Fórmula 1 ou Contas de Merceeiro?

Da leitura rápida dos jornais da manhã resultam três memórias, interligadas, ou talvez não.

Afirma primeiro Nuno Crato, em páginas do DN, que o país tem que ajustar orçamento do ministério da Educação às suas possibilidades. Do país, não dele.

Do que tenho visto, as talhadas de aprendiz de magarefe financeiro feitas na Educação impossibilitarão que algum dia se faça o que fez o engenheiro chefe da Red Bull (Fórmula 1): ter formação mais do que excelente e capacidade de resposta célere em situação de aperto.

O orçamento para a Educação, no país destes dias, apenas dará para fazer as contas como as da tabela do campeonato: duas equipas com os mesmos pontos apesar de o somatório dos resultados ser diferente.

Este orçamento para a Educação fará de nós merceeiros de contas erradas ao invés de engenheiros de Fórmula 1.

Imagens: da edição do Diário de Notícias de 27 de Novembro de 2012.

Par e Ímpar

Par e ímpar de um mesmo país.
Par e ímpar de um mesmo jornal.
Na página par do jornal anuncia-se “Navegar a 100 MB”. Confronta-se o português cliente com a pergunta “E tu?”, obrigando a vergonha de quem não navega a tal espantosa velocidade.
Na página ímpar, ao lado da anterior, o título do artigo anuncia “Um país a marcar passo”, revelando que “portugueses andam menos de transportes públicos e transportes individuais”.
Se não andam é porque estão parados, deduzo eu.
Esta falta de mobilidade física “é mais uma vítima da crise”.
Cada vez mais rápidos virtualmente.
Cada vez mais parados fisicamente.
Par e ímpar do mesmo jornal.
Par e ímpar do mesmo país.

P.S. o jornal é o Expresso de 21 de Julho de 2012.

 

Imagem:”Argus, Mercury and Io”, Jacob van Campen (1596?-1657)

Nota: A interrogação quanto ao ano de nascimento é minha pois encontrei referências a 1595 e 1596.

 

A Formiga e a Europa

ResearchBlogging.org(Publicado no jornal Barlavento, 28 de Julho de 2011)
Os tempos mudaram.
O que se dizia de Esquerda e viu o país afundar, afastou-se.
Por cá e, verdade seja dita, um pouco por toda a Europa, os sinais da crise económica e de valores são cada vez mais ensurdecedores.
A Europa afunda-se?
Talvez. Porque é cada um por si e, pensamos nós erradamente, a Comissão Europeia por todos.
Falta-nos um verdadeiro esforço conjunto, uma causa que nos cimente, que nos una.
A solução para o dilúvio existencial e económico que se aproxima passa por aprendermos não com os gurus da Economia, os visionários da Tecnologia ou outros quaisquer bruxos, mas com… uma formiga, mais concretamente a Solenopsis invicta.

Apesar do seu nome comum ser formiga-de-fogo, há muito que um comportamento deste animal na água desperta a curiosidade dos biólogos. Originária da América do Sul, embora esteja distribuída um pouco por todo o mundo, esta formiga reage a inundações formando pequenas jangadas cujos constituintes são as próprias formigas.
Um estudo recente da Universidade de Geórgia Tech revelou que, de uma forma absurdamente simples, as formigas da espécie Solenopsis invicta em momentos de inundação conseguem sobreviver graças à sua união.
Se individualmente as formigas apresentam uma capacidade hidrofóbica razoável, sendo capazes de flutuar, essa capacidade é muito maior se se unirem.
Nos momentos em que as águas tudo invadem, e esses momentos são frequentes nas florestas tropicais, as formigas unem-se literalmente às suas companheiras, cravando as suas mandíbulas e exercendo forças 400 vezes superiores ao seu peso corporal, formando assim uma verdadeira jangada.
Esta jangada, revela o estudo, é uma massa viscosa e elástica formada por “moléculas” que são as próprias formigas. A estrutura flutua graças à sua capacidade para repelir as moléculas da água, muito maior quando as formigas-de-fogo se unem às suas irmãs.
Desta forma, a sobrevivência deste animal passa pelo colectivo e não pelo individual. Este comportamento foi quantificado e modelado pelos investigadores, que foram assim capazes de comprovar as vantagens evolutivas das jangadas de formigas-de-fogo.
O modo invejável como a Solenopsis invicta faz frente aos dilúvios poderá servir para a velha Europa e para Portugal.
Tudo o que recentemente se passou de momento não interessa.
O que agora interessa é não nos afundarmos mais ainda com a inundação não prevista, não tratada, enfim… não cuidada.
O que a Europa desconhece ou não quer ver é que a salvação individual passa pela salvação colectiva.
Que abdicar de alguma parte do grupo, ou de um país, não é a solução, antes o apressar do fim.
Somos apenas quando fazemos parte, quando o somos em grupo, apesar e com a nossa individualidade, seja da pessoa, seja do país.
Sozinhos aguentamos, até cairmos por fim.
Em grupo venceremos.

Referência Mlot, N., Tovey, C., & Hu, D. (2011). Fire ants self-assemble into waterproof rafts to survive floods Proceedings of the National Academy of Sciences, 108 (19), 7669-7673 DOI: 10.1073/pnas.1016658108
Imagem: adaptada do artigo. Esquerda – o carácter moderadamente hidrofóbico de um indivíduo de Solenopsis invicta. Direita – a jangada submersa pelos investigadores revelando bolsa de ar.
Vídeo – material suplementar do artigo.

O Défice Certo

27_mythol_.jpgA necessidade de anestesiar o meu centro de tomada de decisões fez-me, uma vez mais, ligar a TV.
Pendentes imagens de flácidos corpos jorravam da caixa.
A visão de transformação corporal que aquela exibição ordenava acordou o órgão hibernante.
A crise económica actual da Europa, ou de parte dela, mais não é do que um prolongamento do concurso televisivo às realidades geográficas e sociais que são os países europeus.
Há que emagrecer, dizem os neo-económicos.
Cortem na Saúde que vos torna países menos bonitos em termos orçamentais.
Subsídios de desemprego são maus para a vossa capacidade de encantar, há que os reduzir. Educação pública faz com que vos olhem de lado na rua.
Cortem, cortem, cortem…
O reality show do momento é este: o FMI não vos deixará viver com a dieta dos últimos seis anos
Imagem: Peter Paul Rubens, “The Drunken Silenus” (1616-1617)

Tempos de Crise – apertar o coração e o fígado

texto publicado no jornal Barlavento, 9 de Dezembro de 2010
PDF do artigo
A adaptação é fundamental para que se sobreviva.
Animal, planta, empresa ou mesmo uma relação sentimental, todos se devem adaptar a novas condições.
animal-mummies-gazelle-615.jpg
A contenção é tanto mais importante quanto maiores forem as adversidades ambientais. Um destes ambientes com condições de vida inóspitas é o deserto, onde as altas temperaturas dificultam a sobrevivência, as grandes amplitudes térmicas entre o dia e a noite tornam o ambiente inacessível à maioria dos seres vivos. Contudo, é a falta de água que, de forma directa (para beber) ou indirecta (reduzindo o número de plantas que são a base da cadeia alimentar) condiciona a habitabilidade dos desertos.
Como é que, então, sobrevivem os animais que habitam esses ecossistemas com tais condições extremas?
Num artigo da revista “Physiological and Biochemical Zoology” são apresentadas alguns dos mecanismos de sobrevivência em ambientes desérticos.
A espécie analisada, a gazela da areia – Gazella subgutturosa marica, habita o Deserto da Arábia, um dos locais com condições climáticas mais extremas a nível mundial. Os investigadores verificaram que estes animais eram os que apresentavam menores perdas de água destes ambientes. Ainformação, embora importante, não surpreende, pois é a resposta que se espera de animais que sobrevivem nos desertos.
Como evitar, então, as perdas de um bem tão precioso como a água?
Nas nossas casas sabemos que quando a entrada de dinheiro diminui só há uma coisa a fazer para equilibrar o orçamento: cortar nos gastos.
Pois a gazela faz exactamente o mesmo, embora deixar de ir ao cinema esteja longe dos seus pensamentos… Em momentos de maior carência hídrica e alimentar, estes animais reduzem quer o peso do fígado, quer o peso do próprio coração. As alterações fisiológicas naqueles órgãos revelam a diminuição na taxa metabólica, ou seja, da actividade celular dos organismos.
Assim, tal como fazemos na economia doméstica em tempos de necessidade, as gazelas apertam literalmente onde podem – corações e fígados.
Contudo, descobriu-se que estes animais aumentam o conteúdo de gordura no cérebro, oferecendo ao órgão fundamental a energia necessária ao seu funcionamento nos momentos difíceis.
Assim, as gazelas do Deserto da Arábia conseguem contornar os tempos de crise – reduzem o peso do fígado e coração mas aumentam a gordura no cérebro.
Pura economia biológica.
Pena é que a redução do coração e fígado económicos, que estamos a aguentar, não seja acompanhada do correspondente engordar do cérebro governativo.
Imagem – National Geograhic

No país do palhaço

days.jpgNo país do palhaço há que sair, fugir.
No país do palhaço as gargalhadas são de despedida amarga.
No país do palhaço os motivos continuam os mesmos de sempre.
No país do palhaço volta-se no Natal para matar o mesmo bicho da saudade.
No país do palhaço vai-se pelas mesmas razões de há 30 anos mas salta-se a fronteira em low cost.
No país do palhaço a dor de não poder criar os filhos na terra dos avós continua a mesma.
Movimento emigratório actual comparado ao da década de 60
O presidente da Comissão de Especialidade de Fluxos Migratórios, Manuel Beja, julga que é preciso recuar até à década de 1960 para encontrar uma vaga de emigração tão grande em Portugal.
“É plausível”, admite João Peixoto, da Universidade Técnica de Lisboa. Jorge Malheiros, do Centro de Estudos Geográficos, acha que não.
Ninguém sabe ao certo quantas pessoas estão a virar as costas. Portugal, como quase todos os membros da UE, não faz inquérito de saída. A única hipótese é coligir a estatística dos países de destino, tarefa que o recém-criado Observatório de Emigração já iniciou. Mesmo assim, João Peixoto faz três ressalvas: as estatísticas tendem a não ser comparáveis; a recolha não distingue movimentos temporários de permanentes; e a oferta de emprego não é a que era antes da crise. Muito por força da livre circulação, a nova vaga está concentrada na UE, ou em territórios muito próximos, como a Suíça ou Andorra, nota a coordenadora do observatório, Filipa Pinho. Embora se desbrave caminho na Ásia e em África – com Angola à cabeça.
Manuel Beja dá o exemplo da Suíça. O contingente de cidadãos de nacionalidade portuguesa passou de 173.278 em 2004 para 196.186 em 2008. E, “no ano passado, entravam em média mil por mês”. Paradigmático, para Filipa Pinho, é o caso de Espanha: o número de pessoas nascidas em Portugal a residir no país vizinho passou de 71 mil para 136 mil entre 2004 e 2008. Manter-se-á? A taxa de desemprego entre trabalhadores portugueses a residir em Espanha subiu de 4,7 por cento no final de 2007 para 21,89 por cento no final de 2009, revelou o INE espanhol. O exemplo do Reino Unido mostra outro aspecto: o número de nascidos em Portugal passou de 68 mil para 83 mil entre 2004 e 2008. A comunidade ultrapassa os 300 mil nas estimativas consulares de residentes de nacionalidade portuguesa. O que incluirá, atalha Jorge Malheiros, portugueses lusos, descendentes de emigrantes, ex-imigrantes e descendentes de ex-imigrantes.
A culpa não é só do desemprego, que já ultrapassa os 10 por cento, sublinha João Peixoto, que é também membro do Conselho Científico do Observatório da Emigração. Nos anos 90, Portugal vivia um período de crescimento e nem por isso deixou de ter emigração. A culpa é também do diferencial de rendimento entre os portugueses e os outros europeus. E de uma cultura de emigração.
Na década de 60 e na primeira metade de 70, chegavam a sair mais de 100 mil por ano. Por maior que seja a dimensão actual, para Malheiros, não faz sentido comparar. Não só por a geografia da mobilidade ser outra. Também pela forma. As emigrações já não são longas ou definitivas, mas temporárias – por vezes mesmo pendulares: “Nos anos 60, na teoria, a emigração era muito regulada. Agora, as pessoas têm direito a procurar trabalho noutros países da UE. Muitas vezes, saem para prestar serviços específicos e de duração limitada – na construção civil, no turismo, na agricultura. O mercado é muito flexível.”
Ana Cristina Pereira, Público, 3 de Fevereiro de 2010
Imagem:
daqui

Toda a Diferença

market.jpgNão sei se constituirá um indicador económico credível ou universal.
Ou que possa ser mesmo um índice de preços daquele hipermercado.
O que vi, após uma primeira reacção de impaciência, foi apenas um pai e um filho.
Jovem o progenitor; a cria pelos seus dez anos.
Eu e eles ambos na fila da caixa de uma grande superfície.
Eu, aborrecido porque uma compra de última hora me havia obrigado a esperar sob as luzes brancas.
A eles, desconhecia-lhes uma motivação maior que não a de se abastecerem.
Mas tardavam em finalizar a arrumação das compras.
Eu, saía do limbo que as luzes hipnóticas me provocam sempre nas mega hortas modernas.
Pai e filho já haviam terminado, agarrados a dois sacos.
Mas por que estavam parados?
Como se de um ensaio se tratasse, o pai vasculha os sacos.
Pega em algo e devolve-o, lentamente.
Outro ainda é recebido pela empregada, que tecla com a mão livre.
Mas que raio…
Na minha resmunguice interna faz-se luz.
Inverteram-se as contas.
O que antes era um somar passara agora a subtrair.
O abate deveria atingir a subtracção desejada.
Entregue a nota e todas as moedas, já poderiam sair.
Somar e subtrair, em Portugal.
Toda a diferença.
Imagem:
daqui

Grandes Opções

Antechinus stuartii

(Publicado no jornal O Primeiro de Janeiro a 10/5/2007)
Situações há que impõem que se façam escolhas e renúncias.

Já abordei algumas dessas opções, num contexto biológico, no texto “Tempos de crise – apertar o coração e o fígado”.

Eram referidas modificações fisiológicas que uma gazela do Deserto da Arábia sofre para poder suportar as duras condições daquele meio.
Contudo, não são só as condições adversas do meio-ambiente que impõem mudanças na fisiologia do organismo.
Uma das funções essenciais para todos os organismos é a reprodução – transmitir os seus genes à descendência – numa perspectiva que Richard Dawkins apelidou de O Gene Egoísta, no livro homónimo.

O Antechinus stuartii é um pequeno marsupial carnívoro que apresenta, no seu comportamento reprodutivo, alterações fisiológicas que, na maioria dos casos, conduzem a um desfecho trágico.
Tal como outros marsupiais, o Antechinus é um animal solitário e nocturno, caçando sobretudo insectos, mas também pequenas aves e répteis.

normal_Z-badoo_tealeaf-antechinusA época de reprodução deste mamífero inicia-se no final do Inverno australiano, numa época de escassez alimentar, surgindo então as primeiras modificações corporais. Um mês antes da época de acasalamento, o corpo do Antechinus macho suspende a produção de esperma. O aparente paradoxo desta mudança fisiológica pode ser explicado pela redução nos gastos energéticos. Aquele fenómeno exige do animal um dispêndio considerável de energia na produção do material biológico envolvido na reprodução.
Mas as mudanças não ficam por aqui.
Para além de suspender a produção de esperma, este animal inibe igualmente a síntese de algumas proteínas fundamentais, reduzindo ainda a actividade do próprio sistema imunitário. Estes fenómenos visam igualmente minimizar o gasto energético, com vista ao acto reprodutivo.

No entanto, a alteração verdadeiramente surpreendente é o enorme aumento de concentração sanguínea de testosterona. Esta hormona, produzida nos testículos e glândulas supra-renais, é conhecida popularmente como a hormona masculina e está associada ao aumento da libido e da agressividade.
Resumindo: o Antechinus macho cessa parte das actividades metabólicas, com o objectivo de preservar a sua energia, ao mesmo tempo que aumenta a produção de hormonas ligadas à necessidade obsessiva de se reproduzir.
Apesar de solitário durante a maior parte do tempo, a época reprodutiva é bastante activa, chegando mesmo a ser violenta. Durante esse período, os machos socializam, formando “arenas de cortejamento” onde disputam as fêmeas.

Os machos procuram freneticamente as fêmeas, utilizando a denominada cópula prolongada – entre 5 e 14 horas – com o fim de evitar que outros machos copulem.
Contudo, todas aquelas alterações fisiológicas têm custos biológicos. Após a época de acasalamento, os machos apresentam-se doentes e com parasitas, devido à depressão a que havia sido sujeito o seu sistema imunitário, observando-se que a maioria não sobrevive ao primeiro ano. Pelo contrário, em cativeiro, os Antechinus podem atingir cinco anos de longevidade.
Há, assim, um investimento biológico quase total na reprodução, tão grande que os machos não sobrevivem ao primeiro ano e aqueles que sobrevivem apresentam-se estéreis e sem viabilidade.
Os “super-machos”, carregados de testosterona, ficam desta forma condenados pelas suas opções.

Tal como os Antechinus “cortam” parte das suas funções vitais para poderem ter prole, apesar das consequências trágicas, também uma sociedade que tem de fazer cortes enormes em sectores fundamentais como a Educação e a Saúde pode correr o risco de não sobreviver.
Desejo que essas opções conduzam não à morte, mas à sobrevivência da “espécie” Portugal.

Referências
Kerr, J.B., and Hedger, M.P. (1983). Spontaneous spermatogenic failure in the marsupial mouse Antechinus stuartii Macleay (Dasyuridae, Marsupialia). Austral. J. Zool. 31, 445-466.

Bradley, A. J., I. R. McDonald, et al. (1980). Stress and mortality in a small marsupial (Antechinus stuartii, Macleay). Gen Comp Endocrinol 40(2): 188-200.

Ilustrações
Rui Ricardo e ESD

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