O visitante: notas para uma humanidade colorida

…chega a casa retornado de longa uma ausência e a encontra inesperadamente ocupada por um casal de imigrantes desconhecidos. Supostamente, a casa foi alugada por um amigo de quem nunca ouviu falar. Após o susto e as explicações, os seus hóspedes decidem abandoná-lo e tudo não parece passar de um pequeno incidente desagradável.


Mas a história não acabou aqui para Walter Vale, personagem de The Visitor
(Tom McCarthy, 2008), que hospedava sem saber o sírio Tarek e a bela
senegalesa Zainab. Walter logo se arrependeu da saida dos seus dois
hóspedes, ofereceu-lhes guarida e iniciou uma relação
inverosímil.

Walter é um economista/escritor especializado em
países em desenvolvimento, mas cansado e desiludido da sua vida
asséptica de académico. Pronto para embarcar numa viagem no seu próprio
mundo, em sua própria casa. Essa viagem é possível graças ao mundo
estranho de Tarek e Zainab, representado pela música e o batuque djembe
de Tarek (que não é africano!).

fela_kuti.jpgWalter encontra um novo ritmo dentro de
si, aprende que em África se vive a três tempos (em vez de quatro), sai
da sua timidez, muito americana, de mergulhar no diferente e se
envolver. Toca djembe em grupo no Central Park de Nova Iorque
e…acabará tocando sozinho no metro. Pelo meio, percebemos que Tarek e
Zainab são amigos de um israelita (Tarek é sírio!) com quem Zainab
vende as lindas jóias que fabrica, e aprendemos mais sobre a
condição do imigrante através de Mouna, mãe de Tarek.

Tarek sugere que Walter ouça música de Fela Kuti, pioneiro do afrobeat.

Quem é
afinal o visitante? Tarek, Zainab e Mouna, ou Walter que aceita
visitar um mundo pelo qual se apaixona? Por que o caso de Walter é uma
exceção? O que perdemos por não visitarmos mais o mundo de imigrantes,
de estranhos que abundam à nossa volta? O que define um estranho e por
que o receamos?

O turismo que nos é proposto no filme é distinto
do que é vendido às massas de “proletários alienados”, não necessita de
fotos batidas sem que o olhar alcance o sujeito. A razão da raridade de
pessoas como Walter talvez esteja na necessidade individual permanente
de garantir a pertença ao seu grupo, à sua tribo, que não deixa espaço
para pertencer a um outro, ao estranho. Até na internet, espaço
teoricamente sem fronteiras, indivíduos se juntam em tribos
aparentadas. Será esta natureza do humano uma fatalidade necessária?
Talvez a resposta de cada um possa ser provocada pela visão d’O
Visitante
.

Walter aceitou ser visitante de outro mundo dentro do seu mundo mas não
foi radical ao ponto de sê-lo no espaço do outro mundo. Neste sentido,
o filme pode ser visto como representativo da inexorabilidade da assimetria
migracional em direção ao Ocidente, que pode tornar a humanidade cada
vez menos colorida. Walter poderia ter ido para Oriente…que triste
para a humanidade que não tenha ido!

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Discussão - 2 comentários

  1. Maria, seu blog sim é blog. Vou visitante assíduo.

  2. maria disse:

    legal evanildo, obrigada pela visita e pelo elogio. mas note que não blogo sozinha: este texto, por exemplo, é do joão!

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