Antártica ou Antártida?

Na piauí_44, de maio deste ano, veio a seguinte carta de leitor:

Em “Ave, nigérrima ave” (piauí_43, abril 2010), o erro ficou por demais evidente – saiu já no subtítulo: lemos que “o pinguim preto que apareceu na Antártida é…” Não é. Não é Antártida. É Antártica. Primeiro temos o Ártico e depois temos o seu oposto, o Antártico. Só isso, e basta. O que passar disso é pura invenção e besteira, talvez baseada em Atlântida… algo assim.

LUIS CARLOS HERINGER_MANHUMIRIM/MG

Ao que a redação responde:

Os funcionários da Divisão do Mar, da Antártida e do Espaço, que ocupam a sala 736 do 7º andar do Anexo I do Ministérios das Relações Exteriores, em Brasília, ficaram preocupados com sua carta. E se eles também não existirem?

Uma vez a dúvida surgiu na redação da revista Pesquisa e tive que telefonar ao meu pai para perguntar por que se diz Antártida e não Antártica (que eu defendia mas não sabia justificar).

Antártida, me explicou ele, é o nome do continente. Substantivo. Antártica ou antártico, que de fato significa o contrário do ártico, é adjetivo: continente antártico, base antártica etc. Não existe o Ártido justamente porque não há um continente. Não há um objeto para ser substantivo. O Ártico é uma região, um pólo, um mar congelado.

selo antártida.jpgSe for, como sustenta o Luis Carlos Heringer, pura invenção, é uma invenção oficial. É o nome que consta nos tratados assinados pelo Brasil. Meu pai sabe disso não porque, como todo pai, é herói e sabe tudo. Nem é só porque esteve entre os três primeiros brasileiros a pisar no tal substantivo solo antártico em missão oficial, quando participou da primeira expedição brasileira à Antártida em 1982/1983 (eu, com 9 anos, passei as férias de verão colecionando recortes de jornal, mas já não sei onde foi parar a pasta organizada com tanto esmero).

Ele também sabe da terminologia porque foi um dos principais responsáveis pela redação desses tratados. Foi quem propôs, em 1985, a criação da tal Divisão do Mar, da Antártida e do Espaço, que chefiou até 1987. E participou do início do Programa Antártico Brasileiro (Proantar), fundado em 1982. Proantar que, curiosamente, defende em seu site que “Antártida” e “Antártica” são igualmente corretos – e prefere usar a segunda versão.

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Discussão - 25 comentários

  1. João Carlos disse:

    Acho que matei a charada… Antes do acordo ortográfico de 90, em Portugal a grafia considerada correcta era Antárctida (de onde os portugueses foram parir esse “d” é outro mistério).
    Mas, a mim, “Antártida” sempre me revoltou… Claramente o topônimo deriva de “Anti-ártico”.
    Como eu costumo dizer: “daí eu parto da norma culta”, porque asneira – homologada ou não por uma Academia de Letras – continua sendo asneira.

  2. Locatelli disse:

    fui para lá nesta última OPERANTAR (2009/2010), fiquei acampado quase um mês na Ilha Deception, e outro mês entre navio Almirante Maximiano e Estação Ant. Comte.Ferraz, e todos (inclusive órgãos oficiais) tratam como Antártica, me parece ser válido os dois mesmo para o substantivo.

  3. Luiz Bento disse:

    Em um evento sobre Ecologia da Antártica aqui na UFRJ ano passado uma pesquisadora informou na sua palestra que a grafia correta é Antártica. Antártida é o nome do continente em espanhol e utilizado no resto da América Latina. Talvez por isso a confusão.

  4. ana claudia disse:

    Sempre achei que Antártica fosse nome de Cerveja e Antártida fosse o nome do continente… adorei o tema, é confuso mesmo e nunca tinha visto uma exploração da Antártica/Antártida tão literal. Parabéns por resgatar esse vídeo, me lembrou os queridos anos 80 (o reporter eu não lembro mais o nome…). Nada como ter um pai-herói e ainda explorador do continente dos pinguins (pronto proponho um novo nome: Continente Pinguíndico!)
    cordialmente, ana claudia

  5. Karl disse:

    Lindo post. Fico emocionado com essas coisas de pai (ahn, que meigo!).
    Também não entendia esse “d” parido pelos portugas e ligava-o ao “continente perdido da AntlantiDa”, hahaha.
    Agora estou estudado. Obrigado

  6. Maria Guimarães disse:

    na verdade a etimologia não está explicada, né? não sei de onde o “d” saiu lá no início. preciso reconsultar meu oráculo. isso deve ter sido discutido à exaustão quando o acordo oficial em português foi redigido.
    João Carlos, Locatelli e Luiz Bento, não entendo a animosidade contra Antártida, que acho tão mais bonito, e contra a diferenciação entre substantivo e adjetivo, linguisticamente tão mais rico. também não entendo porque deveríamos adotar uma nomenclatura mais parecida com a do inglês, em oposição aos nossos irmãos linguísticos (o português luso e o espanhol).
    Talvez seja melhor adotar a sugestão da Ana Claudia ;-)

  7. Maria, adorei! Para saber o jeito certo de falar, desde pequena usei a estratégia de lembrar que o continente não tinha o nome da cerveja. Mas sua explicação do substantivo/adjetivo foi completa. Assim como a Ana Claudia, me emocionei ao rever o Jornal Nacional antigo. Como era mesmo o nome do repórter? Fiquei curiosa!

  8. biorad disse:

    É uma questão que gera dúvidas mesmo!

  9. Sérgio Luiz disse:

    Duas palavras que não constam no VOLP – Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa – ANTÁRTICA e ANTÁRTIDA. A língua é dinâmica, por isso estas palavras poderão ainda existir, mas por enquanto só existe mesmo ANTÁRTICO e é adjetivo masculino e se opôe a Ártico. Consulte a ABL. Academia Brasileira de Letras. É o único órgão que tem força de lei. Vale o que está escrito lá. Os portugas obedecem fielmente às leis da Academia de Ciência de Lisboa. Devemos fazer o mesmo, aqui no Brasil. Tratados, acordos e leis devem sempre obedecer, em seus escritos, às normas da ABL, ou então a ABL não precisaria existir, certo? Pra quê?
    Houve uma palavra que nunca, até então, constava no nosso vocabulário – MAGÉRRIMO – adjetivo superlativo de magro. Até existir oficialmente pronunciávamos – MACÉRRIMO – mas, como disse, a língua é dinâmica e o povo, em todas as regiões do país, insistiu em pronunciar com a letra G e assim, hoje, a encontramos no VOLP. 5ª edição.
    Dicionaristas, por lógica de raciocínio, podem até tentar explicar o significado de palavras que ainda não existem, mas numa prova quem se arriscaria a escrevê-las?
    Outro exemplo foi a palavra IMPERDÍVEL. Nos anos setentas não existia, mas a dinâmica… Hoje existe. Paciência!
    Acredito plenamente na inclusão de ANTÁRTIDA e ANTÁRTICA, mas por enquanto, só existe mesmo ANTÁRTICO.

  10. Morinda Nôni disse:

    Bem, eu aprendi na escola (no outro milênio) que o nome do continente é Antártida. Julgo que a forma com C acabou por se popularizar em face da americanização da língua portuguesa o quê, pessoalmente, considero uma lástima. Pode-se ver no vídeo o apresentador – também não lembro o nome dele – pronunciando o nome corretamente, bem como a legenda do mapa traz a grafia correta.

  11. João Carlos disse:

    O nome do jornalista é Carlos Campbell

  12. cienciaeideias disse:

    Sérgio Luiz: justamente, “antártico” é adjetivo. o gelo antártico. a base antártica do brasil queimou. “antártida” não consta no volp porque é nome de lugar. frança e áustria – como nome próprio – também não constam. mas os países continuam existindo, com esses nomes oficiais.

  13. cienciaeideias disse:

    morinda, concordo com você.

  14. Rodrigo disse:

    Você me tirou uma dúvida que me perseguia fazia tempo, obrigado.

  15. Rodrigo disse:

    Você tirou uma dúvida que me perseguia fazia tempo, obrigado.

  16. Marcos Mello disse:

    No meu tempo era Antartida. Concordo com o comentário que devemos seguir a orientação da Academia Brasileira de Letras, porém depois que um jogador de futebol recebeu a Comenda de Machado de Assis, sem ter lido ou escrito algum livro, não devemos usar a ABL como referência!!!!!!!!!!!!!!.

  17. Mauro Netto disse:

    Parabéns pelo post, bastante esclarecedor. Cheguei a seguinte conclusão: Ambas formas são aceitas, sendo Antártica um anglicismo e Antártida um castelhanismo. Qual dessas tem origem latina, a mesma de nossa língua pátria? A segunda, portanto. Pessoalmente eu prefiro Antártida pois sempre achei estranho um continente com nome de cerveja

  18. cienciaeideias disse:

    adorei, mauro, tem razão!!

  19. Ivete Bortolucci disse:

    Pois, saibam que para mim (pois aprendi na escola, lá atrás) que eram coisas diferentes. Antártico era Polo Sul e Antartida Polo Norte!
    Era isto que eu acreditava.

    Mas tudo diz que não é assim, ainda mais agora com o incêndio que teve, lá em nossas instalações.

  20. Ricardo Araujo disse:

    Gente, a cerveja é ANTARCTICA sem acento e com ‘c’.
    Vocês não estão mais bebendo não?
    RA

  21. Vanessa disse:

    Hahaha venho buscar uma resposta e olha o que encontro: uma baita discussão. Kkkk especialistas em português de um lado, cientistas de outro… Que falta me faz aquele programa do professor pasquale que se podia enviar dúvidas… Kkkk ok!!! Vou procurar um pouco mais no Google… Kkkk que aliás, chama de Antártica. Kkkk

  22. Larissa disse:

    Eu tinha aprendido, como outro aí em cima, que o certo era chamar o continente de Antártida e a cerveja de Antártica. Agora fiquei na dúvida e fui pesquisar caí nesse site. Gostei bastante do texto e estava quase convencida de que eu estava inicialmente certa. Só que lendo os comentários vi que não era ponto sem impasse e fui como alguém citou aí em cima pesquisa no VOLP. E lá realmente ainda não tá a palavra Antártida… espero que eles absorvam em breve esse vocábulo.

    Mas o texto foi bem legal, parabéns!

  23. Celso disse:

    Uma vez que os dois modos são usados, os dois são corretos.
    As palavras são formadas nas ruas, depois é que a Academia as tornam oficiais, e não o contrário…

  24. Fernando Pereira disse:

    Ainda que pese a ausência do termo nos escritos do digníssimo Aurélio, o próprio Oswaldo Hellmeister Jr, que contesta a postagem, indica que os dicionários atestam o adjetivo antártico. Pela logica, o substantivo seria Antártida, nome próprio, de fato, que assim como França não consta no VOLP. Bem observado pela Maria, o mais apropriado seria a explicação da etimologia, onde creio se seriam as duvidas sanadas. Também creio que devemos pedir a Academia de Letras para não homologar todas as palavras e termos corriqueiros e usuais, pois se assim for terei que voltar a escola para aprender a conjugar com esta nova pessoa: a gente.

  25. […] do verbete sobre o continente gelado – veja aqui. Mas a melhor explicação que encontrei foi no blog de uma amiga querida, a bióloga e jornalista Maria Guimarães. Seu pai foi quem propôs, em 1985, […]

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