Xô, gripe suína

medaglia_vacina_original.jpgHoje começou a vacinação contra a gripe suína (que o político-corretismo batizou com o horrendo “influenza A H1N1”) para quem está entre 30 e 39 anos de idade.

Para esquecer o assunto e tirar uma angústia da garganta, fui logo de uma vez. Se você está entre a multidão que diz “acho que não vou tomar”, eu respondo: não é opcional.

Dou dois motivos: 

(1) Médicos que lidaram com pacientes na onda anterior dessa gripe se assustaram com efeitos devastadores inesperados (mesmo que sejam raros, melhor evitar);

(2) Se você prefere correr o risco (como eu faço com a gripe normal), muito bem. Mas a decisão é só sua, fique longe de quem não teve acesso à vacina. É questão de civilidade.

Se quiser mais motivos, vide Ecce Medicus e Rainha Vermelha, por exemplo.

Os outros grupos de risco – crianças até dois anos, portadores de doenças crônicas de qualquer idade, pessoas com 20 a 29 anos e grávidas – continuam tendo direito à vacina, se não entraram na agulha até agora. Mais informações no portal do Ministério da Saúde.

 

Agradeço ao Karl, que forneceu o bótom acima, e ao Igor, que me poupou o tempo de ficar procurando onde eu o tinha guardado!

Borboletas entre dinossauros

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 É tão deslumbrante que eu tinha que pôr assim grandão. Até parece de mentira, mas não é não: é uma borboleta da coleção de André Freitas, da Unicamp, que ele escaneou por cima e por baixo.

É uma das várias imagens que o zoólogo me cedeu para a matéria que saiu na edição de abril de Pesquisa, em que escrevi sobre a pesquisa dele com as borboletas ninfalídeas. Só um aperitivo: essa família de coloridos insetos já existia há 90 milhões de anos, quando os dinossauros ainda eram a lei. Também foram afetadas pela grande extinção que acabou com os grandalhões, mas sobrou o suficiente para dar origem à imensa diversidade que hoje voa mundo afora – amarelas, vermelhas, de asas transparentes, às vezes completamente diferentes quando se olha por cima ou por baixo. Não conto mais, leia aqui.

E recomendo as galerias de fotos, ainda insuficientes mas um deleite. Aqui em frente e verso e aqui na natureza. Todas as imagens são de autoria do André Freitas, que também foi gentilíssimo em me mandar as legendas que permitem entrar um pouquinho mais no mundo de cada uma delas.

E para quem quiser, tem mais: uma entrevista com o pesquisador no programa “Pesquisa Brasil”, que a revista faz em parceria com a rádio Eldorado.

 

Árvores em flor: espatódea

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Muito comum nas cidades brasileiras – no estado de São Paulo, pelo menos – a espatódea é na verdade nativa da África. Daí outro nome popular, tulipeiro-da-áfrica. Florescem com generosidade, por muitos meses do ano. Agora, por exemplo, mas varia conforme o lugar.

É uma árvore de porte médio, chega até cerca de 25 metros, da família das bignoniáceas (a mesma do ipê e do jacarandá-mimoso). Os frutos são as vagens pontudas junto às flores, que quando maduros se abrem e soltam sementes aladas que se espalham ao sabor do vento.

Insetos e aves costumam fazer a festa nas grandes flores que suponho
cheias de néctar. Mas alguns estudos indicam que as flores têm substâncias
tóxicas que aumentam a mortalidade pelo menos das abelhas (veja aqui
e aqui). Prestes a me sentir culpada por gostar dessa bela árvore, fiquei aliviada por encontrar uma declaração de que não é verdade que o néctar da espatódea mata aves, apesar de conter um alcaloide alucinógeno (será por isso que já vi periquitos na maior algazarra em cima de uma delas?). Quem assina a nota é Luiz Fernando de Andrade Figueiredo, que suponho ser do Centro de Estudos Ornitológicos.

A foto acima, de acordo com o levantamento feito pelo agrônomo José Hamilton de Aguirre Junior e divulgado no Raio X do Cambuí, é da espécie Spathodea nilotica. Fica em frente à casa onde morei nos últimos 3 anos. Esta é uma despedida e uma inauguração: daqui para a frente, terei outra espatódea para admirar da janela do quarto. Como diz meu concunhado, mudanças são uma boa fonte de novas memórias.

A longa marcha dos grilos canibais

reinach.jpg“Cuidado com a Terra”. É a mensagem que arqueólogos desvendaram nos moais, aquelas gigantescas estátuas de pedra que hoje são os únicos hanigantes da ilha de Páscoa, no meio do oceano Pacífico.

É esse também o mote recorrente em boa parte das crônicas que recheiam A longa marcha dos grilos canibais, recém lançado pela Companhia das Letras. No livro, o biólogo molecular e cronista de ciência Fernando Reinach recupera as origens do homem em túmulos milenares, no DNA e no cérebro das pessoas e até nos genes de piolhos. E mostra que esse bicho humano feito de células e do ambiente em que vive, a começar pelo útero onde inicia seu desenvolvimento, se multiplicou mais do que seria sábio e agora ameaça a própria existência. O autor acusa: depois de destruir a natureza por meio de desmatamento e poluição – causando efeitos desde locais até globais – o homem agora tenta reparar os danos interferindo em processos ecológicos e evolutivos. E, muitas vezes, mete os pés pelas mãos.

A verdade é que, mesmo tendo domesticado centenas de espécies de animais e plantas para uso próprio, estamos longe de controlar a natureza. Ela tem recursos muito mais engenhosos do que podemos imaginar, como a lagarta de borboleta que se faz adotar por formigas e o cão, especialista em explorar o afeto para pôr os companheiros bípedes a seu dispor. Até para o milho cabe perguntar: quem está a serviço de quem?

Das hordas de grilos migradores obrigados a andar depressa para não serem comidos por aves ou até mesmo seus pares a explicações neurológicas para a intuição ou o fetiche por pés; entre uma pessoa que não vê mas enxerga e outra que vê mas não enxerga estão reflexões intrigantes sobre como o conhecimento científico afeta – ou deveria afetar – a vida. Recomendo a (deliciosa) leitura.

Pesquisador de destaque, Fernando Reinach é especialista em biologia molecular e professor no Departamento de Bioquímica da Universidade de São Paulo (USP). Ele foi um dos coordenadores do primeiro projeto genoma brasileiro, que desvendou o material genético da bactéria Xylella fastidiosa, causa importante de doenças em laranjais e outros cítricos de importância econômica. Mais do que achar a cura para a doença, esse trabalho contribuiu para mudar como se faz ciência no Brasil e para que essa ciência ganhasse projeção internacional. Hoje Reinach é diretor executivo da Votorantim Novos Negócios.

Normal
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Qualquer semelhança entre o texto acima e o que habita as orelhas do livro não é mera coincidência. Também não é plágio, mas garanto que não ganho direitos autorais – a recomendação é sincera.

O biocombustível, o gado e a floresta

amazonia.jpgBiocombustíveis têm sido vistos como uma opção sustentável para reduzir os danos à atmosfera. E não é não só por serem menos poluentes, mas porque, assim como as florestas, as plantações de soja e de cana-de-açúcar – as lavouras mais usadas como fonte de energia – também consomem gás carbônico (CO2) do ar, cujo excesso é um dos responsáveis pelas mudanças que vêm afetando o clima da Terra.

Mas essa conta precisa ser feita com cuidado, mostra um estudo coordenado pelo ecólogo brasileiro David Lapola, agora na Universidade de Kassel, na Alemanha, publicado na revista PNAS. O estudo simulou o que acontecerá caso a produção de etanol e biodiesel aumente como previsto até 2020 e mostrou que ela pode ter efeitos indiretos nocivos na Amazônia e Cerrado.

As plantações de soja e cana tendem a substituir pastos, o que por si só não seria mau. Mas o que acontece é que muitas vezes o processo causa mais desmatamento quando o pasto invade a zona de floresta, e nesse caso os danos ultrapassam a economia de carbono que os biocombustíveis propiciam. O processo criaria uma dívida de carbono que levaria 250 anos para ser ressarcida com a substituição de combustíveis fósseis por biocombustíveis. Para ele, a intensificação da pecuária poderia evitar tais mudanças indiretas de uso da terra.

Além dos canaviais, o estudo indica plantações de dendê como boa fonte de biocombustível com menor impacto ecológico.

A foto acima é de Eric Stoner. Encontrei no flickr e reproduzo com a devida autorização do autor. São 4 mil hectares de floresta amazônica cercada por pasto e soja em Querência, no Mato Grosso.

ResearchBlogging.org
Lapola, D., Schaldach, R., Alcamo, J., Bondeau, A., Koch, J., Koelking, C., & Priess, J. (2010). Indirect land-use changes can overcome carbon savings from biofuels in Brazil Proceedings of the National Academy of Sciences, 107 (8), 3388-3393 DOI: 10.1073/pnas.0907318107

Salvar vidas é fácil

E (quase) não dói! Virei doadora de medula óssea, única possibilidade de tratamento para doenças como leucemia, em que a produção de células do sangue (glóbulos vermelhos e brancos) e de plaquetas precisa ser substituída.

Em conversas com amigos, vi que a desinformação gera um medo desse tipo de doação, por isso resolvi contar aqui. É bem simples.

Basta ir a um hemocentro (veja lista aqui), fazer o cadastro e deixar uma amostra de sangue, um tubinho de 10 ml. Essa amostra vai ser analisada em termos de marcadores imunológicos, os HLA. É isso que vai determinar a compatibilidade entre doador e receptor.

Essa compatibilidade é um grande empecilho, mesmo dentro da própria família a estatística não ajuda: entre irmãos a chance é de 25% e na família estendida, 7-10%. Se o paciente não consegue na família, o jeito é procurar nos bancos de doadores, que precisam ser muito extensos para que haja chances de se encontrar uma combinação viável. Meus dados estarão no Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome), instalado no Instituto Nacional de Câncer (ligado ao Ministério da Saúde).

Caso algum dia eu seja selecionada (antes de completar 55 anos, depois não se pode mais doar), me convocarão para retirar um pouco de medula de dentro do meu fêmur. O procedimento é feito com internação de 24 horas e anestesia geral. Depois pode haver um desconforto por uns dias, mas quem vai ligar pra isso se acabou de potencialmente salvar uma vida?

Vou confessar que descobri tudo isso faz uns 4 anos e enrolei até agora só porque tenho um medo danado de agulha. Finalmente consegui superar a barreira, e espero que o exemplo sirva para que alguém mais dê um pulo num hemocentro. Mais informações para doadores aqui.

A química da arte

pedro américo02.jpgIr a um museu de artes plásticas nunca mais será a mesma coisa.

Agora sei que é possível usar fluorescência de raios X para enxergar, de certa forma, os átomos que compõem cada tinta usada num quadro.

E as tintas não são todas iguais. Elas são compostas por pigmentos que podem ser altamente reveladores. Alguns foram inventados há poucas décadas, outros estão nas pinturas em cavernas; alguns saíram de circulação por serem cancerígenos, outros se mantêm em uso.

O fato é que dá para destrinchar um quadro do século XIX, como o de Pedro Américo ao lado, e encontrar desgastes, descobrir onde e quando foram feitos retoques. E, se for o caso, desmascarar falsificações.

É o que faz a carioca Cristiane Calza, da Coppe/UFRJ. Escrevi sobre o trabalho dela na edição de fevereiro de Pesquisa, aqui.

A foto me foi cedida por ela. E para ver o quadro, e outros tantos deslumbrantes, vale ir ao Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro.

Lua de virar a cabeça

moon_phases.jpgUns meses atrás fiquei encafifada. A gente vê a lua de cabeça pra baixo em relação ao pessoal do norte?

As luas do alto dessa imagem são minguantes; as crescentes estão embaixo, em forma de C. Isso vale pra São Paulo, no hemisfério Norte as luas do alto são as crescentes. Lá se vão uns 20 anos desde que aprendi isso, e só agora a minhoquinha se agitou: por quê??

Sem achar quem me contasse, escrevi pros naked scientists, meu podcast favorito. Além de estar com nó na cabeça tentando entender como a lua vira de ponta-cabeça, queria saber como é na linha do Equador e nos polos.

Hoje recebi um aviso de que eles puseram minha pergunta no fórum deles e que tinha uma resposta (de um tal DiscoverDave, pelo visto assíduo por lá). A coisa é complicada à beça, ainda estou aqui fazendo ginásticas mentais. Vou traduzir, o original está aqui.

“Para começar, a Lua está a cerca de 390 mil Km da Terra e a Terra tem um diâmetro de uns 13 mil Km. Então a distância da Lua é por volta de 30 vezes o diâmetro da Terra. Em termos cotidianos, isso é mais ou menos o comprimento de uma régua de 1 metro comparado à sua largura. Isso quer dizer que do polo Norte ou do polo Sul (ou do leste ou do oeste), a medida de ‘fase’ da Lua não parece muito diferente. Então, os únicos aspectos que restam é que a aparência da Lua envolve: 1) sua posição no céu, e 2) a aparente ‘direção’ para onde o crescente aponta.

Como a Terra gira de oeste para leste, objetos celestiais parecem surgir no leste e sumir no oeste. Estando no hemisfério Sul, você em geral olha para o norte para ver a Lua. Estando no hemisfério Norte, eu costumo olhar para o sul para vê-la. Uma pessoa perto do Equador em geral olha para cima para vê-la. Mesmo assim, como eu disse, para todos nós ela aparecerá no horizonte mais para leste e desaparecerá no horizonte mais para oeste.

Em relação à aparência da Lua em conforme a sua fase, você está certa que, quando o hemisfério Sul vê uma lua em C ou em D, o hemisfério Norte vê o contrário – uma lua em D ou em C. Porém, perto do Equador, o crescente da lua aparece mais virado para cima () ou para baixo (U) em vez de para a direita ou a esquerda. O crescente da Lua obviamente aponta na direção do Sol. Então, durante a noite, o crescente da Lua sempre aponta para baixo (U) porque o Sol está sempre abaixo do horizonte.

Durante o dia, se a Lua segue o Sol, o crescente parecerá apontar para cima () até que passe por cima do observador, e parecerá apontar para baixo depois disso. Se a Lua precede o Sol, ela parecerá apontar para baixo até que passe por cima do observador, e parecerá apontar para cima depois disso. A fase da Lua não muda muito ao longo do dia, mas a direção aparente do crescente parece mudar acima da cabeça do observador porque o observador muda de direção. O observador olhará para leste para vê-la subir, mas depois olhará para oeste para vê-la descer.

Você tinha razão em estar confusa. Durante o dia, crescentes ‘para a direita’ ou ‘para a esquerda’ vistos dos hemisférios nunca mudam de direção (exceto uma vez a cada ciclo lunar quando a Lua parece ‘ultrapassar’ o sol, como durante um eclipse). Porém, todos os dias no Equador, quando o crescente aponta para ‘cima’ ou para ‘baixo’ isso diz respeito à direção para a qual o observador está virado, especificamente porque a Lua parece nascer e se pôr em direções totalmente opostas.”

O que me dizem? Alguém aí pode me contar se é assim mesmo na linha do Equador? Alguém já olhou a Lua nalgum polo?

 

 

Darwin, o abolicionista

darwin_first_tree_2.jpgEntrevista com James Moore

A teoria da seleção natural de Darwin, publicada pela primeira vez há 150 anos, já foi chamada de ideia perigosa. Uma nova faceta dessa teoria se junta agora à bibliografia darwinista: por trás dela havia uma “causa sagrada”, o engajamento de Darwin pela abolição da escravidão. A afirmação é de Adrian Desmond e James Moore, que recentemente lançaram no Brasil o livro A causa sagrada de Darwin (editora Record).

Em conversa durante uma visita a São Paulo, Moore me contou um pouco mais sobre essa tese. A interpretação da dupla, autora de uma bibliografia de peso sobre o fundador da teoria da evolução (publicada no Brasil em 1995), é que a revolta contra a escravidão fez parte do caráter de Darwin desde a infância. E foi o que o impeliu a desenvolver sua teoria de evolução por descendência.

Ele também aplicou a compreensão da natureza às pessoas a ponto de sugerir que os homens inverteram o jogo da sedução em relação aos outros animais – é esta a continuação que prometi aqui.

Continue para ler a entrevista traduzida por mim. A versão original está no “Brazillion thoughts“.

(Tirei daqui a foto do caderno do Darwin com o primeiro esboço que fez da árvore da vida)

Continue lendo…

Plástico no papo

tumblr_kspmmdEmzW1qa1cnp.jpg

Milhares de filhotes de albatroz morrem recheados de plástico, todos os anos, no atol Midway.

O lugar é uma ilhota no oceano Pacífico, no meio do caminho entre nada e lugar nenhum, mais de 3 mil quilômetros do continente mais próximo. É um santuário de aves marinhas, que fazem ninhos ali e catam no meio do mar aquilo que parece comida. Assim, filhotes que nunca saíram do ninho morrem sufocados, intoxicados e de fome.

O fotógrafo Chris Jordan queria documentar a grande mancha de lixo do Pacífico, mas tinha um problema: segundo ele contou numa entrevista ao podcast da New York Review of Books, o lixo fica meio submerso e é por isso muito difícil de captar em imagens (lembrei de quando mencionei aqui esse problema do lixo no meio do mar e o Igor Santos pôs em dúvida a existência do tal continente de dejetos, já que não se vê no Google Earth).

Então ele achou essa solução: fotografar essas aves que teriam tudo para viver livres do lixo que geramos. Com cuidado documental, registrou as aves por inteiro, como se a pessoa parasse ao lado e olhasse pra baixo. E não tirou nada do lugar. Se por acaso esbarrasse nalgum pedacinho de plástico com o pé ou o tripé, desconsiderava aquela ave.

Tem mais fotos no blog da revista. Belas imagens pra fazer a gente pensar bem antes de jogar fora qualquer pedaço de plástico, que tem grandes chances de passar as próximas muitas décadas boiando pelas águas do mundo. Na melhor das hipóteses.

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