A origem das sociedades

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Acaba de sair pela Companhia das Letras o novo livro de E. O. Wilson, pai da sociobiologia. E é polêmico, como conta a ótima reportagem que saiu ano passado na revista Piauí. Em 1975, Wilson gerou tanta indignação ao propor bases biológicas para o comportamento social, que chegou a receber um banho (literal) de água gelada quando manifestantes lhe despejaram uma jarra durante um congresso. Agora ele volta a pôr a cabeça em risco ao questionar a base teórica que sustentou sua própria argumentação. Se requer coragem admitir que estava equivocado, a ousadia é ainda maior quando se trata de repensar toda uma área de pesquisa.

O parentesco entre integrantes de um grupo, ele defende, não basta para sustentar as complexas sociedades que caracterizam seres tão diferentes quanto formigas e pessoas. Entra em jogo outra vez a seleção de grupo, há décadas posta de escanteio.

A conquista social da Terra é leitura obrigatória para quem se interessa por entender a formação de sociedades do ponto de vista biológico. Para chegar a uma explicação para o enigma que o ocupa há décadas, o autor se debruça sobre seus insetos favoritos – as formigas – em comparação com os seres humanos e outros organismos.

Quando li o livro, fui pedir a opinião de amigos norte-americanos que ganham a vida investigando a evolução da socialidade. Não tinham lido o livro ainda, mas com base em artigos dos últimos anos o consenso parecia ser que o Wilson não está trazendo nenhuma grande novidade – estaria, na verdade, fazendo barulho com ideias que andam no ar, por aí. É o que ele faz de melhor, pensei, reunir ideias espalhadas e sintetizar num corpo teórico. Neste caso, achei que a leitura vale a pena seja para concordar ou para discordar. Fonte rica de reflexão e discussão.

O livro é dividido em seis partes. Na primeira, Wilson faz considerações sobre por que existe a vida social avançada, conhecida como eussocialidade. O que faz um animal abrir mão de sua própria segurança e conforto, e até de se reproduzir diretamente, enquanto contribui para o sucesso reprodutivo de outros com quem convive? Um dilema evolutivo que chegou a fazer Darwin duvidar de sua própria teoria da seleção natural. Para Wilson, a questão é crucial: sem entender a vida social, não se chega ao cerne do que é a condição humana.

A segunda parte narra o surgimento do ser humano, desde seus ancestrais até o homem moderno, Homo sapiens. Já nessa parte Wilson dá estocadas nas bases teóricas dos estudos de socialidade que pretende implodir. Boa parte da colaboração entre membros de um grupo tem sido explicada com base no parentesco: ajudar um parente próximo (com quem se compartilha genes) a se reproduzir equivale a passar seus próximos genes adiante. Para o autor, essa teoria não explica a evolução de grupos sociais, e por isso ele invoca uma força evolutiva que por muito tempo permaneceu quase um tabu: a seleção de grupo. Em linhas gerais, grupos mais bem sucedidos deixam mais descendentes e têm maiores chances de produzirem membros com tendências a se manterem agrupados e cooperar.

Na terceira parte, Wilson mostra como os insetos sociais dominaram o mundo. Descreve exemplos que ele mesmo observou e reúne um conhecimento que ajudou a construir, como um dos maiores especialistas no campo.

A quarta parte do livro traz a discussão central sobre as forças da evolução social e detalha a nova teoria desenvolvida e defendida por Wilson. Em seguida, ele se debruça sobre a condição humana. A cultura, a capacidade de elaborar linguagem e exprimir ideias abstratas, a variedade cultural e como essa cultura evolui em paralelo (e colaboração mútua) com os genes, a moralidade, a religião, a arte. Por fim, tece considerações a respeito de para onde vai a humanidade: a única espécie que desenvolveu a capacidade de modificar seu próprio ambiente a ponto de destruí-lo.

Com A conquista social da Terra, Wilson promete voltar a outra de suas especialidades: causar polêmica que pode dar origem a uma discussão construtiva. Richard Dawkins deu um pontapé inicial na discussão com uma resenha demolidora na Prospect Magazine. Wilson rebateu sumariamente as críticas em dois parágrafos (em seguida ao texto de Dawkins). Não sei se teve continuação, se alguém souber tenho curiosidade.

 

São Paulo também tem jardim botânico

“João, algum dia vamos ao jardim botânico?”

A frase rodou pela minha casa por um ano e meio, desde que me mudei para a zona sul paulistana e concluí que o tal jardim já não era tão remoto. Até então, não passava de uma placa que eu avistava no caminho para o zoológico. E sempre dizia: algum dia venho aqui, parece ser bonito.

De enrolação em enrolação, veio bem a calhar o telefonema que recebi um dia da Ana Lima, da editora Terceiro Nome. A proposta era escrever, em tempo recorde, o texto para um livro de fotos do jardim botânico, projeto do fotógrafo Juan Esteves. Irresistível. Com a sensação um pouco de quem pula de um avião em pleno voo, torcendo para que o paraquedas estivesse nas costas, aceitei.

Com isso, fui várias vezes ao Jardim Botânico de São Paulo. E é, de fato, um lugar mágico. Sossego, árvores, flores, bichos, uma passarela que permite passear como que flutuando em meio à floresta repleta de bugios, sons de mato em plena capital paulista. E descobri que não é mesmo remoto. Mesmo para quem mora do outro lado da cidade, há boas conexões de ônibus a partir das estações Imigrantes, São Judas e Saúde do metrô.

E conversei com pesquisadores do Instituto de Botânica, e li tudo o que encontrei. A história é rica, é o segundo mais antigo entre os jardins botânicos em funcionamento no Brasil. Foi fundado por Frederico Carlos Hoehne, uma figura fascinante que se tornou botânico por paixão, não por estudo formal (mais sobre ele aqui, assim como fotos preservadas em seus negativos de vidro).

Ali estão dezenas de nascentes, inclusive de riachos que mais adiante formam o lendário Ipiranga, em cujas margens – diz o hino nacional – se gritou a independência do Brasil. O tal rio, agora num leito de concreto no meio da avenida Ricardo Jaffet, não foi bem tratado pela história subsequente. Mas o Pirarungáua, um de seus afluentes, ganhou destaque glorioso no jardim botânico. Um lembrete de como os rios devem ser, mesmo nas cidades.

Com altos e baixos de 1928 para cá, o jardim botânico paulistano, parte do Instituto de Botânica (um centro de pesquisa do estado) se estabeleceu como um polo importante de lazer, aprendizado, contato com a natureza e pesquisa.

O livro acaba de ficar pronto, semana que vem busco o filhote na editora. E ficou lindo! São 202 páginas com deslumbrantes fotos históricas e atuais. No texto, conto a história desse parque com uma rica reserva de mata atlântica, falo um pouco sobre os aspectos de pesquisa e ensino, e levo o leitor por um breve passeio, um aperitivo do que há por lá. No site da editora tem algumas fotos para atiçar a vontade de ver mais!

O livro é mesmo um convite. Eu voltarei a esse oásis muitas vezes.

(E não quero deixar de registrar o prazer que foi trabalhar nesse projeto, não só pela descoberta de um belo lugar e pelo aprendizado botânico. O carinho que a equipe da Terceiro Nome dedica ao nascimento de cada livro está sem dúvida aparente no resultado. Mary Lou Paris, Ana Lima e Estevão Azevedo, muito obrigada pela oportunidade e pela confiança)

Batalhas na selva

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Traficantes de drogas massacram índios isolados na Amazônia, nos confins do Acre. Ou serão paramilitares peruanos? E quais os indícios reais de que a tribo foi atacada e seus integrantes mortos? As informações são desencontradas, o que não é nada surpreendente quando se trata da maior floresta do mundo, como a tribo abaixo, em foto de Gleylson Miranda, da Funai (Fundação Nacional do Índio), que peguei no portal G1.

Soube ontem, por intermédio de Peter Moon, no grupo “Museu de História Natural em São Paulo” no facebook, de notícias na imprensa internacional sobre o massacre por traficantes de drogas (deu no Guardian e na BBC). Um grupo armado de fuzis estaria abrindo uma rota de tráfico entre Brasil e Peru e, claro, eliminando quem estiver pelo caminho. Por exemplo, a tribo isolada que em 2009 fez as manchetes ao ser sobrevoada e filmada, e cujos guerreiros pintados de urucum tentaram flechar o invasor metálico. O traficante português Joaquim António Custódio Fadista foi preso (de novo) por ali na sexta-feira passada.

Saí caçando na imprensa nacional. Achei mais no blogue do jornalista Altino Machado. Lá tem vídeo da região e do posto da Frente de Proteção Etnoambiental da Funai que fica junto ao igarapé Xinane, cercado pelos paramilitares peruanos. São eles, segundo o blogue, que estão causando problemas na região e que teriam atacado os índios. O mesmo informa o iG.

Chegam poucos ecos a São Paulo, suficiente para ter destaque zero na mídia. Difícil imaginar a angústia e a impotência dos sertanistas e funcionários da Frente de Proteção Etnoambiental que voltaram à base para tentar proteger a área, como mostra a carta de José Carlos Meirelles no blogue do Altino Machado.

Me sinto, de alguma maneira, próxima deles por ter lido recentemente o livro O último da tribo, do jornalista norte-americano Monte Reel, que deve sair em breve no Brasil pela Companhia das Letras. O relato pega pouco mais de uma década, entre 1996 e 2008, em que a Frente de Proteção, que antes se chamava Frente de Contato, buscava aproximar-se de um índio que vivia sozinho no meio da selva em Rondônia. Uma missão cheia de conflitos, afinal para que perturbar o índio que estava tocando a vida do jeito dele? A resposta é simples – é impossível protegê-lo sem conhecê-lo -, mas não eliminava as dúvidas nem mesmo dos próprios homens que se arriscavam a flechadas, malárias e muito mais nessa busca: o contato traz mais benefícios ou mais danos?

Agora surge um bom exemplo do princípio que norteia esses sertanistas: se não forem eles a entrar em contato, serão mineradores, fazendeiros, traficantes. Ou paramilitares peruanos, agora. Todos esses armados e dispostos a atirar sem hesitação. Alguém que vê os índios como pessoas que têm o direito de viver no seu espaço precisa saber onde eles estão para tentar garantir esse direito. Tentar, é esse o problema.

As pessoas que conheci no livro se embrenham na floresta, ajudam tribos já contatadas e pedem ajuda a elas, se empenham em aprender o máximo interferindo o mínimo. Proteger essas pessoas é a sua missão. E para isso precisam também fazer política, tanto local como em Brasília. E enfrentam guerras como essa que parece estar acontecendo agora, sem apoio do exército e nem mesmo da imprensa.

Arte na ciência, ciência na arte

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Em junho, a ilustradora Larissa Ribeiro recebeu uma encomenda inédita para ela: transformar o gráfico ao lado num móbile.

A ideia era produzir uma ilustração bonita para a reportagem “A vida das palavras“, escrita pelo Igor Zolnerkevic para a Pesquisa, sem perder informação.

Não tive nada a ver com o processo de produzir e ilustrar a reportagem, mas conversei com a Larissa para fazer as legendas da galeria de imagens que mostra o processo de confecção do móbile. Adorei, e como sou de todo jeito louca por móbiles, não resisto a contar.

O gráfico (dá para ver maior, clicando nele) mostra como a popularidade de certas palavras mudou entre 1998 e 2000. Na galeria de imagens a legenda (feita pelo editor de ciência da revista Ricardo Zorzetto e conferida pelo Igor) explica melhor.

O primeiro desafio era montar as palavras. Larissa queria fazê-las do zero, mas acabou se rendendo ao prazo e comprou um pacote de letrinhas de macarrão. O longo processo zen (“minha mãe diz que tem um chinês dentro de mim”, ela contou) de separar as letras acabou sendo providencial para que a ilustradora pudesse bolar a melhor forma de arquitetar o móbile.

Depois de coloridas as letras e montadas as palavras com fitas adesivas e longos fios, Larissa imprimiu o gráfico original e pendurou ao fundo, enquanto ia costurando os fios numa placa de isopor para acertar a altura e a profundidade. O tal chinês dentro dela ficou realizado com trabalho tão meticuloso. E as letrinhas tomaram conta do espaço: até hoje devem estar aparecendo dentro das gavetas.

O resultado é um lindo encontro entre ciência e arte, vale a pena conferir. Tem mais fotos na página da Larissa no flickr. Quem acompanha a Pesquisa reconhecerá ali também as recortagens (existe essa palavra ou tou inventando – para quem sabe perpetuar na rede?) que ilustraram uma das minhas matérias sobre palestras do ciclo do Ano Internacional da Química.

O google não prejudica a memória

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Google deixa memória mais preguiçosa” era a manchete que abria a página de saúde da Folha de S.Paulo na sexta passada. No mesmo dia, descobri que não é bem assim. “A Internet no fundo não é diferente da maneira como sempre fizemos as coisas”, disse a psicóloga Betsy Sparrow ao podcast da revista Science.

Betsy é professora no Departamento de Psicologia da Universidade Columbia, em Nova York, e a autora principal do estudo que foi publicado na própria Science da semana passada. Ela contou que a ideia surgiu enquanto via um filme em casa com o marido, e não conseguia lembrar o nome da atriz. Fácil: abriu a internet, pôs o nome do filme e achou a atriz. Bolou então a pesquisa, em que verificou que as pessoas retêm mais as informações que recebem quando sabem que não terão acesso a elas mais tarde. Se sabem que terão fontes de consulta, é mais provável que esqueçam, mesmo que o pesquisador peça que tentem guardar na memória.

A internet é mesmo muito presente na vida de muita gente. Na dúvida, abre-se o google ou puxa-se o telefone com acesso à internet. Antigamente, Betsy e o marido teriam telefonado para aquele primo ou amigo que sabe tudo sobre cinema. O fato é que sempre contamos com uma memória externa: artigos de jornal recortados e guardados, enciclopédias, bibliotecas, amigos e familiares que lembram de tudo. Agora, segundo ela, só ficou mais fácil e rápido: internet literalmente à mão quase o tempo todo, sobretudo para quem anda com telefones cheios de recursos.

A pesquisadora norte-americana também deu uma entrevista bem legal ao podcast Science In Action, da BBC. Nela, disse que a internet nem mesmo existe há tempo suficiente para ter podido alterar a estrutura da memória. Temos um cérebro flexível, que se adapta a buscar informação onde ela existir. Se amanhã a internet desaparecer, em dois tempos teremos encontrado outra memória externa. Bem diferente do que sugeriu a Folha. Dá o que pensar sobre a relação entre os resultados de pesquisa científica e o que o jornal considera que atiça o leitor.

Tirei a imagem daqui.

Por um mundo sem destruição em massa

Thumbnail image for 0912180220.JPGResolvi trazer, por sua importância, um assunto um tanto distinto do habitual deste blogue: o lado oficial da busca pelo desarmamento nuclear.

Traduzi do inglês, e copio abaixo, o discurso proferido pelo embaixador brasileiro Luiz Filipe de Macedo Soares na Comissão de Desarmamento da Organização das Nações Unidas, há duas semanas (as notas de rodapé são acréscimos dele). O diplomata é chefe da representação brasileira nessa comissão, sediada em Genebra, na Suíça, e chama atenção para a urgência de se tomar medidas para eliminar a capacidade que alguns países têm de destruir o planeta.

Segundo o embaixador, pouco se diz de concreto nas reuniões desse órgão de negociação multilateral – provavelmente pelo medo que os países poderosos impõem aos desarmados.

Sua intenção é plantar a semente de uma discussão real, tanto na política oficial como na sociedade. Lembro muito, de quando era criança, dos slogans “Hiroshima nunca mais” e “Energia nuclear, não obrigado” (este último vinha em bótons com um sol vermelho). O assunto sumiu da pauta cotidiana, enquanto países são bombardeados diariamente.

Achei, por isso, interessante e oportuno trazer um pouco da voz formal na discussão desses assuntos. A versão original, em inglês, está disponível no Brazillion thoughts.

(A foto acima é de um dos murais pintados pelo catalão José Maria Sert que decoram a Sala dos Conselhos, onde acontecem as reuniões da Comissão de Desarmamento; abaixo, uma sessão presidida pelo embaixador brasileiro e fotografada por Marie-Christine Macedo Soares)

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Senhora Presidente,

A primeira das resoluções adotadas pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, em seu 17º plenário, dia 24 de janeiro de 1946, foi sobre desarmamento. Todos sabemos, pois isso é com frequência mencionado para sublinhar a importância do assunto e o sentido de prioridade reconhecido por Estados membros desde o início da Organização. O título da Resolução (I) é o seguinte: “Estabelecimento de uma Comissão para lidar com os problemas suscitados pela descoberta da energia atômica”. A Comissão foi orientada a fazer propostas específicas, entre outros objetivos, cito: “para a eliminação dos arsenais nacionais de armas atômicas e de quaisquer demais armas adaptáveis à destruição em massa”.

O título da Comissão, aparentemente resultado de negociações cuidadosas, mostrava a dificuldade em situar no tempo e nos fatos a origem dos “problemas” com que devia lidar. A “descoberta da energia atômica” era mais neutra como marco histórico do que a produção, os testes ou o uso real da bomba.

Naquele momento, apenas um país[1] possuía bombas atômicas. Este fato explica a relutância em identificar um ponto de partida preciso para os “problemas” sem ligá-los a um único país específico.

A proliferação logo começaria e continuaria pelas seis décadas seguintes. É de qualquer maneira significativo que a existência de “problemas” e a necessidade de “eliminação” de armas atômicas fossem reconhecidas desde o início das Nações Unidas.

Desde aquele momento diversos outros países adquiriram armas nucleares, cada um deles por razões distintas, mas com o fator subjacente comum de realçar a segurança e assegurar o poder para cada um deles[2].

Em vista dessa consciência antiga do caráter inaceitável das armas nucleares, é sempre útil lembrar que o primeiro detentor e os subsequentes quatro proliferadores não são mais legítimos do que outros que seguiram o mesmo caminho mais tarde. Não há armas nucleares legítimas. Legítimas de fato são as expectativas da comunidade internacional de que esses Estados detentores de armas nucleares façam jus a seu compromisso com o desarmamento nuclear, um objetivo que concordaram em perseguir, seja na base do TNP[3] ou por meio de declarações políticas e de resoluções da ONU, das quais a mais importante é o documento final da Primeira Sessão Especial sobre Desarmamento (SSOD-I)[4]. Além disso, a Corte Internacional de Justiça deixou bem claro que há uma obrigação de prosseguir em boa fé e levar a termo negociações que levem ao desarmamento nuclear em todos os seus aspectos[5].

Passados dois terços de século, a comunidade internacional não chegou ao objetivo estabelecido pela primeira Resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas. O que podemos fazer aqui, como faço agora, é trabalhar para evitar a triste comemoração, não muito distante no tempo, do primeiro centenário na companhia de armas nucleares. A realização desse objetivo não se daria em meu tempo de vida, mas eu gostaria de poupar meus filhos e netos de presenciar tão triste comemoração.

Não podemos ignorar os esforços feitos ao longo destas últimas décadas. Os dois principais detentores estabeleceram tratados para redução de seus arsenais. Por mais importantes que sejam, eles não deixam de corresponder a exercícios de calibração bilateral mútua de poder destrutivo[6]. Reduções unilaterais também foram feitas e são sempre boas notícias. Não é, porém, muito confortável celebrar medidas, positivas que sejam, mas que preservam a algumas nações o poder de destruir o planeta.

Num formato multilateral global, a principal realização permanece o Tratado de Não Proliferação, embora seu artigo sobre desarmamento nuclear, além de não ter um mínimo de precisão quanto a tempo e outros aspectos, não foi implementado[7]. Para melhorar as perspectivas de desarmamento nuclear, uma estratégia de asfixia foi desenvolvida com vistas a evitar a recorrência de crescimento nos arsenais, até mesmo para ampliar possíveis reduções.

O Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares, ainda não em vigor[8], é o principal exemplo dessa estratégia. O próximo passo nessa mesma direção seria um tratado relativo a material físsil para armas nucleares ou outros dispositivos explosivos. De fato, há um entendimento difundido de que a conclusão de tal tratado é possível, dado que as principais potências com armas nucleares parecem dispostas a começar a sua negociação. Isso não significa que a questão do material físsil é necessariamente o assunto mais urgente na pauta do desarmamento. Para o Brasil e muitos outros Estados, garantias legalmente vinculantes contra o uso ou a ameaça de uso de armas nucleares contra Estados sem armas nucleares seria um passo mais imediatamente significativo na direção de desmontar estratégias baseadas em armas nucleares. Eu deveria acrescentar a constante reivindicação do Grupo dos 21[9] por um tratado banindo as armas nucleares como foi feito em relação a outras armas de destruição em massa.

O principal obstáculo no caminho da negociação de um tratado sobre material físsil está na determinação de sua abrangência. Ele deveria limitar-se à proibição da produção de novo material físsil ou deveria incluir cláusulas sobre material já existente antes da entrada em vigor? A pr
imeira opção simplesmente congelaria a situação atual. Lhe faltaria qualquer dinamismo em direção ao desarmamento real. Ela não acrescentaria qualquer obrigação para Estados sem armas nucleares como o Brasil, já restrito pelo Tratado de Não Proliferação[10]. Para Estados com armas nucleares, um tratado confinado à proibição da produção certamente imporia limitações com respeito ao crescimento de seus arsenais, mas não necessariamente levaria a qualquer medida de controle, para não falar em redução, e ainda menos sua eliminação.

Um tratado realmente significativo precisaria lidar não apenas com a produção, mas também incluir material físsil para armas nucleares ou outros dispositivos nucleares explosivos já existentes antes de sua entrada em vigor.

Costuma ser defendido que o mandado contido no documento CD/1299[11], de 1995, conhecido como o mandado de Shannon, não exclui uma abrangência ampla para as negociações. O documento CD/1864, de 29 de maio de 2009, continha um programa de trabalho que recebeu apoio unânime na época, que se limitou, no que se refere à questão do material físsil, à referência ao mandado de Shannon.

Como esse programa de trabalho não pode ser implementado[12], duas outras tentativas foram feitas: as propostas pela Bielorrússia no documento CD/WP.599 e pelo Brasil no documento CD/1889. Este último tentou trazer mais clareza à consideração de material físsil já existente no momento da entrada em vigor.

Já foi dito que o mandado de Shannon não necessariamente exclui a questão dos estoques. Não se pode negar, porém, que a resistência feroz por alguns Estados membros até mesmo a uma menção vaga de material físsil pré-existente poderia ser tomada como anúncio de uma recusa em tratar desse assunto nas negociações.

Um mandado não pode ser um mapa para um tratado, mas deveria dar uma ideia do tabuleiro de jogo e, nesse aspecto, um retrato tão claro quanto possível do escopo desejado pareceria necessário para que alguns Estados embarcassem na negociação. Não há dúvida de que o tratado precisaria conter definições, estabelecer um sistema de verificação e outros assuntos. Mas como a mesma certeza não é encontrada no que diz respeito ao alcance, alguma indicação deveria estar contida no mandado.

Uma questão diferente é bloquear qualquer decisão sobre a abertura das negociações com base em percepções de segurança, sobretudo quando há um apoio esmagador às negociações por parte dos Estados sem armas nucleares, principalmente se a objeção vem de Estados com armas nucleares. Isso equivale a opor qualquer negociação sobre qualquer questão de desarmamento. Um Estado membro que por vontade própria se associou à Conferência sobre Desarmamento, cujo propósito é negociar instrumentos legais para desarmamento e controle de armas, não pode invocar sua situação de segurança para impedir uma negociação julgada apropriada pela grande maioria dos Estados membros, senão por todos.

Eu gostaria de insistir nesse ponto. Cada Estado tem o dever de dar segurança a seus cidadãos. No entanto, essa segurança não pode se basear em armas de destruição em massa.

Já é tempo de entender que preocupações sobre segurança nacional não são de interesse exclusivo dos Estados com armas nucleares. Isso sugeriria que armas nucleares são um dispositivo necessário para a segurança de um Estado. De fato há Estados, além daqueles que detêm armas nucleares, que objetivamente aceitam essa posição, situando-se sob a proteção dos arsenais nucleares de outros Estados [13].

Recapitulando: as negociações de um tratado sobre material físsil para armas nucleares ou outros dispositivos nucleares explosivos deveriam começar de imediato com base em um mandado com um mínimo de clareza no que diz respeito ao alcance do instrumento em vista.

 

Senhora Presidente,

O trabalho a ser empreendido pela Conferência sobre Desarmamento para um tratado sobre material físsil é, em primeiro lugar e sobretudo, de natureza política. Ele obviamente exigirá uma grande quantidade de conhecimento técnico. Mas não podemos presumir que os problemas serão solucionados em reuniões técnicas. Nesse sentido, a negociação sobre material físsil é semelhante a muitos processos em outras áreas em que o componente técnico é essencial para dar apoio a decisões políticas. Não é uma situação incomum para diplomatas.

Assuntos que envolvem definições e verificação, entre outros, são essencialmente complexos e admitem soluções diversas. Permita-me lembrar que uma negociação diplomática política não é um experimento científico e nossas reivindicações, embora de preferência tecnicamente fundamentadas e com base em lógica sólida, derivam sobretudo dos interesses e objetivos dos Estados que representamos.

Para mostrar que um mandado para uma negociação pode ser ao mesmo tempo abrangente e flexível, o Brasil propôs no ano passado o documento CD/1888, que contém as linhas gerais de uma estrutura para o esboço de um tratado sobre material físsil. Essa iniciativa é um indício do comprometimento e da abertura do Brasil para essa Empreitada.

Se tivermos sucesso em iniciar a negociação de um instrumento de fato abrangente sobre material físsil, estaremos fazendo um progresso realmente importante e concreto em direção ao desarmamento. Não será uma mera medida para construir confiança ou uma iniciativa política. A condição essencial para isso requer que a negociação englobe a questão como um todo. Também é indispensável que todos os detentores de armas nucleares sejam incluídos na negociação. Porém, podemos admitir que o resultado não deveria ser um non plus ultra, completamente fechado a uma futura evolução.

O cenário adequado é esta Conferência sobre Desarmamento, investida de um mandado negociador. Um processo expedito paralelo não pode garantir a participação de todos os Estados necessária a um instrumento de desarmamento nuclear. Para nós não é suficiente um gesto político mostrando boa vontade por países com disposição semelhante. Não pode ser um exercício do que foi chamado multilateralismo aristocrático.

Uma negociação longa e complexa exigiria uma estrutura institucional, a assistência de um secretariado técnico e necessariamente imparcial e delegações dedicadas, entre outras necessidades. Isso não pode ser assegurado por um grupo de pessoas bem-intencionadas, e com opiniões semelhantes, à margem da Assembleia Geral ou outro órgão, a não ser que a intenção real seja um faz-de-conta vazio de conteúdo substantivo[14].
Senhora Presidente,

Como já mencionei, a senhora assume a direção deste fórum em momento especialmente relevante.

Até o final de julho, a Assembleia Geral da ONU fará uma reunião a respeito da Conferência sobre Desarmamento. Nela haverá um debate e não se pode excluir, suponho, a adoção de uma ou mais resoluções.

Desde o encontro de Alto Nível realizado em Nova York em setembro passado, temos ouvido diversas intervenções lidando com o estado da CD e seu futuro. Não é fácil extrair dessas manifestações uma tendência de opinião clara. Há alguma oscilação entre um claro apoio para continuar a fazer esforços neste fórum e para buscar um caminho institucional distinto. Naquele lado do espectro, a convocação de uma Quarta Sessão Especial da Assembleia Geral foi defendida por muitos[15]. Outros parecem preferir soluções ad hoc espontâneas e nebulosas.

Não é minha intenção entrar agora nesse debate. Porém, é importante deixar claro que nosso objetivo deve permanecer o desarmamento real e um mundo livre de armas nucleares. Isso não cairá do céu. Será alcançado por meio de tratados abrangentes negociados de forma realmente multilateral e em terreno institucional sólido.
Apenas alguns dias depois da reunião da Assembleia Geral da ONU, está previsto um encontro dos cinco Estados com armas nucleares mencionados no TNP[16]. É o caso de esperar que a Assembleia Geral mande um recado forte para esses cinco estados de forma a ajudar essa reunião a atingir resultados significativos incluindo a sua conformidade ao TNP.

Antes desses eventos iminentes, durante a presidência colombiana[17], é importante que a Conferência sobre Desarmamento discuta seus resultados possíveis e desejáveis. Essas discussões e a adoção pendente de um Programa de Trabalho deveria ocupar nossa atenção durante as próximas semanas sob o seu hábil comando.

 

Senhora Presidente,

Não precisamos aumentar a desilusão da opinião pública mundial e o distanciamento dos jovens cujo indício claro é o atual baixo interesse da sociedade civil sobre o desarmamento nuclear em comparação aos amplos movimentos em décadas anteriores ou a manifestações presentes com respeito, por exemplo, a mudanças climáticas ou regulamentos financeiros internacionais. Não podemos nos dar ao luxo de danificar a estrutura política criada para canalizar o processo político do desarmamento. Se estamos descontentes com seu desempenho, deveríamos lembrar que cabe a nós nos empenharmos para atingir resultados.

Construir é sempre mais difícil do que destruir.
Obrigado.

[1]  Os Estados Unidos da América
[2] A União Soviética em 1949, o Reino Unido em 1952, a França em 1960, a China em 1964, Israel (data desconhecida), a Índia e o Paquistão em 1998 e a República Democrática da Coreia em 2006. A África do Sul desenvolveu um programa nuclear que mais tarde foi desfeito.
[3] O Tratado de Não-Proliferação foi assinado em 1967 e entrou em vigor em 1970. Todos os Estados membros das Nações Unidas são Partes junto ao TNP exceto a República Democrática da Coreia, a Índia, Israel e o Paquistão.
[4]  Realizado em 1978, ela adotou um Documento Final que, entre outras medidas, criou a Conferência sobre Desarmamento, de composição limitada (atualmente 64 Estados) com um mandato de negociação, e a Comissão de Desarmamento das Nações Unidas – UNDC, com todos os Estados membros da ONU e um mandato deliberativo.
[5] Opinião Consultiva emitida em 1996.
[6] O mais recente acordo é aquele conhecido como START II, que entrou em vigor em 2010.
[7] O Artigo VI do Tratado é o compromisso pelas cinco potências nucleares no momento da negociação do Tratado (EUA, URSS, Reino Unido, França e China – que também são os Membros Permanentes do Conselho de Segurança da ONU) de buscar o próprio desarmamento nuclear.
[8] Assinado em 1996, ainda não está em vigor porque não foi ratificado por vários Estados de uma lista contida no Tratado, entre eles os EUA.
[9] Tradicionalmente, a Conferência sobre Desarmamento reconhece 3 grupos regionais: o grupo da Europa Ocidental e Outros, o grupo da Europa Oriental e o Grupo dos 21, que tem mais de 21 membros. A China se mantém à parte.
[10] E pelo Tratado sobre Desnuclearização da América Latina e do Caribe, de 1967, de que todos os Estados da região são partes.
[11]Documentos da CD podem ser acessados no site da Conferência www.unog.ch/disarmament
[12] O Paquistão retirou seu apoio – a CD exige consenso para tomar decisões.
[13] É o que se chama de “guarda-chuva nuclear”, acordos entre os EUA e os
demais membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), e
outor países, como Japão, Coréia do  Sul e Austrália, que lhes garante
serem defendidos com armas nucleares em caso de serem atacados com armas
nucleares. Esses acordos vêm da Guerra Fria, mas seguem vigentes.
[14]Vários Estados atualmente advogam conduzir negociações fora da CD.
[15] A maior parte dos Estados considera que, para rever as decisões da Primeira Sessão Especial de 1978, seria necessário convocar uma nova. Alguns Estados, como os EUA, se opõem.
[16] Os cinco membros permanents do Conselho de Segurança devem se encontrar em Paris em 30 de julho.
[17] A presidência da CD é rotativa entre seus membros, a cada mês. Depois da Colômbia, será a vez da República Democrática da Coreia e de Cuba, os dois últimos da Sessão de 2011.

Checape genético

Por módicos 5 mil reais, você pode receber um pacote em casa com equipamento para recolher células do interior da bochecha, guardar num tubinho e pôr no correio de volta, endereçado ao laboratório mineiro Gene, do médico-geneticista Sérgio Pena. Depois de um tempo, você ficará sabendo que risco corre de desenvolver cada uma de 46 doenças. A notícia veio na Folha de S.Paulo da quinta-feira passada (uma versão mais completa e de acesso liberado está no jornal da ciência e-mail).

A ideia me causa arrepios. Um checape comum já é criticável, ressaltou recentemente o Karl, quem dirá um checape genômico? De que me serve saber, por exemplo, que tenho 79% de chance de ter psoríase, 24% de ter câncer no cérebro e 41% de desenvolver esclerose múltipla?

Por um lado, desconfio porque a relação entre doenças e genes está longe de esclarecida (vale a pena ver o delicioso vídeo do humorista britânico John Cleese no Brontossauros – o segundo vídeo da postagem). E por outro, o que significam essas probabilidades? Eu posso muito bem desenvolver uma doença para a qual tenho 2% de risco, e passar a vida sem uma que meu genoma indica que tenho 87% de chance de desenvolver… Se isso acontecer, dane-se a estatística: só importa a doença que tenho. Uma reflexão interessante sobre estatísticas desse tipo está aqui (em inglês). Em resumo, um especialista diz a uma mulher com diagnóstico de câncer de mama (carcinoma ductal in situ) que isso não aumenta seu risco de morrer. Como assim? Quem vai convencer um paciente de câncer que ele não corre mais risco que uma pessoa sem câncer?

Fazendo um teste desses, a pessoa fica condenada a viver assombrada por esses números, mesmo eles sendo completamente desprovidos de significado real. Como disse à Folha a geneticista da USP Mayana Zatz, o checape genômico não passa de um prato cheio para hipocondríacos. Eu certamente tenho coisas melhores para fazer com 5 mil reais.

Uma arma feminina

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“Muitas pessoas na multidão perderam o controle dos joelhos e desabaram no chão enlameado, derrubadas pela maré invisível de lágrimas.” A água brotava dos olhos, das mãos, dos cabelos, de todas as partes de Binu, a chinesa do livro A mulher que chora, de Su Tong, publicado no ano passado pela Companhia das Letras. Ela vinha de uma aldeia onde era proibido chorar, e por isso as mulheres aprendiam a soltar lágrimas por outras partes do corpo que não os olhos. Diante da comoção causada pelo choro que jorrava descontrolado, um professor reflete: “Eu hoje aprendi algo novo, algo que não consigo explicar. Como podem as lágrimas de uma pequena mulher ter causado tamanho caos emocional?”.

Por coincidência, num intervalo da leitura do livro, aprendi, no podcast “Science Weekly“, do jornal britânico Guardian, que o choro feminino é um balde de água fria para os homens. Segundo artigo publicado na revista Science em 6 de janeiro, pesquisadores de Israel testaram a reação de homens depois de cheirar água transparente não identificada dentro de um tubinho.

Os que (sem saber) farejaram lágrimas femininas – comparados aos que ganharam solução salina – não se sentiram muito atraídos por mulheres em fotos, revelaram níveis mais baixos de testosterona e tinham menos atividade na região do cérebro importante para a excitação sexual.

O efeito das lágrimas masculinas, ainda não se sabe. Deve ter chovido mulher quando puseram anúncios procurando voluntários que chorassem com facilidade em filmes. Recrutar homens que chorem – e o admitam – não é tão fácil.

A interpretação é que o choro seria uma defesa do sexo frágil: as lágrimas têm o efeito mágico de reduzir a agressividade masculina. Assim como uma de suas manifestações, o desejo sexual.

ResearchBlogging.org
Gelstein S, Yeshurun Y, Rozenkrantz L, Shushan S, Frumin I, Roth Y, & Sobel N (2011). Human tears contain a chemosignal. Science (New York, N.Y.), 331 (6014), 226-30 PMID: 21212322

Dinossauros, virtuais, encontros e desencontros

Thumbnail image for fb.JPGFui ontem ver “A rede social” no cinema e hoje li um texto interessante sobre a geração facebook: “Generation Why?“, por Zadie Smith, na New York Review of Books (*atualização: esse texto foi traduzido e publicado na revista piauí de fevereiro de 2011*).

Terminei de ler com minha habitual vontade de recolher opiniões para entender melhor, para ajudar a pensar. O primeiro impulso foi escrever no próprio facebook. Depois achei que não cabia, e que o caráter efêmero talvez minasse as possibilidades de conversar mais. Sem querer, está aí a primeira pequena reflexão sobre essa ferramenta que considero uma revolução nas comunicações. É efêmera. Mas até aí, o que não é?

Passei boa parte do texto sem conseguir entender as críticas à geração facebook, até que uma nota de rodapé me explicou por quê: porque não faço parte dessa geração. Uso o tal universo virtual como uma dinossaura maravilhada com o fogo, mas que não sabe usá-lo. A crítica é que a geração facebook existe por intermédio de rótulos: de que filmes gosta, que livros lê, qual religião pratica, quais as suas citações favoritas, qual o seu “status de relacionamento” e pessoas de que gênero lhe interessam etc. Zadie Smith se aflige com uma geração que acha que basta isso para se definir e se afirmar como pessoa, e imagina os efeitos desse catálogo quando usado pelas forças do mercado.

Eu, dinossaura (ou pessoa 1.0, como diz Zadie), tive de ir olhar as opções de edição do perfil para escrever o parágrafo acima, porque o meu está praticamente em branco. Para que eu precisaria preencher, se só me interessa encontrar quem já conheço? (Não se ofenda, leitor, se eu não aceitá-lo como amigo.) Encontrar com gente querida espalhada pelo mundo como quem tromba virando a esquina é, para mim, a grande mágica do facebook. Sim, a comunicação é muitas vezes rápida e efêmera. Mas não necessariamente. Reencontrei gente querida que não via há décadas e depois encontrei mesmo, fisicamente e tudo, como a amiga que me cantava Blitz (“geme geme uuuu, por você…”) e saiu da infância antes de mim, e aquele que não quis casar comigo quando eu tinha uns 6 anos; acompanho acontecimentos de vidas distantes; de vez em quando converso mais longamente, por cartas ocultas aos olhos públicos ou pela janelinha que aparece no pé da tela e faz “prrlrrlrum” (que agora mesmo me interrompeu a escrita e passei um tempo delicioso papeando com o outro lado do Atlântico).

São duas linhas de reflexão, que acabo por misturar. Preciso de ajuda para tecer algo. Uma é o que é, de fato, a pessoa 2.0. É mesmo uma geração baseada em rótulos e informações rápidas e superficiais sobre si e sobre os outros? Que efeito isso pode ter nas relações? Quando as pessoas se conhecem com base nessas sucintas etiquetas e depois passam para um relacionamento em carne e osso, o que acontece? É realmente muito diferente do pouco que a gente apresenta num primeiro encontro num bar ou numa festa?

Outra é sobre a presença anacrônica das pessoas 1.0 no universo virtual. Esses encontros de fato reduzem a convivência real entre as pessoas? A gente poderia, como sugere Zadie, simplesmente encontrar os amigos que estão em outro continente em vez de ficar na frente do computador? Não acho nada fácil. Eu, que passei boa parte da minha vida escrevendo cartas que demorariam semanas para chegar aos diversos destinos, me esbaldo nessa comunicação mais ágil. Claro que não equivale a encontrar, mas ajuda a não perder o trem da vida. Quando fui a Boston, este ano, não comentei no facebook porque não teria tempo de ver quase ninguém – e nem sabia quem estaria por lá. Depois descobri que, se tivesse ficado mais dias e anunciado, teria podido ver algumas pessoas muito queridas.

Para Zadie, a motivação principal de Mark Zuckerberg – não só ao inventar o facebook – é uma que acomete boa parte da geração: o desejo de que gostem dele. Será mesmo que é característica da geração? Não é inerente a seres sociais? Será que ter centenas de pessoas que potencialmente comentam o que escrevo, ou que apertam o botãozinho “curtir” em fotos que exponho, cria uma ilusão nociva de que um montão de gente gosta de mim? Vai ver. Mas desde que eu não fique metida demais, não tenho nada contra.

Como sempre, tenho mais perguntas do que respostas.

Xadrez a 194 mãos

presidenta.jpgO aplauso partiu da bancada brasileira, se espalhou como uma onda pela sala de plenária Cenote e cresceu, durando longos minutos de aprovação categórica.  A presidenta da convenção do clima, Patricia Espinosa, acabava de falar poucos minutos sobre os documentos que os delegados dos 194 países presentes tinham acabado de receber, depois de várias horas de uma espera tensa. Que nem o lindo mar de Cancún, México, logo ali ao lado, aliviava.

Afirmou que todos encontrariam ali seus próprios esforços, mas que certamente não satisfaria todas as expectativas. Assumiu o compromisso de continuar agindo com transparência, uma preocupação forte depois da conferência de Copenhague no ano passado, e suspendeu a sessão por duas horas. Anticlimático para uma leiga que esperava ver o documento final discutido no centro Azteca da convenção do clima, a COP-16, mas um momento histórico para os integrantes da delegação do Brasil. Ela tinha conseguido evitar que os ânimos aquecidos pusessem tudo a perder. Segundo relatos, aquele foi o momento em que, no ano passado, delegados descontentes esbravejavam e jogavam o documento no chão. Transferir o calor da discussão do documento para salas mais privadas poderia evitar o fracasso iminente. Uma jogada de mestra.

Até então, a atmosfera era de desânimo. A Bolívia, desde a véspera, travava todas as discussões. E corria pelos corredores que o G77, que reúne países em desenvolvimento, pretendia emperrar a sessão final para reunir-se em privado com o novo documento (evitando uma situação como Copenhague, em que foram surpresos por um texto montado a portas fechadas por poucos países).

delegação.jpgCom isso foi possível, 10 horas de trabalho depois, chegar a um acordo. Certamente não resolve todos os problemas ambientais do mundo, mas é um bom passo. Não fiquei lá até as 4 da manhã, para ver o desfecho e admirar a camisa do presidente Calderón (quero assaltar o guarda-roupa dele). Outros ficaram e contaram os resultados (veja as notícias da Folha e do Estado).

Fico grata aos integrantes da delegação brasileira que me acolheram nesse momento, com paciência de me explicar o que estava acontecendo. Não é nada simples jogar uma partida de xadrez a 194 mãos.

Agora, mesmo com nuvens, penduro o crachá e finalmente vou à praia.

crachá.jpg

Atualização: um texto mais trabalhado sobre a COP16 está no site da revista Pesquisa.

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