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Uma jornalista de ciência que desistiu de ser bióloga porque a curiosidade não cabe num assunto só e... um biólogo evoluindo para estados ainda indeterminados.

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Termelétricas e pré-sal são anacrônicos, diz José Goldemberg

Categoria: Ambiente
Escrito em novembro 20, 2009 1:40 PM, por João Alexandrino

Goldemberg2.jpegO governo equivoca-se ao optar pelo petróleo do pré-sal e pela termeletricidade, descurando incentivos a energias alternativas, opina José Goldemberg, uma autoridade em energia e ambiente, no Brasil e no mundo. Nesta entrevista, o físico da USP analisa as opções energéticas do Brasil no contexto da transição para uma economia de baixo rastro de carbono, tema certo da próxima 15a  Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas (COP-15), que se realizará em dezembro em Copenhague.

Professor Goldemberg, o que fazer quando  se verifica hoje que os ganhos ambientais do século XX, por exemplo redução da poluição nas cidades, foram conseguidos à custa de tecnologia que aumentou o consumo global de energia, com efeitos negativos no clima?
É preciso eliminar os combustíveis fósseis, tão simples quanto isso. Primeiro porque são uma herança do passado que vai acabar se exaurindo. Segundo, porque estão distribuídos de maneira errática em torno do mundo, gerando problemas complicados de segurança e de abastecimento. Veja que a grande maioria das reservas remanescentes de petróleo estão no Oriente Médio, que é uma área instável. Terceiro, devido ao novo problema do aquecimento global, que não existia no século passado. Os combustíveis fósseis estão condenados mas vai levar uma geração ou duas para que a tecnologia dê uma resposta a esse problema, encontrando soluções novas.

A crise atual é essencialmente energética?
A raiz dos problemas é a forma de produção e uso de energia. Da toda a energia que a humanidade consome, 80% provém de combustíveis fósseis: carvão, petróleo e gás natural. Essa é a raiz do problema, embora existam outras contribuições como a produção de metano pelo gado e uso do solo, e o desmatamento, que são mais fáceis de corrigir. A redução do desmatamento não necessita novas tecnologias, e sim decisão política, pura e simples. Não é comparável à substituição eficaz do petróleo.

O Plano Nacional de Mudanças Climáticas do Brasil prevê reduzir o desmatamento em 80% até 2020. Isso permitiria ao Brasil aumentar as emissões resultantes da matriz energética, tal como previsto no Plano Decenal de Energia?
Esse argumento é odioso, vai na contramão da história. Se a população brasileira se tornar mais dependente de combustíveis fósseis do que é hoje, ainda mais agora com o pré-sal, reduzir o desmatamento da Amazônia não vai ajudar muito. A contribuição do Brasil para as emissões mundiais de gases com  efeito de estufa é de 4%, 3% com origem no desmatamento da Amazônia e na agropecuária, e 1% no sistema industrial. Se o Brasil cumprir o plano de redução do desmatamento,  a contribuição do uso do solo para as emissões diminui para 2%. Em compensação, se o sistema industrial dobrar a sua contribuição ficaríamos mais ou menos na mesma.

Os Ministérios do Meio Ambiente e da Ciência e Tecnologia entraram recentemente em polêmica sobre a produção de relatórios atuais de emissões de gases com efeito de estufa -o último é de 1994. Por que parece ser tão difícil e moroso produzir esses dados?
É um problema técnico, da competência necessária. O inventário oficial de emissões que o Brasil tem é de 1994. Só isso já coloca o Brasil numa posição ridícula. Os outros países atualizam os seus relatórios, você pode consultar relatórios de 2005 e 2006 na internet. Eles são difíceis de fazer, há um trabalho técnico grande, mas considero inteiramente indesculpável a morosidade do Ministério de Ciência e Tecnologia de não ter completado até agora o relatório, pelo menos até 2004. E o Ministério de Meio Ambiente não está de fato tão aparelhado para produzir esse relatório, mas acabou por fazê-lo mesmo assim. Agora, ainda não compreendo por que não foi feito pelo MCT, se por falta de motivaçao ou de competência.

Sir Nicholas Stern afirmou recentemente que aqueles países que não aproveitarem as novas oportunidades da economia de baixo carbono, ficarão irremediavelmente atrasados. A hidreletricidade e os biocombustíveis colocam o Brasil na linha da frente desse mercado?
Colocam pela seguinte razão: alguns países, especificamente os EUA e a França, estão adotando leis que permitirão a introdução de taxas adicionais aos países que exportarem produtos com rastro elevado de carbono. Por exemplo, suponhamos que exista uma empresa na China que exporte bonecas competindo com uma empresa brasileira do mesmo ramo. As bonecas produzidas no Brasil terão uma vantagem competitiva porque o rastro de carbono é baixo, uma vez que as máquinas que produzem as bonecas usam hidreletricidade. Então é do interesse do Brasil manter-se como economia de baixo carbono. Essa tendência do governo introduzir termelétricas na matriz energética brasileira é completamente anacrônica e acabará prejudicando o Brasil.

O que pensa das manifestações públicas de empresas que vieram cobrar mais iniciativa do governo para promover a liderança do Brasil na redução de emissões de gases com efeito de estufa e nos incentivos às energias renováveis?
Os meus colegas da Faculdade de Economia me disseram que o setor industrial brasileiro é caracterizado por líderes que representam aproximadamente 20% da economia brasileira; empresas como a Vale. Elas têm acesso a economistas e técnicos de alto nível, que já entenderam os riscos de uma economia de alto carbono e as oportunidades de uma economia de baixo carbono. Portanto, elas lideram e estão impacientes com o fato de que o governo brasileiro ainda não tomou decisões claras.

O investimento gigantesco que está destinado para o pré-sal deveria ser direcionado por exemplo para o PROINFA-Programa de Incentivo às Fontes de Energia Alternativa?
Sim, claro! É inexplicável que o programa não tenha prosperado desde 2003. Existem já alguns investimentos em empreendimentos eólicos, vai decorrer um leilão de energia eólica em novembro, mas realmente o programa não decolou em todo o governo atual.

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