Células-tronco

A notícia científica da semana é o veto do presidente norte-americano George W. Bush ao projeto de lei que ampliava o financiamento federal e possibilitava o uso de embriões descartados em clínicas de fertilidade para pesquisa com células-tronco (leia mais na Agência Fapesp). A lei foi aprovada no senado, mas o presidente considerou que ela ultrapassava uma barreira moral importante. Por isso ela mereceu o primeiro veto do mandato de Bush.

O assunto chama ainda mais a atenção porque cada vez mais pesquisas mostram o potencial das células-tronco embrionárias para tratar os mais diversos males. Um exemplo é o artigo “T lineage differentiation from human embryonic stem cells” ["Diferenciação de linhagens T a partir de células-tronco embrionárias humanas"], de um grupo de pesquisadores da Universidade da Califórnia em Los Angeles, disponível na versão on-line da revista PNAS.

Eles usaram uma linhagem de células embrionárias das que já existem em laboratório, e viram que elas são capazes de gerar células T, além de outros componentes do sangue. As células T fazem parte do sistema imunológico, e têm esse nome por completarem seu desenvolvimento no timo. O segredo está em descobrir o meio ideal para que essas células se desenvolvam. A partir daí, elas podem ser inseridas no organismo num estágio ainda incompleto de diferenciação, e o timo se encarrega do resto.

Mas o grupo não só cultivou essas células. Eles também as modificaram geneticamente, de forma que genes podem ser ligados ou desligados, corrigindo problemas de função. O artigo afirma que esse tipo de trabalho pode vir a ser importante para tratar doenças sangüíneas genéticas ou infecciosas (como Aids).

Falta agora estímulo e viabilidade para levar as pesquisas adiante.

Estudar a biodiversidade – mais sobre batalhas entre pesquisadores e legislação

Pesquisadores que trabalham com a biodiversidade brasileira sofrem com entraves impostos ao seu trabalho pela legislação vigente.

Para quem acompanha este blogue, isto não é novidade. Já escrevi sobre o assunto aqui e aqui. Sempre que pensei sobre o assunto, parecia faltar um diálogo direto entre pesquisadores e legisladores, de forma a traçar metas conjuntas que estimulassem o estudo de nossa natureza mas a protegessem também.

Parece que essa conversa aconteceu, durante a reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) em Florianópolis. Veja notícia de Eduardo Geraque na Agência Fapesp.

Botânica no ar

Está sendo lançada, na reunião da SBPC em Florianópolis, a “Flora Brasiliensis Estendida“. É um sistema que reunirá toda a informação disponível sobre nossos conterrâneos vegetais. Leia notícia na ComCiência.

(Eu ia pôr uma foto de minha autoria, mas não estou em casa então peguei esta emprestada)

As maravilhas da própolis

Logo de manhã já estava dando uma de mãe. “Você vai sair sem tomar mel com própolis! Depois não fica bom e não sabe por quê”. Ele me olhou como se eu fosse uma mera supersticiosa e saiu chupando sua pastilha para a garganta (“que não medica, só alivia”, digo eu).

Aí me lembrei do livro, esse aí da imagem, do meu amigo (e fornecedor de mel e própolis) Mendelson Guerreiro de Lima. Fui olhar, tem dois capítulos que falam das propriedades da própolis: “Propriedades farmacológicas da própolis”, de Hércules de Menezes (Departamento de Microbiologia da Unesp de Rio Claro), e “Composição química e atividade biológica da própolis”, de Maria Cristina Marcucci (Universidade Bandeirantes, São Paulo). Ambos vêm cheios de referências a artigos, de forma que os céticos podem fazer a festa. Eu hoje fico por aqui.

A própolis tem propriedades: antiinflamatória, antimicrobiana, antitumor, antioxidativa, antifúngica, antiprotozoária, antiviral, entre outras.

A ação contra bactérias, que é a que mais me interessa hoje, é a mais estudada e comprovada. Diz Maria Cristina Marcucci que concentrações pequenas de própolis inibiram o crescimento de 25 entre 39 linhagens de bactérias testadas. Inclusive uma chamada Streptococcus mutans, associado à formação de cáries em humanos!

Já foram também isolados da própolis vários compostos com ação antiinflamatória comprovada.

Um dia me espantei, ao pôr própolis numa afta que estava me deixando maluca – ardeu, mas logo em seguida parei de sentir. Fui perguntar pro Mendelson, que me explicou que a tal poção mágica das abelhas tem um poder analgésico mais forte que a cocaína!

Para quem quiser mais, tem uma notícia que escrevi no ano passado para a ComCiência.

A cabeçada de um génio

Maria, não resisto a opinar, concordando!

No ténis, recordo as finais de Wimbledon entre Borg-McEnroe e Lendl-McEnroe. João Macarrão tinha coração, Borg era ciborgue, e Lendl cata-lêndeas. A minha paixão pela personalidade de McEnroe vinha tanto da sua (muitas vezes má) atitude em campo como pela genialidade do seu jogo. Ele era a antítese dos outros campeões.

O mesmo se passava com Mansell, por comparação a Piquet, Lauda, Senna ou Prost. Mais uma vez era a luta dos opostos que me atraía, embora deva confessar que sempre gostei do Piquet e que só comecei a torcer pelo Mansell depois de vê-lo a empurrar desesperadamente o seu carro sem gasolina para cortar a meta.

Poderia também falar do meu time de futebol, o português FC Porto, que está para os outros times grandes de Portugal como o Barcelona está para o Real Madrid. A explicação está na sua filosofia, que representa a luta e o trabalho de toda uma região contra o centralismo do poder, a asfixia dos cidadãos pelo estado clientelar e dos ideais republicanos (os legítimos!), o anti-estrelato e o coletivismo. E podem ter a certeza, se algum dia a filosofia do meu time mudar, entro em sabática de torcida!

Zidane, cidadão do bairro de La Castellane de Marselha, argelino e francês (por esta ordem, como ele próprio afirma), cuja vida particular nunca vi estampada na imprensa côr-de-rosa, indignou-se com os impropérios de Materazzi, no jogo da final da copa do mundo. Podia ter reagido de forma diferente, é certo. Quem sabe falar com o árbitro ou até chegar ao extremo de ameaçar sair de campo, como vi este ano fazer E’too, do Barcelona, depois de ter ouvido comentários racistas durante grande parte de um jogo. Mas Zidane decidiu fazer justiça ali, naquele preciso momento em que a sua vida pública se cruzava com a sua vida privada. Com certeza não terá sido a primeira vez, e convenhamos que Zidane nunca foi um menino de coro de igreja, mas Zidane perdeu a sua cabeça esquentada, que se lançou movida por vontade própria que o corpo não pôde controlar, sobre o peito do vil Materazzi.

Na foto ao lado, Zidane recoloca a sua cabeça no lugar após a ter perdido e lançado sobre o peito descoberto de Materazzi.



Quando vi a imagem, tive pena de Zidane, preferia que não tivesse feito aquilo, tive pena de Materazzi porque a cabeçada de Zidane foi bárbara. Quando revi as imagens e percebi o que tinha sucedido, tive pena de Zidane, não tive tanta pena de Materazzi.

Zidane é cidadão do bairro de La Castellane de Marselha, argelino e francês. Mas aquela não foi a “cabeçada de um homem”, foi a cabeçada de um génio. E os génios são assim, dotados daquela imprevisibilidade de onde brotam as paixões irracionais.

A cabeça de Zidane

Resisti até agora, mas não mais. Foi opinião disseminada pelos blogues que acompanho (Via Gene, Ciência em dia, não sei se mais algum) que Zidane não devia ter feito o que fez na final da copa.

Me sinto solitária em achar que quem sabe ele teve suas razões, e que o acontecido não tira nada de seus méritos. Mas acabo de ler “A cabeçada de um homem”, de Luís Carlos Lopes, na Agência Carta Maior, que me limito a recomendar.

Acho que o esporte está ficando muito chato com a escassez de “bad boys”. Parei de ver fórmula 1 não com a morte do Senna, mas com a aposentadoria do Mansel. Adorava ver o McEnroe jogar a raquete no juiz. Sem Romários e companhia, talvez eu passe a ver novela.

Dieta nas unhas chega ao rádio

Quem acompanha este blogue já sabe sobre a possibilidade de detectar nas unhas aquilo que comemos (ver aqui).

O trabalho suscitou muito interesse, e a pesquisadora Gabriela Nardoto tem sido assediada pela imprensa. Saiu na Folha de São Paulo, ela já deu uma entrevista na Rádio Eldorado AM. Mas agora aviso a tempo: amanhã (domingo) às 16 horas, ela estará no ar ao vivo, em cadeia nacional, numa entrevista à rádio CBN do Rio.

A importância do ensino

A estrela de hoje da revista Science é o artigo sobre evolução observada em tempo real nos tentilhões de Galápagos, famosos por sua relevância para que Charles Darwin chegasse à sua teoria da evolução. Vale comentar o artigo, mas fica para depois.

Quero mesmo é falar sobre outro artigo no mesmo número da revista: “Teaching in wild meerkats”, de Alex Thornton e Katherine McAuliffe.

As suricatas (Suricata suricatta) estão entre meus animais favoritos, então não chega a ser uma escolha isenta. Elas vivem na África, em grupos de 2 a 40 indivíduos, dos quais um casal é responsável pelo grosso da reprodução. Em termos evolutivos, quem não tem filhotes inexiste. Então, como é possível que esses bichos todos fiquem ali, dando uma de babá, sem ganhar seu pão evolutivo?

É essa pergunta que faz com que muita gente estude as suricatas. Já estive muito a par do conhecimento sobre elas, mas isso já faz alguns anos. Esqueci parte e não sei das últimas atualizações. Mas algumas vantagens podem tornar essa situação viável, até mesmo obrigatória. Pode ser que jovens que partam de um grupo para constituir família por conta própria simplesmente não tenham chance de sobrevivência. Ou que os filhotes só sobrevivam se tiverem babás constantes, o que requer um grupo social numeroso e abnegado. Se não me engano, são esses os fatores que mais contribuem para a permanência desses grupos. E elas caçam em grupo. Saem correndo com seus focinhos perto do chão e vão abocanhando qualquer invertebrado que tenha o azar de estar de passagem. Ou pequeno vertebrado também, mas isso é mais raro.

Enfim, tudo isso é preâmbulo para mostrar que barato são as suricatas. O artigo que saiu hoje reforça isso ainda mais: as babás ensinam os filhotes a caçar. Elas trazem as presas – mortas, vivas ou semi-vivas – e entregam para o filhote comer. À medida em que o filhote cresce, passa a receber presas mais e mais vivas. Mas o ensino tem suas sofisticações. Para evitar acidentes com escorpiões, item alimentar comum, as babás suricatas arrancam o ferrão antes de entregá-los (vivos) aos filhotes. E estes só se aventuram a traçar sua presa se o professor estiver ao lado. Parece que esse treinamento é essencial para que essas suricatinhas virem boas caçadoras.

Pois é, ensino não é essencial só para nós. E bons professores são uma preciosidade. Parece que até entre formigas é o caso, como comentou Caio de Gaia. Ah, e falando em professores, remeto também ao Pítáculos em ciências.

P.S. Mais sobre suricatas no Cais de Gaia.

Nós e a natureza

Quando eu era pequena, li em algum lugar sobre como o homem branco tinha destruído grande parte da natureza. Chorei por não ser índia, eu fazia parte dos vilões.

Lembrei disso após ver “O homem urso”, de Werner Herzog. Está em cartaz em São Paulo, aqui em Rio Claro não. Mas vale a viagem, para quem não mora em alguma cidade grande.

Tim Threadwell foi muito mais longe do que eu. Ele não se adaptava à vida entre os homens, e queria ser selvagem. De preferência urso. E urso-grizzly, o mais selvagem de todos.

O filme é composto em grande parte por trechos de filmagens feitas pelo próprio Threadwell, durante seus anos de veraneio entre os ursos do Alasca. Para mostrar ao público – principalmente crianças – a beleza desses animais, o homem-urso gravou centenas de horas da vida dos ursos e da sua entre eles, com narrações para a câmera.

Ele se aproxima dos animais muito mais do que deveria, e explica que tem que se impor para sobreviver ali. Como não conseguiu se impor entre seus companheiros de espécie, o que podemos somente supor através das entrevistas filmadas pelo diretor Herzog.

Será que seu amor aos animais não passava de “naturebismo romântico”, como disse Ana Claudia recentemente no Via Gene? Acho que tinha isso, mas também mais – uma alma perturbada mesmo, sem encontrar lugar no mundo. Acabou indo buscar a companhia daqueles que nunca o aceitariam – até o extremo de devorá-lo.

Saí do cinema angustiada com aquele homem. Com a sociedade norte-americana, que parece suscitar com freqüência maior do que a média essa necessidade de fugir do convívio. E também com os “naturebas românticos”, que se acham no direito de intrometer-se no curso da natureza. Na melhor das intenções, mas muitas vezes com imensa ignorância. O grande sábio do filme é o rapaz de uma população do Alasca, que diz que sua cultura simplesmente respeita os ursos. E assim convivem, com a distância necessária a ambas as espécies.

Vários pensamentos me passam pela cabeça quando penso no filme, mas se eu precisar parar e refletir para compor uma reflexão profunda, vou esquecer o filme sem recomendá-lo. Então fica a sugestão, e o espaço aberto para quem quiser depositar suas reflexões.

Recolonização ecológica

Uma das novas estratégias de conservação propostas em tempos recentes envolve reintroduzir animais onde eles existiram um dia. No caso de espécies extintas, a idéia é procurar substitutas entre seus parentes próximos ou similares ecológicos.

Escrevi no ano passado uma notícia para a ComCiência sobre o assunto. Nela, citei um comentário publicado na Nature por um grupo de 12 ecólogos norte-americanos.

Sua proposta é restaurar processos ecológicos dentro de áreas cercadas em regiões dos Estados Unidos que foram desprovidas (segundo eles por ação do homem) de seus grandes animais. Para substituir a fauna original, seriam utilizados guepardos, leões, elefantes… e a tartaruga-de-bolson (Gopherus flavomarginatus – essa da foto, que peguei emprestada do site “The wild ones“).

A tartaruga é parte importante do projeto, pois é a reintrodução menos discutível. Ela existia em parte do território dos Estados Unidos, mas hoje em dia está restrita (e por isso ameaçada) a um vale no México. Estender sua distribuição de volta até os Estados Unidos é ecologicamente mais simples do que soltar leões africanos no país. Além disso, tartarugas são menos ameaçadoras.

Volto ao assunto porque saiu na PLoS Biology um artigo jornalístico interessante, que discute essas iniciativas de reintrodução. Vale a pena dar uma olhada. (Como o Osame disse que blogues citam outros blogues, não posso deixar de mencionar que cheguei ao tal artigo graças ao The Loom).

Um dos autores do comentário da Nature do ano passado, Harry Greene (Universidade Cornell, EUA), esteve recentemente no Brasil. Ele me contou que um grupo de tartarugas será transferido para os Estados Unidos já em setembro deste ano, a partir de uma população criada em cativeiro numa fazenda americana. O interessante é que a transferência tem que ser feita com imenso cuidado, porque esses bichos são extremamente sociais. As tartarugas-de-bolson vivem sozinhas em tocas, mas ao espiar para fora têm que reconhecer seus vizinhos. Senão, saem em busca de seu lar. Por isso, os pesquisadores têm que montar uma complexa operação para transferir o grupo social inteiro, para tocas com a mesma distribuição espacial.

Greene acredita que o projeto está suscitando novo interesse da população, além de financiamento privado (neste caso, de Ted Turner). Ele comemora que daí podem sair mais possibilidades de conservação.

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