Vendo a humanidade colorida: um princípio

Um novo princípio se anuncia para o nosso Ciência e ideias aqui no ScienceBlogs, celebremos os que nos acolhem… escrevendo.

Todos os anos, desde há muitos anos, eventos recorrentes nos relembram de certas facetas da humanidade. As Olimpíadas têm convivido com holocaustos, e tribos e comunidades ora convivem ora se degladiam pela própria existência. Falando de discriminação racial, um fato recente sobrepôs-se a todos os outros, pelo seu simbolismo: a eleição e tomada de posse de Barack Hussein Obama como primeiro presidente negro dos Estados Unidos da América.

Ironicamente, decorre a conferência da ONU contra o racismo mas o primeiro presidente negro dos EUA não está representado. O cerne do boicote é o antissionismo (não confundir com antissemitismo) do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, que nega o Holocausto e o direito à existência do estado de Israel e usa a conferência como plataforma de ataque a Israel. Isso foi confirmado pelo discurso de Ahmadinejad na segunda-feira que levou a União Europeia a abandonar a reunião em bloco. Apesar do fogo de artifício, foi ontem confirmada a adoção por unanimidade da resolução que vinha sendo negociada há vários meses.

Mas o que justifica essa conferência global? Por que não conseguimos ultrapassar diferenças social e culturalmente construídas? Afinal, não fazemos parte da tal população de seres humanos geneticamente tão semelhantes? E a cultura e a nacionalidade, qual a sua relação com a diversidade biológica humana? O que a história evolutiva da nossa espécie nos pode ensinar e como poderá contribuir para uma nova perspectiva sobre a questão racial?

Evidentemente, a conferência realiza-se porque o racismo é ainda uma questão não resolvida. Não precisarei de ilustrá-lo, acho que todos já presenciamos a sua manifestação real uma ou outra vez nas nossas vidas. Recentemente, a questão permeou as eleições para a presidência dos EUA. Barack Obama resistiu e venceu o desafio racial, e as eleições. Venceu, não por ser negro mas por congregar apoios também entre os que se escondiam na trincheira oposta, falando o seu dialecto. O segredo de Obama é comunicar-se em diversos dialectos como nos diz a escritora Zadie Smith no brilhante ensaio Speaking in Tongues publicado na New York Review of Books. Provavelmente, Obama será também capaz de ver o mundo colorido, uma novidade no universo dos nossos líderes.

Falar dialectos e ver o mundo colorido são para mim condições essenciais para pensar a questão da diversidade da espécie humana. Ver o mundo colorido significa apenas enxergar a diversidade em toda a sua complexidade. Serão 6 bilhões de cores que se misturam no mesmo número de indivíduos? Ou cada indivíduo de uma cor? Seremos uma massa uniforme de seres, todos iguais na sua singularidade individual? Escolher ver a preto e branco ou ver tudo branco pela mistura de todas as cores? Uma outra perspectiva colorida é possível, que não negue a diversidade nem a transforme num sistema fixista de classificação.

Aproveitando para a reflexão debates recentes oriundos de palestras sobre o tema, um simpósio no Congresso da Sociedade Brasileira de Genética, as Olimpíadas, a história de Israel e da Palestina, uma afirmação breve de um frentista no Brasil, e outra de Ash que conheci brevemente em Berkeley, talvez algumas imagens desfocadas da tenra infância em terras de África, e o que mais me aprouver…defenderei aqui que o debate sobre a questão racial não faz sentido sem ser à luz da biologia evolutiva. Como tal, a questão torna-se essencialmente histórica. E o passado, há que ultrapassá-lo!

No ScienceBLogs, este foi um princípio que celebramos. Vendo a humanidade colorida regressará, nos próximos meses.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Discussão - 13 comentários

  1. João Carlos disse:

    Sejam mais que bem vindos! E meu xará começa com um tema particularmente momentoso.
    Eu estive para escrever uma arenga sobre o absurdo de chamar o Estado de Israel de “racista”, uma vez que nem “Israelita”, nem “Judeu” são raça. Inclusive porque há “judeus” negróides…
    Mas me faltou o ânimo… O ridículo de toda essa lenga-lenga de “superioridades” tribais ou paroquianas me cansa. Muita pseudo-ciência já foi arregimentada para servir de suporte para essas teorias capengas e auto-louvatórias, e, traduzindo o capítulo do livro do Ben Goldacre, me “toquei” do recado: “não se deve dar status a pseudo-ciências, discutindo com seus prosélitos”.
    Ahmadinejad é um estúpido dizendo tolices. Os representantes europeus foram ainda mais estúpidos, sancionando tacitamente os abusos do Estado de Israel (não confundir com “povo judeu”, seja lá isso o que for…), demonstrando que Ahmadinejad está coberto de razão ao os acusar de “consciência pesada”. Como dizia minha mãe: “puseram as mãos no chão e deram um coice no burro”…
    Gosto da proposta de analisar a questão “racial” em termos de biologia evolutiva. Um pouco de ciência, onde há tanta pseudo-ciência, viria a calhar!

  2. Isis disse:

    O blog ficou ótimo! Boa sorte!

  3. maria disse:

    inauguração de comentários em total estilo joão carlos. já estou me sentindo em casa.

  4. Olá João Carlos, obrigado pelo ensejo e fico contente por saber que vou contar com o seu entusiamo para debater o tema. A questão israelo-palestina está envolvida por muita mistificação, pelo que tenho descoberto (para minha grande desilusão, devo dizer). Venho lendo um livro bem interessante do historiador israelense Tom Segev (“One Palestine complete”), que julgo não estar traduzido para o português. E estou interessado em ler os do Norman G. Finkelstein. Quanto à questão da raça, espero conseguir comunicar adequadamente as falácias que têm sido recorrentemente usadas no debate. Mas tenciono fazer disso um processo de escrita gradual, espero que prazeroso para mim e para quem me quiser acompanhar no percurso.
    Aqui vai um abraço pelo reencontro blogosférico.

  5. Davi disse:

    Ótimo texto!
    Me fez refletir sobre alguns valores próprios e me embasbaquei com o meu próprio pensamento simplista…
    “Eu acho que discordo do pensamento racista, porque vejo a diversidade genética como um fator positivo à perpetuação da espécie humana”
    Cheguei a conclusão que preciso sair do ScienceBlogs (de vez em quando) e ler/ver mais jornais e revistas. (Risos)
    Brincadeiras à parte..
    não estou conseguindo assinar o feed de vocês..
    E novamente parabéns

  6. maria disse:

    Davi,
    os feeds ainda estão em processo de ajustes. pelo que aparece aqui no nosso, deveria funcionar se você for no “subscribe” na coluna da esquerda, lá embaixo. se não funcionar avise, e não desista que consertaremos!
    obrigada pela visita.

  7. Lucia Malla disse:

    Já estou por aqui, mergulhando em reflexões internas com esse texto ótimo de introdução do João. Parabéns à nova casa! Supimpa! 🙂

  8. Começo em grande estilo, pessoal. Ficarei sempre de olho em vós.
    Abraço!

  9. obrigado a todos pelos simpáticos comentários!

  10. Karl disse:

    Benvindos ao condomínio!!!
    É uma honra ser vizinho de vcs.
    Excelente texto, João Alexandrino. Tenho me debatido com essa questão de raça, principalmente a humana, que passa necessariamente por uma tentativa de definição da essência do humano. Esse pensamento essencialista é metafísico por excelência e está tão enraizado em nossa cultura que não enxergamos outros tipos de “não-reconhecimento do outro”, como por exemplo, os tais “olhos azuis” e outros racismos às avessas. A humanidade colorida é uma linda alegoria e nunca é demais chamar atenção para todos os tipos de racismo. Parabéns

  11. obrigado Karl, você tem razão. por isso mesmo tenho pensado que uma outra perspectiva é possível.

  12. ana claudia disse:

    João!
    Quanto tempo! Que bom “ouvir sua voz” novamente neste espaço blogosférico. Pelo jeito a casa nova também deu novo ânimo ao seu desejo de escrever, estarei acompanhando!
    um beijo,
    ana claudia

  13. João Alexandrino disse:

    Obrigado pelo apoio Ana!

Envie seu comentário

Seu e-mail não será divulgado. (*) Campos obrigatórios.

Sobre ScienceBlogs Brasil | Anuncie com ScienceBlogs Brasil | Política de Privacidade | Termos e Condições | Contato


ScienceBlogs por Seed Media Group. Group. ©2006-2011 Seed Media Group LLC. Todos direitos garantidos.


Páginas da Seed Media Group Seed Media Group | ScienceBlogs | SEEDMAGAZINE.COM