Uma boa mentira garante sucesso sexual
Todas as fotos são de Jakob Bro-Jørgensen, que gentilmente me permitiu publicá-las aqui
O macho no fundo, atento ao horizonte, parece ocupado em garantir a segurança da área que comanda. É exatamente isso que ele quer aparentar, sobretudo quando há fêmeas no cio por perto. E mais sobretudo ainda quando elas ameaçam ir embora.
A fêmea à esquerda justamente se afastava quando o macho correu à frente dela, se pôs em posição de alerta e começou a roncar – vocalização que em geral avisa que um inimigo se aproxima. Aviso suficiente para a fêmea parar, olhar em volta e desistir do passeio, mesmo sem ter visto nada.
Não viu nada porque de fato não havia. O grupo do zoólogo Jakob Bro-Jørgensen, da Universidade de Liverpool, no Reino Unido, descobriu que o falso alarme é um artifício comum entre os antílopes-topi (Damaliscus lunatus), para aumentar suas chances sexuais.
Em artigo recentemente publicado no site da American Naturalist (veja aqui o artigo e também um vídeo), ele e Wiline Pangle mostraram que os machos só se comportam assim, exceto raras exceções, quando há fêmeas no cio por perto. Tudo isso acontece no lek, uma área onde animais da mesma espécie se reúnem unicamente para avaliar as possibilidades interessantes no sexo oposto. É o bar do mundo dos antílopes-topi, nesse caso.
E as fêmeas sempre caem. Afinal, mesmo que o perigo não esteja à vista, melhor não correr o risco de participar de uma cena como essa ao lado, com leões devorando um topi vigiados por hienas que esperam uma oportunidade.
Jakob e Wiline observaram também que os machos topi disfarçam pouco suas intenções: depois de segurar a fêmea no lek, em geral tentam logo cruzar com ela (veja no vídeo que indiquei acima).
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Na dúvida, melhor garantir a proteção. Os próprios topi são capazes de embates espetaculares entre rivais, provavelmente bem apreciados pelas fêmeas em busca de um valoroso pai para seus filhotes.
Os alarmes falsos são um truque de sedução e tanto, assunto de que já tratei aqui. A ponto de os pesquisadores deixarem de lado o pudor do antropomorfismo e terminar o artigo com um paralelo explícito: “Embora seja notoriamente difícil fazer declarações firmes sobre intenções por trás de comportamentos, nosso estudo identifica um paralelo entre animais e humanos em sua capacidade de usar falsos sinais para enganar parceiros sexuais, um achado que sugere que a comunicação nas duas espécies pode ser menos diferente do que se costuma presumir”. Ou seja, quando se trata de pegar uma fêmea, macho que é macho mente mesmo na cara dura.
Uma coisa não se pode negar: os antílopes-topi, pelo menos esses da Reserva Nacional Masai Mara, no Quênia, podem paquerar num cenário bem romântico, em que o sol se põe em tons laranjas espetaculares.



Uma jornalista de ciência que desistiu de ser bióloga porque a curiosidade não cabe num assunto só e... um biólogo evoluindo para estados ainda indeterminados.
Discussão - 9 comentários
muito interessante!! Também concordo sobre o visual animador para paquerar. =D
Muito legal o texto, espero que essa pesquisa gere muitos frutos na pesquisa em humanos!!!
Paquera nesse cenário lindíssimo? Não minta!
Tsc… por isso que eu era um desastre na paquera.
Queria ser sincero e verdadeiro. :-/
hahaha
Parabéns.
Excelente texto.
Oi, Maria
Adorei!
(Seria ilario contar essa no “lek dos humanos” e ouvir:
“-Duvido!” Hehehe)
Abração
por essas e outras podemos dizer que a comunicação animal é a forma que um indivíduo tem para manipular o comportamento de outro.
Brudna: “Queria ser sincero e verdadeiro.” – tá começando bem a mentir, rere… Ops, too late.
[]s,
Roberto Takata
É por isso que eu amo o comportamento animal. Outro dia vi um interessante sobre esquilos de chão que mentem terem visto um predador para apanhar alimentos que, caso contrário, não alcançariam em tempo.
Poxa, se eu tivesse visto este trabalho antes levava ele para a minha psicanalista animal.
Me diverti com esse post. E a propósito a última foto é lindíssima!