Estratégias de pesquisa

No suplemento Mais da edição de domingo da Folha de São Paulo, Marcelo Leite fez um convite à leitura de A Controvérsia dos Transgênicos, de Hugh Lacey (Idéias & Letras). O texto desse convite pode ser lido no blog Ciência em Dia. Não li nenhum dos livros de Hugh Lacey mas consegui descobrir uma entrevista sobre o mesmo tema, que ele deu à revista Teoria e Debate, em 2001. Gostei e espero ter a oportunidade de ler um de seus livros em breve.

O problema de que trata Hugh Lacey é o da influência de valores sociais nas estratégias de pesquisa, ou seja nas abordagens (ângulos de observação e iluminação) que cientistas decidem adotar ao estudar determinados sistemas ou fenómenos. O tema é muito relevante e deve ser objeto de reflexão profunda na comunidade científica. Não é essa reflexão que procuro aqui e agora. Apenas aproveito para recordar um breve episódio da minha passagem pela Universidade da Califórnia, em Berkeley.

Foi em novembro de 2003, por ocasião de uma visita de Richard Lewontin à UC Berkeley para falar nas The Charles M. and Martha Hitchcock Lectures, palestras dirigidas essencialmente ao público leigo. No primeiro dia o tema de Lewontin foi Gene, Organism and Environment: Bad Metaphors and Good Biology. No segundo, como seria de esperar, The Concept of Race: The Confusion of Social and Biological Reality. Aconselho a que vejam os vídeos das palestras através do site da University of California Television.

Na segunda palestra, sobre o conceito de raça humana, Lewontin usou grande parte seu tempo mostrando evidências quantitativas da diversidade genética entre populações humanas. Evidências de estudos clássicos mostrando que a diversidade genética humana estaria principalmente distribuída entre indivíduos de populações dentro de grupos raciais (cerca de 85%) e não entre populações de diferentes raças. E que a pequena proporção de diferenças entre raças (cerca de 5%) teria sido essencialmente determinada por deriva genética em pequenos e isolados grupos populacionais. Por outro lado, a homogeneidade de frequências génicas nas populações humanas seria explicada pelas extensas migrações humanas, regionais e continentais. No entanto, estas evidências pareciam contrastar com a definição de grupos raciais, que seriam então resultado da nossa percepção superficial, skin deep, nas palavras de Lewontin.

Uma das suas conclusões é que as diferenças não poderiam ser explicadas apenas pela ação da seleção natural, como alguns tinham proposto. No final da palestra, Lewontin exemplifica com os problemas da explicação de diferenças da pigmentação da pele e cor e textura do cabelo através da ação da seleção natural. A explicação preferida de Lewontin seria a seleção sexual (na verdade, uma forma de seleção natural), de parceiros semelhantes da mesma população, que tenderia a favorecer certos alelos de genes determinantes do fenótipo naquela população. Não havia, contudo, evidências para apoiar qualquer hipótese. Um dos problemas é que os genes responsáveis pelos fenótipos da cor da pele nunca tinham sido encontrados, embora Lewontin acreditasse na sua existência, algures no genoma.

Cling! Nessa altura surge a questão na minha mente, provocativa, claro! Ali estava Lewontin falando sobre como as raças eram uma construção social, não uma realidade biológica. Mas havia algo curioso na forma como tinham sido apresentadas as evidências. Qual o motivo da minimização das diferenças entre as populações humanas, sendo esta atitude diametralmente oposta à abordagem normalmente seguida pelos biólogos da evolução, no estudo de espécies que não a humana? Em evolução, interessam-nos principalmente as diferenças entre populações e procuramos estudá-las o mais aprofundadamente possível. Por que parecia acontecer o oposto com o estudo da espécie humana, por exemplo, no caso da genética da cor da pele, que Lewontin desconhecia por completo?

Resolvi perguntar-lhe! Uma fila de interessados formava-se junto ao microfone disponibilizado para o efeito. Quando lá cheguei era o último da fila e, azar, chegada a minha vez, acabou o tempo. Resolvi perguntar mesmo assim. Abordei Lewontin logo que desceu do palco e perguntei:

— Você afirmou que a definição de raças humanas é uma construção social, como que uma vitória de valores sociais sobre a realidade biológica. Mas eu fiquei admirado com o pouco que se sabe sobre as características responsáveis pela percepção social de raça. Não acha que, neste caso, parece verificar-se o mesmo problema em sentido contrário, com valores sociais que negam o conceito de raça “impedindo” (por ser politicamente incorreto!) o avanço do conhecimento sobre a evolução daqueles fenótipos e da própria espécie humana?

Richard— Sei onde você quer chegar. Cada um escolhe aquilo que quer estudar, se é que você me entende [I know where you’re getting at. Each one chooses the things that’re worth studying, if you know what I mean] !

Deu uma cúmplice piscada de olho, e foi-se!

Fiquei surpreso pois não esperava a resposta. Esperava que me dissesse que até então tinha sido difícil encontrar genes responsáveis pela determinação da pigmentação da pele, pela complexidade genética dos fenótipos e/ou por limitações metodológicas.

Na época, tive a sorte de fazer pós-doutorado com David Wake e Craig Moritz, no Museum of Vertebrate Zoology, da University of California – Berkeley. No dia seguinte, tivemos uma reunião de laboratório com Richard Lewontin. Foi uma conversa interessante em que ele ficou admirado por ver ali um bando de pesquisadores trabalhando com uma grande diversidade de organismos (fungos, anfíbios, répteis, aves) enquanto ele havia devotado toda a sua pesquisa a um organismo-modelo, a mosquinha da fruta (Drosophila sp.). Nós estudávamos os organismos no seu meio, ele havia sempre estudado o seu organismo em frascos. Lewontin não fazia a mínima ideia da ecologia da mosquinha da fruta. Perguntei-me então como se podia chegar a saber algo sobre EVOLUÇÃO sem estudar os organismos no seu meio natural. Seria por isso que Lewontin parecia não mostrar tanta apreciação pela seleção natural como mecanismo promotor de evolução, sendo que esta não pode ser estudada em frascos? Mas não era ali a altura de fazer perguntas provocativas. Eramos muitos, e eu já tenho uma tendência natural a monopolizar debates! Fiquei calado. Depois comentei com David Wake o episódio do dia anterior e o meu pensamento sobre Lewontin. É bom esclarecer que Dave conhecia Lewontin (e também Gould) por serem da mesma geração e t
erem estado juntos na Universidade de Chicago, nos anos 60. Dave foi peremptório!

— Dick Lewontin, tal como Steve Gould, sempre foram cientistas com uma agenda política clara. São cientistas excelentes mas têm algumas visões empedernidas sobre algumas questões que eles acham importantes de acordo coma sua agenda marxista-leninista.

É conveniente que fique claro que Dave Wake é um homem com um pensamento político de esquerda moderada. Dave não tinha nada contra homens de esquerda, apenas algumas reservas relativamente ao pensamento radical, de esquerda ou de direita.

Minha curiosidade aguçada levou-me a procurar sobre o pouco que realmente se conhecia sobre genes ligados à expressão de fenótipos da cor da pele. Encontrei dois artigos recentes e enviei as referências a Lewontin. Afinal sempre havia algo! Não obtive resposta, claro. Hoje, com três anos volvidos, existe mais alguma informação sobre o tema, que tem sido explorado no âmbito da pesquisa sobre o câncer da pele. Podem encontrar uma revisão razoável sobre o assunto na Wikipédia.

Richard Lewontin é um dos grandes nomes da genética da evolução do século XX. Mas hoje, tal como durante alguns momentos da sua palestra, tenho dificuldade em ler e ouvir o seu discurso para o público leigo sem pensar na sua estratégia de abordagem. Mas vejam o que ele próprio diz numa excelente entrevista que deu em 2003, em Berkeley.


No início dos idos anos de 90, tive um professor de genética que considerei o melhor professor de toda a minha graduação em Biologia. António Amorim tinha um excelente poder de comunicação, associando o interesse geral da cátedra à sua personalidade e aspecto irreverentes, quase revolucionários. Acontece que ele não acreditava na seleção natural como um dos motores da evolução. A teoria neutralista de Motoo Kimura bastava-lhe e chegou a escrever um pequeno livro em 2002, A espécie das origens – genomas, linhagens e recombinações, sobre como Darwin e os arquitetos da Nova Síntese estavam completamente enganados no seu programa adaptacionista. Para Amorim, a ideia da selecção natural é uma explicação mais ideológica do que científica, além de totalitária e circular. Quando iniciei depois a minha carreira de pesquisa, ainda não conseguia perceber como pretendia negar evidências, que me pareciam claras, já na altura, de que tanto fenómenos aleatórios (mutações neutrais, deriva genética) como seleção natural tinham o seu papel na explicação dos padrões de evolução. Não entendia a limitação paradigmática de António Amorim, mas muitos me diziam que a explicação eram as suas tendências marxistas-leninistas.

Quando falei com Lewontin, já estava melhor preparado para entender, quando ele me piscou o olho maroto, tive a certeza!

No meio do meu doutorado, após de uma discussão animada com o meu co-orientador holandês, percebi que tinha iniciado uma luta consciente contra a tentação do paradigma diretor, da perspectiva enganadora, do olhar míope, seja de esquerda ou de direita, vindo do céu ou do inferno. Por isso, também, vos mostrei a animação abaixo, que comentarei no momento próprio.

Abstração…


© Copyright 2002, Jim Loy

P.f., observem a animação acima durante 1 minuto. Se quiserem, partilhem sensações e ideias que a imagem possa ter suscitado. Após algum tempo, escreverei algo sobre o que imagem significa para mim.

A ciência fantástica da evolução humana

Experimentei reações diversas ao ler o artigo da Folha de São Paulo divulgando o estudo da revista científica Nature sobre fluxo génico (hibridização) entre as linhagens ancestrais humana e chimpanzé. Aqui está o resumo do artigo de Patterson et al. (Petal):

The genetic divergence time between two species varies substantially across the genome, conveying important information about the timing and process of speciation.

Here we develop a framework for studying this variation and apply it to about 20 million base pairs of aligned sequence from humans, chimpanzees, gorillas and more distantly related primates.

Human-chimpanzee genetic divergence varies from less than 84% to more than 147% of the average, a range of more than 4 million years. Our analysis also shows that human-chimpanzee speciation occurred less than 6.3 million years ago and probably more recently, conflicting with some interpretations of ancient fossils.

Most strikingly, chromosome X shows an extremely young genetic divergence time, close to the genome minimum along nearly its entire length.

These unexpected features would be explained if the human and chimpanzee lineages initially diverged, then later exchanged genes before separating permanently.

A primeira reação foi de desagrado pela forma como o artigo científico foi tratado pela imprensa, algo que foi já comentado abaixo pela Maria. Se quiserem ler um excelente artigo jornalístico sobre a matéria, leiam o de Carl Zimmer aqui.

A segunda foi de curiosidade e interesse pela metodologia que teria sido usada no artigo. Seguidamente, focarei o meu comentário apenas na parte científica, que me interessa particularmente. É um exercício de crítica do artigo, que procurei escrever de modo simples mas, por vezes, denso.

O modo de especiação é algo que tem interessado os biólogos da evolução desde Darwin tendo-se tornado um dos temas centrais da biologia evolutiva (e.g. Mayr 1963). O modo mais simples de especiação que pode ser imaginado envolveria uma separação única entre duas espécies instantaneamente formadas, com interrupção completa de fluxo génico. No entanto, é provável que este modelo seja demasiado simplista. A primeira violação ao modelo que podemos imaginar é um processo de isolamento entre sub-populações de uma espécie interrompido por episódios de fluxo génico (migração, hibridização), possíveis tão só até que seja atingido o isolamento reprodutivo entre as subpopulações, que se tornariam então espécies. Estes dois modelos alternativos permitem gerar previsões que podem ser usadas para testar alternativamente os modelos diante de dados reais sobre espécies de interesse (para mentes mais matemáticas e probabilísticas, aqui ficam algumas referências: Wakeley 1996; Nielsen & Wakeley 2001; Hey & Nielsen 2004).

Tento explicar de forma simples. Existindo um processo de especiação por isolamento com migração, podemos esperar um aumento da variância da divergência genética entre sequências de DNA de diversas porções do genoma das duas espécies. Isto é, comparando as sequências de dois genomas das duas espécies, esperariamos encontrar porções mais diferenciadas geneticamente e outras porções menos diferenciadas. Isto é intuitivo se pensarmos no que acontece com sequências de DNA em populações isoladas: de forma simplista, a tendência é acumularem mutações de forma independente, ao mesmo tempo que a deriva genética (para uma explicação didática do conceito, ler as colunas Deriva Genética de Sérgio Pena na revista Ciência Hoje online) e/ou seleção podem contribuir (embora nem sempre) para um aumento da diferenciação. Quando indivíduos de populações diferenciadas, mas ainda não isoladas reprodutivamente, se encontram e acasalam dá-se recombinação (mistura, embaralhamento) de porções dos dois genomas diferenciados. Após um ou vários eventos de recombinação entre genomas que eventualmente se especiam completamente, comparando os dois genomas destas duas novas espécies, esperariamos encontrar tanto regiões homólogas mais semelhantes entre as espécies como regiões mais diferenciadas entre as espécies, como resultado daquele processo de embaralhamento ao acaso de genomas ao longo do processo de diferenciação.

Pois são estas as premissas fundamentais para a primeira das sugestões que o artigo de Petal nos faz. Tendo observado uma ampla gama de valores de divergência genética entre diversas regiões dos genomas humano e chimpanzé, que correspondem a uma diferença de cerca de 4 milhões de anos para a datação da divergência entre formas ancestrais das duas linhagens, os autores propõem que a elevada variância seria explicada por pelo menos um evento de hibridização entre um ancestral da linhagem humana com um ancestral da linhagem chimpanzé.

[Hybridization] could explain the wide range of divergence times (more than 4 Myr): at some loci human and chimpanzee lineages share ancestry around initial separation, whereas at others the genetic ancestry is more recent at the time of hybridization.

Aqui reside um dos problemas desse artigo. É que os autores escolheram ignorar ao longo do artigo todo o efeito do tamanho da população ancestral que terá originado tanto humanos como chimpanzés – o nosso ancestral comum. E apresentam as suas razões na seguinte frase:

[Other studies] produced inconsistent estimates of ancient diversity owing to small data sizes, ignoring the effects of recurrent mutation, and simplifying assumptions about the demography of ancient populations.

Mas não deveriam nunca ter ignorado que os resultados observados por Petal seriam igualmente esperados como resultado de uma população de tamanho elevado, aí de 50.000-70.000 indivíduos, tal como é previsto em artigos publicados anteriormente, muitos dos quais não citados por Petal. John Hawks (antropólogo e geneticista, professor da Universidade de Madison) faz um comentário bem crítico sobre o artigo, que aconselho a ler no weblog johnhawks.net.

Curiosamente, quase em simultâneo com o artigo de Petal, foi
publicado um artigo de Innan & Watanabe (IW) na edição de Maio da revista Molecular Biology and Evolution, com o seguinte resumo:

The coalescent process in the human-chimpanzee ancestral population is investigated using a model, which incorporates a certain time period of gene flow during the speciation process. a is a parameter to represent the degree and time of gene flow, and the model is identical to the null model with an instantaneous species split when a = infinity. A maximum likelihood (ML) method is developed to estimate a, and its power and reliability is investigated by coalescent simulations. The ML method is applied to nucleotide divergence data between human and chimpanzee. It is found that the null model with an instantaneous species split explains the data best, and no strong evidence for gene flow is detected. The result is discussed in the view of the mode of speciation. Another ML method is developed to estimate the male-female ratio (alpha) of mutation rate, in which the coalescent process in the ancestral population is taken into account.

A principal conclusão é que um modelo que pressupunha um período de diferenciação populacional com fluxo génico anterior ao processo de separação das linhagens é rejeitado a favor de um modelo de separação simples. Assim, sugere que a divergência genética entre humanos e chimpanzés é concordante com um modelo em que não teriam existido fenómenos importantes de isolamento (e hibridação) na população ancestral dos chumanos (uso aqui a expressão de John Hawks para designar o ancestral comum a chimpanzés e humanos).

A segunda observação que leva os autores a reforçar a hipótese de hibridação é a redução da divergência entre sequências do cromossoma X chumano, relativamente à divergência média entre cromossomas autossómicos. Os autores revelam que a hipótese de hibridação explicaria por exemplo a maior redução da divergência no caso chimpanzé-humano do que no caso rato-humano.

Mas ainda que assim tivesse sido (é possível!), a questão é se o resultado seria esperado de acordo com o que se sabe sobre e evolução do cromossoma X. Nos mamíferos, os machos apenas têm uma cópia do cromossoma X (as fêmeas têm duas cópias), o que reduz a população de cromossmas X a ¾ da população de cromossomas autossómicos (duas cópias nos machos e nas fêmeas). Como a chance de replicação equivale a chance de mutação, que é a base da diversificação genética entre espécies, desta redução no efetivo populacional do cromossoma X espera-se que resulte uma redução da sua divergência genética entre espécies aproximadamente proporcional, ou seja 75% da diversidade esperada nos cromossomas autossómicos.

Por outro lado, a taxa de replicação cromossómica nas linhas germinais feminina e masculina é distinta: a replicação nos machos (formação de gâmetas) é contínua enquanto as fêmeas nascem com um número fixo de gâmetas, que não será reposto por replicação ao longo da vida. Mais uma vez estas diferenças se refletem no efetivo populacional de gâmetas, que por sua vez determinam a chance de mutação (maior efetivo equivale a maior chance de mutação e a menor chance de deriva genética ou extinção). Muitos estudos se têm debruçado sobre esta questão designada como o viés mutacional macho-fêmea (o parâmetro alfa). Por outro lado, sabe-se que a replicação da linha germinal masculina dos primatas é 5-6 vezes superior à das fêmas (Hurst & Ellegreen 1998). Então os valores esperados de redução da diversidade entre cromossoma X e cromossomas autossómicos deveriam ter valores máximos daquela ordem de grandeza.

Se compararmos alguns dos valores reportados em estudos diversos temos:
alfa-Petal = 7
alfa-Petal (corrigido para a hipótese de divergência menor devido a hibridação) = 1.9
alfa-Innan&Watanabe = 2.7-4.4
alfa-outros = 5
alfa-rato-humano = 1.9-2.1

Podemos então concluir que existe uma grande variação em estimativas de alfa, sendo que os menores valores são obtidos na comparação rato-humano e através da correção efetuada por Petal. Vamos por partes:

i) seria esperado que alfa fosse menor na comparação rato-humano devido ao menor tempo geracional dos ratos relativamente aos humanos, que resultaria numa menor taxa de replicação nos machos e redução do viés alfa;
ii) a correção de Petal é efetuada para resolver o paradoxo inexistente da diferença de alfa na comparação rato-humano e chimpanzé-humano. Mas acontece que essa diferença seria esperada de acordo com previsões teóricas! Concluo então que a correção de Petal foi um exercício que seria lícito em si, mas nunca para legitimar apenas a hipótese preferida. Considero isto uma manipulação grosseira da análise com o objetivo de dirigir a discussão e conclusões do artigo.

Petal fazem ainda uma estimativa da redução da diversidade do cromossomo X na linha ancestral chumana por comparação por exemplo com a linha ancestral humana-gorila. É calculado então um parâmetro R que mede aquela redução, para o qual é esperado um valor próximo de 0.75. É apresentado um valor muito reduzido para o R-chumano (0-0.29) comparado com o R da linha ancestral humana-gorila (0.68-1.00). Para compreender a forma de cálculo de R tiver que penar, lendo as mais de 40 páginas das notas suplementares fornecidas online. Para concluir que, mais uma vez, há uma incoerência no cálculo da comparação chumana versus outros primatas: só para os chumanos se usa uma calibração fóssil enquanto para outras usam-se estimativas resultantes da análise de dados genómica. Se tivesse havido coerência, o valor chumano a comparar seria 0-0.62, cujo valor máximo se aproximaria mais do valor esperado.

No final, Petal afirmam que a única explicação para os resultados seria a ocorrência de seleção ao nível do cromossoma X. Mas isso não é nada de novo! O cromossoma X tem sido ligado a especiação em outros organismos por poder atuar como agente de infertilidade nos machos, resultando em incompatibilidade entre indivíduos de populações diferenciadas. Essa é exatamente a hipótese trabalhada por Petal. Mas a seleção não teria necessariamente de estar ligada a hibridação entre espécies, poderia ser um processo populacional em populações subdivididas, que não seriam nem chimpanzés nem humanas. Esta ocorrência de várias populações seria coerente com algumas evidências genéticas para uma população ancestral de tamanho elevado, tal como sugerido por artigos publicados anteriormente. Enfim, nada de novo a não ser pelo spin.

Resumindo, o artigo é interessante por discutir uma ideia que talvez não tivesse sido convenientemente explicitada anteriormente. Mas a ideia de Petal não provém de novas evidências, que não possibilitam decidir sobre hipóteses alternativas, provém antes da própria influência que a ideia exerceu na análise das evidências. Fiquei desanimado por os autores não desenvolverem testes de hipóteses, pelo que o artigo se torna essencialmente descritivo. Nesse sentido, o artigo é uma desilusão e não vale toda a cobertura midiática sensacionalista que lhe tem sido dedicada.

Após en
golir 45 páginas de ciência fantástica, nada palatável, rogo-me o direito de uma sessão de paranóia crítica. Aqui vai uma boa abertura para um artigo jornalístico:

Petal fazem incidir uma nova luz sobre a evolução humana, apesar das poucas novas evidências que apresentam, com excepção do seu peso em megabases de DNA.

E para me fazer feliz, em português:

Assim é a infância das ciências genómicas,
trocando o dólar pela megabase.
E com ela a Nature,
surfando nessa onda galopante,
novas luzes e nuances,
aproximando da arte a ciência complexa.
Cautela meus amigos cientistas e não cientistas,
para que a onda vos não engula a mente crítica.

E em inglês:

There goes the Petal,
windblown,
thrown,
by the grand master blower,
the wind.
To the vagaries of Nature,
spins and twists,
wishes of the grand master,
chance of all things,

serendipity.
Turn nature into a big mess,
only decypherable,
turning science into art!
…there goes Nature surfing the wave.


E em californiano:

J: Hey Dude! What’s this guy talking about?
M: Oh, it’s awfully euphemistical…
J: What do you mean?
M: He’s just giving Nature the F… word.
J: F… awesome, Dude! Is it Simpsons’ time yet?
Tivo: The Siiimmpsoonnnss!!!!


Referências…

Hey J, Nielsen R (2004) Multilocus methods for estimating population sizes, migration rates and divergence time, with applications to the divergence of Drosophila pseudoobscura and D. persimilis. Genetics 167, 747-760.

Hurst, L. D., and H. Ellegren. 1998. Sex biases in the mutation rate. Trends Genet. 14:446-452.

Innan H, Watanabe H. 2006. The effect of gene flow on the coalescent time in the human-chimpanzee ancestral population. Mol Biol Evol 23:1040-1047.

Mayr E (1963) Animal species and evolution. Belknap Press, Harvard.

Nielsen R, Wakeley J (2001) Distinguishing Migration From Isolation: A Markov Chain Monte Carlo Approach. Genetics 158, 885-896.

Taylor, J., Tyekucheva, S., Zody, M., Chiaromonte, F., Makova, K.D. Strong and Weak Male Mutation Bias at Different Sites in the Primate Genomes: Insights from the Human Chimpanzee Comparison. Mol Biol Evol 23, 565-573 (2006).

Wall JD. 2003. Estimating ancestral population sizes and divergence times. Genetics 163:395-404.

Wakeley J (1996) Distinguishing migration from isolation using the variance of pairwise differences. Theoretical Population Biology 49, 369-386.

Entrevistas…

Quando decidiu ser cientista?
Não decidi, optei por ciências exatas aos 15 anos e segui um caminho que me levou à investigação científica.

Foi uma decisão fácil?
Não, aquela opção foi apenas funcional e não existencial.

Quer explicar?
Para alguns, as opções que se fazem na vida parecem simples e as decisões surgem sem dificuldade, como se já tudo estivesse escrito. Aqui, a função que cada indivíduo exerce na comunidade não parece desligada da própria essência do indivíduo, o ser aproxima-se do estar. Para outros, a vida é sempre um mar de possibilidades a serem exploradas, pelo menos em tese. Se me perguntar que outras coisas pensava que gostaria de fazer aos 15 anos eu diria…coisas muito diversas! Mas havia um grande desejo de exploração de novas fronteiras associado à busca da luta por princípios éticos em que acreditava então, e que se mantiveram até hoje. Quando tive de decidir, segui apenas a minha intuição de que poderia encontrar o que procurava em qualquer área do conhecimento.

Mas ainda não percebi o funcional vs. existencial?
É simples, a minha atividade profissional é fazer investigação científica, mas não me considero um cientista, não vivo para a ciência como alguns colegas. A vida apresenta-me muitas outras dimensões que interessa explorar, que possibilitam uma maior versatilidade no uso da imaginação e da emoção.

Considera a hipótese de deixar de fazer ciência?
Para já não, adoro o que faço. Mas quero continuar a sentir que serei sempre livre de mudar...

O que o satisfaz na pesquisa científica?
O processo que conduz à possibilidade de falsificação de teorias estabelecidas e geralmente aceites.

Isso não é um problema?
É-o se você não aceita a ciência ou não compreende como ela funciona ou deveria funcionar.

Mas a ciência sempre funciona assim?
Claro que não! A possibilidade de falsificação surge com o sentido crítico. Muitos cientistas não buscam a falsificação mas sim a corroboração de teorias científicas. Outros não buscam a inovação nas abordagens. E é claro que depende muito da comunidade em que se está inserido. Muitos grupos de pesquisa incentivam a crítica e inovação, outros defendem o status quo. Mas, em última análise é ao indivíduo que cabe escolher o seu caminho e a sua ética científica.

Qual o enfoque da sua pesquisa?
Os processos e a dinâmica da distribuição e abundância de organismos, fenótipos e genótipos, no espaço e no tempo. De forma sucinta, biogeografia e evolução.

Você contribuiu para a falsificação de alguma teoria?
Não, mas isso não é um problema, pois trata-se na verdade de um estado mental e não de uma necessidade real de falsificação sempre que se faz ciência. O que importa é a consciência crítica… Mas sinto-me já feliz se puder dar alguma pequena contribuição para perspectivas alternativas sobre determinados fenómenos. Repare que a pesquisa em biologia trabalha com sistemas complexos, onde cada vez mais é difícil aceitar grandes teorias unificadoras e, por conseguinte, buscar a sua falsificação de forma simplista.

A teoria da evolução não é uma delas?
A teoria sintética da evolução de Dobzhansky, Mayr et al. é geralmente aceite como unificadora da biologia, mas não é uma teoria acabada ou completa, até por ter deixado de fora algumas dimensões importantes do próprio processo evolutivo, como a epigenética ou o desenvolvimento embrionário. É uma teoria que continuará a ser construida com a quantidade de novo conhecimento que está hoje a ser gerada pela integração de áreas da biologia como a genética, genómica, ecologia e desenvolvimento.

Ecologia?
Sim, você não poderá ter a mínima noção de evolução organísmica se não estudar os organismos no contexto das interações do com o meio biofísico em que existem, e em que sobrevivem ou não.

Qual a sua visão sobre a era da genômica?
Está ainda na sua infância. A informação bruta que tem sido gerada supera em muito a nossa capacidade de a entender à luz de uma teoria reducionista e mecanicista de evolução. Basta ler obras recentes de Fox Keller ou Eva Jablonka para chegar a esta conclusão. Mas estou convicto que o nosso conhecimento será cada vaz mais completo sobre os mecanismos de funcionamento de genes no contexto de genomas, no contexto de funcionamento de organismos no contexto da sua ecologia. Mecanismos complexos portanto. A era do reducionismo acabou.

Você acha que é essa a ideia que o público tem da evolução?
É difícil saber exatamente, não tenho tido muito contato… Mas apostaria que a percepção do público sobre evolução reside em Darwin e pouco mais. Existe um problema geral de comunicação de ciência na sociedade, que talvez esteja associado à percepção que o mundo é muito mais complexo do que se pensava e à dificuldade dos cientistas em explicar sistemas complexos, dos comunicadores de ciência de processar a quantidade de informação gerada e, muitas vezes, do receio de induzir dúvida na opinião pública sobre o valor da ciência como meio de fazer sentido da vida.

Esse tema é interessante! Mas isso não é esperar demais da ciência?
Claro que sim. A ciência é apenas um dos pilares do conhecimento sobre os quais deve assentar o sentido que encontramos para a vida, individual e coletivamente.

Qual o principal desafio que se apresenta à ciencia como um todo e a sua relação com a sociedade?
À ciência, revelar o funcionamento de sistemas complexos em geral, à ciência-e-sociedade, juntar cientistas e leigos em espaços virtuais, comunicar interativamente, conhecer os desígnios preocupações de uns e outros, procurando construir um corpo de conhecimento mais abrangente, e que se possa tornar verdadeiramente coletivo.

Que espaços seriam esses?
Blog-fóruns e blog-portais, na internet.

Isso não é utópico?
Chame-lhe antes um grande desafio. Repare que as consequências do nosso fracasso momentâneo podem ser já visíveis nos avanços do misticismo e do obscurantismo, do autismo civilizacional.

Da religião?
Não! Falo de determinados segmentos da sociedade, religiosos ou não, que cultivam a ignorância sobre outras visões de mundo.

Mas isso não existe no mundo da ciência também?
É verdade e é preciso combater essas tendências que eu também apelidaria de autistas civilizacionais. Daí a necessidade de cultivar espaços de interação pública. Repare que não falo só de ciência e sociedade, refiro-me ao conhecimento com um todo, que deve servir de base à ação individual e coletiva. Por exemplo, esses espaços seriam importantes para a ação política também. Poderiam não só contribuir para a difusão, discussão, integração de conhecimento (arte, ciências exatas e humanas, política, etc), e sua democratização na internet, mas também espaços de formação política que faltam hoje na sociedade.

Você fala sério?
Seríssimo
!

Mas como isso funcionaria?
Pela mobilização individual para a participação de fóruns coletivos, tendo como objetivo a formação de opinião pública informada e consciente, mais livre e talvez menos sujeita a manipulações por entidades de índole corporativa. Aliás, perdoe-me a divagação, pensando agora no início da nossa conversa, é a isso que associo a atividade científica, à liberdade de questionar e olhar o mundo de diversas perspectivas, de conhecer da realidade que nos cerca e, decidir se esse conhecimento, associado a outros, nos permite estender a capacidade de livre arbítrio na nossa ação consciente sobre o mundo.

Finalmente! a resposta à minha primeira pergunta!
É, como vê também não gosto de conversar de forma “reducionista”.

Brindemos então a essa sua consCIÊNCIA! E à mobilização para uma verdadeira cidadania! Você acha mesmo possível?
Acho! O primeiro passo é levantar a nossa blogbunda da cadeira e ir viver um pouco a vida. Você já reparou que existe um mundo lá fora?

Pois é…que coisa! Me desculpe, qual o seu nome mesmo?
Isso interessa?

É, tem razão…talvez não. Agora fiquei um pouco confuso.
É, está na hora…

…da vossa injeção oral, meus senhores!
Saúde!
Saúde!


Excerto da série Entrevistas… do periódico Anais do Hospício da Ciência, 2005.

Política com ciência

Reproduzo abaixo um texto do historiador português José Pacheco Pereira, no jornal Público. Um estudioso do comunismo, ex-deputado social democrata, ex-vice-presidente do Parlamento Europeu, autor do blog Abrupto (que está no top 100 da Technorati). Fala da política em Portugal, mas reparem que o seu pensamento é de relevância geral, com exceção de alguma especificidade lusitana (ex: os poucos sujeitos nomeados).

Alguma semelhança com políticos que encenam peça tragicómica, num teatro perto de si?

Público
Quinta-feira, 6 de Abril de 2006

Artigo de opinião por Pacheco Pereira, historiador

Como o “politiquês” é um código árido de comunicação entre políticos de segunda, tende a ser muito conservador e a manter fórmulas que remetem para uma concepção do país que já tem pouco que ver com a realidade. O “politiquês” é uma corruptela de um Portugal “conhecido” apenas dos artigos de jornais, de reuniões partidárias e jantares-comícios, de graçolas e bocas de conversa de café e de corredor, por gente que não lê e não estuda. A única coisa que actualiza os praticantes do “politiquês é verem o professor Marcelo todas as semanas, que lhes dá uma certa lubrificação discursiva e argumentativa, que sozinhos nunca teriam.

Contrariamente ao que pensam os próceres da direita do dr. Portas e da esquerda do dr. Louçã, a questão não é ideológica, ou pelo menos, não é essencialmente ideológica, nem sequer de “centrão” versus dicotomia esquerda/direita. O mundo puro das ideologias soçobrou quando a sociedade moldada pela Revolução Francesa e pela Revolução Industrial, que lhes tinha dado origem, se defrontou com pequenos problemas como a revolução da informação, a bomba termonuclear, o terrorismo apocalíptico, a crise do Estado-providência, a mediatização do espaço público, a “cultura de massas”, o consumismo, etc. Hoje, ideologias globais, que ofereçam interpretações globais e coerentes para todos os problemas, leituras sistémicas baseadas em tradições do passado (como é a esquerda e a direita), não servem a não ser para os órfãos identitários, uma forma típica de conservadorismo.

O problema é para já regressar a formas de piecemeal reformism, no sentido popperiano, de uma política mais modesta, mais experimental, menos de engenharia social e mais de pequenas intervenções numa realidade que tem outras leis e outras regras que é suposto conhecer a fundo. Ora uma condição fundamental para fazer este tipo de políticas é estudar, discutir, confrontar e produzir orientações, linhas de acção que se avaliem pela prática e não pela obsessão pela abstracção. E, durante ou depois, medir essas políticas com os interesses, as ideias, as “partes” que dividem numa democracia as pessoas.

Os partidos portugueses dão pouca importância ao estudo da realidade, e à formulação de orientações conhecidas, escritas, programáticas, porque isso contraria o tacticismo pragmático. Os partidos precisam de fazer uma considerável reconversão de recursos internos, abandonando ou reduzindo as tarefas partidárias de aparelho antigas, sobrevivências do tempo em que os partidos faziam o seu próprio marketing, publicidade, previsões eleitorais, etc., para outro tipo de organização mais voltada para a criação de think tanks, produção de documentos de orientação, todo um esforço de estudo, análise e produção de política que a complexidade dos problemas exige.

Os partidos precisam de virar uma parte importante da sua actividade interna das funções burocráticas, elas próprias tão cheias de funcionários recrutados por protecções e amiguismo, para um novo tipo de voluntariado político, a quem o partido deve dar meios, gastando aí recursos que hoje esbanja mantendo um número de funcionários excessivo, empregues em tarefas quase fictícias.

Não estou a dizer que os partidos devam ser dirigidos por académicos e professores, na sequência de uma tendência nefasta que já existe no sistema político e comunicacional de achar que as opiniões académicas de “peritos”, de “sábios”, estão à margem e acima da política.

Precisamos é de políticas que incorporem a maior quantidade de saber possível, que sejam produzidas por cidadãos que usem os seus conhecimentos a favor de uma ideia de “bem público”, que conheçam melhor o seu país, estudem os problemas e sejam capazes de ouvir e de pensar sem ser com o “politiquês” pavloviano que se usa hoje em Portugal.

Up the mainstream till no stream…

Interessante o aparecimento de agências de notícias de blogs, que servem para alimentar a imprensa mainstream (ver notícia que reproduzo abaixo). Prova de força da blogosfera? Ou mais um exemplo de como movimentos de contra-cultura acabam sendo co-optados para o mainstream? Este processo é interessante e pode ser visto como uma interação caos/cosmos em que elementos de caos vão sendo integrados ao cosmos (mainstream). Será que virar produto de mainstream significa perder liberdade, ser domado? Ou será que todo o movimento de contra-cultura deseja secretamente fazer parte do mainstream? Em relação aos blogs, os dados só agora estão sendo lançados e teremos de aguardar.

No texto jornalístico diz-se “Os jornalistas tradicionais tendem a ver a escrita de autor dos blogues como uma ameaça à imparcialidade, e o conceito de liberdade que impulsionou a grande difusão de blogues poderá ter dificuldade em adaptar-se a restrições editoriais”.

Concordo, e apostaria que muitos blogueiros se iniciaram na blogosfera justamente pela perda de paciência com as parcialidades editoriais da imprensa mainstream e a falta de qualidade de seus textos. É um problema de parcialidades, de ângulos de luz que iluminam objetos.

Por mim, e por ora, prefiro ficar contemplando esse mainstream desde upstream ou mesmo desde no stream at all. Ou estarei a cair no mesmo auto-engano da contra-cultura? Talvez o melhor mesmo, seja fazer parte do mainstream downstream, perto da foz desse rio informacional, no mar, que é vasto e pode dar-me a ilusão de liberdade. Sempre, o mar!

Up the mainstream till no stream,
down the mainstream till all streams, the sea!

PÚBLICO, 11.04.2006
Catarina Homem Marques

BlogBurst: criada agência de blogues para fornecer conteúdos para jornais

Um blogue “é um registro publicado na Internet relativo a algum assunto organizado cronologicamente”. É assim que a Wikipédia introduz o termo. Mas mesmo a simples definição que aparece na enciclopédia online se vai desdobrando para descobrir mais à frente uma realidade mais complexa: “Alguns sites têm inovado e usado o blogue como um tipo de media no qual jornalistas colocam notícias e comentários da sua área.” O responsável por esta entrada da Wilkipédia não terá tido de recorrer a capacidades paranormais para antever a importância crescente desta comunidade virtual na cobertura noticiosa. Se não bastassem as bem sucedidas experiências de interactividade entre os sites de conhecidos jornais de todo o mundo e a blogosfera, surge esta semana o BlogBurst, um novo serviço de agência que se compromete a gerir as relações entre cerca de 600 blogues e os media “mainstream”. O serviço vai funcionar assim: os blogues inscrevem-se na agência e sujeitam-se a uma avaliação prévia que vai definir quais têm qualidade para pertencer ao serviço; depois, a lista dos domínios aprovados vai ser fornecida aos jornais, que só têm de escolher aqueles que querem utilizar e por que período de tempo; por fim, o conteúdo dos blogues escolhidos vai aparecer no site do jornal, adaptado ao grafismo e exigências da publicação em questão. O conceito é inovador e vai funcionar assente numa lógica de complementaridade. Os sites dos jornais conseguem uma cobertura mais alargada, junto de um público jovem e especialmente interessado na Internet, e os bloguistas vão beneficiar de uma maior exposição mediática e de maior prestígio. Além disso, os jornais encontram uma forma de cobrir assuntos para os quais podem não ter uma equipa destacada, como temas relacionados com moda, viagens ou gastronomia. “Existem grandes bloguistas e muitas vezes abordam assuntos em que o site do jornal pode não ser tão especializado”, disse Jim Brady, o editor executivo do washingtonpost.com, uma das publicações que já estabeleceu parceria com o BlogBurst.” A fronteira entre os media mainstream e o resto do mundo começa a esbater-se, não porque as pessoas começam a aderir aos media, mas pelo efeito contrário: os media mainstream estão a chegar até às pessoas”, disse Jeff Jarvis, crítico de media, à Reuters, apesar de duvidar do sucesso de uma agência de blogues.A relação entre as duas partes parece estar cada vez mais consolidada, mas nem por isso deixam de ficar no ar algumas dúvidas quanto ao pacifismo desta proximidade. Os jornalistas tradicionais tendem a ver a escrita de autor dos blogues como uma ameaça à imparcialidade, e o conceito de liberdade que impulsionou a grande difusão de blogues poderá ter dificuldade em adaptar-se a restrições editoriais. Ou, então, o futuro passa mesmo pela reunião das duas tendências.

Next stop Iran?

Seria total ausência de CONsCIÊNCIA, os EUA não só atacarem o Irão mas fazerem-no com armas nucleares! Weapons of Mass Destruction, lembram-se!

Deixo abaixo um breve trecho de uma reportagem da revista americana New Yorker, que está a assustar o Mundo. Leiam toda a reportagem aqui.

Last month, in a paper given at a conference on Middle East security in Berlin, Colonel Sam Gardiner, a military analyst who taught at the National War College before retiring from the Air Force, in 1987, provided an estimate of what would be needed to destroy Iran’s nuclear program. Working from satellite photographs of the known facilities, Gardiner estimated that at least four hundred targets would have to be hit. He added:

I don’t think a U.S. military planner would want to stop there. Iran probably has two chemical-production plants. We would hit those. We would want to hit the medium-range ballistic missiles that have just recently been moved closer to Iraq. There are fourteen airfields with sheltered aircraft. . . . We’d want to get rid of that threat. We would want to hit the assets that could be used to threaten Gulf shipping. That means targeting the cruise-missile sites and the Iranian diesel submarines. . . . Some of the facilities may be too difficult to target even with penetrating weapons. The U.S. will have to use Special Operations units.

One of the military’s initial option plans, as presented to the White House by the Pentagon this winter, calls for the use of a bunker-buster tactical nuclear weapon, such as the B61-11, against underground nuclear sites. One target is Iran’s main centrifuge plant, at Natanz, nearly two hundred miles south of Tehran. Natanz, which is no longer under I.A.E.A. safeguards, reportedly has underground floor space to hold fifty thousand centrifuges, and laboratories and workspaces buried approximately seventy-five feet beneath the surface.

A propaganda contra o Irão vem aumentando regularmente. Semelhante à propaganda das WMD que conduziu à invasão do Iraque em 2002. Eu estava nos EUA, assisti a como se construía na cabeça dos americanos a falácia da inevitabilidade da invasão do Iraque. Então, poucos meios de imprensa escaparam à propaganda, ninguém conseguia negar as provas apresentadas. Pessoalmente, tenho de confessar que aceitei a invasão do Iraque, apesar de suspeitar das verdadeiras motivações dos EUA de George W. Bush.

Agora, qualquer capital de confiança que o governo dos EUA pudesse ainda ter em 2002, associado a um eventual direito de retaliação após o 11 de Setembro, está esgotado! Passou o prazo de validade da administração Bush , a confiança dos americanos no seu governo é a mais baixa da legislatura (na ordem dos 30%). Depois de 6 anos (para mim, o prazo de validade média de um governo democrático!), penso que seria altura para novas eleições nos EUA. As razões para um impeachment são hoje bem maiores do que no caso anedótico do Clinton.

Suzana, qual é a reação a esta reportagem da New Yorker, aí em NY? Ecos da NYr em NY?

Uma reflexão que terá de se fazer, algum dia, é sobre como o resto do mundo é também responsável pela máquina de guerra dos EUA, financiando as grandes dívidas económicas, interna e externa, da única superpotência mundial. A pergunta é a seguinte: seria possível ou desejável deixar cair o império em declínio? Voltarei a este assunto no futuro, com ciência.

Que o povo americano saiba proteger a sua democracia!

Fragmentos desordenados para um manifesto político

Inauguro hoje uma seção Manifesto no nosso blog. O que é e por que a necessidade de um Manifesto? Bom, primeiro, porque presunção e água benta cada um toma a que quer!

Mais seriamente, por que sou um indivíduo altamente politizado, mas sem partido. O que fazer então, quando um cidadão conclui que todos à sua volta e ele próprio parecem clamar por uma outra POLÍTICA, mas que todos se encontram paralizados, num estado de dormência consentida. TODOS parecemos conhecer as razões do mal-estar do nosso mundo, mas NINGUÉM parece ter ou querer ter a capacidade de pensar/construir um novo sistema. Complexo, muito complexo!

Leia mais aqui.

Os genes podem ser egoistas?

A Oxford University Press acaba de lançar uma colectânea de ensaios sobre a obra de Richard Dawkins, assinalando o trigésimo aniversário de O Gene Egoista.


Deixo-vos aqui um longo excerto do ensaio de Steven Pinker, professor de psicologia da Universidade de Harvard (ver o texto completo no jornal The Times, de 4 de Março de 2006). Terá a metáfora de Dawkins ido longe demais?

Pessoalmente, nunca gostei da metáfora do gene egoista i) pela valoração moral negativa que ela encerra e ii) pela importância desmesurada que atribui ao gene. E, no entanto… que me dizem da metáfora quando iluminada pela mente de Pinker?

“I sometimes wonder, though, whether caveats about the use of mentalistic vocabulary in biology are stronger than they need to be — whether there is an abstract sense in which we can literally say that genes are selfish, that they try to replicate, that they know about their past environments, and so on. Now of course we have no reason to believe that genes have conscious experience, but a dirty secret of modern science is that we have no way of explaining the fact that humans have conscious experience either (conscious experience in the sense of raw first-person subjective awareness — the distinction between conscious and unconscious processes, and the nature of self-consciousness, are entirely tractable scientific topics). No one has really explained why it feels like something to be a hunk of neural tissue processing information in certain complex patterns. So even in the case of humans, our use of mentalistic terms does not depend on a commitment on how to explain the subjective aspects of the relevant states, but only on their functional role within a chain of computations.

Taking this to its logical conclusion, it seems to me that if information-processing gives us a good explanation for the states of knowing and wanting that are embodied in the hunk of matter called a human brain, there is no principled reason to avoid attributing states of knowing and wanting to other hunks of matter. To be specific, nothing prevents us from seeking a generic characterisation of “knowing” (in terms of the storage of usable information) that would embrace both the way in which people know things (in their case, in the patterns of synaptic connectivity in brain tissue) and the ways in which the genes know things (presumably in the sequence of bases in their DNA). Similarly, we could frame an abstract characterisation of “trying” in terms of negative feedback loops, that is, a causal nexus consisting of repeated or continuous operations, a mechanism that is sensitive to the effects of those operations on some state of the environment, and an adjustment process that alters the operation on the next iteration in a direction, thereby increasing the chance that that aspect of the environment will be caused to be in a given state. In the case of the human mind, the actions would be muscle movements, the effects would be detected by the senses, and the adjustments would be made by neural circuitry programming the next iteration of the movement. In the case of the evolution of genes, the actions would be extended phenotypes, the effects would be sensed as differential mortality and fecundity, and the adjustment would be made in terms of the number of descendants resulting in the next generation.

This characterisation of beliefs and desires in terms of information rather than physical incarnation may overarch not only life and mind but other intelligent systems such as machines and societies. By the same token it would embrace the various forms of intelligence implicit in the bodies of animals and plants, which we would not want to attribute either to fully human cogitation nor to the monomaniacal agenda of replication characterising the genes. When the coloration of a viceroy butterfly fools the butterfly’s predators by mimicking that of a more noxious monarch butterfly, there is a kind of intelligence being manifest. But its immediate goal is to fool the predator rather than replicate the genes, and its proximate mechanism is the overall developmental plan of the organism rather than the transcription of a single gene.

In other words the attribution of mentalistic states such as knowing and trying can be hierarchical. The genes, in order to effect their goal of making copies of themselves, can help to build an organ whose goal is to fool a predator. The human mind is another intelligent mechanism built as part of the intelligent agenda of the genes, and it is the seat of a third (and the most familiar) level of intelligence: the internal simulation of possible behaviours and their anticipated consequences that makes our intelligence more flexible and powerful than the limited forms implicit in the genes or in the bodies of plants and animals. Inside the mind, too, we find a hierarchy of sub-goals (to make a cup of coffee, put coffee grounds in the coffeemaker; to get coffee grounds, grind the beans; to get the beans, find the package; if there is no package, go to the store; and so on).

Computer scientists often visualise hierarchies of goals as a stack, in which a program designed to achieve some goal often has to accomplish a sub-goal as a means to its end, whereupon it “pushes down” to an appropriate sub-routine, and then “pops” back up when the sub-routine has accomplished the sub-goal. The sub-routine, in turn, can call a sub-routine of its own to accomplish an even smaller and more specialised sub-goal. (The stack image comes from a memory structure that keeps track of which sub-routine called which other sub-routine, and works like a spring-loaded stack of cafeteria trays.) In this image, the best laid plans of mice and men are the bottom layers of the stack, and above them is the intelligence implicit in their bodies and genes, with the topmost goal being the replication of genes that makes up the core of natural selection.

It would take a good philosopher to forge bulletproof characterisations of “intelligence”, “goal”, “want”, “try”, “know”, “selfish”, “think”, and so on, that would embrace minds, robots, living bodies, genes and other intelligent systems. (It would take an even better one to figure out how to reintroduce subjective experience into this picture when it comes to human and animal minds.) But the promise that such a characterisation is possible — that we can sensibly apply mentalistic terms to biology without shudder quotes — is one of Dawkins’s legacies. If so, we would have a deep explanation of our own minds, in which parochial activities like our own thinking and wanting would be seen as manifestations of more general and abstract phenomena.

The idea that life and mind are in some ways manifestations of a common set of principles can enrich the understanding of both. But it also mandates not confusing the two manifestations — not forgetting what it is (a gene? an entire organism? the mind of a person?) that knows something or wants something, or acts selfishly. I suspect that the biggest impediment to accepting the insights of evolutionary biology in understanding the human mind is in people’s tendency to confuse the various entities to which a given mentalistic explanation may be applied. One example is the common tendency to assume that Dawkins’s portrayal of “selfish genes” implies that organisms in general, and people in particular, are ruthlessly egoistic and
self-serving. In fact nothing in the selfish-gene view predicts that this should be so. Selfish genes are perfectly compatible with selfless organisms, since the genes’ goal of selfishly replicating themselves can be implemented via the sub-goal of building organisms that are wired to do unselfish things such as being nice to relatives, extending favors in certain circumstances, flaunting their generosity in other circum- stances, and so on. (Indeed much of The Selfish Gene consists of explanations of how the altruism of organisms is a consequence of the selfishness of genes.) Another example of this confusion is the claim that socio-biology is refuted by the many things people do that don’t help to spread their genes, such as adopting children or using contraception. In this case the confusion is between the motive of genes to replicate themselves (which does exist) and the motive of people to spread their genes (which doesn’t). Genes effect their goal of replication via the sub-goal of wiring people with goals of their own, but replication per se need not be among those sub-sub-goals: it’s sufficient for people to seek sex and to nurture their children. In the environment in which our ancestors were selected, people pursuing those goals automatically helped the relevant genes to pursue theirs (since sex tended to lead to babies), but when the environment changed (such as when we invented contraception) the causal chains that used to make sub-goals bring about superordinate goals were no longer in operation.”

“Espelhos…” (un)interrupted!

Vi Capote, o filme (Bennet Miller, 2005). Sem dúvida, o melhor filme, pela intensidade e densidade dramáticas! Repararam na descrição de Perry Smith a Truman Capote sobre como ele “decidiu” cometer o assassinato? Espelhos…? Deixo-vos o resultado do assalto à minha mente pela língua de Capote. Lentamente:

What you are,
Within,
You will not be.
Others know you are,
Less you will be,
Free,
To be,
Within.
Others know you are,
Command that will be.
Before within is without,
Just pause!

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