Checape genético

Por módicos 5 mil reais, você pode receber um pacote em casa com equipamento para recolher células do interior da bochecha, guardar num tubinho e pôr no correio de volta, endereçado ao laboratório mineiro Gene, do médico-geneticista Sérgio Pena. Depois de um tempo, você ficará sabendo que risco corre de desenvolver cada uma de 46 doenças. A notícia veio na Folha de S.Paulo da quinta-feira passada (uma versão mais completa e de acesso liberado está no jornal da ciência e-mail).

A ideia me causa arrepios. Um checape comum já é criticável, ressaltou recentemente o Karl, quem dirá um checape genômico? De que me serve saber, por exemplo, que tenho 79% de chance de ter psoríase, 24% de ter câncer no cérebro e 41% de desenvolver esclerose múltipla?

Por um lado, desconfio porque a relação entre doenças e genes está longe de esclarecida (vale a pena ver o delicioso vídeo do humorista britânico John Cleese no Brontossauros – o segundo vídeo da postagem). E por outro, o que significam essas probabilidades? Eu posso muito bem desenvolver uma doença para a qual tenho 2% de risco, e passar a vida sem uma que meu genoma indica que tenho 87% de chance de desenvolver… Se isso acontecer, dane-se a estatística: só importa a doença que tenho. Uma reflexão interessante sobre estatísticas desse tipo está aqui (em inglês). Em resumo, um especialista diz a uma mulher com diagnóstico de câncer de mama (carcinoma ductal in situ) que isso não aumenta seu risco de morrer. Como assim? Quem vai convencer um paciente de câncer que ele não corre mais risco que uma pessoa sem câncer?

Fazendo um teste desses, a pessoa fica condenada a viver assombrada por esses números, mesmo eles sendo completamente desprovidos de significado real. Como disse à Folha a geneticista da USP Mayana Zatz, o checape genômico não passa de um prato cheio para hipocondríacos. Eu certamente tenho coisas melhores para fazer com 5 mil reais.

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Discussão - 10 comentários

  1. Sibele disse:

    Tem aquela piada:
    Paciente: “Doutor, eu vou sobreviver a esta cirurgia arriscada?”
    Cirurgião: “Claro, eu estou absolutamente certo disso.”
    Paciente: “Como você pode estar tão certo?”
    Cirurgião: “Porque 9 em cada 10 pacientes morrem nesta cirurgia e ontem morreu o meu nono paciente!”
    Estatísticas…

  2. Maria Guimarães disse:

    genial a piada, sibele! é por aí mesmo…

  3. Willy disse:

    “Fazendo um teste desses, a pessoa fica condenada a viver assombrada por esses números”
    Ou a pessoa vai procurar saber mais sobre a doença e como evita-la.
    Discordo do seu argumento que se resume em: “As pessoas têm medo de números, não vamos mostrar números a elas”
    Se o sujeito tem medo de altura, trata-se o medo, e não simplesmente manda ele evitar olhar pela janela.

  4. Érico disse:

    Willy, o problema é que tal tipo de análise genômica ainda tá longe de ser confiável. Não há ainda como predizer de maneira precisa o verdadeiro risco de qualquer doença por este tipo de análise. São doenças poligênicas e o conhecimento ainda é muito limitado – poucos alelos e SNP’s identificados, alguns de pouquíssima relevância e ainda tem que melhorar muito pra produzir resultados interessantes.
    Entretanto, há pelo menos duas doenças em que há relativa confiabilidade – diabetes tipo 2 e doença cardiovascular – em que é possível fazer boas predições, e seu argumento de fazer disso algo meio como que “preventivo” é até razoável, visto que as pessoas poderiam excluir fatores de risco se possuem uma alta probabilidade de desenvolver os quadros.
    Entretanto fico pensando na situação da “vida real”: casos na família são preditores ainda mais precisos do que tais testes genéticos (particularmente nestes dois casos) e msm assim é comum ver gente com alto grau de risco não fazendo nada a respeito.
    Por ex., filhos de ambos pais diabéticos tem 100% de chance de desenvolver diabetes se são muito inativos (o risco cai pra 65% em altamente ativos), mas o sujeito muita vezes não muda estilo de vida por causa disso. Ou seja, pra muitas doenças em que intervenção é possível, o sujeito que quer prevenir basta ver o histórico familiar – também acredito que adoção de hábitos saudáveis deva vir muito antes do “risco potencial” de desenvolver doenças.
    Então pelo menos pra agora, acho sim estes testes muito questionáveis.

  5. Maria Guimarães disse:

    Érico, obrigada pela boa argumentação. concordo com você.
    Willy, concordo com o fundo do seu comentário: a gente não deve deixar de encarar os riscos por medo. mas no mais, discordo. em grande parte pelo que o Érico falou, e acrescento um pouco.
    os exemplos de doenças que escolhi da lista contemplada no laboratório Gene não foram ao acaso: não sei se dá para tomar medidas para evitar psoríase. para evitar alzheimer, dá para fazer palavras cruzadas, aprender línguas e tomar óleo de peixe (ômega-3) – talvez diminua a chance, mas não vai me tranquilizar se eu tiver um alto risco vaticinado. tem algo que se possa fazer para evitar câncer no cérebro? nunca ouvi falar. então há casos em que os números não passam de tortura.
    em outro caso, como doenças cardiovasculares, não preciso do teste. sei que se eu comer montes de sal, bacon e se ficar acima do peso, aumento minhas chances de ter problemas dessa ordem. por isso evito desde já, sem fazer teste algum. será que eu deveria enfiar mais o pé na jaca se tivesse um risco avaliado em 37% versus 78%? falando por mim: eu agiria igual.

  6. Maria, quando entrevistei o Sérgio Pena sobre esse tema para a C&C ele parecia cauteloso (duvidando dos dados das empresas) e preocupado com o fato do paciente ter acesso a informações genéticas sem acompanhamento médico: http://cienciaecultura.bvs.br/pdf/cic/v61n1/a09v61n1.pdf
    Na reportagem ele deixa claro a importância de se ter o médico por perto, mas agora ele, segundo a reportagem, chega a aceitar “uma consulta com geneticista por email”? Humm, nariz retorcido!
    Mas taí um tema com o qual temos que nos preocupar/informar/debater cada vez mais. Ouvi dizer que o livro “Blood matters”, de Masha Gessen, é excelente: explora como a informação genética vem moldando nossas decisões. O livro está aqui na minha estante, preciso encará-lo urgentemente.
    Fica a dica!
    Excelente debate!

  7. Denise disse:

    Seu feed não está funcionando!! Se puder consertá-lo, gostaria de uma notificação ao meu e.mail para eu continuar frequentando esse blog tão cheio de posts bons sobre ciência! Obrigada, Denise

  8. Maria Guimarães disse:

    vixe, Denise, obrigada por avisar! vamos consertar.
    Cris, obrigada pelas indicações e pela perspectiva. estranha mesmo essa mudança de postura…

  9. Como diz o ditado popilar: uma faca de dois gumes, com certeza!!

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