Natureza etiquetada
O canadense Paul Hebert vende a sua iniciativa, o iBOL (international Barcode of Life) como a solução mágica para identificar instantaneamente qualquer organismo: planta, bicho, microrganismo. Ele reconhece que no Brasil há de ser mais complicado do que no Canadá, onde a diversidade biológica é bem mais comedida. E reconhece que ainda falta bastante para se ter um aparelhinho que funcione como um guia de campo mágico para tudo.
Funcionaria assim: os pesquisadores sequenciam um trecho bem pequeno do DNA – por volta de 650 pares de bases – e inserem no banco de dados, junto com fotos e informações diversas. Os botânicos entraram este ano num acordo sobre os trechos específicos a serem usados. Para animais, o marcador que parece funcionar melhor é um chamado CO1. O truque é encontrar trechos que existam em todos os organismos que se pretende comparar, com variabilidade suficiente para que cada espécie tenha um código de barras único. Funciona bem para vários bichos, conforme mostraram participantes do simpósio. Para plantas, nem tanto.
Mesmo assim, a apresentação um tanto simplista feita por Hebert (que, pelo visto, se pronuncia em francês: ebér, mas enrolando o érre porque a conversa é em inglês) das maravilhas dos códigos de barras – que certamente faz sucesso na imprensa e entre empresários financiadores – encontra alguma resistência entre biólogos.
O botânico Alberto Vicentini, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), mostrou que a diversidade de plantas amazônicas é tão imensa que é quase intangível. Um esforço intenso de coleta de plantas numa área relativamente pequena gera pilhas e pilhas de amostras que poucos conseguem identificar – sobretudo quando o esforço é todo de uma vez e se coleta as plantas sem flores ou frutos, que ajudariam bastante na identificação. Como ainda há muitas espécies sem nome na maior floresta brasileira, os códigos de barras dariam origem a um diagrama do tipo árvore genealógica, mas sem nomes nas pontas dos ramos. Ele criticou também a escolha dos marcadores para o código de barras de plantas – ele verificou que muitas vezes diferentes fontes de DNA (o núcleo da célula comparado ao cloroplasto, no caso) fornecem informações desencontradas. Mesmo assim, ele ficou interessado em embarcar na empreitada.
Outra crítica comum ao sistema de Hebert é que ele usa uma régua arbitrária para separar espécies. Uma diferença de 2% no código de barras define espécies diferentes. Assim, uma espécie de vespa virou 36 num exemplo que ele apresentou. Talvez haja ali uma grande diversidade oculta, mas é preciso estudar a evolução e a ecologia dessas vespas para saber se as 36 espécies são realmente distintas. O problema é que, mesmo que não haja um consenso sobre o que é uma espécie, a opinião quase geral diz que não dá para usar uma regra única para todos os organismos. Muitas vezes duas espécies diferentes são geneticamente muito parecidas mas seguem linhagens evolutivas distintas. Outras vezes uma espécie que funciona como uma unidade abriga uma enorme diversidade genética.
O mais legal mesmo foi ouvir sobre as aplicações diversas dos códigos de barras, que têm potencial de responder perguntas até agora impenetráveis, e de reunir pesquisadores de diversas áreas como geneticistas, taxonomistas, ecólogos, parasitologistas etc. Muito mais do que fazer catálogos da diversidade biológica, a ferramenta permite ter uma ideia de associações ecológicas entre espécies e comparar as comunidades de espécies entre regiões diferentes.
Mais legal ainda: o grupo de Eduardo Eizirik, da PUCRS, está usando códigos de barras para identificar restos de ratos encontrados dentro do estômago de gatos-do-mato atropelados. Parece tétrico, mas os gatos atropelados têm revelado muito sobre hibridação, como contei aqui. E identificar as espécies que viram comida é uma maneira de entender como duas espécies de gatos convivem na mesma área – elas competem ou têm preferências alimentares diferentes? Essa parte conta com a colaboração de especialistas em ratos, sobretudo o grupo do meu compadre Yuri Leite da Ufes, que se encantaram ao encontrar, na barriga dos gatos, ratos que não estavam no banco de dados. Os gatos talvez conheçam espécies de roedores que ainda não foram descritas pela ciência!
As aplicações de se enxergar uma diversidade que os olhos não veem são inúmeras, por isso os códigos de barras têm potencial de abrir as comportas da imaginação dos pesquisadores. Vou contar mais exemplos na revista Pesquisa de janeiro. O simpósio deu a impressão de que o caminho está se abrindo, agora é vencer a resistência de cientistas e de agências de fomento.
Os organizadores de consórcios internacionais, como o iBOL, o CBOL e outros, estão se esforçando para pôr o Brasil dentro de seus barcos. Em muitos casos a impressão que dá é que, na visão deles, os parceiros brasileiros se limitariam a mandar amostras da riqueza biológica destas bandas. Acho que eles repararam que não é bem assim: o pessoal daqui sabe fazer ciência com as próprias mãos, só falta quem organize e quem financie uma iniciativa de ampla escala por aqui.



Uma jornalista de ciência que desistiu de ser bióloga porque a curiosidade não cabe num assunto só e... um biólogo evoluindo para estados ainda indeterminados.
Discussão - 2 comentários
Uau! Em breve teremos o Pokedex (http://wiki.pokeland.net/wiki/Pok%C3%A9dex) funcionando de verdade?
Um abraço!
Maria,
Parabéns pela postagem sobre o evento, gostei muito da compilação de idéias que você fez. Fiquei animada a escrever alguma coisa no viagene, para tirar aquele ar de “teia de aranha” do blog. Espero ainda organizar uma idéia um pouco mais elaborada com as minhas impressões deste encontro. Foi bom te re-encontrar lá!