Esta é Nossa

O pouco que se fez muito no meu sentir Portugal aconteceu quinta-feira.
Num mundo de homens-cópia* e países-clone, na quinta fomos diferentes.
Celebrámos um homem que não era cotado em Londres ou Tóquio, que não tinha valor em Nova Iorque.
Era rico em coisa nenhuma, vendia o que não dá lucro, esbanjava tempo, em tempos de crédito mal-parado.
Era homem num mundo de ratices.
Dizia adeus de braços abertos, sem nada em troca.
Há tempos assim.
Tempos em que sinto gana de não ser de outro lado que de um país que acena a quem passa.
País que tinha um bom louco que acenava.
Dá-nos pão?
Se calhar, mas pão para um alma desgastada.
Há maior poesia que esta?
Há.
Mas esta é nossa.

O Adeus, ao Sr. do ADEUS from João Nunes on Vimeo.

P.S. – para os meus queridos leitores do Brasil em baixo poderão perceber sobre quem falo no texto:
Aqui, aqui e aqui
* – palavra de José Manuel dos Santos, um dos melhores cronistas portugueses.

A Imortalidade de Um Saco Plástico

Sobre o vórtice do pacífico.
Sobre os dramas existenciais.
Sobre a morte e a necessidade de sermos desejados.
Sobre nós.
Tudo a partir da imortalidade de um saco plástico.
P.S. – uma lição de conservação planetária, bem melhor que lamechices à Al Gore.

Fonte – “Future States”
Inspiração – Micaela Sousa, “a place to be”

O regresso da tipa

bill,brandt,black,white,classic,miners,photography,south,wales-71269b11297e5b74c3e7f0ca3dd876cf_h.jpgA tipa iniciou o seu degredo quando eu ouvi um dia “O Inferno são os outros”.
Exagero, sempre me pareceu, embora com os anos uma patine de verdade lhe tenha assentado. E ela começou a ir-se.
Cada vez a vejo menos. Há dias que se foi de vez, penso.
Bancos, governos corruptos e/ou incompetentes, entre muitas outras inerências à condição humana, originaram que a frase de Sartre se tornasse um mantra para o mundo. Mantra a que resisto, é certo, mas persistente.
A crise gerada por homens que comem homens, outrora apelidados de canibais mas hoje em dia baptismo de especuladores financeiros, lançou o mundo na confusão e no caos. Estados que foram em auxílio da banca, à custa dos seus cidadão, pagam agora aquela ajuda com juros muito superiores.
Como há-de ela voltar?
A tipa tem razão, melhor que não a vejam.
O Inferno são os bancos?
Talvez.
O cinismo existencialista de Sartre não foi, nem é capaz de atrofiar a alegria quando vi o último mineiro chileno sair da cova.
A tipa, cada vez mais solitária nos dias que voam, insiste em regressar-me.
Gosto dela sempre que me visita, mesmo que à saída de uma mina chilena. E ainda que a tentem afastar com Sartrices do tipo “Só se safaram porque as TV’s quiseram” ou “Havia de ser na China que iam ver o que lhes tinha acontecido”, a verdade é que ela voltou-me.
Por quanto tempo?
Não sei.
Há dias em que a tipa me volta a aparecer.
Ainda bem que voltaste, esperança.
Imagem: Bill Brandt – Miners Returning to Daylight, South Wales (1931-35)

Janelas que Vêem

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Os olhos são a porta para a alma, sempre ouvi dizer.
O senso mais que comum sempre arriscou o erro.
Até que descobri que a alma está lá trás, mesmo atrás das janelas que vêm.
O consenso popular é agora racional.
“Capacidade de introspecção localiza-se atrás dos olhos
Capacidade de introspecção foi localizada
O processo de pensar sobre o próprio pensamento, de reflectir sobre as próprias decisões, ou seja, a capacidade de introspecção, parece estar localizada numa região específica do cérebro – no córtex pré-frontal, situado atrás dos olhos.
Nos indivíduos que têm maior capacidade de introspecção, a massa cinzenta é maior, segundo um estudo realizado no Reino Unido com 32 pessoas. Contudo, os cientistas ainda não sabem se estas características cerebrais reflectem diferenças anatómicas inatas ou se são resultado da aprendizagem.
(…)”

Imagem – Susan Manvelyan

O Lado Negro da Gravidez

Tudo em ouvir e ver…

Brincadeiras Encenadas

enknygtrrrn.jpgSaio para fumar, já que os livros amontoados nas prateleiras não desejam a poluição.
E, já agora, a bibliotecária também não.
Nas escadas, três catraios andam aos pulos.
Fazem-me sinal para que me afaste.
“Raio dos putos”, resmungo.
“Só me faltava que fossem como o outro…”.
Um que me atacou o cigarro, às portas do Museu de História Natural de Nova Iorque, sob o olhar aprovador do pai radical da saúde.
Não eram.
Pediam-me que me afastasse porque o meu cigarro, e já agora o resto de mim, estavam no seu set de filmagem.
Sim, os catraios, dos seus 10-12 anos, estavam em plena filmagem das suas brincadeiras.
“Vens a correr bué, agarras nas escadas…”, corrimão, deveria querer dizer… “…e saltas com as pernas tipo aquele gajo do filme…”.
Quem assim falava era o mandão.
Uma mão no telemóvel, a outra a coreografar a brincadeira, tudo filmando, apenas variando cada plano.
O puto. Com os outros putos.
Agarrado ao meu vício, observava-os, tentando respeitar a distância que o realizador me havia imposto.
Irra.
As brincadeiras são parecidas com as de outrora, mas estas podem ser vistas e revistas.
E minimalmente, os putos repetiam-nas.
Para uma perfeição exigida pelo YouTube, julgo.
Abandonei o meu companheiro químico e regressei ao poiso.
Os livros estavam nas prateleiras e eu não queria interromper as filmagens.
E muito menos as brincadeiras.
Imagem: Shazeen Samad

No final é só o que resta

tumblr_kopdl3UCJq1qzn7g8o1_500.jpgNo final é só o que resta.
Afinal desde o começo que já cá estava.
Apenas levemente suspensa, pela outra.
Mas sempre presente.
A única companheira.
No arrastar dos dias, tapada entre outras neblinas, é a única certeza.
Ou quase.
Olhamos o céu, o mar, ou espelho, e ei-la.
Julgamo-nos maiores que ela porque a pensamos e reconhecemos.
Maiores que todas as vidas que nos rodeiam e que temporariamente a encobrem.
Sozinhos com ela.
ResearchBlogging.org
“(..) workers of the ant Temnothorax unifasciatus dying from fungal infection, uninfected workers whose life expectancy was reduced by exposure to 95% CO2 and workers dying spontaneously in observation colonies exhibited the same suite of behavior of isolating themselves from their nestmates days or hours before death. Actively leaving the nest and breaking off all social interactions thus occurred regardless of whether individuals were infected or not. Social withdrawal might be a commonly overlooked altruistic trait serving the inclusive fitness interests of dying individuals in social animals.”


«”When Pansy lay down in a nest that one of the other apes had made, the rest gathered around her and began grooming and caressing her. Shortly before she died, all three crouched down and inspected her face very closely. They then began to shake her gently. “It is difficult to avoid thinking that they were checking for signs of life,” said Anderson.
“After a time, it seemed that the chimpanzees arrived at a collective decision that she had gone. Two left immediately, but one, the other adult female, stayed and held her hand,” said Anderson.»

Referências:
Heinze, J., & Walter, B. (2010). Moribund Ants Leave Their Nests to Die in Social Isolation Current Biology, 20 (3), 249-252 DOI: 10.1016/j.cub.2009.12.031
Imagem:
Magdalen of the night light, Georges de La Tour

Nojo por Inês

68095327-9bff570db374e7fd6c999a1411cf0ec5.4bceb3b6-full.jpgLeio agora que à Sr.ª Inês de Medeiros, deputada do PS, irá ser paga uma viagem semanal a Paris, em executiva. Quatro viagens por mês, brilhantemente concluo.
Aquando da sua candidatura à Assembleia da República, a dita Inês apresentou como morada oficial um endereço de Lisboa.
Assim, iremos todos pagar, com voluntário deleite, uma viagem semanal da tribuna à cidade das luzes, uma vez que aquela se deverá encontrar desocupada.
A morada de Lisboa, não a deputada.
Feliz fico por o meu Estado recompensar tanto em viagens a Paris da parlamentar como o que paga a quatro professores, ou a seis bolseiros de investigação científica, ou mesmo a quase dez trabalhadores com o salário mínimo.
Delirante continuo, por o meu país investir em viagens executivas a Paris para uma meritosa Inês de Medeiros que oficialmente reside em Lisboa, mas suspeita ter a sua família em Paris.
Os quatro professores, ou seis bolseiros de investigação científica, ou os salários mínimos, que se calem. O seu valor não é comparável à Sr.ª Medeiros, que tanto tem feito pelo bem-estar de Portugal. Tanto, que necessita purgar-se semanalmente à beira Sena dos afazeres lusitanos.
Nojo.
É o que sinto.
Pelos invejosos quatro professores, seis bolseiros de investigação científica, ou dez trabalhadores com o salário mínimo, que se roem de inveja maledicente das viagens da deputada Inês de Medeiros.
Nojo por Inês.
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P.S. – breve biografia da deputada do PS, Inês de Medeiros – do site da Assembleia da República:
“Habilitações Literárias – Frequência de Licenciatura em Literatura Portuguesa (Universidade Nova de Lisboa), Estudos Teatrais (Sorbonne Paris). Profissão – Autora”

Fim da Infância

Da primeira vez que folheei a revista não percebi o drama.
Só numa segunda abordagem involuntária, talvez ampliada pela luz do meio-dia, me despertou para a aberração.
Ao contrário do que Peter Pan explicitamente apregoava, as crianças de hoje não se querem crianças.
Adultos precoces ou, mais pavoroso, adolescentes cool, com laivos de sexualidade à la MTV.
Não sei que pensar.
Talvez os tempos actuais impliquem uma precocialidade de aparência.
Talvez.
O desfasamento é tanto maior quanto é do senso comum que as crianças de hoje em dia revelam uma altricialidade pouco vulgar noutros tempos, dependentes dos pais para tudo, mesmo para brincar.
Velhas nas roupas; crias dependentes nos comportamentos.
P.S. – a revista do El País de hoje revela pelo menos cinco anúncios de roupa para criança nos quais se vê tudo menos crianças.
Precocial – “Cria independente e activa pouco tempo depois de ter eclodido”
Altricial – “Cria muito dependente dos pais quando eclode”

Imagens – revista do jornal El País de 28 de Março de 2010.
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O Chapeleiro Louco e as Aves Desafinadas

P04043_9.jpg – Naquela direcção – disse o Gato, levantando a pata direita – vive um Chapeleiro, e naquela, agitando a outra pata, mora uma Lebre de Março. Visita o que quiseres, ambos são loucos.
– Mas eu não quero estar ao pé de gente louca – respondeu Alice.
– Oh, não podes evitá-lo – disse o Gato. – Aqui todos são loucos. Eu sou louco. Tu és louca.


Que têm em comum o Chapeleiro Louco e o canto das aves?
A resposta tortuosa pode ser…o mercúrio.
Não Mercúrio, o deus dos comerciantes, da eloquência e dos ladrões, mas antes o elemento químico.
Vamos ver se consigo resumir.
Há centenas de anos que tecidos de origem animal são utilizados na manufactura de chapéus. No século XIX, a pele mais apetecível para o fabrico de chapéus era a do castor, mas a caça a este animal implicou a sua escassez, o que levou à utilização de peles de coelho.
As peles necessitam de um amaciamento prévio, sendo utilizados produtos químicos, normalmente compostos de mercúrio, como o nitrato de mercúrio (2; p.52).
Não irei descrever os processos da manufactura de chapéus, apenas refiro que o carácter rudimentar da tecnologia química e das normas de segurança laboral envolvidas, colocava os chapeleiros em sérios riscos de contaminação por mercúrio, originando o hidrargirismo (nome da contaminação).
309goya.jpgTremores físicos característicos, bem como várias patologias neurológicas designadas colectivamente de eretismo, são algumas das alterações provocadas pela intoxicação crónica por mercúrio. Timidez e irritabilidade extremas, alucinações e incapacidade de pensar correctamente, são também comportamentos típicos destas intoxicações.
Este quadro clínico, muito comum no século passado entre os chapeleiros, contribuiu para a génese da expressão “Mad as a hatter” (louco como um chapeleiro).
As alterações neurológicas por mercúrio poderão igualmente ter despertado o espírito criativo de Lewis Carroll na criação da personagem do Chapeleiro Louco, presente no intemporal “Alice No País das Maravilhas” (3).
A literatura, desta vez, não parece ter sido maior que a Vida, antes se tendo inspirado num quotidiano tão pouco poético.
O Chapeleiro foi o primeiro a quebrar o silêncio.
– Em que dia do mês estamos? – perguntou, voltando-se para Alice.
Tirara o relógio e olhava-o, inquieto, abanando-o de vez em quando e levando-o ao ouvido.
Alice pensou e depois respondeu:
– A quatro.
– Dois dias atrasado! – disse o Chapeleiro com um suspiro.
– Bem te disse que a manteiga não lhe faria bem! – acrescentou, lançando à Lebre de Março um olhar furibundo.
– Mas era manteiga da melhor qualidade! – respondeu a Lebre de Março com brandura.
– Sim, mas também devem ter entrado migalhas de pão lá para dentro – resmungou o Chapeleiro. – Não devias ter usado a faca do pão.


Aves Desafinadas
Thryothorus ludovicianus.jpgAs contaminações ambientais podem influenciar directa ou indirectamente muitas funções biológicas dos seres vivos. Entre as consequências temos, por exemplo, alterações dos ciclos reprodutivos, desenvolvimento de tumores ou até o canto de algumas aves.
Investigadores americanos avaliaram o chilrear de três espécies de aves, a carriça da Carolina (Thryothorus ludovicianus), da curruíra (Troglodytes aedon) e do pardal-cantor (Melospiza melodia), numa área contaminada por mercúrio – South River, na Virgínia.
Esta área industrial foi contaminada durante mais de 30 anos, sendo os níveis de mercúrio no sangue e nas penas das aves desta região muito superiores ao das aves de áreas circundantes.
Este grupo de pássaros adquire as suas capacidades sonoras de “ouvido”, ou seja por intermédio da audição de outras aves. Este facto exclui que diferentes performances sonoras possam ser de origem genética, sendo antes um reflexo de aprendizagens distintas. Desta forma, podem ser avaliadas as implicações ambientais nas alterações dos trinados das aves.
Apesar dos resultados estarem condicionados pela diminuta amostra (veja-se, por exemplo a recta de regressão), este trabalho indicia que as aves em terrenos contaminados por mercúrio apresentam uma menor diversidade de sons emitidos do que as mesmas aves de terrenos não-contaminados.
O mercúrio parece ter assim um papel uniformizante de uma característica que tanto apreciamos nas aves: o canto.
Mas porquê? Estariam estes pássaros a enlouquecer, como os chapeleiros do século XIX?
regressão.jpgOs resultados apoiam outros autores que já anteriormente haviam demonstrado que aves vivendo próximo de siderurgias apresentavam transtornos semelhantes, isto é, os seus cantos eram menos diversificados do que aves vivendo em áreas não-contaminadas.
Poderemos pensar que se vivêssemos perto de uma siderurgia também teríamos pouca vontade de cantar….é verdade.
Mas o click para este problema musical está no facto de que as contaminações por metais, como por exemplo o mercúrio, alteram a capacidade auditiva das aves juvenis, impedindo-as de escutar na plenitude as “lições” musicais do seus pais.
Dito de outra forma: a cantoria das aves de South River tornou-se minimalista, menos diversificada, tanto no nível de intensidade, como na variedade de tons emitidos, devido às aves juvenis ouvirem mal os seus pais – os pais de adolescentes sabem do que estou a falar…
Referências:
ResearchBlogging.org
1 Hallinger, K., Zabransky, D., Kazmer, K., & Cristol, D. (2010). Birdsong Differs between Mercury-polluted and Reference Sites The Auk, 127 (1), 156-161 DOI: 10.1525/auk.2009.09058
2Jacob, V. (2005). The Elements of Murder. A History of Poison. Von John Emsley. Angewandte Chemie International Edition, 44 (45), 7332-7332 DOI: 10.1002/anie.200585343
3Waldron HA (1983). Did the Mad Hatter have mercury poisoning? British medical journal (Clinical research ed.), 287 (6409) PMID: 6418283
4 – excertos de “Alice no País das Maravilhas”
Imagens:
Peter Blake `For instance now, now there’s the King’s messenger’ , 1970
Francisco de Goya Y Lucientes, The Yard of a Madhouse, 1794 – daqui
Thryothorus ludovicianus: daqui
Gráfico – de 1.

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