Dinossauros com prazo de validade

“Podemos ressuscitar dinossauros a partir do ADN, como fazem no Jurassic Park”.

É uma das perguntas mais populares nas minhas palestras. Procuro sempre responder que, em termos teóricos, eventualmente seria possível fazê-lo num futuro mais ou menos próximo.

Boa!, vislumbro nos olhos das pessoas.

Museu de Dinossauros de Lufeng (China)

O olhar de alegria das pessoas que escuta a primeira parte da minha resposta desaparece num ápice quando acrescento que o principal problema reside na capacidade de resistência do ADN.

Ou seja, o ADN tem um prazo de validade, de resistência às alterações, e que a sua preservação, durante milhões de anos, é muito diminuta, acrescento.

O ADN após a morte do organismo é rapidamente atacado por nucleases (enzimas) que superam o trabalho reparador de outras enzimas. Este ataque origina a quebra das ligações entre os nucleótidos que constituem as cadeias de ADN. Ainda que as condições de preservação sejam excepcionais, como baixas temperaturas, dessecação rápida ou que as células sejam preservadas em altas concentrações salina, o ADN sofre para além do ataque das nucleases outros males: radiação, oxidação ou hidrólise (1). Todos estes factores originam que as propriedades do ADN de animais ou plantas muito antigos não sejam preservadas.

Mas a minha resposta à pergunta “É possível ressuscitar um dinossauro através do ADN fossilizado?” tem agora uma nova actualização: calculou-se o prazo de validade para que o ADN mantenha as suas características intactas* e este prazo é de…6.8 milhões de anos (2).

Museu de Dinossauros de Zigong (China)

É esta a janela de tempo estabelecida por Mike Bunce, da Universidade de Murdoch (Austrália) e colegas, nos quais se incluem Paula F. Campos, da Universidade de Coimbra e Museu de História Natural de Copenhaga.

Analisando uma amostra de ADN mitocondrial de 158 fragmentos de osso da Moa (ave extinta australiana) os investigadores determinaram que o máximo temporal para a preservação do ADN é de 6.8 milhões de anos.

Apesar de este prazo ser inferido a partir de modelos matemáticos e estar condicionado por condições físicas específicas, não deixa de ser um tecto temporal máximo que impede muitas especulações.

O prazo de validade, passe a expressão dos lacticínios, revelado por esta recente investigação desmoraliza a hipótese de que o ADN dos dinossauros não-avianos estivesse em condições, quando a técnica o permitisse, para reconstituir esses animais do passado.

Autor digitalizando esqueleto apendicular de Omeisaurus – Museu de Dinossauros de Zigong (China)

Enquanto recuperamos da desilusão de alguma vez podermos ver vivo um dinossauro não-aviano, porque não conhecer melhor os descendentes dos dinossauros, numa palestra sobre as Aves em Lagos, ou mesmo reviver a vida dos dinossauros desaparecidos, como na exposição “T. rex quando as galinhas tinham dentes”, a partir da próxima 2ª feira no Pavilhão do Conhecimento?

 

Referências:

(1) Nicholls H (2005) Ancient DNA Comes of Age. PLoS Biol 3(2): e56. doi:10.1371/journal.pbio.0030056

(2) The half-life of DNA in bone: measuring decay kinetics in 158 dated fossils.

Proc Biol Sci. 2012 Oct 10.

 

Imagens: Luís Azevedo Rodrigues

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Discussão - 4 comentários

  1. cleber disse:

    ola! bom eu arecem li em algum site que as aves sao dinossauros evoluidos e que ainda contem o codeigo genetico em seu DNA só que esta desativado, mas existe sim um tratamento com produtos quimicos pu genomas entao as galinhas poderam creçer criar calda e os dentes que elas posuiam antes de acontecer a mudança..

  2. Pincelli,

    O problema é que o ADN degrada rapidamente e não é possível se obter a sequência original.

    Uma alternativa parcial é usar a sequência de ADN reconstituída a partir de proteínas – mais resistentes. Mas não teríamos toda a sequência – especialmente das regiões promotoras e controladoras – poderia se tentar a estratégia do parêntese evolutivo – comparar com a sequência em crocodilianos e em aves.

    []s,

    Roberto Takata

  3. Olá Renato,

    Do que li, uma vez que não sou bioquímico, nos anos 80 fizeram-se tentativas de reparação de ADN (trabalhos de Svante Pääbo eTomas Lindahl) mas que não se obtiveram grandes resultados. Nessas tentativas utilizaram-se “enzimas de reparação” com vista a, precisamente, repararem parte das ligações químicas danificadas do ADN.
    Julgo que fosse essa sua pergunta…

    Se baixar o artigo (1) deste texto está lá parte desta informação.

  4. Renato Pincelli disse:

    Luis,

    E se, em vez de usar o DNA (ou ADN) com “prazo de validade vencido”, usássemos material genético baseado no antigo, porém recém-sintetizado? Seria possível?

    Abraços!

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