Um destaque foi saber que o Takata, o comentador campeão da blogosfera (devidamente premiado pelo ABC), existe em carne e osso.
Continuando o que pus aqui, em seguida falou o físico Leandro Tessler, do blogue Cultura científica. No conforto de quem não ficaria para as discussões do dia seguinte, ele criticou a anti-ciência que chega à mídia - em boa parte por falta de competência dos jornalistas. Ele advoga algum controle de qualidade na blogosfera, mas não sugeriu como. A plateia não pareceu muito convencida de que seria possível ou mesmo desejável.
O Bernardo Esteves, editor da Ciência Hoje on-line, mostrou que não dorme em serviço. Prometeu, pelo menos. A CH on-line está em meio a uma reformulação total e pretende mostrar vídeos, fotos, integrar o conteúdo com blogues, abrir o site para comentários (e debates, de preferência) e o que mais der na telha. Em princípio a partir de meados deste mês. Enfim, uma publicação de divulgação de ciência na internete que se põe à frente das outras em usar melhor os recursos à mão. Ele falou também sobre o espaço dos blogues na divulgação de ciência, e mostrou que jornalistas e blogueiros têm muito a aprender uns com os outros. Um encontro que promete!
Domingo de manhã, o show de animação continuou com a neurocientista de plantão Suzana Herculano-Houzel. Ela enumerou uma série de motivos por que os cientistas devem tomar a iniciativa de divulgar ciência. Ela mesma seguiu uma trajetória pouco comum em ciência: foi contratada na UFRJ como divulgadora de ciência e depois conseguiu voltar à pesquisa científica. Hoje faz as duas coisas ao mesmo tempo e mostra que livros sobre ciência vendem sim (sobretudo quando se travestem de auto-ajuda). Eu completo: cérebro atrai a atenção das pessoas. Se ela estudasse o sistema digestivo de minhocas, talvez não fosse tão bem situada nas listas de mais vendidos. Alguns dos motivos que seus colegas cientistas deveriam ter em mente, a seu ver: para prestar contas à sociedade do que fazem com recursos públicos, para aumentar as chances de serem reconhecidos até mesmo entre pares e financiadores, para ajudar os pares a acompanhar os avanços em sua pesquisa, para descobrir novos aspectos da própria ciência. E ajuda nas festas, além do mais, quando alguém pergunta "o que você faz?". Ter uma resposta pronta ajuda a escapar do rótulo de cientista inatingível antissocial e maluco. Ela comemora também conseguir, na comunicação por meio de blogue, derrubar a hierarquia entre cientista e público.
A Alessandra Carvalho, do Karapanã, não deixou dúvidas: a parceria entre pesquisadores e jornalistas rende ótimos resultados e todos têm seu lugar na divulgação da ciência. Refletiu o tom do EWCLiPo: o que vale são os encontros, não as disputas. Pena que o Leandro Tessler já não estava lá para ver.
A Lacy Barca (que, depois descobri, conhece parte da minha família) nos mostrou um belo passeio pela divulgação de ciência na televisão. Os números são assustadores, entre religião esporte e bobagens, sobra umas frestinhas para a ciência. Mas todos se deliciaram com os exemplos que ela mostrou. É possível, devia ter mais.
O último a se apresentar foi o Fábio Almeida, do Ciencine, que mostrou que um biólogo inventou o cinema - Étienne-Jules Marey (obrigada, Takata!). Antes que a imagem em movimento pudesse ser reproduzida numa tela, o movimento de cavalos e animais fotogafado quadro a quadro era projetado como um filme. Lindo! (Como se chamava esse inventor do cinema??? Não anotei e me deu branco, alguém me socorre)
Um pouquinho também sobre minha própria fala: o Mauro tinha pedido que eu usasse minhas duas vidas (bióloga pesquisadora durante o doutorado e, agora, jornalista de ciência) para comparar como o cientista escolhe o que pesquisar e como o jornalista escolhe o que divulgar. Em uma palavra, paixão. Mas tem mais. Tem acaso, tem predisposição ao interesse por certos temas. Usei o exemplo da Jane Goodall, que dedica sua vida ao estudo e à defesa dos chimpanzés - desde pequena, ela andava abraçada a um boneco de chimpanzé. Mas foi um tanto por acaso que ela acabou mandada para a Tanzânia onde descobriu o que ninguém sabia sobre nossos primos mais próximos. Precisa paixão pra se dedicar à ciência, precisa paixão pra escrever loucamente - e passar as horas vagas escrevendo num blogue. E muito acaso participa em determinar o que chega às páginas de uma revista e o que não chega. Uma boa colaboração entre pesquisadores e jornalistas ajuda.
Saí de lá pensando na provocação do Fábio Almeida. Usamos blogues como mídia impressa. Eu uso. Precisa achar jeitos de usar as possibilidades mais por inteiro, algo como o que a CH on-line pretende fazer. Não sei como fazer isso sendo blogueira por lazer, mas vou ficar atenta a possibilidades. E de maneira mais geral, encontrar tanta gente entusiasmada e ativa em diversas frentes, parece certo: mundo, prepare-se para se encantar. Ninguém segura a divulgação de ciência.
Uma jornalista de ciência que desistiu de ser bióloga porque a curiosidade não cabe num assunto só e... um biólogo evoluindo para estados ainda indeterminados.

Commentários (13)
Pois é, o desafio de usar outras midias me motivou também... Vc gostou da sua gravação? E da Suzana Herculano, vc ouviu? Está aqui:
http://comciencias.blogspot.com/2009/09/suzana-herculano-no-ii-ewclipo.html
Ficou muito interessante e diferente os minutos antes da palestra, enquanto conversavamos sobre nossos filhos...
Duvido que um jornalista de ciencia colocaria no ar desta forma...
Escrito por: Osame Kinouchi | outubro 2, 2009 7:54 PM