O telefonema do poeta para o desempregado

O telefone não parava de tocar.
Sempre a mesma coisa, podia estar desempregado mas tinha mais que fazer que pegar naquilo.
Aquilo trazia-lhe notícias que não queria ouvir, graças que não eram as suas, ou apenas um cumprir de serviço do lado de lá da linha
Ou talvez não fosse isso, talvez não querer ouvir gente, ainda por cima gente com trabalho, trabalho que ele não tinha.
Pelo menos igual aos outros.
Tocava, continua a tocar, o telefone.
Quem quererá falar; e para cá.
Tinha que continuar a escrever. Decidira-o quando, há dois anos, o mandaram para casa.
Senhor Engenheiro, haviam tentado ser o mais corretos que sabiam, sendo a convocatória feita apenas pelo desempenho laboral, Senhor Engenheiro, a verdade é que deve encarar isto como uma oportunidade.
Sim, uma oportunidade. Como aquela que falta a quem lhe liga neste momento, sente.
Se calhar ainda querem explicar melhor porque o mandaram para casa. Ou o que fez com a oportunidade que lhe deram. Mas tem mais que fazer, tem que escrever. Agarrar a oportunidade.
Escrever para provar que podia fazer algo, ele que havia sido mandado para casa porque não tinham algo que ele pudesse fazer.
Porra para o telefone, que não se cala.
A escrita com horários, a fuga surgida da liberdade perdida de quem não tem trabalho.
O telefone chamava-o, tal como as linhas que escreveu.
Não lhes pôde fugir.
Ainda bem.
Foi atender.

P.S.- pela manhã, ao café como deve ser, uma história daquelas que inspiram e fazem apertar a garganta, daquelas que fazem ainda ter esperança em que há sempre que andar para frente, pôr ordem nas palavras, nas palavras que faltam em dias de excesso de números.
Ainda que não conheça a história feita nesses dois anos, fica a história do telefonema que se atrasou dois anos.

Imagens: do jornal Público de 19 de Outubro de 2011. As minhas desculpas pela má qualidade das imagens:

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Discussão - 4 comentários

  1. luisa mendes disse:

    Parabéns João pelo prémio atribuido mas, já agora, aproveito este “momento” para um pequeno desabafo. Tamém sou autora da Leya nomeadamente da Texto Editores, ganhei o 2ª Prémio na feira de Frankfurt, o ano passado, com uma coleção que fiz para o Pré-Escolar em parceria com outra autora. É triste a não divulgação e o não reconhecimento público que não tivemos quer pelo nosso trabalho quer pelo prémio atribuido por parte da Editora.

  2. Antónia, para além de muito simpática, és muito exagerada.
    A história é que é linda, pelo menos para mim.

    Beijo

    Luis Azevedo Rodrigues

  3. Não olho a justeza do prémio, nem o sentimento que possa ter inspirado ao vencedor, olho, sim, e foi isso que me moveu a comentar, a sensibilidade profunda da tua escrita. A tua sensibilidade. Obrigada.

  4. Sibele disse:

    Que bacana!

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