamente o caso no ambiente celular.
Quarto: o objeto (ou vírus) deveria ser composto todo de uma mesma substância, o que não é o caso da maioria dos vírus, mesmo se levarmos em conta só o capsídeo (a casca deles). Só os vírus filamentosos e bacteríofagos são tão simples, os nossos vírus estão longe disso.
Quinto: para tristeza de todos, muitos dos nossos vírus (inclusive o perigoso HPV) deixam de existir como quase cristais e integram o seu DNA em nosso DNA, de forma que desaparecem completamente do alcance da técnica que é citada no site.
O texto depois se alarga numa discussão estéril de coisas que aconteceram há muitos anos e não têm mais como ser investigadas a não ser lá nos EUA. Nem vou comentar.
Minha análise final é a seguinte: mais uma técnica sem fundamento para engambelar aqueles que estão desesperados (e isso se aplica ao câncer ou a qualquer outra doença, e mesmo aos problemas humanos mais triviais, como falta de dinheiro, calvície, gordura, etc.

Em resumo – exatamente como eu esperava, ao consultar o Dr. Andrade – mais um exemplo de misturar fatos científicos não relacionados entre si e aparecer com “curas milagrosas”.
E, aí, me aparece o Physics News Update n° 777 (ver dois artigos atrás) com uma matéria sobre o uso de laser de extremo ultravioleta para observar objetos da ordem de dezenas de nanômetros.
Aí você para e pensa nos seguintes exemplos:

• Voltaire, em um artigo, relatava o hábito que as mães turcas tinham de, quando surgia uma epidemia de varíola, levar seus filhos à casa dos sobreviventes, na fase de “seca” da doença, e esfregar a pele das crianças contra as chagas em processo de cicatrização. Mas os médicos franceses desprezavam essa “crendice” de um “povo atrasado e supersticioso” como os Turcos. Pasteur e todas as noções sobre micro-organismos ainda estavam séculos à frente e “vacina” era um conceito totalmente desconhecido.

• Quando Amedeo Avogadro raciocinou que um mesmo volume de qualquer gás, em iguais condições de temperatura e pressão, deveria conter o mesmo número de moléculas, não se sabia direito o que eram “moléculas” ou “átomos”.

• A mesma coisa aconteceu com Mendeleyev e sua Tabela Periódica de Elementos. Ela foi baseada no cálculo do “peso atômico” dos elementos (quando nem se imaginava a existência de isótopos) e só foi devidamente esclarecida com o advento da mecânica quântica.

Será que o “crackpot” do Rife tinha algum fundo de razão? Será que ele realmente disse que podia enxergar os micróbios, ou será que disseram que ele disse? Existe uma técnica para cessar o crescimento de tumores malignos que “queima” com laser as células cancerosas periféricas do tumor. Isso teria alguma relação com os estudos de Rife?
A primeira coisa que o Dr. Andrade “passa batido” – porque é um fato tão conhecido que nem precisa mencionar – é que a técnica de Laser é muito posterior aos experimentos de Rife. Como é que ele conseguiria um feixe coerente de ultravioleta de forma a “mirar” em uma única bactéria? Que pontaria, né?… (Também, com uma acuidade visual como a dele – que conseguia “ver” vírus que ninguém mais conseguia ver…)
A segunda é que a nanotecnologia necessária para construir um microscópio, tal como o descrito no PNU n° 777, é extremamente recente. Com as válvulas e botões do tempo de Rife (e aqueles mostradores de ponteirinho), conseguir o grau de acurácia reivindicado é simplesmente impossível.
O Dr. Andrade fala de uma “técnica sem fundamento”. Eu acho que é coisa pior: é uma aldrabice com falsos fundamentos. Coisa que pessoas razoavelmente ignorantes – tais como yours truly – podem até ser convencidas de que realmente são fundamentadas, se derem meia dúzia de fontes de referência suficientemente vagos e não inter-relacionados, contendo as poucas “verdades” que formam uma grande mentira.

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