SciCom PT 2013: algumas ideias sobre comunicação de ciência

Aqui ficam algumas notas do Congresso de Comunicação de Ciência em Portugal (SciCom PT 2013), que decorreu nos dias 27 e 28 de Maio no Pavilhão do Conhecimento, em Lisboa – em modo telegráfico.

Roberto Keller-Perez

1) Conheci diversas pessoas com quem interagia há muito mas que nunca havia contactado pessoalmente. A frase que mais utilizei no SciCom foi “Finalmente conhecemo-nos em pessoa, fora do Facebook/Twitter/mail!”.
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Parecendo que não, e parafraseando o José Vítor Malheiros, nada como o contacto pessoal para a comunicação ser melhor. E isto é importante em Comunicação de Ciência.

603058_532781540118721_78180035_n2) A Comunicação de Ciência deve servir para que os cientistas divulguem o seu trabalho. Mas também para que parem, pensem e meditem sobre o que andam a fazer profissionalmente. De outra forma: a divulgação de Ciência pode ser para o cientista um momento zen (ou de horror) perante o seu trabalho e as perguntas científicas que lhe estão na base. Baudouin Jurdant disse-o e concordo, embora ele não precise da minha opinião para nada.

3) A generalidade dos cientistas e comunicadores de Ciência não sabe comunicar visualmente.
Esta foi uma das ideias da sessão que moderei, Comunicação Visual na Comunicação de Ciência. Vendo a generalidade dos posters e apresentações do SciCom PT verifiquei que os comunicadores de Ciência necessitam investir mais na sua literacia visual. Esta necessidade pode ser respondida por colaborações interdisciplinares, com ilustradores de Ciência e designers de comunicação.

419994_532779290118946_971022329_nSe é verdade que nos últimos anos tem sido feito um esforço grande na formação dos comunicadores de Ciência, sobretudo fornecida por jornalistas, também é certo que a formação na componente visual tem sido minorada ou apenas negligenciada.

4) O público, em particular as crianças e os jovens, pode colaborar em projectos de divulgação através da formulação de perguntas directas aos cientistas.

378133_532780246785517_2035098939_nColocar perguntas objectivas, como se de hipóteses a testar se tratassem. Pedro Russo* disse-o e complementou que, apesar de difícil, esta abordagem é muito interessante ao nível da participação do público na Ciência.

Esta perspectiva pode gerar alguma resistência pelas dificuldades formais na sua implementação prática. Reconheço que sim mas é um dos pontos fundamentais no envolvimento do público na Ciência: permitir que façam questões científicas, por mais banais que sejam.

3928_532326933497515_547621968_n5) Apesar de estar rodeado de comunicadores de ciências, tarimbados no contacto pessoal e capacidade de resumir e comunicar, verifiquei que uma frase e um objecto conseguem intimidar a generalidade. A frase é “Tens 45 segundos para mim?” e o objecto um gravador. Compreendo que o tempo está caro, que a minha figura pode ser intimidante, especialmente quando o tento evitar, mas sempre esperei que o gravador os acalmasse. A verdade é que muitos dos colegas comunicadores de Ciência se assustam com um gravador, pelo menos ao início.

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As breves respostas de alguns dos comunicadores de Ciência que estiveram no SciCom poderão ser ouvidos no programa Ciência Viva À Conversa especial – abaixo.

Livro de resumos do SciCom PT (PDF).

Até ao SciCom PT 2014 no Porto!

Os depoimentos de alguns participantes ficaram registados em mais um programa Ciência Viva À Conversa.

*Pedro Russo apresenta neste texto “Porque é que o Público se há-de Interessar (em Ciência)?“a sua comunicação convidada e é um excelente texto sobre a Comunicação de Ciência – podem também descarregar a sua apresentação.

Imagens: Estas e outras fotos de Roberto Keller-Perez do congresso poderão ser vistas aqui.

Congresso SciCom 2013

Apenas algumas linhas antes de rumar a Lisboa para participar no Congresso SciCom 2013.
A minha participação passou pelo (honroso) convite para fazer parte da Comissão Científica, ter avaliado bastantes abstracts, dois pósters (“Das Igrejas Às Calçadas: Geologia e Paleontologia Urbanas no Algarve” e “Um Gravador e Pessoas: divulgar a Ciência na rádio”).

No último dia irei moderar as apresentações e debate “A comunicação visual na comunicação de ciência

O livro de resumos e programa poderão ser descarregados aqui.

Até lá…

scicom-blogue2Congresso de Comunicação de Ciência

SciCom PT 2013

:: Envolver o público
:: Envolver os cientistas
:: Envolver os media

27 e 28 de Maio de 2013 | Pavilhão do Conhecimento, Lisboa

O Congresso de Comunicação de Ciência 2013 pretende ser um ponto de encontro e discussão para todos os que trabalham e se interessam pela comunicação e divulgação da Ciência.
A comunidade de profissionais que se dedicam à investigação, promoção, comunicação e disseminação de ciência em Portugal tem-se desenvolvido consideravelmente nos últimos anos, com o correspondente aumento na quantidade e qualidade do trabalho realizado nestas áreas. Paralelamente a este crescimento, o interesse pelas questões científicas e tecnológicas e a procura de informação científica aumentou de forma sensível nos diferentes sectores do público.

Com esta evolução, também amplificaram as oportunidades e a necessidade de actualização, de debate e de interacção na comunidade de profissionais de comunicação de ciência. O Congresso de Comunicação de Ciência – SciCom PT 2013 pretende ser uma plataforma ao serviço desses objectivos.”


A partir já de amanhã, e antecedendo os dois dias de congresso, começa a (A)Mostra | Filmes e Ciência.

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“Organizada pela Associação Viver a Ciência (VAC) no âmbito do Congresso de Comunicação de Ciência SciCom 2013, apresentará um panorama de trabalhos produzidos nesta área em Portugal nos últimos 10 anos, desde longas-metragens documentais a vídeos educativos e episódios de séries televisivas.

Os Paquidermes do Rei D. Manuel I

360_rectInformação recebida da Fundação Calouste Gulbenkian relativa à exposição 360º Ciência Descoberta

Os Paquidermes do Rei D. Manuel I. Elefantes E Outra Exótica na Menagerie da Corte Portuguesa

13 março | Annemarie Jordan, Centro de História de Além-Mar, Lisboa

Os encontros com novos mundos na Ásia, África e nas Américas proporcionaram à Corte portuguesa uma oportunidade única para obter animais selvagens desconhecidos. O comércio e as relações comerciais trouxeram essas novidades para a Europa, abrindo mercados globais que os colecionadores reais portugueses exploraram com o apoio de comerciantes e agentes. Quanto mais exótico fosse o animal mais era valorizado. Os animais domésticos exóticos davam cor à vida quotidiana, às festas e entretenimentos, desempenhando um papel essencial na criação de coleções reais ao longo do século dezasseis. As coleções de animais ferozes em jaulas tornaram-se no prolongamento ao ar-livre das Kunstkammer (Gabinetes de Curiosidades) e o colecionar animais europeus, africanos e asiáticos refletia, de forma microcósmica, as coleções de raridades no interior, exibidos em jardins sumptuosos, também eles plantados com árvores e flores ornamentais importadas. Os colecionadores reais na Renascença dedicavam-se a uma cultura de coleções de animais ferozes em jaulas e de jardins, de acordo com a qual animais e plantas, símbolos do poder e prestígio de um proprietário, eram reunidos e plantados para deslumbrar e assombrar.

ANNEMARIE JORDAN GSCHWEND

A Research Scholar with the Centro de História de Além-Mar (CHAM) in Lisbon and Switzerland since 2010, she obtained her Ph.D in 1994 from Brown University, writing a dissertation on the court, household and collection of Catherine of Austria, queen of Portugal (1507-1578). Her areas of specialization include patronage, collecting, menageries and Kunstkammmers at the Renaissance courts in Austria, the Netherlands, Spain and Portugal. In recent years, this research has focused on the court culture, patronage and collections of Habsburg women: in particular the sisters, wives and aunts of the rulers: Philip II of Spain, and the Emperors Charles V and Maximilian II. A further specialization of hers focuses on the cultural and artistic transfer between Africa, Asia, Brazil and the Renaissance Habsburg courts.

She is author of numerous publications (articles, exhibition catalogue essays and contributions in books), including her own books: Retrato de Corte em Portugal. O legado de António Moro (1552-1572), (Lisbon, 1994), The Story of Süleyman. Celebrity Elephants and other Exotica in Renaissance Portugal (Zurich, 2012), and a recent biography on the Portuguese queen, Catherine of Austria: Catarina de Áustria. A rainha colecionadora, (Lisbon, 2012). She wrote several entries on Portuguese royal patrons and patronage for the Macmillan Dictionary of Art (London, 1996), and contributed two lengthy essays on the queens Leonor and Catherine of Austria for the Getty Foundation project: The Emperor Charles V and the Inventories of the Imperial Family, directed by Fernando Checa Cremades, published in 3 volumes (Madrid, 2010).

Dr Jordan was recently decorated by the Portuguese government with the Order of Henry the Navigator for guest curating the international exhibition:  Ivories of Ceylon. Luxury Goods of the Renaissance, which venued in 2011 at the Museum Rietberg in Zurich. This was the first exhibit ever on Portugal during the Age of Discovery to be shown in Switzerland.

Since 2008, she has been Project Director and Coordinator of a 5 year research project funded by the J. Paul Getty Foundation in Los Angeles on the life and career of the Austrian Imperial Ambassador in Spain, Hans Khevenhüller. The publication of Statesman, Art Agent and Connoisseur: Hans Khevenhüller, Imperial Ambassador at the Court of Philip II of Spain is expected in 2013-2014.”

 

Calvin das Neves

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Depois de ter lido estas declarações do Catedrático João César das Neves recordei-me do pensamento de um seu colega, Calvin.

O Calvin faz-me sorrir; o João César nem por isso.

 

Referências:Revista Visão e Calvin and Hobbes.

 

MATH ATHEIST (Medium)

Carneiros, pardais e Copérnico

Sistema solar JoePlockiPelo Natal, um salto de pardal.
Em Janeiro, salto de carneiro.

A minha avó Rosa, mulher rija do Douro e de quem herdei a cor dos olhos e algum mau-feitio, contava-me este provérbio.
De memória, que de outro registo não sabia.
Sempre me socorri desta frase para explicar os dias tristes de Inverno, com longas noites e curtos dias, na esperança de que o tempo das tardes grandes finalmente chegasse.
De há uns anos para cá, o mantra da avó Rosa começou a intrigar-me: porque é que do Natal para Janeiro o crescimento dos dias é tão notório?

A avó Rosa, tenho a certeza, sabia muito da vida e de contar histórias (motivo pelo qual eu gostava de ficar em casa doente …mas isso é outro rosário), mas desconhecia a forma da órbita da Terra, bem como a inclinação do eixo do nosso planeta.

Os dias crescem e decrescem, todos nós observamos o fenómeno ao longo do ano. Mas serão essas variações uniformes, até que ponto está o provérbio da duração dos dias está correcto?

A duração dos dias está dependente sobretudo da inclinação do eixo da Terra relativamente ao seu plano de órbita. O nosso planeta não está perfeitamente verticalizado relativamente à sua órbita em torno do Sol, sendo a inclinação de aproximadamente 23.5º.
Se a avó Rosa fosse viva, dir-lhe-ia que a Terra era como um carrossel a girar em redor do Sol mas que os animais e os bancos de madeira estavam inclinados. A avó Rosa responderia apenas que o carrossel estava mal feito. Eu refilava: para além de inclinado, o girar do carrossel também não era perfeito.
crochetNesse momento agarrava-a pelo avental, porque a avó Rosa estaria já farta da minha história, e completava que a torre que costuma estar no centro do carrossel também não estaria bem no centro. Assim, as crianças que andam neste carrossel ora passam mais próximo da torre, ora se afastam dela, a cada volta que dão.
Mas que raio de carrossel mais estranho pensaria a Rosa Correia de Galafura.

E que tem isto que ver com os dias e os carneiros de Janeiro?
Esta história, que gostaria ter contado à minha avó, ilustra as duas condicionantes da variação da duração dos dias e das noites ao longo do ano.
A soma destes dois efeitos – efeito da órbita elíptica da Terra (ou ligeiramente elíptica) e a inclinação do seu eixo relativamente ao plano de órbita, são os motivos dos dias crescerem e decrescerem ao longo do ano.
Dirão os mais atentos que até agora nada de novo, tirando a avó Rosa que desconheciam.

Pois foi ela mesmo, e o dia de Copérnico, que me fizeram acabar este simples texto que perdurava na gaveta digital de textos inacabados.
A Rosa de Galafura sabia de histórias e muitas me contou.
Copérnico sabia apenas o seu lugar no Universo, o que não é nada mau.

(texto publicado no P3)

Imagens:
JOE PLOCKI/FLICKR
e
Daqui

Podcast Ciência Viva À Conversa | 24 Jan – 14 Fev

Os quatro mais recentes podcasts do Ciência Viva À Conversa – duas conversas; uma sobre a alfarroba e a produção de energia; a outra, sobre a Ciência e a Instrução no Algarve dos séculos XVIII e XIX.

maria emília costaMaria Emília Costa, professora da Universidade do Algarve e líder do projecto Alfaetílico, no laboratório onde a sua equipa investiga.

patricia de jesus palmaPatrícia de Jesus Palma, investigadora da Universidade Nova de Lisboa, na palestra que deu no Centro Ciência Viva de Lagos.

Fotos: Luís Azevedo Rodrigues

Os meus dias já foram mais pequenos

 (Este texto foi escrito como a minha colaboração para a ação interCiência, em que eram trocados de forma anónima textos entre blogs. Este texto foi a minha “oferta” para o blog Curioso Realista, onde foi publicado originalmente.
Aproveito-o agora para para ser publicado aqui e também no jornal Sul Informação).

george meliésQuando crianças os dias parecem durar e durar, havendo tempo para (quase) tudo. Há tempo de sobra para brincar, rir e fazer tudo e mais alguma coisa.
À medida que ganhamos rugas e dores nas costas, a divindade do tempo infinito encolhe e parece que o tempo já não é o que era.
Ele não chega para nada, que está cada vez mais curto, que o tempo corre mais que a gente.
Quantas vezes já escutámos “O meu dia deveria ter 25 horas” ou “Só queria mais umas horas por dia”.
As mudanças de percepção que a idade traz à duração dos dias são isso mesmo, mudanças na percepção.

Mas os dias já foram mesmo mais pequenos. Por outras palavras, a Terra já demorou menos tempo a efectuar o seu movimento de rotação.
tidal forcesO nosso planeta já teve dias mais pequenos do que as 24 horas a que estamos habituados.
A responsabilidade pelo aumento dos dias cabe às marés, sendo estas provocadas pela atracão gravitacional da Lua sobre o nosso planeta.

De forma breve: a atracão da Lua sobre a Terra origina acumulação de água do mar no lado que está diante dela (maré alta) e também do lado terrestre oposto*. Simultaneamente existirão locais onde essa água “faltará”, observando-se nestes locais a maré baixa.

Como o sentido da rotação da Terra é o mesmo que o da translação da Lua, mas muito mais rápido, gera-se um efeito de fricção da água do mar com os fundos oceânicos, que, aliado à inércia da própria água, abranda a rotação da Terra.
Um efeito semelhante também é exercido pela Terra sobre a Lua. Como a Terra tem muito mais massa do que o nosso satélite, o nosso planeta já conseguiu deter o seu movimento de rotação, motivo pelo qual vemos sempre a mesma face da Lua.

Não entrarei em maiores detalhes sobre a mecânica celeste deste processo, mas refiro apenas que a Terra sofre actualmente um aumento nos seus dias de cerca de 1.8 milissegundos por século – alguns autores referem 2.3 milissegundos por século.
tidal bulgeObrigado pela ajuda, dirão os mais necessitados de dias maiores, em tom de sarcasmo.

A estes responderei que simulações feitas por computador permitiram deduzir que os dias tinham, quando a Terra estava no seu início, apenas 6 horas. Aquilo que a maior parte de nós passa hoje a dormir era a duração de um dia inteiro há cerca de 4.5 mil milhões de anos.
Mais: a análise do ritmo do crescimento diário de corais fossilizados, por exemplo, permitiu deduzir que a duração dos dias há 400 milhões de anos era de 22 horas.

E agora, caros desejosos-de-dias-maiores, estão satisfeitos com a vossa situação actual? Dias com 24 horas?
Era muito pior há milhões de anos.
Sim, porque, ao contrário de nós à medida que envelhecemos, os dias da Terra vão ficando cada vez maiores. Literalmente.

* por motivos de simplificação para o caso que se descreve omite-se o efeito do Sol.

Referências:

Williams, George E. (2000). Geological constraints on the Precambrian history of Earth’s rotation and the Moon’s orbit. Reviews of Geophysics, 38 (1) pages 37–59.

Imagens:

1 – La Voyage dans la Lune de Georges Méliès
2 – Daqui
3 – Daqui

Devaneios evolutivos…

394952_530625956958420_24964258_nEsta imagem/post, retirado e mais do que partilhado pela página de Facebook “I fucking love science” é uma excepção às suas excelentes e divertidas imagens-mensagem.

E porquê?

1  “You are the result of 3.8 billion years of evolutionary success”
O aparente topo evolutivo ocupado pelo ser humano, de alguma forma reflectido no texto desta imagem, não é verdadeiro, já que a nossa espécie é um acaso da História Evolutiva da vida na Terra.
Ao contrário do que está implícito, a Evolução da vida não tem o ser humano como o pináculo evolutivo, o seu porto de chegada, o seu mais perfeito representante, o final do caminho da vida sobre a Terra, isto apesar da nossa existência actual ser fruto de um sem número de sucessos intermédios.
Seremos tão pináculo evolutivo da História da Terra como outros seres vivos actuais – representantes no presente de várias linhagens de seres vivos que singraram ao longo do tempo.
2 Outra mensagem que poderá induzir em erro, e subjacente neste texto, é que a Evolução é sinónimo de um cada vez maior aperfeiçoamento e complexidade dos organismos, sendo o representante deste conceito nesta imagem/texto o ser humano.
Isto não é de todo verdade.
Embora existam casos de incremento de complexidade, a Evolução conduz* também a redução de complexidade biológica, à diminuição de estruturas, entre outras alterações morfológicas e/ou fisiológicas.
Evolução biológica não é sinónimo de maior complexidade – pode ou não sê-lo.

3 Ainda outra mensagem subjacente é a de cariz moral/comportamental. Devemos actuar em função do sucesso obtido pelos nossos antepassados, sejam eles mais ou menos distantes.
O que não me agrada nesta mensagem é a mistura entre sucesso evolutivo e a matrizes de comportamento moral/ético. Isto talvez possa justificar parte do sucesso evolutivo recente dos nossos antepassados, mas não justifica a esmagadora maioria do tempo geológico.
O singrar de um organismo e o sucesso de um código de conduta, embora possam estar interligados, são questões distintas, sendo perigoso generalizá-los.
Se nos focarmos no comportamento humano e na diversidade de valores éticos e morais existentes, então estaremos de certeza a misturar alhos com bugalhos quando afirmamos que nos deveremos comportar em função do sucesso biológico de um passado tão longínquo como o de há centenas ou milhares de milhões de anos.

Apenas alguns devaneios evolutivos…já há muito debatidos e analisados por outros muito melhores do que eu.

* a utilização deste vocábulo é exagerada, sendo aqui utilizada por simplificação na leitura.

Podcast Ciência Viva À Conversa 2013

CIENCIA VIVA A CONVERSA LOGOÉ o regresso do espaço de rádio e podcast Ciência Viva À Conversa.

Depois dos 23 programas que gravei, com a excelente e indispensável edição do Director de antena da Rádio Universitária do Algarve, Pedro Duarte, retomamos este programa semanal.

Para além da difusão na Rádio Universitária do Algarve à 5ª feira (8h15, 12h15 e 15h15), o programa pode ser ouvido e descarregado nos sites dos Centros Ciência Viva no Algarve (Faro, Lagos e Tavira), no site do jornal Sul Informação, no site da RUA e e também no sítio de arquivo, para além deste blog (na barra lateral).

 

ADELINO CANARIOO primeiro programa Ciência Viva À Conversa de 2013 é com Adelino Canário do Centro de Ciências do Mar (CCMAR) e que será concluído na próxima 5ª feira.

 

O mais antigo dinossauro?

Imagine que descobria fotos antigas e que estas eram de um antepassado seu.

O que pensaria?

Iria procurar semelhanças na fisionomia entre si e a fotografia, seguramente.
Não foram fotos mas fósseis que permitem agora apresentar à grande família dos dinossauros o seu mais antigo familiar (ou muito próximo disso).
O Nyasasaurus parringtoni [1] foi escavado em 1930, no que é hoje a Tanzânia, tendo sido estudado na década de 50, tendo nessa altura permanecido como material inconclusivo. Recentemente uma equipa de paleontólogos americanos e ingleses retomou o estudo deste material e verificou a sua importância. O Nyasasaurus, em homenagem ao lago Niassa, também chamado Malawi, tinha um tamanho de 2 a 3 metros e pesava entre 20 a 60 kgs (parâmetros estimados). Este animal viveu no Triásico médio, há aproximadamente 235 milhões de anos, o que faz dele o mais antigo dinossauro que se conhece.

Dinossauro?

Úmero de Nyasasaurus e estrutura microscópica de secção deste osso (Nesbitt et al. 2012)

A análise morfológica e filogenética dos vestígios de Nyasasaurus (úmero e várias vértebras) permitiram apontar para que este animal seja o mais antigo dinossauro que se conhece ou um representante primitivo de um grupo-irmão dos dinossauros.
A anatomia dos ossos encontrados permitiu identificar a presença de características únicas dos dinossauros, nomeadamente a presença de uma crista deltopeitoral alongada no úmero* [2], zona do osso do membro anterior (braço) onde se inseriam músculos, bem como outras particularidades anatómicas na cintura pélvica.
Para além destas evidências exteriores, a análise microscópica aos tecidos ósseos também permitiu descobrir que este animal apresentava padrões rápidos de crescimento ósseo, típico também dos dinossauros.
Apesar destas evidências, muitas das características anatómicas presentes nos dinossauros, a equipa de paleontólogos que o descreveu ainda não está totalmente segura de posicionar o Nyasasaurus como um verdadeiro dinossauro ou, em alternativa, como pertencendo a um grupo irmão dos dinossauros.

Úmeros de vários sauropodomorfos com algumas estruturas anatómicas destacadas (Rodrigues 2009). Comparar com úmero de Nyasasaurus.

O aparecimento dos dinossauros

Para além de ser mais um elemento para a história da vida na Terra, o Nyasasaurus aumenta o conhecimento do aparecimento e diversificação do grupo de animais de enorme importância ecológica no Mesozóico – os dinossauros. Este animal faz recuar em 15 milhões de anos o surgimento dos dinossauros, caso se verifique ser o Nyasasaurus um verdadeiro dinossauro, como tudo leva a apontar.
Nos últimos anos os paleontólogos que se dedicam aos estudos dos dinossauros têm investido muito quer na prospecção, quer no estudo e descrição de vestígios de vertebrados no Triásico. Este período da história da Terra assistiu ao conjunto de fenómenos biológicos que terá levado à diversificação e proliferação do grupo Dinosauria, grupo que viria a proliferar nos milhões de anos que se seguiram.
Há assim uma enorme vontade científica em descobrir e perceber a origem dos dinossauros.

 

Triásico, Tanzânia e Portugal

Além desta tendência de escavação em sedimentos do Triásico, também se tem verificado uma outra vertente da investigação em dinossauros: começar a olhar para as coleções de fósseis escavados no século passado. Há assim uma re-escavação dos sedimentos, sendo que desta vez a prospeção é feita nas caves e depósitos dos Museus de História Natural.
De referir que foram alemães, em particular Werner Janensch, que efetuaram diversas campanhas de escavação na Tanzânia logo a partir de 1909** do século passado. Não é este o caso já que o Nyasasaurus foi escavado por Francis Rex Parrington, paleontólogo inglês da Universidade de Oxford.

Em Portugal existem vários locais com rochas sedimentares de idade triásica sendo os potencialmente mais interessantes, do ponto de vista paleontológico de vertebrados, os localizados no Algarve, num conjunto de sedimentos de ambiente continental que se designam genericamente de Grés de Silves.
Mas do Triásico falaremos um destes dias.
Agora é o momento de comemorar a chegada de um parente antigo dos dinossauros…ou próximo deles.

* compare-se o úmero de Nyasasaurus com os vários úmeros de saurópodes [2] e as respetivas cristas deltopeitorais.

** algum do material procedente da Tanzânia está nas coleções do Museu de História Natural de Londres e no Museu de História Natural de Berlim.

A segunda parte desta história (link) descreve o que se passou com material fóssil da Tanzânia e que era…radioativo.

Referências:

[1] Nesbitt SJ, Barrett PM, Werning S, Sidor CA, Charig AJ. 2012 The oldest dinosaur? A Middle Triassic dinosauriform from Tanzania. Biol Lett 9: 20120949. http://dx.doi.org/10.1098/rsbl.2012.0949

[2] Rodrigues, L.A. Sauropodomorpha (Dinosauria, Saurischia) appendicular skeleton disparity: theoretical morphology and Compositional Data Analysis. Ph.D. Thesis. Universidad Autónoma de Madrid, Madrid – Spain, Supervised by Professor Angela Delgado Buscalioni and Co-supervised by Professor Jeffrey A. Wilson, University of Michigan, Ann Arbor. December 2009. ISBN 978-84-693-3839-1.

Imagens:

A – Natural History Museum, London/Mark Witton / SL.

B - Natural History Museum / SL

C – Rodrigues 2009

(PUBLICADO NO JORNAL SUL INFORMAÇÃO)

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