Na Patagónia – I (continua)

(Num momento de enorme trabalho na tese, e em que me encontro num vai-não-vai para suspender o Ciência Ao Natural, publico, em várias partes, um resumo do trabalho de campo efectuado na Patagónia argentina, em 2005. Recordei-me deste diário devido à estreia – nos EUA – do documentário Dinosaurs 3D: Giants of Patagonia. Este trabalho foi efectuado na província de Neuquén. em 2004 já havíamos estado na províncias de Chubut e Rio Negro)

Sur o no Sur” (Sul ou não Sul) Kevin Johansen

Chegámos a Plaza Huincul depois de mais de 24 horas de viagem. A cidade, num sábado à tarde de calor, parecia deserta. Lembrava as cidades de um México cinematográfico – paradas à espera de algo que nunca acontece.
A equipa tinha-se instalado na base do Serro Portezuelo havia dois dias e enquanto esperávamos que nos viessem buscar procurámos um sítio onde comer. As horas não eram as mais adequadas – estava calor e tudo fechado.
Quando a noite já tinha caído apareceu um dos membros da equipa num Chevrolet antigo. Era Sérgio Cocca, do Museo Carmen Funes.
Partímos e após vários quilómetros de asfalto entrámos numa picada de terra onde as últimas luzes deram lugar à enormidade do céu patagónico. Procurava uma referência familiar nalguma constelação, mas tinhamos cruzado o equador!
O caminho ia-se complicando até que, num acesso apertado e cortado num dos lados por uma escarpa com cerca de 3m de altura, o veículo inclinou de tal forma que nos encolhemos uns contra os outros. Não subia. Sérgio, circunspecto até à exaustão (uma maneira muito própria de ser patagónico, como viemos depois a perceber) permanecia silencioso. Vanda e eu igualmente – o medo dá-nos por vezes para o silêncio, para não perturbar. Tentámos de novo mas não avançávamos. Parecia que escorregava. Sérgio finalmente disse algo: “Se queda!“. Pensámos: “mas fica o quê?”. No dia seguinte viríamos resgatá-lo.
Descarregámos as mochilas e começámos a caminhar. Apareceram depois, no meio da escuridão, parte do resto da equipa que pensaram ter havido um problema. Entre eles estava Rodolfo Coria, que nos convidou para esta “aventura”.
Caminhámos alguns quilómetros até que vislumbrámos luzes e o resto da equipa. Estavam numa depressão do terreno à volta de uma fogueira ainda sem jantar, à nossa espera. Levaram-nos depois às nossas “carpas” (tendas). Iria partilhar a minha com um jovem investigador do Museo de Cinco Saltos (cerca de 150 km de Plaza Huincul), Ignacio Cerda ou Nacho.
Deitei-me sem ainda ter intuído verdadeiramente onde estava…
Cerca das três da manhã, por motivos fisiológicos tive que deixar a tenda. Mal saí fui de novo “assaltado” pela enormidade do céu. Senti-me de uma pequenez extrema… Só pela vista deste céu a terrível viagem já havia valido a pena.
Agora havia que trabalhar…

(continua)

 

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