Tecnologia versus ciência

As ferramentas de que cientistas hoje dispõem chegam a parecer ficção científica. Na semana passada estive no congresso de genética, em Salvador, e me maravilhei com lindas imagens de embriões em que as células nas quais determinado gene estava em ação emitiam um brilho verde. Ou de outras cores. E muito mais que evoca as maravilhas que a tecnologia faz pela ciência.

Estava preparada para isso, mas não para algo que para mim se tornou o grande tema involuntário do congresso: a tecnologia atrapalha a ciência.

A revelação veio logo na sessão de abertura, nas palavras do homenageado Fábio de Melo Sene (discordo do Carlos. Achei o discurso inspirador e me comovi com a reunião familiar que o congresso promoveu num momento que costuma ser formal e pomposo). Pesquisador da USP de Ribeirão Preto, Sene dedicou sua vida a estudar a evolução de drosófilas. As pobres moscas são tão conhecidas em laboratórios e fruteiras que muita gente nem se dá conta de que existem inúmeras espécies de drosófilas na natureza, sujeitas à seleção natural e tudo. Nos seus estudos, como entender a evolução exige, Sene reuniu ecologia, geomorfologia, zoologia, biogeografia, etc.

Formou pesquisadores, ajudou a desenvolver o campo da evolução na biologia brasileira. Até que, nas palavras dele, a genética de populações entrou em crise “devido ao caos dos marcadores moleculares que inviabilizaram o enfoque em populações”. Ou seja, segundo ele as pessoas passaram a seqüenciar DNA loucamente e deixaram de pensar. Passaram a limitar-se a revisões da classificação dos seres vivos e submergiram numa confusão conceitual, sem saber a diferença entre padrões e processos evolutivos. Ele lamentou que ainda agora o ensino de evolução nos cursos de biologia é muito deficiente.

No dia seguinte entrevistei o Philip Hanawalt, norte-americano da universidade Stanford que teve e tem um papel central nos estudos sobre reparo de DNA. Qual não foi a minha surpresa quando ele contou que já lhe aconteceu de ser procurado por aluno que queria simplesmente clonar um gene – sem saber por que nem ter um questionamento científico. Ele me disse que muitas das descobertas mais importantes saíram de uma boa idéia e um experimento simples, com pouca tecnologia. E é isso que ensina aos alunos: formule a pergunta que quer responder e pense na maneira mais simples de ir atrás da resposta.

Ao longo dos três dias de congresso ouvi a mesma queixa várias vezes, de pessoas diversas, de maneira independente. A tecnologia ajuda, não há dúvida. Mas há que saber usá-la, quando usá-la e por quê. A máquina mais espantosa já feita ainda está dentro do crânio de quem escreve e de quem lê blogues.

Peguei o pensador do Rodin aqui.

Este texto é parte da discussão de setembro no roda de ciência.
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