Encontros com jararacas sem pernas amputadas

800px-Jararaca-verdadeira.jpgUma hemorragia que pode levar à amputação é característica de picadas das jararacas, responsáveis por 90% dos acidentes com serpentes no Brasil.

 

Uma equipe do Instituto Butantan, em São Paulo, agora demonstrou como a toxina jararagina se fixa em torno dos vasos sanguíneos e compromete sua integridade, causando sangramento local, segundo artigo publicado na PLoS Neglected Tropical Diseases.

 

“Quando ocorrem acidentes com jararacas, há dois tipos de sintomas: os locais e os generalizados. O soro antiofídico produzido em cavalos é capaz de neutralizar os efeitos sistêmicos, impedindo a morte do paciente, mas não consegue reverter os efeitos locais”, explicou Ana Maria Moura, uma das responsáveis pelo estudo, à assessoria de imprensa do Butantan.

 

No futuro, o novo conhecimento poderá dar origem a inibidores capazes de impedir a atuação da jararagina, que seriam usados em conjunção com o soro antiofídico.

 

Peguei a foto no Wikimedia Commons, de Fauna Pro

 

 

Céticos versus crentes

Como fazer para que pessoas com crenças não fundamentadas ouçam argumentos científicos e, quem sabe, pensem melhor? Foi esse tema, “discutindo com não-céticos”, que ontem reuniu James Randi (guru de pelo menos uma parte dos céticos de carteirinha), George Hrab, D. J. Grothe e Steve Mirsky (apresentador genial do podcast da Scientific American gringa), com moderação de Julia Galef, na conferência sobre ciência e ceticismo em Nova York. A conversa está disponível, em inglês, aqui e aqui.

É um belo bate-papo, que me fez pensar bastante. Sobretudo sobre o papel dos blogues de ciência. Meu intuito aqui neste blogue é contar coisas interessantes e cientificamente plausíveis. Ou, pelo menos, quando me deixo engambelar por algo não fundamentado, lançar a discussão para que me corrijam e a informação fique mais correta.

Nunca me ocorreu iluminar as pessoas, mudar suas crenças. E por isso mesmo, pensei agora, corro o risco de fazê-lo sem querer. Então vou começar a prestar atenção nisso. Um erro comum em discussões, disseram os céticos, é ter como objetivo fazer com que as pessoas mudem de ideia. O mais produtivo, na verdade, é fazer pensar. E se isso, hoje ou daqui a alguns anos, fizer com que a pessoa mude de ideia, o cético põe uma conversão no currículo. Outro erro é deixar de discutir porque se a pessoa acredita aquilo, só pode ser idiota. Talvez não seja, disseram.

Convém aqui me identificar: já disseram que sou muito questionadora, mas não me considero cética. Ouvindo a discussão, me dei conta das contradições embutidas nisso. Eles disseram que algo interessante numa discussão é perguntar ao não-cético o que o faria parar de acreditar no que quer que esteja em pauta. Mas para isso, alguém falou, é importante que o cético também tenha essa resposta pronta. O que seria necessário para que eu deixe de acreditar que há 1 bilhão de anos não tinha uma pessoa bem parecida comigo andando por aí? Para que deixe de acreditar que não posso corrigir os erros desta vida numa próxima? Para que eu deixe de acreditar que acupuntura não funciona contra uma infecção bacteriana? Por aí vai. O cético pra valer tem que duvidar até das próprias certezas.

É raro. Na verdade, minha impressão é que os associados ao clube dos céticos costumam ser cheios de certezas. E essas certezas excluem as alheias, aquelas incorretas. Não sei se existe alguma entidade superior, não sei se tem um espírito olhando por cima do meu ombro enquanto escrevo, não sei se homeopatia funciona em alguns casos. Por isso teria minha carteirinha negada. Vivo conforme o que acredito: não rezo, não tomo homeopatia.

Escrevo como uma semente de reflexão: quero pensar mais nisso, e enriquecer com opiniões contrastantes, dissonantes, complementares ou até inconciliáveis que passem por aqui. E quero buscar, cada vez mais, trazer perspectivas diversas e interessantes sobre o mundo. Fundamentadas, porque essa é minha crença, por critérios científicos rigorosos. Até onde meu discernimento alcança.

Mar de antidepressivos

Shrimp1.jpgMedicamentos humanos não processados por inteiro pelo organismo podem acabar chegando às águas do mar, causando um tipo de poluição ainda pouco estudado.

E podem ter efeitos sobre organismos marinhos, de acordo com Yasmin Guler e Alex Ford, da Universidade de Portsmouth, na Inglaterra, segundo artigo publicado na Aquatic Toxicology.

Em laboratório, eles expuseram um tipo de camarão (Echinogammarus marinus) à fluoxetina, o princípio ativo de medicamentos contra a depressão como o Prozac.

Descobriram que os camarões medicados nadam em direção à luz, em vez de fugir dela como fazem normalmente. Para eles, buscar a iluminação não é boa ideia: ficam mais expostos a predadores como peixes ou aves. Ao oferecer esse festim, os antidepressivos no mar podem acabar causando grandes alterações na cadeia alimentar.

A foto acima eu recebi do Alex Ford, da Universidade de Portsmouth.

Ouvi essa notícia pela primeira vez nos Naked Scientists.

O pecado da escravidão

moore.jpgO engajamento de Charles Darwin pela abolição da escravatura teria sido, segundo os biógrafos Adrian Desmond e James Moore, um fator importante por trás da elaboração da teoria da seleção natural.

Já falei disso aqui, na entrevista que fiz com Moore. Na época fiz também uma resenha do livro A causa sagrada de Darwin, que foi publicada na revista Ciência e Cultura. Eu tinha esquecido, na verdade nem vi a revista. Mas a resenha está disponível em pdf, aqui.

Descobri também que James Moore estará de volta a São Paulo para falar desse assunto. Será no Encontro de História e Filosofia da Biologia, que acontecerá no Instituto de Biociências da USP entre 11 e 13 de agosto.

Moore dará a palestra de abertura, cujo título plagiei para batizar esta postagem: “Darwin and the ‘sin’ of slavery”, no dia 11 às 9:30.

Quem está em Salvador também tem sorte. Ele vai apresentar a mesma palestra no Instituto de Biologia da Ufba no dia 16 de agosto às 13:00.

Árvores em flor: ipê-branco


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Parece um tufo de algodão gigante, impávido em seu brancor enquanto os carros passam. É o ipê-branco (Tabebuia roseoalba), que infelizmente não se vê muito por aí. Não sei por quê, alguém me conta?

Vi esta hoje, de passagem pelo bairro onde morava em Campinas, o Cambuí (cambuí, aliás, é uma árvore que nem lá eu vi – só uma, que plantaram na praça mas morreu em seguida – então não entrou aqui nesta galeria). Pena que meu celular não tem boa resolução…

Fui procurar sobre ela e na wikipedia tem um verbete bastante bom, até com etimologia. Em vez de plagiar, fica aqui a indicação.

É nativa do Cerrado e do Pantanal, segundo esse site.

Saúde, pública?

Aconteceu na semana passada, num posto de saúde da zona sul de São Paulo.
Depois de chegar 10 minutos atrasada para a consulta das 15h, a moça é admitida no consultório às 17:30.

Você chegou atrasada, diz o médico
– Eu sei, tive dificuldades em me liberar do trabalho.
Eu não devia te atender, na próxima vez não atendo.
– Estou com uma dúvida aqui sobre a forma de tomar o anticoncepcional.
– [olhando a receita que a moça estendeu] Quem te passou isso?? Quem mandou você tomar assim???
– O doutor fulano, aqui neste mesmo posto.
Ah, então está certo. É isso mesmo.
– Mas justamente eu estava estranhando a forma como ele me passou, o senhor não poderia me esclarecer?
– Se ele passou assim, é porque é pra você tomar assim. O seu papanicolaou está cinco meses atrasado!
– Eu sei. É porque marquei em janeiro, mas só consegui horário para hoje.
– Você sabe pra que serve esse exame?
– Sei. É para prevenção, para detectar doenças, miomas…
– Não! É pra detectar câncer.
– Pois é, câncer não é doença? [já trêmula de raiva, provavelmente]
Vamos então colher, deita aí.
O espéculo não entra, você tem algum problema? Você por acaso tem formação?
[decidindo mentir um pouquinho] Sou psicóloga, trabalho com gente.
Pois você precisa de um psicólogo, está toda dura e não consigo fazer o exame.

Fez o exame. A cólica e o sangramento no dia seguinte não correspondiam ao ciclo menstrual.

Essa história, que uma amiga me contou, me levou a pensar muito sobre o atendimento médico a que a população tem acesso. A raiz do problema, me parece claro, é a falta de investimento. São postos de saúde mal construídos, onde as pessoas passam horas em salas de espera inóspitas e apinhadas e os médicos não têm recursos materiais e cronológicos para atender direito. Ganham mal. E, pelo visto, acabam descontando em quem está vulnerável. E que médico bom aceita trabalhar nessas condições?

Tem saída? Na utopia tem, eu sei. Mas e na realidade nossa mesmo? O que precisa? Alguém sabe?

Contra os tropeços da idade

Você já reclamou de algum sessentenário aparentemente joveníssimo que passa na sua frente na fila ou para na vaga de idoso enquanto você roda pelo estacionamento já prestes a cometer alguma insanidade? Pois são medidas justificadas, os anos pregam peças às vezes invisíveis a olhos externos.

Para a Pesquisa deste mês, aprendi montes sobre o que causa quedas em idosos, os problemas que elas causam e como evitá-las. Veja reportagem aqui, ou na revista que deve estar chegando às bancas.

O bom é que dá para evitar muitas dessas rasteiras da idade com uma boa disposição – e boa orientação – para exercícios. Será que todo mundo pode ser como a mulher de 92 anos desse vídeo?

 

Uma boa mentira garante sucesso sexual

Todas as fotos são de Jakob Bro-Jørgensen, que gentilmente me permitiu publicá-las aqui

 

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O macho no fundo, atento ao horizonte, parece ocupado em garantir a segurança da área que comanda. É exatamente isso que ele quer aparentar, sobretudo quando há fêmeas no cio por perto. E mais sobretudo ainda quando elas ameaçam ir embora.

A fêmea à esquerda justamente se afastava quando o macho correu à frente dela, se pôs em posição de alerta e começou a roncar – vocalização que em geral avisa que um inimigo se aproxima. Aviso suficiente para a fêmea parar, olhar em volta e desistir do passeio, mesmo sem ter visto nada.

Não viu nada porque de fato não havia. O grupo do zoólogo Jakob Bro-Jørgensen, da Universidade de Liverpool, no Reino Unido, descobriu que o falso alarme é um artifício comum entre os antílopes-topi (Damaliscus lunatus), para aumentar suas chances sexuais.

Em artigo recentemente publicado no site da American Naturalist (veja aqui o artigo e também um vídeo), ele e Wiline Pangle mostraram que os machos só se comportam assim, exceto raras exceções, quando há fêmeas no cio por perto. Tudo isso acontece no lek, uma área onde animais da mesma espécie se reúnem unicamente para avaliar as possibilidades interessantes no sexo oposto. É o bar do mundo dos antílopes-topi, nesse caso.

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E as fêmeas sempre caem. Afinal, mesmo que o perigo não esteja à vista, melhor não correr o risco de participar de uma cena como essa ao lado, com leões devorando um topi vigiados por hienas que esperam uma oportunidade.

Jakob e Wiline observaram também que os machos topi disfarçam pouco suas intenções: depois de segurar a fêmea no lek, em geral tentam logo cruzar com ela (veja no vídeo que indiquei acima).

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Na dúvida, melhor garantir a proteção. Os próprios topi são capazes de embates espetaculares entre rivais, provavelmente bem apreciados pelas fêmeas em busca de um valoroso pai para seus filhotes.

Os alarmes falsos são um truque de sedução e tanto, assunto de que já tratei aqui. A ponto de os pesquisadores deixarem de lado o pudor do antropomorfismo e terminar o artigo com um paralelo explícito: “Embora seja notoriamente difícil fazer declarações firmes sobre intenções por trás de comportamentos, nosso estudo identifica um paralelo entre animais e humanos em sua capacidade de usar falsos sinais para enganar parceiros sexuais, um achado que sugere que a comunicação nas duas espécies pode ser menos diferente do que se costuma presumir”. Ou seja, quando se trata de pegar uma fêmea, macho que é macho mente mesmo na cara dura.

Uma coisa não se pode negar: os antílopes-topi, pelo menos esses da Reserva Nacional Masai Mara, no Quênia, podem paquerar num cenário bem romântico, em que o sol se põe em tons laranjas espetaculares.

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Parada cardíaca no metrô

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O que fazer quando uma pessoa de repente desaba na sua frente, aparentemente sem vida? Uma situação angustiante, que já presenciei uma vez no metrô, mas alguém tomou providências antes que eu saísse da paralisia do choque. Agora já sei.

Na semana passada, o Instituto do Coração (Incor), da Universidade de São Paulo, tomou uma iniciativa legal em São Paulo. Visto que muitos acidentes cardiovasculares acontecem entre a multidão que se aglomera no metrô, esses usuários têm que saber o que fazer logo em seguida. Armaram então cercadinhos em algumas estações, onde fizeram sessões de treinamento com passantes interessados. Eu cheguei depois de começada uma sessão mas pude assistir de fora do cercadinho.

Eram umas 30 pessoas de todas as idades ajoelhadas sobre cobertores. Não em reza muçulmana, mas debruçadas sobre modelos de torsos humanos. Vamos às instruções para o que fazer quando uma pessoa tem uma parada cardíaca e cai inconsciente.

1. Sacuda levemente o ombro da pessoa, chamando 3 vezes: “senhor… senhor… senhor”. Três vezes. Se não houver resposta,
 
2. Selecione alguém entre a turba boquiaberta em torno, aponte para ela com firmeza para não deixar espaço para dúvidas e diga em alto e bom som: “você! Vá chamar um funcionário do metrô e peça para trazer o DEA!” (DEA é Desfibrilador Externo Automático, mas obviamente não há tempo para nomes compridos por extenso; e se estiver na rua e não no metrô, peça ao seu assistente involuntário que ligue para 193)

3. Começe a massagem cardíaca. Repare nas mãos do menino da foto, na estação Paraíso do metrô paulistano. Os dedos são trançados de maneira que as mãos estão empilhadas e a força vai toda na base da mão, aquela parte mais acolchoada perto do punho (eu prefiro dizer pulso, mas um médico uma vez me disse que era errado… pulso é a contagem de batimentos; e punho não é a mão fechada pra dar um soco. As coisas que a gente aprende…). Bombeie com trancos secos, mais ou menos um por segundo, bem no meio do peito. Lá no metrô o pessoal ia contando, todo mundo junto. Contavam até 70, 80 ou mais. Sem parar. Esqueça respiração boca-a-boca, esqueça pausas. Bombeie até a pessoa reagir ou até o socorro chegar.

É isso. Seja qual for o resultado, pelo menos você saberá que fez o possível.

Dedicação materna

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Os pseudoescorpiões nos ninhos de seda são fêmeas da espécie Paratemnoides nidificator, cada uma cuidando de seus ovos. Os filhotes nascem nessas câmaras e aos poucos adquirem independência, como cangurus ou chimpanzés – saem um pouco, dão umas voltas com a mãe de olho. Depois podem ir mais longe, e mais, até poderem caçar e, quem sabe, mudar de vizinhança.

Everton Tizo Pedroso, da Universidade Federal de Uberlândia, em Minas Gerais, estudou esses bichos da graduação ao doutorado, sob orientação de Kleber Del Claro. Eles descobriram que esses aracnídeos – que se parecem com escorpiões pelas pinças mas não têm a cauda com ferrão – não só vivem numa tolerância social invejável mas também cuidam da prole com um cuidado incomum.

Foto 4.JPGAs mães fazem muito mais do que construir os ninhos: quando a coisa fica preta e não há o que comer, elas oferecem o próprio corpo aos filhotes, que devoram a mãe inteirinha em cerca de 40 minutos. Extremo mas enfim, mãe é mãe (há quem diga que esta história não é uma boa homenagem na semana do dia das mães, mas eu acho que é). Mas o resto da colônia também ajuda: forma um círculo em volta dos filhotes em caso de ameaça e deixam os pequenos comerem primeiro, quando conseguem uma bela presa. Na foto ao lado, os mais branquinhos são os filhotes comendo.

Minúsculos e discretos, a espécie já era conhecida mas ninguém tinha dado bola para ela. Até que Everton, um futuro biólogo com curiosidade exemplar, foi procurar um tema de pesquisa que desse pano pra manga. E não ficou à espera que o orientador encontrasse: saiu fuçando pela universidade até encontrar esses bichinhos que não conhecia, numa sibipiruna em frente ao departamento.

Tem mais, mas não conto tudo aqui. Se quiser saber, está na matéria que escrevi pra Pesquisa deste mês. Nos próximos dias devem entrar também no site da revista vídeos mostrando os pseudoescorpiões em ação (não consegui pôr aqui).

As fotos e vídeos são todos de autoria do Everton Tizo-Pedroso, que só conheci por e-mail mas já fiquei fã. Assim como do Kleber Del Claro, com quem tive uma interessantíssima conversa pelo telefone.

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