Mais sobre o EWCLiPo

Thumbnail image for Ewclipo_2009_cartazete.jpgBlogar sobre um encontro de blogueiros é uma tarefa inglória. A avalanche de textos publicados sobre o II EWCLiPo, no fim de semana passado, é assustadora. Tem até gravações, no semciência. Mesmo assim, ponho aqui o resto das minhas anotações e, quem sabe, alguma ligeira reflexão.

Um destaque foi saber que o Takata, o comentador campeão da blogosfera (devidamente premiado pelo ABC), existe em carne e osso.

Continuando o que pus aqui, em seguida falou o físico Leandro Tessler, do blogue Cultura científica. No conforto de quem não ficaria para as discussões do dia seguinte, ele criticou a anti-ciência que chega à mídia – em boa parte por falta de competência dos jornalistas. Ele advoga algum controle de qualidade na blogosfera, mas não sugeriu como. A plateia não pareceu muito convencida de que seria possível ou mesmo desejável.

O Bernardo Esteves, editor da Ciência Hoje on-line, mostrou que não dorme em serviço. Prometeu, pelo menos. A CH on-line está em meio a uma reformulação total e pretende mostrar vídeos, fotos, integrar o conteúdo com blogues, abrir o site para comentários (e debates, de preferência) e o que mais der na telha. Em princípio a partir de meados deste mês. Enfim, uma publicação de divulgação de ciência na internete que se põe à frente das outras em usar melhor os recursos à mão. Ele falou também sobre o espaço dos blogues na divulgação de ciência, e mostrou que jornalistas e blogueiros têm muito a aprender uns com os outros. Um encontro que promete!

Domingo de manhã, o show de animação continuou com a neurocientista de plantão Suzana Herculano-Houzel. Ela enumerou uma série de motivos por que os cientistas devem tomar a iniciativa de divulgar ciência. Ela mesma seguiu uma trajetória pouco comum em ciência: foi contratada na UFRJ como divulgadora de ciência e depois conseguiu voltar à pesquisa científica. Hoje faz as duas coisas ao mesmo tempo e mostra que livros sobre ciência vendem sim (sobretudo quando se travestem de auto-ajuda). Eu completo: cérebro atrai a atenção das pessoas. Se ela estudasse o sistema digestivo de minhocas, talvez não fosse tão bem situada nas listas de mais vendidos. Alguns dos motivos que seus colegas cientistas deveriam ter em mente, a seu ver: para prestar contas à sociedade do que fazem com recursos públicos, para aumentar as chances de serem reconhecidos até mesmo entre pares e financiadores, para ajudar os pares a acompanhar os avanços em sua pesquisa, para descobrir novos aspectos da própria ciência. E ajuda nas festas, além do mais, quando alguém pergunta “o que você faz?”. Ter uma resposta pronta ajuda a escapar do rótulo de cientista inatingível antissocial e maluco. Ela comemora também conseguir, na comunicação por meio de blogue, derrubar a hierarquia entre cientista e público.

A Alessandra Carvalho, do Karapanã, não deixou dúvidas: a parceria entre pesquisadores e jornalistas rende ótimos resultados e todos têm seu lugar na divulgação da ciência. Refletiu o tom do EWCLiPo: o que vale são os encontros, não as disputas. Pena que o Leandro Tessler já não estava lá para ver.

A Lacy Barca (que, depois descobri, conhece parte da minha família) nos mostrou um belo passeio pela divulgação de ciência na televisão. Os números são assustadores, entre religião esporte e bobagens, sobra umas frestinhas para a ciência. Mas todos se deliciaram com os exemplos que ela mostrou. É possível, devia ter mais.

O último a se apresentar foi o Fábio Almeida, do Ciencine, que mostrou que um biólogo inventou o cinema – Étienne-Jules Marey (obrigada, Takata!). Antes que a imagem em movimento pudesse ser reproduzida numa tela, o movimento de cavalos e animais fotogafado quadro a quadro era projetado como um filme. Lindo! (Como se chamava esse inventor do cinema??? Não anotei e me deu branco, alguém me socorre)

Um pouquinho também sobre minha própria fala: o Mauro tinha pedido que eu usasse minhas duas vidas (bióloga pesquisadora durante o doutorado e, agora, jornalista de ciência) para comparar como o cientista escolhe o que pesquisar e como o jornalista escolhe o que divulgar. Em uma palavra, paixão. Mas tem mais. Tem acaso, tem predisposição ao interesse por certos temas. Usei o exemplo da Jane Goodall, que dedica sua vida ao estudo e à defesa dos chimpanzés – desde pequena, ela andava abraçada a um boneco de chimpanzé. Mas foi um tanto por acaso que ela acabou mandada para a Tanzânia onde descobriu o que ninguém sabia sobre nossos primos mais próximos. Precisa paixão pra se dedicar à ciência, precisa paixão pra escrever loucamente – e passar as horas vagas escrevendo num blogue. E muito acaso participa em determinar o que chega às páginas de uma revista e o que não chega. Uma boa colaboração entre pesquisadores e jornalistas ajuda.

Saí de lá pensando na provocação do Fábio Almeida. Usamos blogues como mídia impressa. Eu uso. Precisa achar jeitos de usar as possibilidades mais por inteiro, algo como o que a CH on-line pretende fazer. Não sei como fazer isso sendo blogueira por lazer, mas vou ficar atenta a possibilidades. E de maneira mais geral, encontrar tanta gente entusiasmada e ativa em diversas frentes, parece certo: mundo, prepare-se para se encantar. Ninguém segura a divulgação de ciência.

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Discussão - 13 comentários

  1. Pois é, o desafio de usar outras midias me motivou também… Vc gostou da sua gravação? E da Suzana Herculano, vc ouviu? Está aqui:
    http://comciencias.blogspot.com/2009/09/suzana-herculano-no-ii-ewclipo.html
    Ficou muito interessante e diferente os minutos antes da palestra, enquanto conversavamos sobre nossos filhos…
    Duvido que um jornalista de ciencia colocaria no ar desta forma…

  2. Alessandra disse:

    Maria, eu queria tanto que o Tessler estivesse lá..rs. Mas eu vou escrever ainda um post sobre autoridade e hierarquia na web. Enfim, eu tenho uma ideia pra vc: faça pequenos filmes, de coisas interessantes que vc vê nos bastidores das matérias e que não vão para a revista. Alguma coisa interessante que o pesquisador tenha na sala dele, enfim. Quanto aos podcsts, também curtos, com entrevistas dos caras que vc entrevista.

    sobre o comentário do Osame: um jornalista de ciência não colocaria dessa forma, desde que o foco da matéria fosse outro. Também antes de publicar, ele perguntaria para a entrevistada se ele pode publicar esses fatos da vida íntima em um post sobre o trabalho dela. Eu pelo menos faria isso.

  3. Maria Guimarães disse:

    Alessandra, vou ficar esperando esse teu post! Vamos invadir o blogue do Tessler, em campanha conciliatória?
    Adorei a tua ideia. Ontem eu tinha ficado pensando que pode ser simples começar a usar vídeos e afins, por exemplo como o Bernardo da CH on-line fez com entrevistas no EWCLiPo. Tua ideia mantém a simplicidade, mas é mais viva, poética, bonita.
    Me dá tua opinião sobre um assunto? Acho que tem uma certa corda-bamba ética em ser jornalista e manter um blogue como “civil”. Nunca me senti limitada, mas há sempre um risco de um dia a revista onde trabalho se ofender com algo que eu escreva, ou que alguém misture as coisas e ache que minha opinião como pessoa reflita a do meio onde publico profissionalmente. A pergunta: se eu for falar com um pesquisador como repórter da revista, é ético eu levar no bolso a blogueira? E pode ser problemático eu pôr chamadas no blogue para as matérias que publico? Corre o risco das coisas ficarem misturadas demais?
    Concordo quanto aos fatos da vida íntima – a Suzana inclusive disse que toma o maior cuidado para não expôr sua vida pessoal em público.
    Osame, ainda não tive coragem de ouvir minha gravação. Mesmo quando participo do programa de rádio eu tenho dificuldade, palestra é pior ainda.

  4. Alessandra disse:

    Maria, eu penso que vc pode ter um blog pessoal numa boa, sem problemas com a ética. Eu acredito que vc é uma pessoa bem cautelosa a não há de colocar coisas que vão afetar a vida do veículo que vc trabalha, nem a sua.
    Vc sabe que a FOlha faz restrições aos jornalistas com blog, né? Mas mesmo assim, eles publicam coisas que não entram na matéria. Eu conversei uma vez com o M. Leite sobre isso. E ele me disse que a política dele é essa: chama atenção no blog para as matérias/colunas que publica na Folha e coloca no blog impressões pessoais de viagens, leituras e outros. O pessoal do Laboratório faz isso tb.
    Outro exemplo: o M. Katsuki, jornalista de gastronomia, faz a mesma coisa. Publica fotos de lugares por onde anda, sem afetar o que ele faz no jornal.
    Eu acredito que vc não vai misturar as coisas. Explore para o blog aquilo que não vai dar pra colocar na revista. Vc nem precisa publicar simultaneamente. Mas acho legal fazer referência à matéria que vc publicou. Avise os entrevistados do seu blog, pergunte a ele se vc pode publicar Acho que é isso.
    Eu acho que o Tessler é a favor da conciliação, só ficou receoso diante da plateia.rs. Percebi pela fala dele, uma certa inclinação não pronunciada. =D

  5. Maria Guimarães disse:

    legal, obrigadíssima! eu sabia que esses encontros euclipanos renderiam boas trocas. continuemos. beijo

  6. Meninas, metendo o meu bedelho, minha política com blogs é e continuará sendo “tudo o que não é proibido é permitido”, trabalhando na Folha ou em qualquer outro lugar. Acima de tudo, sou gente, e não é porque um veículo “comprou meu passe” que eu sou obrigado a encarnar o que ele quer de mim. Sou uma pessoa autônoma e, desculpe, pessoas irradiam “pessoalidade”. Acho que um pouco mais de rebeldia faria bem a todos nós 😉 Abraços e parabéns pela bela discussão!

  7. Maria Guimarães disse:

    reinaldo, adorei! sabe que muita gente se espanta por você conseguir escapar ao jugo e manter o blogue. e não tem essa de meter o bedelho – se eu e alessandra quiséssemos uma conversa privada ela se daria noutro lugar. por favor, mantenha o bedelho ativo.

  8. Se não me engano – estou sem minhas anotações – Fábio Almeida considera Étienne-Jules Marey como o inventor do cinema como registro.
    []s,
    Roberto Takata

  9. Pois é, como está no inicio da minha gravação, eu pedi à Suzana autorização para gravar a conversa em vez de fazer uma entrevista formal (como eu havia combinado antes com ela).
    Mas vou falar de novo com ela, para ver se está tudo OK ou se é melhor tirar o arquivo de audio da Internet…

  10. Email para Suzana e Alessandra Galdo:
    Suzana, a Alessandra Carvalho me questionou no Ciencia e Ideias sobre o fato de que a gravação que coloquei no post tem coisas sobre a sua vida pessoal. Pelo que me lembro (e na gravação aparece), eu pedi permissão para gravar nossa conversa, estando implicito que divulgaria depois.
    Mas acho que não te pedi permissao explicita. O que vc diz?
    Não teria problema nenhum para mim cortar a parte inicial (desde que eu descruba como se faz isso) e deixar só a parte da palestra. Pelo que entendo, os palestrantes concordaram que as palestras seriam filmadas, gravadas e divulgadas.. O que acha?
    Alessandra, acho que estou concordando com voce. Eu poderia publicar por demanda (o pessoal da Ficção Cientifica faz muito isso) o livro do jeito mais ou menos como está. Dai, se o livro tiver alguma acolhida, eu poderia incluir as sugestões da Suzana e de outras pessoas (vc por exemplo), para fazer uma edição mais adequada ao grande publico.
    Obrigado pelo estimulo, acho que dessa vez o Beijo de Juliana decola, de um jeito ou de outro!
    Osame
    PS: alguem sabe o email da Maria Guimaraes?
    Pensando bem… As cartas de Theo e Vincent VanGogh, ou Jung e Freud, tem fim ou historia?
    Talvez o Beijo seja apenas um livro de cartas entre quatro cientistas…
    O problema é que as pessoas vao ler tais livros de cartas porque VanGogh e Freud sao famosos, o que nao é o caso de mim e dos meus amigos (ainda, risos…)
    Realmente, estou em duvida… Mas as outras observações da Suzana sao pertinentes.
    Vou eliminar o prefacio, começar com a carta da mulher do meu primo, Maria Luiza (nome ficticio, que é uma importante psicologa de São Paulo).
    Osame

  11. Caras,
    Eu saí de Arraial do Cabo com dor no coração, mas precisava mesmo viajar cedinho no domingo. De qualquer forma vocês podiam ter batido em mim no bar à noite, certo????
    Podem invadir meu blog a vontade… Sempre. Não quis em momento algum jogar a responsabilidade sobre a anti-ciência que circula na rede nos jornalistas. Se vocês entenderam isso peço desculpas! Mas preocupa-me o futuro da divulgação científica quando o pacato cidadão não consegue saber em que acreditar. Já dizia o tango nos anos 30: Hoy resulta que es lo mismo ser derecho que traidor.
    De mais a mais, são todos mais que bem vindos para invadir minha praia. Meu blog? Também.

  12. Maria Guimarães disse:

    ei leandro, não era o caso de bater em você! ao contrário, era de buscar a paz. mas sem a gente ter o espaço de dar nossos pontos de vista, não adiantava.
    de minha parte, acho que há sim anti-ciência e divulgação mal feita. para melhorar isso, o pesquisador tem um papel importante a cumprir: de ter paciência, de estar disponível, de explicar e explicar de novo, de procurar jornalistas sérios para avisar de novidades que mereçam atenção. assim, juntos, dá pra melhorar a ciência na mídia.

  13. Alessandra disse:

    Eu gostei que o Leandro tenha vindo no nosso espaço virtual (digo,nossos blogs), porque eu quis muito poder conversar com ele, trocar ideias. E descobri que outras pessoas também. Mas como não deu por lá, a gente fez nossa abordagem por aqui. Aliás, o lema da cibercultura é “redes são conversações”. Se não há conversação, é impossível criar redes sociais. Eu gosto quando as pessoas me instigam, mexem com algo do que penso. É isso que faz a conversar andar.

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