Lâminas, Insectos e F1

ILUSTRACAO_LV_INSECTOS_LAMINAS_F1 (Large)(Publicado no jornal O Primeiro de Janeiro a 24/01/2008)
A formação paleontológica desperta frequentemente as questões que abordo.
Não foi o caso desta vez.
Estava eu em frente ao espelho, a preparar-me para a árdua e sisífica tarefa que pesa na vida de qualquer homem, o barbear, quando olhando existencialmente para as lâminas de corte me ocorreu o seguinte: “Mas estes tipos não param de aumentar o número de lâminas? Não haverá limite?”
Um flash da infância passou-me diante dos olhos – carros de F1 com seis rodas. Daí aos insectos foi um instantinho.
E agora, que faço eu com estes temas, pensei?
Ok, a Internet está cá para isso, pelo menos para as lâminas e F1, daí que comece antes com os conhecimentos da “casa”.
As seis patas de qualquer insecto (sim, as aranhas com as suas oito patas, não são insectos) são o resultado da sua história evolutiva.

Mas e seis patas resultam?
O caminhar de um qualquer elemento dos Hexapoda (literalmente 6 pés) envolve o levantar das duas patas extremas de um dos lados e a do meio do lado oposto, sendo este movimento completado com o baixar posterior para “empurrar” o animal; ao mesmo tempo, as outras três patas funcionam como um tripé de apoio. O ciclo completa-se com o movimento idêntico do outro lado. Por outras palavras, o andar de um insecto resume-se a apoio sequencial e alternado de “tripés”.

Manter o equilíbrio é fundamental em qualquer animal em movimento. E quanto mais pequeno mais difícil. Parece paradoxal que um animal pequeno tenha mais dificuldade em se equilibrar do que um grande, mas se pensarmos que equilibramos mais facilmente um pau grande do que um pequeno na ponta de um dedo, talvez entendamos melhor.

Assim, uma pata pequena será mais difícil de equilibrar que uma grande sendo o “modelo tripé” ideal para os insectos. O registo dos primeiros insectos data de há cerca de 390 milhões de anos, e parecem descender de artrópodes com muitas pernas em que se verificou posteriormente uma redução até às típicas seis, podendo aquele modelo de locomoção ter condicionado o seu sucesso evolutivo.

Ao contrário dos insectos, que apresentam condicionamentos evolutivos, as lâminas de barbear parecem ter outras limitações. Na minha breve história de vida, tenho assistido a um aumento no número de lâminas. Primeiro era uma lâmina, depois passaram a duas, três e agora já existem modelos com cinco bocados de metal capazes de nos cortarem as carótidas!
Mas para quê?
Marketing, dirão uns. Optimização do processo, dirão outros. A verdade é que desde 1971 (excelente ano, diga-se de passagem), quando a Gillete lançou o seu primeiro modelo com duas lâminas, o mercado destes utensílios tem assistido a uma corrida no número de lâminas.

Similarmente aos insectos, que possuem seis estruturas locomotoras, existiu uma fase na história da F1 em que os veículos apresentaram igual número de rodas. Nos anos 70 do século passado, várias equipas desenvolveram modelos experimentais com seis pneus. O mais conhecido e único que entrou em competição, o Tyrrell P34, foi seguido pelos March 2-4-0, Williams FW08B e o Ferrari 312T6, embora nenhum destes tenha alguma vez competido numa prova oficial. A história do P34 conta-se de forma breve: o engenheiro responsável, em 1976, tentou reduzir o atrito com o ar por intermédio da diminuição do tamanho das rodas dianteiras; parecia simples, mas o facto é que o carro perdeu estabilidade, tendo este facto sido resolvido pelo adicionar de mais um par de rodas…
O facto é que esta “revolução” não foi muito bem sucedida, caso contrário tinha-se generalizado. A “selecção natural” do desporto automóvel extinguiu os carros de seis rodas, tivessem eles dois pares de rodas na dianteira ou na traseira, porque não eram viáveis ante os de quatro.
E onde estabilizará o número de lâminas?

Referências:
Gaunt, M. W. and Miles, M. A. 2002. An Insect Molecular Clock Dates the Origin of the Insects and Accords with Palaeontological and Biogeographic Landmarks. Molecular Biology and Evolution 19:748-761.
http://en.wikipedia.org/wiki/The_Gillette_Company
http://www.f1nutter.co.uk/tech/6wheels.php

Imagens:
Ilustração inicial para este post de Luís Veloso – Intertoon.
IStockPhoto
e daqui

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Discussão - 8 comentários

  1. Olá Isabel!A barba cresce, apesar de eu nada fazer para isso!:)Obrigado pelo comentário!Luís Azevedo Rodrigues

  2. Caro anónimo,Apesar de ter publicado o seu comentário, que agradeço, não posso de deixar de dizer duas coisas:-discordo em absoluto com o Design Inteligente ou outro qualquer tipo de Criacionismo;-considero que, na maioria das vezes, quem advoga tais (como dizê-lo…) abordagens é desonesto em termos intelectuais;Não me alongo em mais comentários pois e minha declaração sobre estes assuntos já a deixei ” REL=”nofollow”>aqui CumprimentosLuís Azevedo Rodrigues

  3. Anonymous disse:

    este blog é muito, muito interessante…recomendo também este:http://designinteligente.blogspot.com/abraços

  4. Anonymous disse:

    Olá luis,pois…são problemas distintos e inversos.A palavra-chave é, obviamente, atrito. Se num caso a adição de um par de rodas o ia aumentar inviabilizando o objectivo final que, no fundo, é a rapidez no outro é precisamente aumentá-lo para que a tua barba fique bem feita :)Teremos lâminas ad eternum!!Gostei imenso das analogias do teu post.Isabel

  5. Luís Veloso,Tão bem ficou, que estou a pensar propô-lo como uma nova espécie entomológica!Forte abraçoLuís Azevedo Rodrigues

  6. Anonymous disse:

    Bem, o insectolâmina até que nem ficou mal na fotografia.Abraço.LV

  7. Fernando,:)Desde que se possa divulgar as (misérias ou não) que vou publicando,todos os “amores” são bons na divulgação científica!Forte abraçoLuís Azevedo Rodrigues

  8. Caro Luís:Com que então a trair o 1º de Janeiro com a ligação ao Público…?Agora a sério, os meus parabéns…!

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