Xadrez a 194 mãos

presidenta.jpgO aplauso partiu da bancada brasileira, se espalhou como uma onda pela sala de plenária Cenote e cresceu, durando longos minutos de aprovação categórica.  A presidenta da convenção do clima, Patricia Espinosa, acabava de falar poucos minutos sobre os documentos que os delegados dos 194 países presentes tinham acabado de receber, depois de várias horas de uma espera tensa. Que nem o lindo mar de Cancún, México, logo ali ao lado, aliviava.

Afirmou que todos encontrariam ali seus próprios esforços, mas que certamente não satisfaria todas as expectativas. Assumiu o compromisso de continuar agindo com transparência, uma preocupação forte depois da conferência de Copenhague no ano passado, e suspendeu a sessão por duas horas. Anticlimático para uma leiga que esperava ver o documento final discutido no centro Azteca da convenção do clima, a COP-16, mas um momento histórico para os integrantes da delegação do Brasil. Ela tinha conseguido evitar que os ânimos aquecidos pusessem tudo a perder. Segundo relatos, aquele foi o momento em que, no ano passado, delegados descontentes esbravejavam e jogavam o documento no chão. Transferir o calor da discussão do documento para salas mais privadas poderia evitar o fracasso iminente. Uma jogada de mestra.

Até então, a atmosfera era de desânimo. A Bolívia, desde a véspera, travava todas as discussões. E corria pelos corredores que o G77, que reúne países em desenvolvimento, pretendia emperrar a sessão final para reunir-se em privado com o novo documento (evitando uma situação como Copenhague, em que foram surpresos por um texto montado a portas fechadas por poucos países).

delegação.jpgCom isso foi possível, 10 horas de trabalho depois, chegar a um acordo. Certamente não resolve todos os problemas ambientais do mundo, mas é um bom passo. Não fiquei lá até as 4 da manhã, para ver o desfecho e admirar a camisa do presidente Calderón (quero assaltar o guarda-roupa dele). Outros ficaram e contaram os resultados (veja as notícias da Folha e do Estado).

Fico grata aos integrantes da delegação brasileira que me acolheram nesse momento, com paciência de me explicar o que estava acontecendo. Não é nada simples jogar uma partida de xadrez a 194 mãos.

Agora, mesmo com nuvens, penduro o crachá e finalmente vou à praia.

crachá.jpg

Atualização: um texto mais trabalhado sobre a COP16 está no site da revista Pesquisa.
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Discussão - 3 comentários

  1. Mesmo que as coisas não evoluam como planejado é importante que as conversas continuem e com o tempo se aprofundem. Parabéns a todos que se esforçaram.

  2. Kika Serra disse:

    Gosto de ler seu relato pessoal no blogue, com o texto mais soltinho do que na revista. Legal haver as duas versões: Maria pessoa física e jurídica 🙂

  3. Maria Guimarães disse:

    Marcelo, é isso aí. um passo depois do outro, e cada um deles dá um trabalhão que a gente nem imagina!
    kika, é bem por isso que virei blogueira. escrever do jeitinho que sou, mesmo. e é gostoso poder pôr o relato ainda com as emoções fresquinhas. pena que não dou conta de escrever mais!!
    obrigada a ambos pelas visitas e pelos comentários!

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