Ciência Ao Natural

Paleontologist (PhD). Science Writer / Blogger Paleontólogo (PhD). Blogger de Ciência

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Paleontólogo (PhD); Divulgador de Ciência Paleontologist (PhD); Science blogger / writer Integrou a equipa do Museu Nacional de História Natural/ Universidade de Lisboa (2000-2008). O seu campo de investigação é a Evolução, análise morfológica (Morfometria Geométrica e Análise de Dados Composicionais) e locomoção. Efectuou trabalhos de escavação na Patagónia argentina (2004 e 2005) e Espanha, bem como de estudo dos dinossáurios de diversas colecções de Museus de História Natural – EUA, China, Argentina, Inglaterra, França e Alemanha, onde estudou e digitalizou em 3D daqueles animais. As técnicas de análise morfológica 3D que utiliza integraram-no igualmente em equipas científicas de Motricidade Humana. Da sua investigação faz parte também o estudo das pegadas de dinossáurio. Publica, desde 2004, artigos de divulgação científica em diversos jornais, bem como no seu blog - Ciência Ao Natural, blog convidado do jornal Público - e recebeu em 2007 o Prémio Super Blog Awards para o melhor blog em Educação e Ciência. Política, Arte e tudo o que é humano não será estranho no blog.

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    O Chapeleiro Louco e as Aves Desafinadas

    Categoria: BioderivadosComportamentoPro studio et labore
    Escrito em março 3, 2010 8:38 PM, por Luis Azevedo Rodrigues

    P04043_9.jpg - Naquela direcção - disse o Gato, levantando a pata direita - vive um Chapeleiro, e naquela, agitando a outra pata, mora uma Lebre de Março. Visita o que quiseres, ambos são loucos.
    - Mas eu não quero estar ao pé de gente louca - respondeu Alice.
    - Oh, não podes evitá-lo - disse o Gato. - Aqui todos são loucos. Eu sou louco. Tu és louca.

    Que têm em comum o Chapeleiro Louco e o canto das aves?
    A resposta tortuosa pode ser...o mercúrio.
    Não Mercúrio, o deus dos comerciantes, da eloquência e dos ladrões, mas antes o elemento químico.
    Vamos ver se consigo resumir.

    Há centenas de anos que tecidos de origem animal são utilizados na manufactura de chapéus. No século XIX, a pele mais apetecível para o fabrico de chapéus era a do castor, mas a caça a este animal implicou a sua escassez, o que levou à utilização de peles de coelho.
    As peles necessitam de um amaciamento prévio, sendo utilizados produtos químicos, normalmente compostos de mercúrio, como o nitrato de mercúrio (2; p.52).
    Não irei descrever os processos da manufactura de chapéus, apenas refiro que o carácter rudimentar da tecnologia química e das normas de segurança laboral envolvidas, colocava os chapeleiros em sérios riscos de contaminação por mercúrio, originando o hidrargirismo (nome da contaminação).
    309goya.jpgTremores físicos característicos, bem como várias patologias neurológicas designadas colectivamente de eretismo, são algumas das alterações provocadas pela intoxicação crónica por mercúrio. Timidez e irritabilidade extremas, alucinações e incapacidade de pensar correctamente, são também comportamentos típicos destas intoxicações.
    Este quadro clínico, muito comum no século passado entre os chapeleiros, contribuiu para a génese da expressão "Mad as a hatter" (louco como um chapeleiro).
    As alterações neurológicas por mercúrio poderão igualmente ter despertado o espírito criativo de Lewis Carroll na criação da personagem do Chapeleiro Louco, presente no intemporal "Alice No País das Maravilhas" (3).
    A literatura, desta vez, não parece ter sido maior que a Vida, antes se tendo inspirado num quotidiano tão pouco poético.

    O Chapeleiro foi o primeiro a quebrar o silêncio.
    - Em que dia do mês estamos? - perguntou, voltando-se para Alice.
    Tirara o relógio e olhava-o, inquieto, abanando-o de vez em quando e levando-o ao ouvido.
    Alice pensou e depois respondeu:
    - A quatro.
    - Dois dias atrasado! - disse o Chapeleiro com um suspiro.
    - Bem te disse que a manteiga não lhe faria bem! - acrescentou, lançando à Lebre de Março um olhar furibundo.
    - Mas era manteiga da melhor qualidade! - respondeu a Lebre de Março com brandura.
    - Sim, mas também devem ter entrado migalhas de pão lá para dentro - resmungou o Chapeleiro. - Não devias ter usado a faca do pão.

    Aves Desafinadas

    Thryothorus ludovicianus.jpgAs contaminações ambientais podem influenciar directa ou indirectamente muitas funções biológicas dos seres vivos. Entre as consequências temos, por exemplo, alterações dos ciclos reprodutivos, desenvolvimento de tumores ou até o canto de algumas aves.
    Investigadores americanos avaliaram o chilrear de três espécies de aves, a carriça da Carolina (Thryothorus ludovicianus), da curruíra (Troglodytes aedon) e do pardal-cantor (Melospiza melodia), numa área contaminada por mercúrio - South River, na Virgínia.
    Esta área industrial foi contaminada durante mais de 30 anos, sendo os níveis de mercúrio no sangue e nas penas das aves desta região muito superiores ao das aves de áreas circundantes.

    Este grupo de pássaros adquire as suas capacidades sonoras de "ouvido", ou seja por intermédio da audição de outras aves. Este facto exclui que diferentes performances sonoras possam ser de origem genética, sendo antes um reflexo de aprendizagens distintas. Desta forma, podem ser avaliadas as implicações ambientais nas alterações dos trinados das aves.
    Apesar dos resultados estarem condicionados pela diminuta amostra (veja-se, por exemplo a recta de regressão), este trabalho indicia que as aves em terrenos contaminados por mercúrio apresentam uma menor diversidade de sons emitidos do que as mesmas aves de terrenos não-contaminados.
    O mercúrio parece ter assim um papel uniformizante de uma característica que tanto apreciamos nas aves: o canto.
    Mas porquê? Estariam estes pássaros a enlouquecer, como os chapeleiros do século XIX?

    regressão.jpgOs resultados apoiam outros autores que já anteriormente haviam demonstrado que aves vivendo próximo de siderurgias apresentavam transtornos semelhantes, isto é, os seus cantos eram menos diversificados do que aves vivendo em áreas não-contaminadas.
    Poderemos pensar que se vivêssemos perto de uma siderurgia também teríamos pouca vontade de cantar....é verdade.
    Mas o click para este problema musical está no facto de que as contaminações por metais, como por exemplo o mercúrio, alteram a capacidade auditiva das aves juvenis, impedindo-as de escutar na plenitude as "lições" musicais do seus pais.
    Dito de outra forma: a cantoria das aves de South River tornou-se minimalista, menos diversificada, tanto no nível de intensidade, como na variedade de tons emitidos, devido às aves juvenis ouvirem mal os seus pais - os pais de adolescentes sabem do que estou a falar...

    Referências:
    ResearchBlogging.org
    1 - Hallinger, K., Zabransky, D., Kazmer, K., & Cristol, D. (2010). Birdsong Differs between Mercury-polluted and Reference Sites The Auk, 127 (1), 156-161 DOI: 10.1525/auk.2009.09058

    2 - Jacob, V. (2005). The Elements of Murder. A History of Poison. Von John Emsley. Angewandte Chemie International Edition, 44 (45), 7332-7332 DOI: 10.1002/anie.200585343

    3 - Waldron HA (1983). Did the Mad Hatter have mercury poisoning? British medical journal (Clinical research ed.), 287 (6409) PMID: 6418283

    4 - excertos de "Alice no País das Maravilhas"

    Imagens:

    Peter Blake `For instance now, now there's the King's messenger' , 1970

    Francisco de Goya Y Lucientes, The Yard of a Madhouse, 1794 - daqui

    Thryothorus ludovicianus: daqui

    Gráfico - de 1.

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    Commentários (4)

    1

    Luis,

    Excelente postagem meu amigo!

    Ninguém tem a preocupação com a preservação ambiental, imagine se teriam precosupação com os componentes químicos utilizados para muitos dos artefatos que são industrializados e que derivam de origem animal... Eles não querem nem saber...

    O vídeo é incrível.

    Parabéns!

    Bjs.

    Rosana.

    Escrito por: Rosana Madjarof | março 3, 2010 10:31 PM

    2

    (Apologies for English; I can read a little, but cannot write, Portuguese.)

    I should never have tried to learn Portuguese from Tom Jobim songs ("Quando eu vou cantar, você não deixa . . ."). So much confusion at first, but I think now I understand this post. Muito bem!

    Obrigado, Luis. You should see about translating this for the English ScienceBlogs -- a wonderful piece, that the Anglophone writers missed entirely.

    Escrito por: HP | março 4, 2010 5:22 AM

    3

    Um ótimo post! Parabéns, Luis, por concatenar temas aparentemente tão díspares numa bela narrativa de alerta quanto à importância da preservação ambiental.

    Escrito por: Sibele | março 5, 2010 12:22 AM

    4

    Excelente post... quer pela mensagem, pela informação cultural subjacente quer pela forma como tudo se conjuga neste texto. parabéns!

    Escrito por: geocrusoe | março 5, 2010 11:22 PM

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