Peixes e tugas

(Publicado no jornal O Primeiro de Janeiro a 15/11/2007)
Pela segunda vez num curto espaço de tempo, a nomenclatura zoológica ocupa este espaço, depois de “Chernes e ornitorrincos”.

Explico: num hilariante artigo de Ferreira Fernandes no DN, soube da troca de galhardetes, entre o colunista Tony Parsons, do Daily Mirror e o embaixador português em Londres. Por motivos que aqui não repetirei, o cronista britânico dirigiu-se ao representante luso nos seguintes termos: “Feche a sua estúpida boca de comedor de sardinhas.” Não terá tomado muito chá este Tony Parsons.
O provérbio português afirma que “A mulher e a sardinha nem a maior nem a mais pequenina”, apoiando que o ponto médio da distribuição de tamanhos da sardinha será a melhor em termos gastronómicos. Quanto às mulheres talvez não seja tão verdade como isso. Ao jornalista inglês faltou um pouco de meio-termo, pois ansiava que o embaixador tivesse afastado a brasa da sua sardinha e, já agora se possível, sem a comer…
Peixe não puxa carroça, mas neste caso o cronista Daily Mirror sem dúvida que a puxou …
Estes mimos zoo-gastronómicos acordaram outras memórias da relação cultural dos portugueses com os peixes.

Em visita familiar ao Brasil, e para além de habitual repertório de anedotas sobre lusitanos, foi avisado de que os nossos conterrâneos eram frequentemente chamados de “papa-bacalhau” devido à nossa paixão por aquele peixe.
Há cinco anos atrás, encontrava-me a trabalhar no American Museum of Natural History, quando outra referência ao fiel-amigo e os portugueses, foi-me introduzida por uma zoóloga canadiana. Durante a nossa apresentação, fui brindado com “Ah, vocês comem muito bacalhau, não comem? É que os stocks estão quase a desaparecer por vossa causa!” Depois do aperto-de-bacalhau literal, tentei argumentar que o bacalhau era muito mais do que um mero alimento em Portugal, que o papel deste peixe na vida dos portugueses não se limitava apenas a satisfazer a gula de uma qualquer refeição. Como castigo desta argumentação, pouco tempo depois andava eu, desesperado de desejo, pelos supermercados mexicanos de Brooklyn à procura de uma mísera posta de bacalhau…

Continuando em ambiente ictiológico, sempre que num congresso ou numa revista científica um grande especialista opina, é habitual que os colegas portugueses o designem por truta. Não imagino a origem de tal designação nem o porquê de sermos um povo que apesar de venerar dois peixes de mar – o bacalhau e a sardinha – utilizarmos um peixe de rio como sinónimo de perito.
Paradoxalmente ao que se diz no ambiente académico, aprendi que “A truta e a mentira, quanto maior melhor”. Resta-me apenas continuar a aprender com os trutas da minha área…já agora, de todas as áreas.

Apesar de se poder cair na brejeirice, a alusão piscícola que mais me agrada, é a proferida pela comunidade masculina sempre que se avista uma representante do sexo feminino de bela morfologia: “Mas que faneca!”.
Concluindo só me resta concordar com o dito “ O peixe deve nadar três vezes: em água, em molho e em vinho.”

Imagens:
EGEAC
Pieter Bruegel – “Les gros poissons mangent les petits” (1557)
Prato de bacalhau com grão
Cate Blanchett, actriz de “Little Fish”
Gustave Klimt – “The Blood of Fish” (1898)

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Discussão - 10 comentários

  1. Bem lembrado Fernando!E realmente dá um belo “acrescento” ao artigo…Obrigado e abraçoLuís Azevedo Rodrigues

  2. Uma última sugestão (que me veio à memória vendo a primeira figura, do peixe estilizado) os primeiros cristão, pegando num acrónimo de Jesus Cristo em grego, usavam como seu símbolo o peixe. O José Bandeira, que trabalha no JN e DN, a quando da última polémica sobre crucifixos nas Escolas, publicou um cartoon sobre o assunto. Penso que, até porque a esmagadora maioria dos portugueses se diz cristã, também ficaria bem numa futura revisão deste texto…

  3. Caro Gustavo, Tens razão!!Mais uma que me passou. O que me intriga é o motivo -será fonético ou terá mais que ver com a morfologia do próprio peixe – para a escolha e associação dos piropos a determinado peixe?AbraçoLuís Azevedo Rodrigues

  4. Uma pequena nota, e continuando na linha brejeira que fechou o artigo, o “Mas que faneca!” tem vindo a ser substituído pelo “Ai carapau!”. Expressão que é normalmente proferida de forma audível pelo alvo do piropo, contrariamente ao “Mas que faneca” normalmente dito em surdina.

  5. É sempre bom lembrar S.J. Gould.Aquando do curso que deu em Lisboa, ficaram-me para sempre presas na garganta uma série de questões que lhe queria ter colocado, mas que por pudor reverencial da juventude, não coloquei.Recordo-me apenas que me disse, quando lhe pedi para autografar os seus livros, que deveriam ter sido muito lidos – estavam quase sem capa de tanto serem folheados.Gould foi uma das duas pessoas que me fizeram apaixonar pela História Natural e ter decidido ser paleontólogo.AbraçoLuís Azevedo Rodrigues

  6. Caro Luís:Excelente texto – qualquer dia começa a fazer um livrinhos como os do S.J. Gould (que nos deixou já há 5 anos e poucos falaram da sua morte) com estes materiais…Se não se importar, vou publicar com referência a autor e origem, este post no Geopedrados.

  7. Viva Björn Pål,Obrigado pela referência, em especial a da pesca com substâncias químicas naturais.Não tem mais informações?AbraçoLuís Azevedo Rodrigues

  8. Björn Pål disse:

    Alguém ser “truta” é alguém que é hábil, sabedor, “fino”, esperto; é alguém que ninguém apanha desprevenido.Como é uma truta num rio: são muito difíceis de pescar à linha e mais ainda à mão… estão sempre “atentas”.Quando eu era ganapo, há coisa de uns 25 anos, ainda havia trutas no rio da aldeia do meu pai, o rio Varosa (afluente do Douro); podíamos andar lá o dia todo mas apanhar trutas era preciso muita sorte ou manha ou recorrer a métodos menos éticos como “drogá-las” com raiz de sabuga – uma planta ribeirinha com um aspecto algures entre a salsa e o aipo e da qual apenas sei o nome que lhe é dado na zona.Daí o adágio de “truta” para alguém esperto, sabedor.

  9. Olá Abobrinha,Como compulsivo “comedor de cadáveres”, não basta pensar no número absoluto de habitantes que temos em Portugal. Temos que pensar na quantidade de bacalhau que comemos per capita.O que desejo, ao nível da preservação deste peixe, é que os chineses não descubram as maravilhas gastronómicas proporcionadas por este ser vivo!BeijinhosLuís Azevedo Rodrigues

  10. Abobrinha disse:

    LuísNão sei se o problema da troca de galhardetes se reporta a assuntos com peixes. Será mais o caso de camelos. Um só, no caso. A culpa da falta de bacalhau não é nossa mas de outros tipos que andam a pescar o desgraçado para fazer filetes. Nos meus tempos de comedora de cadáveres (entretanto virei-me para as vegetarianices) tive o desprazer de comer bacalhau fresco. É assim: estás a ver o nosso bacalhao seco? Não tem nada a ver! É outra liga e nem sequer a mesma modalidade! Eu sou menos moderada obviamente que tu: eu teria arrancado a cabeça à canadiana primeiro e perguntado depois! Sou muito pronta a reconhecer os nossos defeitos, mas quando dizem mal só por dizer, levam troco!Agora explica-me como é que um país pequeno com tradição de grande comedor de peixe pode fazer com que os stocks seja do que for entrem em rotura! Podemos ser grandes comedores de peixe, mas continuamos a ter só 10 milhões de habitantes! Não 100 milhões. Isso entra na mesma linha de culpar chineses e indianos por todos os males do planeta e arredores. Mas isso é outra história. E muita badalhoquice, que foi vagamente abordado num post com um título… estranho! Ora visiona!http://aboborapequenina.blogspot.com/2007/10/eu-e-os-paneleiros.html

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