Pandemia, pandemônio

“Temos dois casos suspeitos de gripe suína”, anuncia aflita a médica de plantão no Pronto Socorro da pediatria. A seguir, o relato de uma enfermeira em tempos de pandemia.

 

“Na hora me veio um filme na cabeça. Uns dois meses atrás, enquanto pegávamos plantão, ligaram da supervisão avisando que teríamos – eu ou a outra enfermeira – de subir pra assistir uma aula. Eu, revoltada com muito trabalho e muito curso pro meu gosto, me recusei a ir, depois a supervisora ligou doida e a outra acabou indo.

Lá ela descobriu que era aula sobre o protocolo de atendimento dos casos suspeitos de H1N1 pois o Hospital era uma das referências no tratamento da gripe. Lembrei que ela desceu com várias anotações num rascunho e que eu tinha guardado isso. Lembrei também que havíamos sido avisadas sobre os “kits H1N1” que estavam sob a pia da sala de emergência.

Enquanto eu pensava em tudo isso, a Dra. já ia dizendo ‘vá lá ver como eles tão atendendo, tão fazendo tudo errado, colocaram numa sala qualquer, tão usando a máscara cirugica por baixo da N95 e tão desfilando com as roupas por aí’. Se na pediatria, que é um grupo menor, já é uma zona por causa dos residentes novos, imaginem no PS geral que tem várias especialidades e um movimento quatro vezes maior. O correto seria ter uma sala isolada e separada única e exclusivamente para isso, onde o kit já estivesse à disposição e com um lugar adequado para descartar as coisas usadas.

O kit tem um avental, luvas, gorro, um máscara cirúrgica comum, uma máscara para aerossóis (N95) e óculos. Todos os que entrarem em contato com o paciente devem estar devidamente paramentados e para sair da sala toda essa paramentação deve ser desprezada. Fui dar uma olhadinha no corredor e vejo umas três pessoas de máscara, uma sala aberta e uma residente saindo pelo corredor toda paramentada, parecendo astronauta de escafandro. Até parei de respirar quando a vi.

Enfim… depois de corre pra cá e corre pra lá por conta das notificações, um dos residentes da pediatria foi escalado pra examinar as crianças – duas meninas, uma de 5 e outra de 1 ano – que tinham história de quadro gripal há 4 dias com um episódio de febre aferida, motivo da vinda ao hospital. Elas são comunicantes da tia, que chegou de Miami há 6 dias, com história de tosse, dores no corpo e febre há 7 dias. O residente está no primeiro ano, R1, cheio de vontade e carente de experiência. Achei que ele nem tivesse entrado na sala quando apareceu todo paramentado no posto de enfermagem pra me pedir um abaixador de lingua. Doce ilusão. Já passei o sabão nele ali mesmo e comecei a rezar pra não ser nada mais do que suspeita, senão…

A conduta é dada pelo Centro de Vigilância Epidemiológica (CVE), mas já fiquei mais aliviada quando o residente me disse que as duas crianças tinham foco pra febre, a mais velha estava tratando uma amigdalite e a mais nova apresentava otite no ouvido esquerdo. Até aí já tava o hospital todo sabendo, já estávamos brigando pra ver qual das unidades ficaria com as crianças, quem iria prestar os cuidados e etc. Eu já tinha até negociado o empréstimo de um dos meus berços pro quarto com pressão negativa da enfermaria de infecto adulta. Já tínhamos sido orientadas a como colher o swab da região nasal e da orofaringe.

Mas como imaginávamos, o CVE mandou as duas crianças pra casa, colheu exames da tia e já a mandou pra casa com medicação. Daqui dois dias saem os resultados, se der positivo as crianças serão chamadas pra colher exames e se der negativo a medicação da tia será suspensa.

Depois que passou o susto a gente ficou dando risada, mas é rir pra não chorar. Já pensou se fosse gripe de verdade? Tava todo mundo contaminado por causa da falta de treinamento e orientação da equipe médica e do pronto socorro de maneira geral.”

 

Este texto é parte da discussão de junho no Roda de ciência, sobre pandemias. Comentários, por favor, aqui.

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