Darwin, o abolicionista

darwin_first_tree_2.jpgEntrevista com James Moore

A teoria da seleção natural de Darwin, publicada pela primeira vez há 150 anos, já foi chamada de ideia perigosa. Uma nova faceta dessa teoria se junta agora à bibliografia darwinista: por trás dela havia uma “causa sagrada”, o engajamento de Darwin pela abolição da escravidão. A afirmação é de Adrian Desmond e James Moore, que recentemente lançaram no Brasil o livro A causa sagrada de Darwin (editora Record).

Em conversa durante uma visita a São Paulo, Moore me contou um pouco mais sobre essa tese. A interpretação da dupla, autora de uma bibliografia de peso sobre o fundador da teoria da evolução (publicada no Brasil em 1995), é que a revolta contra a escravidão fez parte do caráter de Darwin desde a infância. E foi o que o impeliu a desenvolver sua teoria de evolução por descendência.

Ele também aplicou a compreensão da natureza às pessoas a ponto de sugerir que os homens inverteram o jogo da sedução em relação aos outros animais – é esta a continuação que prometi aqui.

Continue para ler a entrevista traduzida por mim. A versão original está no “Brazillion thoughts“.

(Tirei daqui a foto do caderno do Darwin com o primeiro esboço que fez da árvore da vida)


Quando a sua biografia de Darwin foi lançada, a impressão era de que
ali estava o relato definitivo da vida de Darwin. Ela na verdade abriu
novas portas, outras perguntas que vocês queriam responder?

Escrever aquele livro quase nos matou. Adrian e eu não pensávamos
escrever outra coisa juntos, mas vimos chegar 2009 e pensamos que seria
um bom momento para publicar algo completamente original. Eu encontrei
o assunto; já faz um tempo que me interesso pelo que aconteceu aos
humanos na teoria de Darwin, porque A origem das espécies em princípio
não era seres humanos, só A origem do homem [The Descent of Man] era.
Então decidimos há cerca de 10 anos trabalhar nessa diferença ou
discrepância, e em 2004 publicamos pela Penguin Classics uma edição de
Descent com uma longa introdução. Nessa introdução tocamos em alguns
dos argumentos da Causa sagrada de Darwin, mas não oferecemos
documentação. Prometemos numa nota publicar mais.

A causa sagrada de darwin.jpgVocê pode explicar rapidamente a tese do livro?

É o nosso “Guerra nas estrelas 2”. “Guerra nas estrelas 1” era a
biografia de Darwin; “Guerra nas estrelas 2” vem antes e trata da
pergunta que ficou sem resposta em “Guerra nas estrelas 1”: “Por que
ele fez isso?” A biografia de Darwin é sobre com um jovem ambicioso com
um segredo terrível, que esconde por 20 anos até ser forçado a
publicar. Mas não conseguimos entender por que ele mexeu com evolução —
era um suicídio profissional. Darwin tinha tudo a perder, mesmo
trabalhando em privado. Qualquer pessoa que saiba alguma coisa sobre o
período sabe que ir a público com a evolução para Darwin seria como se
Richard Dawkins se pronunciasse em Teerã declarando que Deus não
existe! A vida para ele de repente se tornaria muito difícil. Darwin
sabia o que estava em jogo, então por que ele correu o risco? É aí que
entra seu comprometimento moral. Em A causa sagrada de Darwin seguimos
isso em sua família e educação, antes mesmo que chegasse à evolução, e
seguimos a história até A origem do homem.

Então por que ele fez isso? Como seus princípios morais fundamentam sua teoria?

Darwin é muito claro, ele tem raiva. Em seus diários pessoais, ele se
lembra da viagem do Beagle como negros eram tratados como animais, que
escravos eram trazidos e vendidos e explorados como cavalos ou
cachorros. E para Darwin isso era detestável porque fora criado para
detestar a escravidão e acreditar que negros compartilhavam uma
humanidade com ele próprio.

Foi no Brasil que ele viu isso primeiro?

Em pessoa, sim, mas em casa ele tinha lido sobre escravidão e tido
amizade com um negro. Na Universidade de Edimburgo durante a
adolescência ele pagou por aulas de taxidermia com um escravo liberto
negro guianense chamado John, e isso tinha reforçado a convicção
anti-escravatura de sua família de que negros e brancos – todas as
raças – tinham uma humanidade comum. O que era teórico até que chegasse
ao Brasil eram os horrores da escravidão, sobre os quais ele só tinha
lido. E imediatamente em Salvador ele viu escravos negros trabalhando
nas docas e eles pareciam felizes. Mas quando o Capitão FitzRoy do
Beagle afirmou que os escravos da Bahia eram felizes porque ele os ouvira
dizer isso para um de seus mestres, Darwin exigiu saber o que a
palavra de um escravo valia nessas ciscunstâncias. Oviamente a
escravidão era um ponto de conversa entre eles. E muito rapidamente
Darwin encontra indícios dos males sobre os quais tinha aprendido desde
a infância. As realidades da escravidão não eram mais teóricas para ele
depois de tê-la presenciado entre pessoas reais na vida real. O clímax
veio em 1836 em Itamambuca quando ele ouviu os gritos e os guinchos de
um escravo torturado e não podia fazer nada para intervir. E assim sua
viagem acaba e o horror daqueles sons ficou com ele a vida toda.

Ele escreveu sobre isso?

Na edição revista de 1845 de seu Diário do Beagle, há um violento
ataque à escravidão — dois parágrafos longos, mais de uma página. Aqui
pela primeira vez Darwin abriu uma janela para deixar o mundo ver o que
ele tinha presenciado no Brasil. Ele também tinha visto escravidão na
Nova Zelândia, onde gente da mesma raça era escravizada por guerras e
mulheres se tornavam escravas sexuais. Ele conta de encontrar escravos
fugidos ou libertos nas Ilhas Maurício e Santa Helena. Claro que todos
os escravos da colônia britânica do Cabo tinham sido libertos em 1834;
Darwin chegou lá um ano depois e contratou um Hotentote, ou Khoikhoi,
para ser seu guia, Khoikhoi, um rapaz diminuto que ele encontrou
falando um inglês perfeito. Na nossa biografia, o anti-escravagismo de
Darwin é um tipo de fio de ouro que permeia a narrativa e fica visível
de tempos em tempos. Trançando todos esses fios — o que A causa sagrada
de Darwin faz — eles formam uma corda forte, forte que chegue para
apoiar uma grande conclusão. E nossa grande conclusão é que o ódio
fervente à escravatura motivou sua busca não só de mostrar que as raças
eram do mesmo sangue, mas também de explicar como todas os seres vivos
descenderam de “um ancestral comum” na árvore genealógica da vida.

E essa é uma forma de provar que não se pode separar um tipo de homem e tratá-lo de maneira diferente.

Não, não há prova aqui, a árvore não passa de um ponto de partida.
Todos crescemos com certas coisas que damos por certas. Darwin nunca
questionou a existência de Deus, pelo menos não por escrito; ele nunca
questionou o amor de sua mulher ou de sua família. Era a mesma coisa
com a anti-escravatura ou a anti-crueldade no sentido mais amplo, uma
simpatia pelas coisas vivas. Darwin cresceu com isso. Ele chegou a
caçar na adolescência, e acho que algumas das aves que ele massacrou
não eram só para comer. Mas no fim da viagem do Beagle ele deixara de
atirar, ou seu empregado o fazia com fins científicos. Por fim Darwin
desistiu da matança porque não podia suportar o sofrimento que ela
causava. Já ouvi argumentarem, com certo cinismo, que a razão pela qual
ele falou sobre escravidão como o faz em suas anotações pessoais e no
Diário do Beagle era porque imaginava que um tom anti-escravista
ajudaria a vender sua teoria. “Veja, a nação inteira está mobilizada
contra a escravidão. É um enorme eleitorado esperando para ser
recrutado para a evolução!”

Então uma consciência moral anti-escravista caracterizava a sociedade de Darwin?

Isso. Muito poucas pessoas podiam votar naqueles dias, mas uma forma de
registrar sua opinião era assinar uma petição para o Parlamento. Essas
petições eram trazidas em pilhas pilhas de papéis ou enormes rolos e
eram postas numa mesa na Casa dos Comuns ou na Casa dos Lordes em
Londres. Quase todas as petições foram destruídas quando as Casas do
Parlamento queimaram em outubro de 1834, mas algumas sobreviveram com
dezenas de milhares de nomes. Eu pesquisei os registros parlamentares e
descobri de onde vinham todas as petições. Tal e tal capela batista,
tal e tal sociedade anti-escravista, tal e tal conselho público. A
cidade natal de Darwin, Shrewsbury, mandou petições. Foi um movimento
imenso, um primeiro experimento em democracia antes que a democracia
fosse estendida pelas classes médias.


E havia muitas petições anti-escravistas?

Milhares delas, todas com uma redação muito educada, rogando ao
Parlamento que tomasse as medidas necessárias para possibilitar a
emancipação dos escravos coloniais. Tenho certeza de que encontraríamos
as assinaturas dos tios, primos e irmãs de Darwin nas petições
originais se elas tivessem sobrevivido, mas é quase suficiente saber
que petições vieram exatamente das mesmas aldeias e cidades onde a
família vivia. O movimento anti-escravista foi o maior movimento moral
na história britânica, pelo menos desde a revolta dos camponeses no
século XIII. Me espanta que os historiadores tenham demorado tanto para
pôr a vida e a obra de Darwin nesse contexto.


Essa era exatamente minha próxima pergunta: por que ninguém discutiu isso?

Porque não fizeram as perguntas corretas. Os documentos que li nos
papéis da família Wedgwood estão abertos para historiadores e biógrafos
há gerações. E estudiosos examinaram essas cartas, milhares delas,
escritas desde o final do século XVIII, buscando por indícios dos
interesses literários da família, de fotografia antiga, química antiga,
história industrial antiga. Estudiosos passaram o pente fino nesses
documentos, mas por que não encontraram a escravidão? Não estavam
interessados, eram cegos para isso. Só posso dizer que escavar o ouro
foi trabalho árduo. Passei três semanas nas Olarias num verão tórrido,
tão quente quanto está agora em Salvador, empoleirado numa biblioteca
universitária lúgubre lendo os documentos Wedgwood por nove horas por
dia.

A grande obra sobre humanos por Darwin é A origem do homem, mas não se
fala muito sobre esse livro e talvez ele não seja muito lido. Por quê?

Porque é enorme — essa é uma razão! Dois terços do livro, umas 500
páginas, é um vasto catálogo de indícios para a “seleção sexual”, que
acaba sendo o mecanismo de Darwin para explicar a divergência das raças
humanas. Hoje é preciso estar interessado nas diferenças entre machos e
fêmeas de besouros para ser atraído por essa parte do livro. Nos anos
1850, Darwin estava escrevendo uma obra imensa em vários volumes para
esmagar a oposição criacionista, inclusive seguidores da mais recente
teoria que considerava as raças humanas como espécies criadas
separadamente. Ele estava decidido a antecipar todas as objeções
possíveis à sua teoria da “seleção natural” — o título de seu grande
livro — e respondê-las, ou pelo menos dar indícios para respondê-las,
de maneira que ninguém pudesse pegá-lo. Mas ele finalmente foi forçado
a publicar algo rapidamente, então ele cortou o grande livro, deixou de
fora a parte sobre a seleção sexual e as raças humanas, e chamou o
resto de A origem das espécies.

Talvez ele quisesse trabalhar mais na seleção sexual e no “homem”?

Ele não queria estragar a argumentação pela seleção natural e o que
tinha a dizer sobre a origem do homem avançando de forma prematura.
Melhor esperar a hora certa do que avançar com algo que poderia ser
facilmente refutado. Essa é também uma das razões por que Darwin nunca
contou a ninguém sobre a importância da seleção sexual, nem mesmo seu
melhor amigo científico. Ele deu dicas de sua abrangência em A origem
das espécies, mas não tinha chegado ao ponto de ter confiança em sua
força; ele não deixou escapar, até mais tarde, que a seleção sexual era
sua solução premiada para o problema das origens raciais. Darwin era
incapaz de fazer qualquer coisa pela metade. Não era só uma craca que
ele tinha que descrever, tinha que descrever todas as cracas do mundo.
E não só as vivas, as extintas também! Ele era obsessivo e para
discutir as raças humanas ele precisava de mais indícios ainda, se
fosse possível, para derrubar a visão de que cada raça se tinha
originado como uma espécie separada. A origem do homem é intimidante
porque é tão grande, mas ficou assim porque a seleção sexual era tão
importante. O catálogo de Darwin de informações sexuais aparentemente
obscuras é seu argumento contundente para a formação de raças por meio
da escolha de parceiros por todo o reino animal.

Então ele começa com machos e fêmeas de besouros e isso é um passo para entender como as raças humanas são aparentadas?

Ele tinha que explicar por que machos e fêmeas não se parecem, não só
interna mas externamente. Por que machos tendem a ser grandes,
violentos e armados – quero dizer “armados” no sentido de que têm
grandes bíceps ou garras potentes para beliscar – assim como são
espalhafatosos e vistosos. E por que as fêmeas tendem a serem menores,
menos agressivas e menos vistosas; não só em aves, que é o caso crucial
para Darwin, mas por todo o reino animal, passando por crustáceos e
aranhas e besouros e peixes e aves e mamíferos e primatas e todo o
resto (com exceções). E humanos não eram diferentes. Darwin atribuiu as
diferenças externas entre os sexos (os caracteres “sexualmente
dimórficos) à seleção sexual, ou seja, à competição por parceiros.
Acontece nos bares de São Paulo todos os fins de semana: as mulheres
ficam por ali olhando, provocando, estimulando, enquanto os homens
descem a porrada uns nos outros como rivais amorosos. Para Darwin é o
que acontece na maior parte dos animais, pelo menos mamíferos. Como
resultado da competição, os machos maiores e mais agressivos são
amantes mais bem-sucedidos e passam suas características de machões
para os filhos. As fêmeas mais seletivas, que “tiram a sorte grande”
com os melhores machos, também têm mais filhotes e as filhas herdam a
seletividade. Amplifique isso por gerações e os machos se distanciam
das fêmeas na mente assim como no corpo. Os machos são física e
mentalmente superiores às fêmeas; os machos têm gênio, as fêmeas
normalmente não têm gênio. Darwin foi bem explícito sobre isso. Ele não
acreditava que as mulheres deveriam votar e não educou suas filhas em
nível universitário, porque para ele a biologia estabelecia os limites
ao sucesso feminino e a seleção sexual estabelecia limites. Mas para
Darwin a seleção sexual não se limita a força física e mental; também é
atração — beleza. Ao contrário das características desenvolvidas na
luta por prêmios, aquelas adquiridas por meio do concurso de beleza da
seleção sexual não têm vantagens na luta pela existência. O que as
marcas de beleza fazem é torná-lo mais sexy, de maneira a ter mais
sucesso em deixar cópias de si: assim os machos ficaram mais bonitos ou
vistosos do que as fêmeas a partir de seu sucesso em atrai-las, mas em
humanos — quer dizer, na cultura de Darwin, que ele via como soberana —
houve uma reversão: os machos, sendo mais fortes do que as fêmeas,
viraram a mesa sobre a fêmea humana e passaram a fazer as escolhas.
Como resultado, as mulheres agora eram mais bonitas do que os homens,
exibindo características que se mostraram atraentes para eles. Parecia
tão óbvio para Darwin: por que as mulheres se enfeitam com maquiagem e
joias? Porque estão tentando atrair parceiros, pura e simplesmente.
Elas querem ser sexualmente selecionadas!

E isso separa os humanos do resto?

Os machos tomarem o poder da escolha pela força superior e pela
esperteza, sim. Embora Darwin soubesse que as fêmeas ainda são atraídas
pela beleza masculina. Ele deixou crescer uma barba nos anos 1860,
claro que não para atrair mulheres; mas havia uma moda por pelos como
sinal de virilidade. Os homens vitorianos deixavam crescer barbas como
seus descendentes fizeram nos anos 1960. E ao mesmo tempo as mulheres
desenvolveram uma loucura por usar plumas de aves no chapéu ou no
cabelo, até aves inteiras! A população de aves do mundo foi dizimada.

Para fazer chapéus?

Chapéus, presilhas, broches e outros acessórios de moda. Há toda uma
literatura histórica sobre isso. Uma indústria florescente de moda
feminina foi a principal razão por que a Sociedade Real para Proteção
das Aves foi fundada. Na Inglaterra, moças ainda são muitas vezes
chamadas de pássaros. Você sai à noite e tenta “pegar” e “partir com”
um “pássaro”, ou seja, cruzar com ela. É depreciativo pensar nas
mulheres como pássaros, mas Darwin levava esse comportamento a sério e
o naturalizou. Ele não via a seleção sexual como criação cultural, ou
uma entre opções sociais mais ou menos válidas; em vez disso ele
pensava que homens e mulheres se parecem e se comportam assim porque a
seleção sexual os tornou o que são. E, ironicamente, era a mesma
seleção sexual que fez grupos inteiros de pessoas terem aparência e
comportamento diferentes, tanto machos como fêmeas, com físicos
diferentes e noções de beleza diferentes — as raças humanas. Para
Darwin, as raças emergiram e divergiram, corpo e mente, de uma
população primordial, com uma ancestralidade comum, pelo mesmo jogo da
sedução que fez cavalheiros peludos e moças rechonchudas em seu próprio
tempo.

Então Darwin ainda é um naturalista aí, com seus princípios morais
movendo sua curiosidade sobre a natureza para entender como os humanos
evoluíram.

Ele olhava para a sociedade e buscava uma explicação natural para isso.
Darwin era um sociobiólogo antes que houvesse a sociobiologia. Se o
mundo é governado pela lei natural, e portanto nossa evolução é
governada pela lei natural, por que tudo na sociedade não seria visto
como produto da evolução? Por que a evolução não explicaria todas as
formas com que homens e mulheres vivem juntos, não só as formas de seus
corpos? Darwin não tinha problemas com isso, embora a maior parte de
nós agora tenha.

Darwin não fazia distinção entre uma raça e uma espécie, ele pensava que eram construções artificiais.

Era um contínuo. As espécies para Darwin não passavam de raças bem
definidas. Não temos atração sexual por outras espécies — normalmente.
Algo assim acontece se animais são separados em grupos como em ilhas:
cada um dos grupos se torna modificado para subsistir em seu próprio
canto, eles adquirem diferenças “específicas” distintas e por fim os
grupos se tornam sexualmente repugnantes e indisponíveis uns para os
outros.


Como isso se aplica à discussão atual sobre se há ou não raças humanas?

Darwin supunha que negros e brancos – para seus propósitos, africanos e
europeus – estavam no caminho de se tornarem espécies diferentes. Ainda
não tinham chegado lá, mas com tempo suficiente e isolamento, negros e
brancos divergiriam de maneira permanente. Ele via homens negros
tenderem a fazer sexo com mulheres negras porque as achavam mais
atraentes; a noção masculina de beleza está no seu sangue como
resultado de uma longa história de escolhas de cruzamento. E para
Darwin, uma inglesa era mais atraente da mesma maneira. É a ideia da
repugnância, e Darwin também identificava repugnância no odor corporal.
Para ele os negros tinham um cheiro diferente dos brancos. Em certo
ponto o cheiro se tornaria tão forte e tão repulsivos que brancos e
negros deixariam de copular e as raças seguiriam caminhos separados até
se tornarem espécies. Então Darwin não tinha problemas com a especiação
das raças, mas diria que não temos como saber quando isso poderia
acontecer. Parecia mais provável para ele que nos próximos séculos,
muito antes que as raças se tornassem espécies separadas, europeus
brancos na verdade teriam exterminado os africanos negros.

Por quê?

Darwin pensava que os brancos tinham uma civilização superior porque
tinham cérebros superiores afiados pela competição, assim como os
homens têm mais cérebro do que as mulheres. Aquilo que Darwin dá com
uma mão, ele tira com a outra, muitas vezes. Ele lhe dá escravos
emancipados, mas não lhe dá mulheres emancipadas; ele lhe dá negros e
brancos como humanos iguais, mas também lhe dá negros exterminados por
armas e doenças brancas e pela civilização superior branca. E Darwin
diz, de fato, “é a natureza para você”. O progresso custa vidas. Pode
ser trágico, mas ao fim ele acha que será para o bem.

Então embora ele deteste a crueldade e tenha horror à escravidão, ele
ainda acredita que os humanos não são iguais perante a natureza.

Ele não usa seus princípios morais para julgar como a natureza se
comporta porque pensa que sua moral foi erigida pela natureza — uma
natureza benéfica. No futuro próximo, Darwin diz no Origem do homem, os
humanos estarão tão melhorados e tantas raças se terão extinguido —
raças de pessoas assim como primatas — que a divisão na ascendência da
vida não existirá como no presente entre um Hotentote ou um aborígine
australiano e um chimpanzé, mas entre, digamos, um primata inferior
como um babuíno e uma raça mais elevada do que os britânicos atuais.
Todas as espécies, todas as raças no meio, desde os babuínos até os
britânicos, terão sido extintas no progresso da vida na Terra. Sofremos
com a perda da biodiversidade; Darwin parecia pensar que é uma boa
coisa, mesmo a perda de diversidade racial humana.

É tudo parte da natureza.

Sim, mas isso só torna Darwin um homem de seu tempo. Pobre Darwin, ele
não conseguia ver muito além do século XIX, assim como devemos penar
para ver além do nosso.

Em 2009 ouvimos muito sobre Darwin por causa dos aniversários, mas você está falando de um Darwin diferente, não?

Não inteiramente. Só estou enfatizando uma parte da história que não
foi contada por inteiro ou de forma adequada. Adrian e eu teríamos que
modificar bastante a biografia se quiséssemos pôr tudo isso ali. Há um
certo ponto no livro em que perguntamos se, longe de ter tudo a perder,
havia algo importante a se ganhar por fazer teorias sobre transmutação.
Sugerimos que Darwin tinha visto “selvagens” a nu na Terra do Fogo, e
seu problema se tornou: como podem humanos assim e humanos como ele —
rico, com cultura, um Mestre das Artes por Cambridge vir das mãos do
mesmo criador? Talvez explicar a diversidade humana era esse algo a se
ganhar, mas na época não pensamos que a experiência de Darwin com a
escravidão na América do Sul poderia ter apontado na mesma direção.
Agora sabemos: se ele ligava para alguma coisa com mais paixão do que
qualquer outra coisa na vida, salvo a família, era a emancipação dos
escravos negros. Não há outro candidato para a preocupação moral
suprema de Darwin, sua “causa sagrada”, que acreditamos influenciou de
forma radical a sua ciência.

E esse é o novo Darwin que vocês mostram.

Sim.

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Discussão - 11 comentários

  1. Bacaníssimo, Maria
    Obrigada por nos brindar com essa entrevista!
    Abraço,
    Fer

  2. Rafael machado disse:

    Parabéns pela entrevista.
    abraços,
    Rafael machado

  3. Tati Nahas disse:

    Fantástica a entrevista, que material!
    Parabéns e obrigada!

  4. Parabéns, pois está realmente sensacional! Especialmente a referência ao Darwin guiado para um paradoxo pela sua própria teoria: aceitar a seleção natural como o destino e combatê-la com a ética e a moral vigentes.

  5. Parabéns pela tradução e obrigado, Maria. Belíssima entrevista.

  6. Fiquei com uma pergunta na cabeça:
    Se os abolicionistas norte-americanos eram primordialmente orientados pela religião (os escravos eram “irmãos”, todos filhos de Deus), como deve ter sido a recepção, entre eles, da Origem das Espécies (se é que deu tempo de Darwin ter tido qualquer influência)?

  7. Maria Guimarães disse:

    danilo, que ótimo receber você por aqui. volte sempre!
    vou perguntar ao jim moore sobre a tua pergunta.
    um beijo, maria

  8. Maria Guimarães disse:

    Pelo que o prof. Moore me disse, há pelo menos duas respostas para a pergunta do Danilo: (1) ninguém pesquisou as visões abolicionistas de Darwin, da “Origem” e da evolução na Inglaterra nem na América do Norte, onde a Guerra Civil preocupou todo mundo até o final dos anos 1860; (2) o principal defensor de Darwin na América do Norte, o botânico de Harvard Asa Gray, explicava que a teoria da “ascendência comum” de Darwin era compatível com a teologia tradicional adâmica do partido anti-esclavagista, enquanto a ciência-criacionismo de seu colega de Harvard Louis Agassiz dava conforto à escravidão e à segregação racial. O apelo de Gray fracassou porque ele não conseguiu convencer os tradicionalistas de que a teoria da seleção natural era compatível com a Bíblia e com a crença na criação por Deus.

  9. Oi Maria!
    Antes de mais nada, um beijo pra você e um abraço para o João. Já estou sentindo falta das discussões com o portuga na pós.
    Ah, me lembrei. Meu comentário te congratulava pela tradução e não pela realização dessa excelente entrevista. Eu não entendi direito: achei que a entrevista havia sido apenas traduzida por você, mas que era de algum outro jornalista. Bah, você é uma baita jornalista de ciência, o que eu quero ser quando crescer. Minha admiração, então, pela sua entrevista.
    Obrigado por ir atrás da resposta do Moore. Sobre isso:
    Adorei a negativa da 1. Mais um tema pro rol de potenciais objetos de pesquisa que nunca saem da minha cabeça pra ir pro papel.
    Quando você falou sobre o Louis Agassiz, me veio à cabeça um artigo que li quando fiz meu TCC sobre um outro naturalista viajante. O artigo pega a visão racial do Agassiz, numa viagem ao Brasil. Uma passagem do próprio LA ilustra isso que você falou:
    “Por mim, julgo estar demonstrado que, a não ser que se prove que as diferenças existentes entre as raças índia, negra e branca são instáveis e passageiras, não se pode, sem estar em desacordo com os fatos, afirmar a comunidade de origem para todas as variedades da família humana”
    E sobre a miscigenação:
    “o resultado de ininterruptas alianças entre mestiços é uma classe de pessoas em que o tipo puro desapareceu, e com ele todas as boas qualidades físicas e morais das raças primitivas, deixando em seu lugar bastardos tão repulsivos quanto os cães amastinados, que causam horror aos animais de sua própria espécie, entre os quais não se descobre um único que haja conservado a inteligência, a nobreza, a afetividade natural que fazem do cão de pura raça o companheiro e o animal predileto do homem civilizado”
    Coitados dos vira-latas.
    Se quiser dar uma olhada no artigo da Lorelai Kury, historiadora da ciência que trabalha com viajantes, tá aqui o link: http://www.scielo.br/pdf/rbh/v21n41/a09v2141.pdf

  10. Maria Guimarães disse:

    danilo, obrigadíssima pela contribuição.

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