A inovação científico-tecnológica e os desafios do nosso tempo

“O estado da economia demanda ação pronta e ousada, e agiremos – não apenas para criar emprego, mas para construir novos alicerces para o crescimento. Construiremos estradas e pontes, as redes elétricas e digitais que alimentam o nosso comércio e nos unem. Recolocaremos a ciência no lugar que lhe é devido, e usaremos as magias da tecnologia para melhorar a qualidade do atendimento de saúde e reduzir os seus custos. Convocaremos o sol, a terra e o vento para abastecer os nossos carros e as nossas fábricas. E transformaremos as nossas escolas e universidades para responder aos desafios de uma nova era. Tudo isto podemos fazer. Tudo isto iremos fazer!”

Barack H. Obama[1]




Palavras
inspiradoras são as de Barack Obama, grande candidato a farol-guia do
mundo em crise. Mas chegarão para nos levar a porto seguro? A julgar
pelo recente livro de Judy Estrin [2], discursos inspiradores de
grandes líderes são um ótimo princípio para instilar confiança na
comunidade e exortá-la a responder aos desafios do momento. Esses são
conhecidos de todos, e ao contrário do que muitos pensam não se resumem
à crise económica global. São muito maiores os desafios da
sustentabilidade da nossa existência, no uso de recursos naturais e
seus impactos no planeta que nos acolhe ainda. Mais prementes são os
desafios da produção de energias limpas e o controle das alterações
climáticas. Para a autora (tal como para Obama), o símbolo do
desenvolvimento sustentável teria um potencial catalizador de inovação
científica e tecnológica no século XXI, comparável ao que o programa
espacial
norte
americano teve no sistema de pesquisa e inovação daquele país nas duas
décadas após a segunda guerra mundial, levando à consumação definitiva
da liderança global dos EUA.

Mas
haveria algo errado com o sistema de inovação científico-tecnológica
para que os EUA e o mundo pareçam tão atrasados na luta contra os
desafios que há tanto tempo se anunciam? O que houve, principalmente
nas duas últimas décadas, foi um sistema demasiadamente focado na
eficiência e na produtividade em decorrência das pressões da sociedade
e de seus líderes. Segundo Estrin, um sistema desse tipo funciona
esgotando a energia dos indivíduos em atividades produtivas, não
sobrando aquela essencial para a atividade criativa, o verdadeiro pilar
da inovação científica e tecnológica. É então importante que a mensagem
que chega dos líderes seja de um outro tom, inspiradora e que estimule
a inovação. Mas uma sociedade no caminho da inovação depende acima de
tudo de indivíduos com determinadas capacidades, que seriam as de:
questionar, ser aberto a novas ideias, correr riscos, ser perseverante
e autoconfiante. Será possível uma educação para a inovação? Aqui, J.
Estrin critica o sistema educativo atual dizendo que ele produz
indivíduos com capacidade de seguir manuais de instruções, mas não de
questionar e muito menos enquadrar devidamente as questões. A saída
para as próximas gerações é, não tanto ensinar inovação como disciplina
na escola mas alterar o modo como se lecionam todas as disciplinas,
incentivando o questionamento das matérias e os debates em que a
criança ou adolescente seja protagonista. Assim se despertam as
capacidades de liderança necessárias para uma atividade criativa. A
educação dentro da família teria um papel tão ou mais importante, no
sentido de permitir à criança ter a autoconfiança necessária para, ao
longo de sua vida, questionar de forma construtiva entidades que
representem o poder do conhecimento autoritário, sejam parentes,
professores, orientadores ou superiores hierárquicos.

Essa
empresa, a da promoção da inovação para atender aos desafios da nossa
era, extravasa o papel das universidades como instituições promotoras
de ciência e inovação, pois é na verdade um projeto de sociedade. À
semelhança dos mecenas da Itália renascentista, o Estado, fundações e
indivíduos filantrópicos têm papel essencial na promoção da
criatividade e da inovação. Sem o investimento incondicional na
educação e nas carreiras de jovens com potencial inovador, claramente
não será possível vencer os desafios da nova era. O apoio a museus,
exposições interativas e atividades curriculares que estimulem a
curiosidade e perspectivem uma carreira de exploração científica são
também imprescindíveis para aguçar o espírito inovativo.

A
cumplicidade da imprensa nesse empreendimento é essencial. Um exemplo
que vale recordar, de Portugal, é o concurso Ciência Viva que leva
jovens em idade universitária a instituições de pesquisa como o Centro
Espacial Europeu e o carinho que esse tipo de iniciativas desfruta na
mídia local [ver 3]. Quantas vezes esse carinho é dedicado pela grande
mídia brasileira a programas de interação entre jovens e pesquisadores
em grandes centros de ciência no Brasil. O que ficou por exemplo da
expedição espacial brasileira, divulgada no meio de várias polêmicas
que apenas realçaram o seu lado negativo? Quantos jovens terão ficado
inspirados pelos textos escritos e lidos na imprensa, naquele ano de
2006? Muitos terão ficado maravilhados com o feito do astronauta
Pontes, mas com certeza não através da contribuição de muita da
imprensa escrita.

É
necessário um novo ambiente na nossa sociedade que acarinhe a boa
ciência e a tecnologia realmente inovadoras. As grandes questões do
nosso tempo e do nosso futuro deveriam dominar a mídia, de forma mais
inspiradora e menos conspiradora, constituindo um verdadeiro ideal de
nação e de mundo. Infelizmente, tanto por culpa da imprensa como de
nossos líderes, grandes questões são abordadas de forma burocrática e
desestruturada, não permitindo ao público ter uma noção de rumo. Um bom
exemplo é a autossatisfação da nação brasileira com a autossuficiência
no abastecimento de petróleo e a liderança mundial na produção de
biocombustíveis. Se esses feitos da tecnologia brasileira são sem
dúvida invejáveis, parece faltar alguém que pergunte: biocombustíveis
para hoje, e o que para daqui a 20-50 anos? Poucos alertam para o
caráter paliativo desses feitos pois nem os combustíveis fósseis nem os
biocombustiveis são sustentáveis a longo prazo para suprir o consumo
brasileiro e mundial.

Parafraseando
Obama, convoquemos o sol, a terra e o vento para garantir a nossa
sobrevivência, mas é bom ter cuidado com a terra pois apenas o sol e o
vento são absolutamente renováveis. E o uso destes depende
absolutamente de indivíduos inovadores inspirados e motivados por
sociedades estimulantes. A desculpa de que o Brasil é um país ainda
emergente, afogado em problemas civilizacionais muito mais básicos, não
será suficiente para explicar às próximas gerações por que motivo o
país não foi protagonista nas grandes revoluções do século XXI.
Esperemos que não seja por falta das palavras: “Sim, nós podemos” mudar
o Brasil e o mundo! Rumo a um porto seguro que sirva de base para
explorar outros destinos.

1.
Tradução própria de extrato do discurso de posse do presidente dos
Estados Unidos da América Barack H. Obama, em 20 de Janeiro de 2009.

2. Estrin, Judy (2008). Closing the Innovation Gap: Reigniting the spark of creativity in a global economy. McGraw-Hill, 300p. [
http://www.theinnovationgap.com/]
3.
Teresa Firmino (2006). Concurso do Ciência Viva: Desafios de física
levaram duas alunas a centro de testes de satélites. Jornal Público,
Quinta-feira 16 de Março de 2006. Matéria completa reproduzida no blog
Ciência e Ideias.

Texto de candidatura ao Curso de pós-graduação lato sensu em jornalismo científico do Labjor-UNICAMP.

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