A origem das sociedades

wilson

Acaba de sair pela Companhia das Letras o novo livro de E. O. Wilson, pai da sociobiologia. E é polêmico, como conta a ótima reportagem que saiu ano passado na revista Piauí. Em 1975, Wilson gerou tanta indignação ao propor bases biológicas para o comportamento social, que chegou a receber um banho (literal) de água gelada quando manifestantes lhe despejaram uma jarra durante um congresso. Agora ele volta a pôr a cabeça em risco ao questionar a base teórica que sustentou sua própria argumentação. Se requer coragem admitir que estava equivocado, a ousadia é ainda maior quando se trata de repensar toda uma área de pesquisa.

O parentesco entre integrantes de um grupo, ele defende, não basta para sustentar as complexas sociedades que caracterizam seres tão diferentes quanto formigas e pessoas. Entra em jogo outra vez a seleção de grupo, há décadas posta de escanteio.

A conquista social da Terra é leitura obrigatória para quem se interessa por entender a formação de sociedades do ponto de vista biológico. Para chegar a uma explicação para o enigma que o ocupa há décadas, o autor se debruça sobre seus insetos favoritos – as formigas – em comparação com os seres humanos e outros organismos.

Quando li o livro, fui pedir a opinião de amigos norte-americanos que ganham a vida investigando a evolução da socialidade. Não tinham lido o livro ainda, mas com base em artigos dos últimos anos o consenso parecia ser que o Wilson não está trazendo nenhuma grande novidade – estaria, na verdade, fazendo barulho com ideias que andam no ar, por aí. É o que ele faz de melhor, pensei, reunir ideias espalhadas e sintetizar num corpo teórico. Neste caso, achei que a leitura vale a pena seja para concordar ou para discordar. Fonte rica de reflexão e discussão.

O livro é dividido em seis partes. Na primeira, Wilson faz considerações sobre por que existe a vida social avançada, conhecida como eussocialidade. O que faz um animal abrir mão de sua própria segurança e conforto, e até de se reproduzir diretamente, enquanto contribui para o sucesso reprodutivo de outros com quem convive? Um dilema evolutivo que chegou a fazer Darwin duvidar de sua própria teoria da seleção natural. Para Wilson, a questão é crucial: sem entender a vida social, não se chega ao cerne do que é a condição humana.

A segunda parte narra o surgimento do ser humano, desde seus ancestrais até o homem moderno, Homo sapiens. Já nessa parte Wilson dá estocadas nas bases teóricas dos estudos de socialidade que pretende implodir. Boa parte da colaboração entre membros de um grupo tem sido explicada com base no parentesco: ajudar um parente próximo (com quem se compartilha genes) a se reproduzir equivale a passar seus próximos genes adiante. Para o autor, essa teoria não explica a evolução de grupos sociais, e por isso ele invoca uma força evolutiva que por muito tempo permaneceu quase um tabu: a seleção de grupo. Em linhas gerais, grupos mais bem sucedidos deixam mais descendentes e têm maiores chances de produzirem membros com tendências a se manterem agrupados e cooperar.

Na terceira parte, Wilson mostra como os insetos sociais dominaram o mundo. Descreve exemplos que ele mesmo observou e reúne um conhecimento que ajudou a construir, como um dos maiores especialistas no campo.

A quarta parte do livro traz a discussão central sobre as forças da evolução social e detalha a nova teoria desenvolvida e defendida por Wilson. Em seguida, ele se debruça sobre a condição humana. A cultura, a capacidade de elaborar linguagem e exprimir ideias abstratas, a variedade cultural e como essa cultura evolui em paralelo (e colaboração mútua) com os genes, a moralidade, a religião, a arte. Por fim, tece considerações a respeito de para onde vai a humanidade: a única espécie que desenvolveu a capacidade de modificar seu próprio ambiente a ponto de destruí-lo.

Com A conquista social da Terra, Wilson promete voltar a outra de suas especialidades: causar polêmica que pode dar origem a uma discussão construtiva. Richard Dawkins deu um pontapé inicial na discussão com uma resenha demolidora na Prospect Magazine. Wilson rebateu sumariamente as críticas em dois parágrafos (em seguida ao texto de Dawkins). Não sei se teve continuação, se alguém souber tenho curiosidade.

 

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Discussão - 4 comentários

  1. Eduardo Bessa disse:

    Não sei se consideraria uma discussão saudável as declarações mais recentes do Wilson sobre o Dawkins em sua entrevista na Revista Época: “Richard Dawkins não é um cientista. Ao criticar minha teoria, ele mostra seu total desconhecimento da teoria evolutiva. Repete o que seus amigos dizem. Ele não sabe o que fala.” Leia o texto completo em
    Também não sinto que ‘Wilson não está trazendo nenhuma grande novidade – estaria, na verdade, fazendo barulho com ideias que andam no ar, por aí’. Ano passado organizei um sipósio sobre o tema no encontro de etologia. Ninguém aceitou defender a seleção multinível proposta pelo Wilson. Quanto a atacá-la, as pessoas que procurei nos EUA tinham a impressão de que meu simpósio era dar publicidade a besteiras. Acho que a discussão sempre é válida, uma pena não ter saído como eu previa no simpósio. Está agendado para o encontro da Animal Behavior Society desse ano um simpósio para defender a seleção no nível do gene/indivíduo, organizado na maioria por estudiosos da evolução da socialidade em vespas.
    Por enquanto estou meio conservador, mas acho que até tenho ficado de cabeça aberta para as propostas novas (até porque sempre admirei muito o Wilson). Veremos o que o tempo e os argumentos farão pela minha opinião.

  2. Maria Guimarães disse:

    eu estou bem curiosa para ver como as coisas avançam. embora tenha estudado essa área, já não me sinto competente para opinar. você leu o livro, bessa? queria tua opinião.
    bem antipático mesmo o comentário sobre o dawkins, não li essa entrevista. vou procurar (acho que você pôs o linque, mas não veio). mas uma coisa concordo: não acho que o dawkins seja cientista, e isso não é juízo de valor. ele é um divulgador de ciência de alto nível, até um pensador. mas nunca vi pesquisa feita por ele.

  3. Maria Guimarães disse:

    esqueci de dizer: muito legal a tua iniciativa de tentar promover essa discussão num simpósio.

  4. Eduardo Bessa disse:

    Li cerca de 10% do livro ainda em inglês. Aí enjoei (coisa que nunca tinha acontecido com um livro do Wilson. Achei a argumentação mais esperançosa (do bem para toda a humanidade) do que embasada em evidências. Li o do Nowak (supercooperators) inteiro. Muito bom, também tem algo de wishful thinking, mas achei mais pé-no-chão.

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