A teoria da seleção natural de Darwin, publicada pela primeira vez há 150 anos, já foi chamada de ideia perigosa. Uma nova faceta dessa teoria se junta agora à bibliografia darwinista: por trás dela havia uma "causa sagrada", o engajamento de Darwin pela abolição da escravidão. A afirmação é de Adrian Desmond e James Moore, que recentemente lançaram no Brasil o livro A causa sagrada de Darwin (editora Record).
Em conversa durante uma visita a São Paulo, Moore me contou um pouco mais sobre essa tese. A interpretação da dupla, autora de uma bibliografia de peso sobre o fundador da teoria da evolução (publicada no Brasil em 1995), é que a revolta contra a escravidão fez parte do caráter de Darwin desde a infância. E foi o que o impeliu a desenvolver sua teoria de evolução por descendência.
Ele também aplicou a compreensão da natureza às pessoas a ponto de sugerir que os homens inverteram o jogo da sedução em relação aos outros animais - é esta a continuação que prometi aqui.
Continue para ler a entrevista traduzida por mim. A versão original está no "Brazillion thoughts".
Escrever aquele livro quase nos matou. Adrian e eu não pensávamos escrever outra coisa juntos, mas vimos chegar 2009 e pensamos que seria um bom momento para publicar algo completamente original. Eu encontrei o assunto; já faz um tempo que me interesso pelo que aconteceu aos humanos na teoria de Darwin, porque A origem das espécies em princípio não era seres humanos, só A origem do homem [The Descent of Man] era. Então decidimos há cerca de 10 anos trabalhar nessa diferença ou discrepância, e em 2004 publicamos pela Penguin Classics uma edição de Descent com uma longa introdução. Nessa introdução tocamos em alguns dos argumentos da Causa sagrada de Darwin, mas não oferecemos documentação. Prometemos numa nota publicar mais.
É o nosso "Guerra nas estrelas 2". "Guerra nas estrelas 1" era a biografia de Darwin; "Guerra nas estrelas 2" vem antes e trata da pergunta que ficou sem resposta em "Guerra nas estrelas 1": "Por que ele fez isso?" A biografia de Darwin é sobre com um jovem ambicioso com um segredo terrível, que esconde por 20 anos até ser forçado a publicar. Mas não conseguimos entender por que ele mexeu com evolução -- era um suicídio profissional. Darwin tinha tudo a perder, mesmo trabalhando em privado. Qualquer pessoa que saiba alguma coisa sobre o período sabe que ir a público com a evolução para Darwin seria como se Richard Dawkins se pronunciasse em Teerã declarando que Deus não existe! A vida para ele de repente se tornaria muito difícil. Darwin sabia o que estava em jogo, então por que ele correu o risco? É aí que entra seu comprometimento moral. Em A causa sagrada de Darwin seguimos isso em sua família e educação, antes mesmo que chegasse à evolução, e seguimos a história até A origem do homem.
Então por que ele fez isso? Como seus princípios morais fundamentam sua teoria?
Darwin é muito claro, ele tem raiva. Em seus diários pessoais, ele se lembra da viagem do Beagle como negros eram tratados como animais, que escravos eram trazidos e vendidos e explorados como cavalos ou cachorros. E para Darwin isso era detestável porque fora criado para detestar a escravidão e acreditar que negros compartilhavam uma humanidade com ele próprio.
Foi no Brasil que ele viu isso primeiro?
Em pessoa, sim, mas em casa ele tinha lido sobre escravidão e tido amizade com um negro. Na Universidade de Edimburgo durante a adolescência ele pagou por aulas de taxidermia com um escravo liberto negro guianense chamado John, e isso tinha reforçado a convicção anti-escravatura de sua família de que negros e brancos - todas as raças - tinham uma humanidade comum. O que era teórico até que chegasse ao Brasil eram os horrores da escravidão, sobre os quais ele só tinha lido. E imediatamente em Salvador ele viu escravos negros trabalhando nas docas e eles pareciam felizes. Mas quando o Capitão FitzRoy do Beagle afirmou que os escravos da Bahia eram felizes porque ele os ouvira dizer isso para um de seus mestres, Darwin exigiu saber o que a palavra de um escravo valia nessas ciscunstâncias. Oviamente a escravidão era um ponto de conversa entre eles. E muito rapidamente Darwin encontra indícios dos males sobre os quais tinha aprendido desde a infância. As realidades da escravidão não eram mais teóricas para ele depois de tê-la presenciado entre pessoas reais na vida real. O clímax veio em 1836 em Itamambuca quando ele ouviu os gritos e os guinchos de um escravo torturado e não podia fazer nada para intervir. E assim sua viagem acaba e o horror daqueles sons ficou com ele a vida toda.
Ele escreveu sobre isso?
Na edição revista de 1845 de seu Diário do Beagle, há um violento ataque à escravidão -- dois parágrafos longos, mais de uma página. Aqui pela primeira vez Darwin abriu uma janela para deixar o mundo ver o que ele tinha presenciado no Brasil. Ele também tinha visto escravidão na Nova Zelândia, onde gente da mesma raça era escravizada por guerras e mulheres se tornavam escravas sexuais. Ele conta de encontrar escravos fugidos ou libertos nas Ilhas Maurício e Santa Helena. Claro que todos os escravos da colônia britânica do Cabo tinham sido libertos em 1834; Darwin chegou lá um ano depois e contratou um Hotentote, ou Khoikhoi, para ser seu guia, Khoikhoi, um rapaz diminuto que ele encontrou falando um inglês perfeito. Na nossa biografia, o anti-escravagismo de Darwin é um tipo de fio de ouro que permeia a narrativa e fica visível de tempos em tempos. Trançando todos esses fios -- o que A causa sagrada de Darwin faz -- eles formam uma corda forte, forte que chegue para apoiar uma grande conclusão. E nossa grande conclusão é que o ódio fervente à escravatura motivou sua busca não só de mostrar que as raças eram do mesmo sangue, mas também de explicar como todas os seres vivos descenderam de "um ancestral comum" na árvore genealógica da vida.
E essa é uma forma de provar que não se pode separar um tipo de homem e tratá-lo de maneira diferente.
Não, não há prova aqui, a árvore não passa de um ponto de partida. Todos crescemos com certas coisas que damos por certas. Darwin nunca questionou a existência de Deus, pelo menos não por escrito; ele nunca questionou o amor de sua mulher ou de sua família. Era a mesma coisa com a anti-escravatura ou a anti-crueldade no sentido mais amplo, uma simpatia pelas coisas vivas. Darwin cresceu com isso. Ele chegou a caçar na adolescência, e acho que algumas das aves que ele massacrou não eram só para comer. Mas no fim da viagem do Beagle ele deixara de atirar, ou seu empregado o fazia com fins científicos. Por fim Darwin desistiu da matança porque não podia suportar o sofrimento que ela causava. Já ouvi argumentarem, com certo cinismo, que a razão pela qual ele falou sobre escravidão como o faz em suas anotações pessoais e no Diário do Beagle era porque imaginava que um tom anti-escravista ajudaria a vender sua teoria. "Veja, a nação inteira está mobilizada contra a escravidão. É um enorme eleitorado esperando para ser recrutado para a evolução!"
Então uma consciência moral anti-escravista caracterizava a sociedade de Darwin?
Isso. Muito poucas pessoas podiam votar naqueles dias, mas uma forma de registrar sua opinião era assinar uma petição para o Parlamento. Essas petições eram trazidas em pilhas pilhas de papéis ou enormes rolos e eram postas numa mesa na Casa dos Comuns ou na Casa dos Lordes em Londres. Quase todas as petições foram destruídas quando as Casas do Parlamento queimaram em outubro de 1834, mas algumas sobreviveram com dezenas de milhares de nomes. Eu pesquisei os registros parlamentares e descobri de onde vinham todas as petições. Tal e tal capela batista, tal e tal sociedade anti-escravista, tal e tal conselho público. A cidade natal de Darwin, Shrewsbury, mandou petições. Foi um movimento imenso, um primeiro experimento em democracia antes que a democracia fosse estendida pelas classes médias.
E havia muitas petições anti-escravistas?
Milhares delas, todas com uma redação muito educada, rogando ao Parlamento que tomasse as medidas necessárias para possibilitar a emancipação dos escravos coloniais. Tenho certeza de que encontraríamos as assinaturas dos tios, primos e irmãs de Darwin nas petições originais se elas tivessem sobrevivido, mas é quase suficiente saber que petições vieram exatamente das mesmas aldeias e cidades onde a família vivia. O movimento anti-escravista foi o maior movimento moral na história britânica, pelo menos desde a revolta dos camponeses no século XIII. Me espanta que os historiadores tenham demorado tanto para pôr a vida e a obra de Darwin nesse contexto.
Essa era exatamente minha próxima pergunta: por que ninguém discutiu isso?
Porque não fizeram as perguntas corretas. Os documentos que li nos papéis da família Wedgwood estão abertos para historiadores e biógrafos há gerações. E estudiosos examinaram essas cartas, milhares delas, escritas desde o final do século XVIII, buscando por indícios dos interesses literários da família, de fotografia antiga, química antiga, história industrial antiga. Estudiosos passaram o pente fino nesses documentos, mas por que não encontraram a escravidão? Não estavam interessados, eram cegos para isso. Só posso dizer que escavar o ouro foi trabalho árduo. Passei três semanas nas Olarias num verão tórrido, tão quente quanto está agora em Salvador, empoleirado numa biblioteca universitária lúgubre lendo os documentos Wedgwood por nove horas por dia.
A grande obra sobre humanos por Darwin é A origem do homem, mas não se fala muito sobre esse livro e talvez ele não seja muito lido. Por quê?
Porque é enorme -- essa é uma razão! Dois terços do livro, umas 500 páginas, é um vasto catálogo de indícios para a "seleção sexual", que acaba sendo o mecanismo de Darwin para explicar a divergência das raças humanas. Hoje é preciso estar interessado nas diferenças entre machos e fêmeas de besouros para ser atraído por essa parte do livro. Nos anos 1850, Darwin estava escrevendo uma obra imensa em vários volumes para esmagar a oposição criacionista, inclusive seguidores da mais recente teoria que considerava as raças humanas como espécies criadas separadamente. Ele estava decidido a antecipar todas as objeções possíveis à sua teoria da "seleção natural" -- o título de seu grande livro -- e respondê-las, ou pelo menos dar indícios para respondê-las, de maneira que ninguém pudesse pegá-lo. Mas ele finalmente foi forçado a publicar algo rapidamente, então ele cortou o grande livro, deixou de fora a parte sobre a seleção sexual e as raças humanas, e chamou o resto de A origem das espécies.
Talvez ele quisesse trabalhar mais na seleção sexual e no "homem"?
Ele não queria estragar a argumentação pela seleção natural e o que tinha a dizer sobre a origem do homem avançando de forma prematura. Melhor esperar a hora certa do que avançar com algo que poderia ser facilmente refutado. Essa é também uma das razões por que Darwin nunca contou a ninguém sobre a importância da seleção sexual, nem mesmo seu melhor amigo científico. Ele deu dicas de sua abrangência em A origem das espécies, mas não tinha chegado ao ponto de ter confiança em sua força; ele não deixou escapar, até mais tarde, que a seleção sexual era sua solução premiada para o problema das origens raciais. Darwin era incapaz de fazer qualquer coisa pela metade. Não era só uma craca que ele tinha que descrever, tinha que descrever todas as cracas do mundo. E não só as vivas, as extintas também! Ele era obsessivo e para discutir as raças humanas ele precisava de mais indícios ainda, se fosse possível, para derrubar a visão de que cada raça se tinha originado como uma espécie separada. A origem do homem é intimidante porque é tão grande, mas ficou assim porque a seleção sexual era tão importante. O catálogo de Darwin de informações sexuais aparentemente obscuras é seu argumento contundente para a formação de raças por meio da escolha de parceiros por todo o reino animal.
Então ele começa com machos e fêmeas de besouros e isso é um passo para entender como as raças humanas são aparentadas?
Ele tinha que explicar por que machos e fêmeas não se parecem, não só interna mas externamente. Por que machos tendem a ser grandes, violentos e armados - quero dizer "armados" no sentido de que têm grandes bíceps ou garras potentes para beliscar - assim como são espalhafatosos e vistosos. E por que as fêmeas tendem a serem menores, menos agressivas e menos vistosas; não só em aves, que é o caso crucial para Darwin, mas por todo o reino animal, passando por crustáceos e aranhas e besouros e peixes e aves e mamíferos e primatas e todo o resto (com exceções). E humanos não eram diferentes. Darwin atribuiu as diferenças externas entre os sexos (os caracteres "sexualmente dimórficos) à seleção sexual, ou seja, à competição por parceiros. Acontece nos bares de São Paulo todos os fins de semana: as mulheres ficam por ali olhando, provocando, estimulando, enquanto os homens descem a porrada uns nos outros como rivais amorosos. Para Darwin é o que acontece na maior parte dos animais, pelo menos mamíferos. Como resultado da competição, os machos maiores e mais agressivos são amantes mais bem-sucedidos e passam suas características de machões para os filhos. As fêmeas mais seletivas, que "tiram a sorte grande" com os melhores machos, também têm mais filhotes e as filhas herdam a seletividade. Amplifique isso por gerações e os machos se distanciam das fêmeas na mente assim como no corpo. Os machos são física e mentalmente superiores às fêmeas; os machos têm gênio, as fêmeas normalmente não têm gênio. Darwin foi bem explícito sobre isso. Ele não acreditava que as mulheres deveriam votar e não educou suas filhas em nível universitário, porque para ele a biologia estabelecia os limites ao sucesso feminino e a seleção sexual estabelecia limites. Mas para Darwin a seleção sexual não se limita a força física e mental; também é atração -- beleza. Ao contrário das características desenvolvidas na luta por prêmios, aquelas adquiridas por meio do concurso de beleza da seleção sexual não têm vantagens na luta pela existência. O que as marcas de beleza fazem é torná-lo mais sexy, de maneira a ter mais sucesso em deixar cópias de si: assim os machos ficaram mais bonitos ou vistosos do que as fêmeas a partir de seu sucesso em atrai-las, mas em humanos -- quer dizer, na cultura de Darwin, que ele via como soberana -- houve uma reversão: os machos, sendo mais fortes do que as fêmeas, viraram a mesa sobre a fêmea humana e passaram a fazer as escolhas. Como resultado, as mulheres agora eram mais bonitas do que os homens, exibindo características que se mostraram atraentes para eles. Parecia tão óbvio para Darwin: por que as mulheres se enfeitam com maquiagem e joias? Porque estão tentando atrair parceiros, pura e simplesmente. Elas querem ser sexualmente selecionadas!
E isso separa os humanos do resto?
Os machos tomarem o poder da escolha pela força superior e pela esperteza, sim. Embora Darwin soubesse que as fêmeas ainda são atraídas pela beleza masculina. Ele deixou crescer uma barba nos anos 1860, claro que não para atrair mulheres; mas havia uma moda por pelos como sinal de virilidade. Os homens vitorianos deixavam crescer barbas como seus descendentes fizeram nos anos 1960. E ao mesmo tempo as mulheres desenvolveram uma loucura por usar plumas de aves no chapéu ou no cabelo, até aves inteiras! A população de aves do mundo foi dizimada.
Para fazer chapéus?
Chapéus, presilhas, broches e outros acessórios de moda. Há toda uma literatura histórica sobre isso. Uma indústria florescente de moda feminina foi a principal razão por que a Sociedade Real para Proteção das Aves foi fundada. Na Inglaterra, moças ainda são muitas vezes chamadas de pássaros. Você sai à noite e tenta "pegar" e "partir com" um "pássaro", ou seja, cruzar com ela. É depreciativo pensar nas mulheres como pássaros, mas Darwin levava esse comportamento a sério e o naturalizou. Ele não via a seleção sexual como criação cultural, ou uma entre opções sociais mais ou menos válidas; em vez disso ele pensava que homens e mulheres se parecem e se comportam assim porque a seleção sexual os tornou o que são. E, ironicamente, era a mesma seleção sexual que fez grupos inteiros de pessoas terem aparência e comportamento diferentes, tanto machos como fêmeas, com físicos diferentes e noções de beleza diferentes -- as raças humanas. Para Darwin, as raças emergiram e divergiram, corpo e mente, de uma população primordial, com uma ancestralidade comum, pelo mesmo jogo da sedução que fez cavalheiros peludos e moças rechonchudas em seu próprio tempo.
Então Darwin ainda é um naturalista aí, com seus princípios morais movendo sua curiosidade sobre a natureza para entender como os humanos evoluíram.
Ele olhava para a sociedade e buscava uma explicação natural para isso. Darwin era um sociobiólogo antes que houvesse a sociobiologia. Se o mundo é governado pela lei natural, e portanto nossa evolução é governada pela lei natural, por que tudo na sociedade não seria visto como produto da evolução? Por que a evolução não explicaria todas as formas com que homens e mulheres vivem juntos, não só as formas de seus corpos? Darwin não tinha problemas com isso, embora a maior parte de nós agora tenha.
Darwin não fazia distinção entre uma raça e uma espécie, ele pensava que eram construções artificiais.
Era um contínuo. As espécies para Darwin não passavam de raças bem definidas. Não temos atração sexual por outras espécies -- normalmente. Algo assim acontece se animais são separados em grupos como em ilhas: cada um dos grupos se torna modificado para subsistir em seu próprio canto, eles adquirem diferenças "específicas" distintas e por fim os grupos se tornam sexualmente repugnantes e indisponíveis uns para os outros.
Como isso se aplica à discussão atual sobre se há ou não raças humanas?
Darwin supunha que negros e brancos - para seus propósitos, africanos e europeus - estavam no caminho de se tornarem espécies diferentes. Ainda não tinham chegado lá, mas com tempo suficiente e isolamento, negros e brancos divergiriam de maneira permanente. Ele via homens negros tenderem a fazer sexo com mulheres negras porque as achavam mais atraentes; a noção masculina de beleza está no seu sangue como resultado de uma longa história de escolhas de cruzamento. E para Darwin, uma inglesa era mais atraente da mesma maneira. É a ideia da repugnância, e Darwin também identificava repugnância no odor corporal. Para ele os negros tinham um cheiro diferente dos brancos. Em certo ponto o cheiro se tornaria tão forte e tão repulsivos que brancos e negros deixariam de copular e as raças seguiriam caminhos separados até se tornarem espécies. Então Darwin não tinha problemas com a especiação das raças, mas diria que não temos como saber quando isso poderia acontecer. Parecia mais provável para ele que nos próximos séculos, muito antes que as raças se tornassem espécies separadas, europeus brancos na verdade teriam exterminado os africanos negros.
Por quê?
Darwin pensava que os brancos tinham uma civilização superior porque tinham cérebros superiores afiados pela competição, assim como os homens têm mais cérebro do que as mulheres. Aquilo que Darwin dá com uma mão, ele tira com a outra, muitas vezes. Ele lhe dá escravos emancipados, mas não lhe dá mulheres emancipadas; ele lhe dá negros e brancos como humanos iguais, mas também lhe dá negros exterminados por armas e doenças brancas e pela civilização superior branca. E Darwin diz, de fato, "é a natureza para você". O progresso custa vidas. Pode ser trágico, mas ao fim ele acha que será para o bem.
Então embora ele deteste a crueldade e tenha horror à escravidão, ele ainda acredita que os humanos não são iguais perante a natureza.
Ele não usa seus princípios morais para julgar como a natureza se comporta porque pensa que sua moral foi erigida pela natureza -- uma natureza benéfica. No futuro próximo, Darwin diz no Origem do homem, os humanos estarão tão melhorados e tantas raças se terão extinguido -- raças de pessoas assim como primatas -- que a divisão na ascendência da vida não existirá como no presente entre um Hotentote ou um aborígine australiano e um chimpanzé, mas entre, digamos, um primata inferior como um babuíno e uma raça mais elevada do que os britânicos atuais. Todas as espécies, todas as raças no meio, desde os babuínos até os britânicos, terão sido extintas no progresso da vida na Terra. Sofremos com a perda da biodiversidade; Darwin parecia pensar que é uma boa coisa, mesmo a perda de diversidade racial humana.
É tudo parte da natureza.
Sim, mas isso só torna Darwin um homem de seu tempo. Pobre Darwin, ele não conseguia ver muito além do século XIX, assim como devemos penar para ver além do nosso.
Em 2009 ouvimos muito sobre Darwin por causa dos aniversários, mas você está falando de um Darwin diferente, não?
Não inteiramente. Só estou enfatizando uma parte da história que não foi contada por inteiro ou de forma adequada. Adrian e eu teríamos que modificar bastante a biografia se quiséssemos pôr tudo isso ali. Há um certo ponto no livro em que perguntamos se, longe de ter tudo a perder, havia algo importante a se ganhar por fazer teorias sobre transmutação. Sugerimos que Darwin tinha visto "selvagens" a nu na Terra do Fogo, e seu problema se tornou: como podem humanos assim e humanos como ele -- rico, com cultura, um Mestre das Artes por Cambridge vir das mãos do mesmo criador? Talvez explicar a diversidade humana era esse algo a se ganhar, mas na época não pensamos que a experiência de Darwin com a escravidão na América do Sul poderia ter apontado na mesma direção. Agora sabemos: se ele ligava para alguma coisa com mais paixão do que qualquer outra coisa na vida, salvo a família, era a emancipação dos escravos negros. Não há outro candidato para a preocupação moral suprema de Darwin, sua "causa sagrada", que acreditamos influenciou de forma radical a sua ciência.
E esse é o novo Darwin que vocês mostram.
Sim.
Uma jornalista de ciência que desistiu de ser bióloga porque a curiosidade não cabe num assunto só e... um biólogo evoluindo para estados ainda indeterminados.

Commentários (11)
Sensacional entrevista. Parabéns.
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Escrito por: Karl | janeiro 3, 2010 11:26 PM