(Não complicar) Ciência
Um exemplo de simplicidade na divulgação de ciência: pequenas coisas; bons exemplos.
Não é preciso complicar.
E sim, sou suspeito. É de um colega paleontólogo…
Ciência Viva À Conversa
Neste primeiro podcast, o convidado foi Carlos Fiolhais que falou de Ciência e divulgação científica.
“Um programa de divulgação e promoção da Ciência e Tecnologia numa parceria entre os Centros Ciência Viva do Algarve e a Rádio Universitária do Algarve.
Conhece a atividade dos Centros Ciência Viva do Algarve, locais que fazem a ponte entre os cientistas e o grande público.
Todas as semanas falaremos com alguém que faz e promove investigação científica e tecnológica e também ficaremos a saber o que de novo há na investigação científica.
Quintas – 08:15, 12:15, 15:15
Autor: Luís Azevedo Rodrigues”
Continua a luta Vasco
Há quase três anos, numa das várias visitas que orientei às pegadas de dinossauro da Salema, tive a alegria de conhecer o Vasco.
Na altura, dediquei-lhe o post “Força, Força, Companheiro Vasco” no qual relatei o seu empenho em ser um paleontólogo – leiam o relato da sua discussão com uma enfermeira quando tinha quatro anos…
A centelha de ânimo para a Ciência estava lá e o Vasco foi para mim mais do que inspirador.
Há dias, pelo Facebook, recebi da sua mãe mais três presentes: duas imagens e notícias do Vasco.
O desejo em ser paleontólogo continua lá – vejam o rigor com que reproduz ilustrações científicas.
Estas novidades alegram o dia e fazem-me acreditar num futuro melhor, de quem aspira e luta por um sonho desde tenra idade.
Obrigado à mãe.
E, sobretudo, muito obrigado ao Vasco.
Do Museu ao Convento – passeio comentado
«Do Museu ao Convento» | Passeio comentado
Venha fazer uma visita ao Património Histórico de Tavira, (re)visto pelos olhos de uma Historiadora de Arte e de um Paleontólogo | 21 de Janeiro, 15h

Cartaz do passeio comentado "Do Museu Ao Convento" uma parceria entre o Centro Ciência Viva de Tavira e o Museu Municipal de Tavira.
Natal Geotérmico
O bafo era quente.
Mal fora, já que provinha de um mamífero. Ao lado outro, mamífero e bafo, completava o bestial serviço. O felizardo com o ar tépido pêlos não tinha, apenas um têxtil mal engendrado lhe cobria a pele nua. Não fora o mistral dos animais, a cria não aqueceria.
Burro e vaca estavam ao serviço do filhote, mantendo-lhe caldo o corpo. Quais alergias, qual quê, o que importava era o calor para que a cria sobrevivesse.
Bafejado pela sorte sê-lo-ia, pelo menos até aos 33, mas agora era-o pelo calor.
Calor de um corpo alheio.
Este mísero intróito natalício, para além dos motivos sazonais óbvios, serve de introdução a breve descrição de uma descoberta científica.
Nas vastidões argentinas a presença de vários ninhos de dinossauros saurópodes já era conhecida. Paleontólogos argentinos apontam agora para que a fonte de calor necessária à incubação dos ovos daqueles animais tenha sido…a Terra.
Os investigadores apresentaram um conjunto de provas de que alguns dinossauros teriam utilizado a energia geotérmica como incubadora dos seus ovos.
A jazida de Sanagasta ofereceu vários ovos fossilizados de dinossauro, mais de 1000, com uma idade aproximada entre os 134 e os 117 milhões de anos. Para além desta actividade biológica passada, foi possível também identificar actividade hidrotermal da mesma época. As estruturas geológicas identificadas mostraram que naquela zona e na mesma altura teria existido actividade geotérmica.
Mas foram apenas estas informações que permitiram afirmar que um grupo de dinossauros utilizou o calor da Terra para incubar os seus ovos?
Não.
Análises geoquímicas revelaram também a influência de calor externo nos sedimentos onde foram encontrados os ovos fossilizados. Complementarmente, já se conheciam na Coreia do Sul ovos morfologicamente idênticos aos agora encontrados na Argentina. Os ovos coreanos procediam também de jazidas que geologicamente apresentavam a mesma influência hidrotermal. As coincidências reduzem-se…
Parece assim que a natalidade dos dinossauros saurópodes, mais concretamente dos Neosauropoda, está associada às condições ambientais, mais concretamente condições hidrotermais.
O Menino foi bafejado pelos mamíferos, já o sabíamos.
O que o passado do planeta nos revela agora é que os bebés dinossauros precisavam (também) do bafo da Terra para nela poderem caminhar.
P.S. Santo Natal, para todas as espécies!
(texto publicado também no jornal Sul Informação)
Referência:
Fiorelli, L., Grellet-Tinner, G., Alasino, P., & Argañaraz, E. (2011). The geology and palaeoecology of the newly discovered Cretaceous neosauropod hydrothermal nesting site in Sanagasta (Los Llanos Formation), La Rioja, northwest Argentina Cretaceous Research DOI: 10.1016/j.cretres.2011.12.002
Imagens:
1 – Aspecto da jazida de Sanagasta – do artigo referido.
2 – A-C Esquema do arranjo espacial dos ovos encontrados; D-F – imagens dos ovos fossilizados encontrados. Imagem do artigo referido.
Onde se cheiram cores?
(a minha pequena contribuição para o Dia Nacional da Cultura Científica, publicada no jornal Sul Informação)
Sentir com o coração é muito mais difícil, mas porventura muito mais comum, do que cheirar o vermelho, foi a conclusão a que cheguei no final deste texto.
Apesar de muito cansado, esta frase não atesta que eu possa ter perdido definitivamente o tino.
A máxima com que iniciei este texto pode servir de introdução à sinestesia. Não, não voltei a entrar pelos meandros da irracionalidade.
A sinestesia é uma condição neurológica na qual uma pessoa é estimulada sensorialmente sendo duas respostas sensoriais desencadeadas. Um sinestésico sente a forma de um cheiro ou o sabor de um som, por exemplo. Desta forma, as experiências sinestésicas podem conter várias respostas a um mesmo estímulo. Esta condição neurológica, apesar de rara, pode afectar até cerca de 4% da população, existindo diversas variantes.
A primeira vez que me deparei com esta característica neurológica foi com a minha cara-metade, andava ela a tactear a poesia de Fernando Echevarría, poesia que, segundo ela, tem como uma das pedras angulares a sinestesia – grita-me agora ela do outro lado da sala “Isso era a minha tese!”.
Deixemos as teses alheias e voltemos à sinestesia de Echevarría.
É a noite dos rios. Arrefece
Ter a longa pupila sombreada.
E as mãos velhas de ter sido verde
Ver-se passar a noite pela água.
(…)
O jornal i, de data incerta, proporcionou-me o segundo contacto com a sinestesia. Nele se relatavam as experiências ocorridas nas gravações de Jimmy Hendrix. Algures, contava o produtor, o guitarrista gritava-lhe algo como: “Preciso de mais verde aí…” ou “Isto estava perfeito se tivesse mais roxo…”, dizia Hendrix sobre partes das gravações. Poderão os conservadores afirmar que o verde que Hendrix pedia era uma consequência das doses cavalares de LSD que o virtuoso das cordas consumia. Pode ser; mas não deixa de ser sinestesia.
Apesar de vastamente descrita, a sinestesia ainda não é totalmente compreendida. É uma condição rara, afectando de maneiras distintas os sinestésicos. Uma das formas mais comuns é designada de sinestesia grafema-cor em que existe uma associação de cores a números ou a letras. Exemplos deste tipo de sinestesia podem ser compreendidos pela leitura do livro “Nascido num dia Azul” de Daniel Tammet, igualmente portador de síndrome de Savant. Tammet é capaz de indicar 22514 dígitos de Pi, graças à sua associação de números a cores. Uma prática semelhante, ao nível do cálculos matemáticos, é referida pelo famoso físico Richard Feynman.
De que cor é o se7e mesmo?
Para além da associação números/letras a cores, existem vários outros tipos de sinestesia, entre os quais:
-som-cor;
-palavra-sabor;
-sabor-toque;
-espelho-toque – o sinestésico sente o toque quando vê outra pessoa a ser tocada.
Uma verdadeira confusão de sensações mesmo depois da adolescência…
Embora a componente hereditária da sinestesia não esteja totalmente explicada, foram identificadas famílias com maior percentagem desta condição. A investigação científica tem vindo gradualmente a apontar para que poderá ainda existir uma ligação da sinestesia ao cromossoma X, dado que a proporção de mulheres vs. homens nesta condição neurológica é de 6 para 1. Alguns autores referem que a resiliência evolutiva deste gene, ou genes, poderá estar associada a processos criativos, entre os quais os de memória. Argumenta-se que as experiência sinestésicas poderão ter contribuído evolutivamente para que a retenção de informação sensorial se desse mais efectivamente.
Se virmos e cheirarmos sincronicamente o mundo talvez sobrevivamos melhor, acrescento eu.
Certo é que ainda permanecem muitas questões em aberto sobre a sinestesia.
Não posso mais. Caem lentas
e maduras como horas
de lágrimas. Não sustentas
robustas pedras sonoras.
Um coração ao compasso
de cada fruto maduro,
que rebenta quanto apuro
no silêncio do que faço.
Um coração passo a passo
do coração prematuro.
Referências:
Poemas de Fernando Echevarría retirados de Poesia 1956-1980, Edições Afrontamento (2000).
Brang, D and Ramachandran, V.S. (2011) Survival of the Synesthesia Gene: Why Do People Hear Colors and Taste Words? PLoS Biol 9(11): e1001205. doi:10.1371/journal.pbio.1001205
Hubbard EM, & Ramachandran VS (2005). Neurocognitive mechanisms of synesthesia. Neuron, 48 (3), 509-20 PMID: 16269367
Imagens:
de Brang and Ramachandran (2011) e daqui
Perspectiva do Cão
Tal como muito da vida, as coisas devem ser perspectivadas de vários ângulos, com o risco de nos enganarmos, fazermos algo maior ou mais pequeno do que realmente é.
A escala e a perspectiva andam de mãos dadas (?).

Imagem de Daniel Rodrigues – ” Vouga na pedreira”.









