Por um mundo sem destruição em massa

Thumbnail image for 0912180220.JPGResolvi trazer, por sua importância, um assunto um tanto distinto do habitual deste blogue: o lado oficial da busca pelo desarmamento nuclear.

Traduzi do inglês, e copio abaixo, o discurso proferido pelo embaixador brasileiro Luiz Filipe de Macedo Soares na Comissão de Desarmamento da Organização das Nações Unidas, há duas semanas (as notas de rodapé são acréscimos dele). O diplomata é chefe da representação brasileira nessa comissão, sediada em Genebra, na Suíça, e chama atenção para a urgência de se tomar medidas para eliminar a capacidade que alguns países têm de destruir o planeta.

Segundo o embaixador, pouco se diz de concreto nas reuniões desse órgão de negociação multilateral – provavelmente pelo medo que os países poderosos impõem aos desarmados.

Sua intenção é plantar a semente de uma discussão real, tanto na política oficial como na sociedade. Lembro muito, de quando era criança, dos slogans “Hiroshima nunca mais” e “Energia nuclear, não obrigado” (este último vinha em bótons com um sol vermelho). O assunto sumiu da pauta cotidiana, enquanto países são bombardeados diariamente.

Achei, por isso, interessante e oportuno trazer um pouco da voz formal na discussão desses assuntos. A versão original, em inglês, está disponível no Brazillion thoughts.

(A foto acima é de um dos murais pintados pelo catalão José Maria Sert que decoram a Sala dos Conselhos, onde acontecem as reuniões da Comissão de Desarmamento; abaixo, uma sessão presidida pelo embaixador brasileiro e fotografada por Marie-Christine Macedo Soares)

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Senhora Presidente,

A primeira das resoluções adotadas pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, em seu 17º plenário, dia 24 de janeiro de 1946, foi sobre desarmamento. Todos sabemos, pois isso é com frequência mencionado para sublinhar a importância do assunto e o sentido de prioridade reconhecido por Estados membros desde o início da Organização. O título da Resolução (I) é o seguinte: “Estabelecimento de uma Comissão para lidar com os problemas suscitados pela descoberta da energia atômica”. A Comissão foi orientada a fazer propostas específicas, entre outros objetivos, cito: “para a eliminação dos arsenais nacionais de armas atômicas e de quaisquer demais armas adaptáveis à destruição em massa”.

O título da Comissão, aparentemente resultado de negociações cuidadosas, mostrava a dificuldade em situar no tempo e nos fatos a origem dos “problemas” com que devia lidar. A “descoberta da energia atômica” era mais neutra como marco histórico do que a produção, os testes ou o uso real da bomba.

Naquele momento, apenas um país[1] possuía bombas atômicas. Este fato explica a relutância em identificar um ponto de partida preciso para os “problemas” sem ligá-los a um único país específico.

A proliferação logo começaria e continuaria pelas seis décadas seguintes. É de qualquer maneira significativo que a existência de “problemas” e a necessidade de “eliminação” de armas atômicas fossem reconhecidas desde o início das Nações Unidas.

Desde aquele momento diversos outros países adquiriram armas nucleares, cada um deles por razões distintas, mas com o fator subjacente comum de realçar a segurança e assegurar o poder para cada um deles[2].

Em vista dessa consciência antiga do caráter inaceitável das armas nucleares, é sempre útil lembrar que o primeiro detentor e os subsequentes quatro proliferadores não são mais legítimos do que outros que seguiram o mesmo caminho mais tarde. Não há armas nucleares legítimas. Legítimas de fato são as expectativas da comunidade internacional de que esses Estados detentores de armas nucleares façam jus a seu compromisso com o desarmamento nuclear, um objetivo que concordaram em perseguir, seja na base do TNP[3] ou por meio de declarações políticas e de resoluções da ONU, das quais a mais importante é o documento final da Primeira Sessão Especial sobre Desarmamento (SSOD-I)[4]. Além disso, a Corte Internacional de Justiça deixou bem claro que há uma obrigação de prosseguir em boa fé e levar a termo negociações que levem ao desarmamento nuclear em todos os seus aspectos[5].

Passados dois terços de século, a comunidade internacional não chegou ao objetivo estabelecido pela primeira Resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas. O que podemos fazer aqui, como faço agora, é trabalhar para evitar a triste comemoração, não muito distante no tempo, do primeiro centenário na companhia de armas nucleares. A realização desse objetivo não se daria em meu tempo de vida, mas eu gostaria de poupar meus filhos e netos de presenciar tão triste comemoração.

Não podemos ignorar os esforços feitos ao longo destas últimas décadas. Os dois principais detentores estabeleceram tratados para redução de seus arsenais. Por mais importantes que sejam, eles não deixam de corresponder a exercícios de calibração bilateral mútua de poder destrutivo[6]. Reduções unilaterais também foram feitas e são sempre boas notícias. Não é, porém, muito confortável celebrar medidas, positivas que sejam, mas que preservam a algumas nações o poder de destruir o planeta.

Num formato multilateral global, a principal realização permanece o Tratado de Não Proliferação, embora seu artigo sobre desarmamento nuclear, além de não ter um mínimo de precisão quanto a tempo e outros aspectos, não foi implementado[7]. Para melhorar as perspectivas de desarmamento nuclear, uma estratégia de asfixia foi desenvolvida com vistas a evitar a recorrência de crescimento nos arsenais, até mesmo para ampliar possíveis reduções.

O Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares, ainda não em vigor[8], é o principal exemplo dessa estratégia. O próximo passo nessa mesma direção seria um tratado relativo a material físsil para armas nucleares ou outros dispositivos explosivos. De fato, há um entendimento difundido de que a conclusão de tal tratado é possível, dado que as principais potências com armas nucleares parecem dispostas a começar a sua negociação. Isso não significa que a questão do material físsil é necessariamente o assunto mais urgente na pauta do desarmamento. Para o Brasil e muitos outros Estados, garantias legalmente vinculantes contra o uso ou a ameaça de uso de armas nucleares contra Estados sem armas nucleares seria um passo mais imediatamente significativo na direção de desmontar estratégias baseadas em armas nucleares. Eu deveria acrescentar a constante reivindicação do Grupo dos 21[9] por um tratado banindo as armas nucleares como foi feito em relação a outras armas de destruição em massa.

O principal obstáculo no caminho da negociação de um tratado sobre material físsil está na determinação de sua abrangência. Ele deveria limitar-se à proibição da produção de novo material físsil ou deveria incluir cláusulas sobre material já existente antes da entrada em vigor? A pr
imeira opção simplesmente congelaria a situação atual. Lhe faltaria qualquer dinamismo em direção ao desarmamento real. Ela não acrescentaria qualquer obrigação para Estados sem armas nucleares como o Brasil, já restrito pelo Tratado de Não Proliferação[10]. Para Estados com armas nucleares, um tratado confinado à proibição da produção certamente imporia limitações com respeito ao crescimento de seus arsenais, mas não necessariamente levaria a qualquer medida de controle, para não falar em redução, e ainda menos sua eliminação.

Um tratado realmente significativo precisaria lidar não apenas com a produção, mas também incluir material físsil para armas nucleares ou outros dispositivos nucleares explosivos já existentes antes de sua entrada em vigor.

Costuma ser defendido que o mandado contido no documento CD/1299[11], de 1995, conhecido como o mandado de Shannon, não exclui uma abrangência ampla para as negociações. O documento CD/1864, de 29 de maio de 2009, continha um programa de trabalho que recebeu apoio unânime na época, que se limitou, no que se refere à questão do material físsil, à referência ao mandado de Shannon.

Como esse programa de trabalho não pode ser implementado[12], duas outras tentativas foram feitas: as propostas pela Bielorrússia no documento CD/WP.599 e pelo Brasil no documento CD/1889. Este último tentou trazer mais clareza à consideração de material físsil já existente no momento da entrada em vigor.

Já foi dito que o mandado de Shannon não necessariamente exclui a questão dos estoques. Não se pode negar, porém, que a resistência feroz por alguns Estados membros até mesmo a uma menção vaga de material físsil pré-existente poderia ser tomada como anúncio de uma recusa em tratar desse assunto nas negociações.

Um mandado não pode ser um mapa para um tratado, mas deveria dar uma ideia do tabuleiro de jogo e, nesse aspecto, um retrato tão claro quanto possível do escopo desejado pareceria necessário para que alguns Estados embarcassem na negociação. Não há dúvida de que o tratado precisaria conter definições, estabelecer um sistema de verificação e outros assuntos. Mas como a mesma certeza não é encontrada no que diz respeito ao alcance, alguma indicação deveria estar contida no mandado.

Uma questão diferente é bloquear qualquer decisão sobre a abertura das negociações com base em percepções de segurança, sobretudo quando há um apoio esmagador às negociações por parte dos Estados sem armas nucleares, principalmente se a objeção vem de Estados com armas nucleares. Isso equivale a opor qualquer negociação sobre qualquer questão de desarmamento. Um Estado membro que por vontade própria se associou à Conferência sobre Desarmamento, cujo propósito é negociar instrumentos legais para desarmamento e controle de armas, não pode invocar sua situação de segurança para impedir uma negociação julgada apropriada pela grande maioria dos Estados membros, senão por todos.

Eu gostaria de insistir nesse ponto. Cada Estado tem o dever de dar segurança a seus cidadãos. No entanto, essa segurança não pode se basear em armas de destruição em massa.

Já é tempo de entender que preocupações sobre segurança nacional não são de interesse exclusivo dos Estados com armas nucleares. Isso sugeriria que armas nucleares são um dispositivo necessário para a segurança de um Estado. De fato há Estados, além daqueles que detêm armas nucleares, que objetivamente aceitam essa posição, situando-se sob a proteção dos arsenais nucleares de outros Estados [13].

Recapitulando: as negociações de um tratado sobre material físsil para armas nucleares ou outros dispositivos nucleares explosivos deveriam começar de imediato com base em um mandado com um mínimo de clareza no que diz respeito ao alcance do instrumento em vista.

 

Senhora Presidente,

O trabalho a ser empreendido pela Conferência sobre Desarmamento para um tratado sobre material físsil é, em primeiro lugar e sobretudo, de natureza política. Ele obviamente exigirá uma grande quantidade de conhecimento técnico. Mas não podemos presumir que os problemas serão solucionados em reuniões técnicas. Nesse sentido, a negociação sobre material físsil é semelhante a muitos processos em outras áreas em que o componente técnico é essencial para dar apoio a decisões políticas. Não é uma situação incomum para diplomatas.

Assuntos que envolvem definições e verificação, entre outros, são essencialmente complexos e admitem soluções diversas. Permita-me lembrar que uma negociação diplomática política não é um experimento científico e nossas reivindicações, embora de preferência tecnicamente fundamentadas e com base em lógica sólida, derivam sobretudo dos interesses e objetivos dos Estados que representamos.

Para mostrar que um mandado para uma negociação pode ser ao mesmo tempo abrangente e flexível, o Brasil propôs no ano passado o documento CD/1888, que contém as linhas gerais de uma estrutura para o esboço de um tratado sobre material físsil. Essa iniciativa é um indício do comprometimento e da abertura do Brasil para essa Empreitada.

Se tivermos sucesso em iniciar a negociação de um instrumento de fato abrangente sobre material físsil, estaremos fazendo um progresso realmente importante e concreto em direção ao desarmamento. Não será uma mera medida para construir confiança ou uma iniciativa política. A condição essencial para isso requer que a negociação englobe a questão como um todo. Também é indispensável que todos os detentores de armas nucleares sejam incluídos na negociação. Porém, podemos admitir que o resultado não deveria ser um non plus ultra, completamente fechado a uma futura evolução.

O cenário adequado é esta Conferência sobre Desarmamento, investida de um mandado negociador. Um processo expedito paralelo não pode garantir a participação de todos os Estados necessária a um instrumento de desarmamento nuclear. Para nós não é suficiente um gesto político mostrando boa vontade por países com disposição semelhante. Não pode ser um exercício do que foi chamado multilateralismo aristocrático.

Uma negociação longa e complexa exigiria uma estrutura institucional, a assistência de um secretariado técnico e necessariamente imparcial e delegações dedicadas, entre outras necessidades. Isso não pode ser assegurado por um grupo de pessoas bem-intencionadas, e com opiniões semelhantes, à margem da Assembleia Geral ou outro órgão, a não ser que a intenção real seja um faz-de-conta vazio de conteúdo substantivo[14].
Senhora Presidente,

Como já mencionei, a senhora assume a direção deste fórum em momento especialmente relevante.

Até o final de julho, a Assembleia Geral da ONU fará uma reunião a respeito da Conferência sobre Desarmamento. Nela haverá um debate e não se pode excluir, suponho, a adoção de uma ou mais resoluções.

Desde o encontro de Alto Nível realizado em Nova York em setembro passado, temos ouvido diversas intervenções lidando com o estado da CD e seu futuro. Não é fácil extrair dessas manifestações uma tendência de opinião clara. Há alguma oscilação entre um claro apoio para continuar a fazer esforços neste fórum e para buscar um caminho institucional distinto. Naquele lado do espectro, a convocação de uma Quarta Sessão Especial da Assembleia Geral foi defendida por muitos[15]. Outros parecem preferir soluções ad hoc espontâneas e nebulosas.

Não é minha intenção entrar agora nesse debate. Porém, é importante deixar claro que nosso objetivo deve permanecer o desarmamento real e um mundo livre de armas nucleares. Isso não cairá do céu. Será alcançado por meio de tratados abrangentes negociados de forma realmente multilateral e em terreno institucional sólido.
Apenas alguns dias depois da reunião da Assembleia Geral da ONU, está previsto um encontro dos cinco Estados com armas nucleares mencionados no TNP[16]. É o caso de esperar que a Assembleia Geral mande um recado forte para esses cinco estados de forma a ajudar essa reunião a atingir resultados significativos incluindo a sua conformidade ao TNP.

Antes desses eventos iminentes, durante a presidência colombiana[17], é importante que a Conferência sobre Desarmamento discuta seus resultados possíveis e desejáveis. Essas discussões e a adoção pendente de um Programa de Trabalho deveria ocupar nossa atenção durante as próximas semanas sob o seu hábil comando.

 

Senhora Presidente,

Não precisamos aumentar a desilusão da opinião pública mundial e o distanciamento dos jovens cujo indício claro é o atual baixo interesse da sociedade civil sobre o desarmamento nuclear em comparação aos amplos movimentos em décadas anteriores ou a manifestações presentes com respeito, por exemplo, a mudanças climáticas ou regulamentos financeiros internacionais. Não podemos nos dar ao luxo de danificar a estrutura política criada para canalizar o processo político do desarmamento. Se estamos descontentes com seu desempenho, deveríamos lembrar que cabe a nós nos empenharmos para atingir resultados.

Construir é sempre mais difícil do que destruir.
Obrigado.

[1]  Os Estados Unidos da América
[2] A União Soviética em 1949, o Reino Unido em 1952, a França em 1960, a China em 1964, Israel (data desconhecida), a Índia e o Paquistão em 1998 e a República Democrática da Coreia em 2006. A África do Sul desenvolveu um programa nuclear que mais tarde foi desfeito.
[3] O Tratado de Não-Proliferação foi assinado em 1967 e entrou em vigor em 1970. Todos os Estados membros das Nações Unidas são Partes junto ao TNP exceto a República Democrática da Coreia, a Índia, Israel e o Paquistão.
[4]  Realizado em 1978, ela adotou um Documento Final que, entre outras medidas, criou a Conferência sobre Desarmamento, de composição limitada (atualmente 64 Estados) com um mandato de negociação, e a Comissão de Desarmamento das Nações Unidas – UNDC, com todos os Estados membros da ONU e um mandato deliberativo.
[5] Opinião Consultiva emitida em 1996.
[6] O mais recente acordo é aquele conhecido como START II, que entrou em vigor em 2010.
[7] O Artigo VI do Tratado é o compromisso pelas cinco potências nucleares no momento da negociação do Tratado (EUA, URSS, Reino Unido, França e China – que também são os Membros Permanentes do Conselho de Segurança da ONU) de buscar o próprio desarmamento nuclear.
[8] Assinado em 1996, ainda não está em vigor porque não foi ratificado por vários Estados de uma lista contida no Tratado, entre eles os EUA.
[9] Tradicionalmente, a Conferência sobre Desarmamento reconhece 3 grupos regionais: o grupo da Europa Ocidental e Outros, o grupo da Europa Oriental e o Grupo dos 21, que tem mais de 21 membros. A China se mantém à parte.
[10] E pelo Tratado sobre Desnuclearização da América Latina e do Caribe, de 1967, de que todos os Estados da região são partes.
[11]Documentos da CD podem ser acessados no site da Conferência www.unog.ch/disarmament
[12] O Paquistão retirou seu apoio – a CD exige consenso para tomar decisões.
[13] É o que se chama de “guarda-chuva nuclear”, acordos entre os EUA e os
demais membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), e
outor países, como Japão, Coréia do  Sul e Austrália, que lhes garante
serem defendidos com armas nucleares em caso de serem atacados com armas
nucleares. Esses acordos vêm da Guerra Fria, mas seguem vigentes.
[14]Vários Estados atualmente advogam conduzir negociações fora da CD.
[15] A maior parte dos Estados considera que, para rever as decisões da Primeira Sessão Especial de 1978, seria necessário convocar uma nova. Alguns Estados, como os EUA, se opõem.
[16] Os cinco membros permanents do Conselho de Segurança devem se encontrar em Paris em 30 de julho.
[17] A presidência da CD é rotativa entre seus membros, a cada mês. Depois da Colômbia, será a vez da República Democrática da Coreia e de Cuba, os dois últimos da Sessão de 2011.

A onda do aborto

De repente só se fala de aborto. Abortamento, explicou o Karl. Tem outra ótima análise no Brontossauros, e o Osame também entrou no assunto aqui e aqui.

Eu andei muito mal-humorada com o tema. Não por considerá-lo irrelevante, mas por ser completamente inoportuno: numa eleição presidencial, serve apenas como embate moral. E como manobra de distração. A opinião de um presidente não tem o menor efeito sobre essa legislação. Infelizmente, as pessoas não parecem tão preocupadas com isso quando se trata de eleger deputados e senadores – que, esses sim, apitam sobre o assunto.

Mas me rendo, não por ter algo novo a dizer. Porque garimpando nos arquivos deste blogue achei dois textos que são pecinhas do debate. Um da Suzana Couto, autora do ciência e ideias que teve de se retirar por questões profissionais. Por isso está apenas na nossa casa antiga, um motivo a mais para trazê-lo para cá. E outro meu sobre aborto seletivo na Índia.

Reler os textos me deu vontade de aproveitar que o tema está em pauta para recolher mais opiniões.

Céticos versus crentes

Como fazer para que pessoas com crenças não fundamentadas ouçam argumentos científicos e, quem sabe, pensem melhor? Foi esse tema, “discutindo com não-céticos”, que ontem reuniu James Randi (guru de pelo menos uma parte dos céticos de carteirinha), George Hrab, D. J. Grothe e Steve Mirsky (apresentador genial do podcast da Scientific American gringa), com moderação de Julia Galef, na conferência sobre ciência e ceticismo em Nova York. A conversa está disponível, em inglês, aqui e aqui.

É um belo bate-papo, que me fez pensar bastante. Sobretudo sobre o papel dos blogues de ciência. Meu intuito aqui neste blogue é contar coisas interessantes e cientificamente plausíveis. Ou, pelo menos, quando me deixo engambelar por algo não fundamentado, lançar a discussão para que me corrijam e a informação fique mais correta.

Nunca me ocorreu iluminar as pessoas, mudar suas crenças. E por isso mesmo, pensei agora, corro o risco de fazê-lo sem querer. Então vou começar a prestar atenção nisso. Um erro comum em discussões, disseram os céticos, é ter como objetivo fazer com que as pessoas mudem de ideia. O mais produtivo, na verdade, é fazer pensar. E se isso, hoje ou daqui a alguns anos, fizer com que a pessoa mude de ideia, o cético põe uma conversão no currículo. Outro erro é deixar de discutir porque se a pessoa acredita aquilo, só pode ser idiota. Talvez não seja, disseram.

Convém aqui me identificar: já disseram que sou muito questionadora, mas não me considero cética. Ouvindo a discussão, me dei conta das contradições embutidas nisso. Eles disseram que algo interessante numa discussão é perguntar ao não-cético o que o faria parar de acreditar no que quer que esteja em pauta. Mas para isso, alguém falou, é importante que o cético também tenha essa resposta pronta. O que seria necessário para que eu deixe de acreditar que há 1 bilhão de anos não tinha uma pessoa bem parecida comigo andando por aí? Para que deixe de acreditar que não posso corrigir os erros desta vida numa próxima? Para que eu deixe de acreditar que acupuntura não funciona contra uma infecção bacteriana? Por aí vai. O cético pra valer tem que duvidar até das próprias certezas.

É raro. Na verdade, minha impressão é que os associados ao clube dos céticos costumam ser cheios de certezas. E essas certezas excluem as alheias, aquelas incorretas. Não sei se existe alguma entidade superior, não sei se tem um espírito olhando por cima do meu ombro enquanto escrevo, não sei se homeopatia funciona em alguns casos. Por isso teria minha carteirinha negada. Vivo conforme o que acredito: não rezo, não tomo homeopatia.

Escrevo como uma semente de reflexão: quero pensar mais nisso, e enriquecer com opiniões contrastantes, dissonantes, complementares ou até inconciliáveis que passem por aqui. E quero buscar, cada vez mais, trazer perspectivas diversas e interessantes sobre o mundo. Fundamentadas, porque essa é minha crença, por critérios científicos rigorosos. Até onde meu discernimento alcança.

Brasil e a COP-15: afinal, qual é a estratégia?

A economia brasileira é pouco competitiva relativamente às de outros
países emergentes num cenário de transição para uma economia de baixa
emissão de carbono, de acordo com um relatório divulgado no mês passado
(14/9) pelas organizações não governamentais E3G e The Climate
Institute. O relatório, centrado apenas nos países do G20, entra no rol
de documentos que alimentarão a 15a Conferência das Partes sobre
Mudanças Climáticas (COP-15), a realizar em Dezembro em Copenhague. No
Brasil, a competitividade é também a preocupação de grupos de empresas
que assumem um padrão de desenvolvimento futuro baseado em economias de
baixo carbono. Enquanto isso, o Plano de Mudanças Climáticas do Brasil
é enfraquecido pela ausência de relatórios detalhados de emissões de
gases com efeito de estufa.

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Limites do crescimento

O debate sobre o desenvolvimento sustentável tem sido polarizado por duas culturas que não falam a mesma língua: uma usa “evidências” científicas provindas de modelos complexos; outra argumentos simplificadores carregados de vieses de ordem moral e social. A guerra será eterna se o combate não for travado numa arena comum: a da política.

A economia é uma ciência de sistemas dinâmicos complexos. Lida com modelos matemáticos que têm dificuldade de descrever o todo mas conseguem lidar com as suas muitas partes. Como por exemplo a medicina, a história e a biologia evolutiva, ciências que também abordam sistemas complexos aceitando a incerteza estatística. De forma provocativa, afirmo que a economia é a rainha das ciências pois na natureza tudo pode ser descrito como um sistema de trocas e de balanços em permanente evolução, sujeito a processos de regulação: desde uma simples reação química em uma rede metabólica até à biosfera. É nesse contexto que o problema do desenvolvimento sustentável é um problema económico de dinâmica de sistemas complexos, e é aí que interessa colocar a discussão sobre os limites do crescimento. Foi aí certamente que ele foi colocado há um pouco mais de 30 anos, por um grupo de cientistas do Massachusetts Institute of Technology. No entanto, os ecos do debate ficaram perdidos durante anos, afogados pelo paradigma social dominante, amortecidos pelos anos de crescimento da economia mundial. O debate volta agora com novas roupagens, as do aquecimento global, mas os princípios não se alteraram, nada se alterou e muito pouco se fez para mudar algo. É fácil concluir que o cerne do debate não está na ciência mas nos pressupostos sociais e morais que precedem qualquer ação baseada em evidências. E aí, parecem existir claramente duas culturas que se opõem e se dispõem a lutar ad eternum. É um problema vasto e complexo demais para ser coberto pelo texto que escrevi com o Felipe Souza. Mas aqui vai.

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Marina a caminho

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Atualização: veja aqui coletiva de imprensa da Marina Silva no dia 30 de agosto, e aqui a cerimônia de filiação. O discurso dela vale a pena, mas o vídeo não me deixa avançar.

 

Dediquei parte do domingo à convenção do Partido Verde, coisa a que nunca me tinha passado pela cabeça fazer. Acompanhei a transmissão ao vivo pela tv do pv por acreditar que algo importante aconteceria por ocasião da filiação de Marina Silva. E acho que aconteceu: abriu-se um caminho para que o partido se reestruture em torno de ideias e ideais. E de pessoas dedicadas a elas e a eles.

O discurso de Marina mostrou que ela está pronta para pensar um novo projeto para o Brasil. Ali estão respostas para muitas das críticas que tenho ouvido à possível candidatura da ex-ministra do meio ambiente à presidência. Sua postura é mais do que conciliadora: ela acha que um projeto bem sucedido e um governo democrático necessariamente precisam incluir opiniões diferentes. Ela deixa muito claro que ter a sustentabilidade como eixo é a melhor maneira de se buscar o desenvolvimento econômico e social.

É uma pena, mas aposto como as pessoas que dizem que é bobagem pensar em ambiente quando tem gente passando fome não viram a Marina falar. Talvez aprendessem que hoje, mais do que nunca, esses problemas são indissociáveis. Eu acompanhei o acontecimento porque queria me informar melhor – se penso votar nela, preciso conhecer a fundo suas propostas. Fico triste em pensar que aqueles que dizem que não votam na Marina de jeito nenhum, sem mais argumentos, provavelmente desmereceram a oportunidade de abrir a mente.

Pretendo pôr aqui os vídeos do discurso e da coletiva de imprensa, assim que os encontre. Se você passou por aqui antes disso, volte para ver!

Há também quem argumente que Marina não é confiável por ser criacionista. A entrevista no éoqhá me foi mandada como prova disso. Mas vê-la teve, para mim, o efeito oposto. Ao contrário de mim ela crê em Deus, e para ela é natural acreditar que Ele fez a Terra e os seres que a povoam. Mas não propõe o criacionismo como verdade científica e muito menos sugere que deveria ser ensinado nas escolas no lugar da evolução. A entrevista é, para mim, uma bela mostra de mente capaz de tolerância e pluralismo. E de amor por este planeta, de que estamos bem precisados entre as lideranças políticas.

Marina, candidata à presidência

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Antes de confirmada, muito já se discute sobre a candidatura de Marina Silva à presidência.

O Marcelo Leite acha, para resumir, que ela não é nenhum Obama. “O projeto de que o país precisa, diante do xeque-mate planetário armado pelo aquecimento global, terá de delimitar e negociar a contribuição de alguns setores que a neorreligião verde nasceu para demonizar: petróleo, hidrelétricas, energia nuclear, biotecnologia, agronegócio… A candidata Marina Silva não está pronta para isso”, escreveu. Concordo, não há muitos Obamas por aí. Só sei de um. Mas não acho produtiva essa postura de argumentar no vácuo da idealização. Estamos neste país, nesta situação, as pessoas de que dispomos são estas. Quem está preparado para esse projeto? Até onde vi, Marina é quem mais se aproxima.

Há quem diga que ela não pode ser candidata por um suposto criacionismo. Que ela nega em entrevista à Folha de S.Paulo ontem. Diz que tem fé, mas que não considera a criação divina uma explicação científica de como o mundo surgiu. Se trata de escolher presidente, não de contratar um professor de ciências. Crenças religiosas nunca importaram no Brasil, a não ser pelo oposto: um ateu declarado enfrentaria bastante resistência da população crente.

Não sei se Marina Silva seria boa presidente. Ela teria, claro, que fazer alianças. Afinal, só o Partido Verde não sustenta o país (caso se concretize a filiação dada como certa). Sonho que as faria de maneira judiciosa – sem se vender ao PFL/DEM, como o governo anterior, ou ao PMDB, como o atual. Em termos de espírito conciliatório, acho que ela é mais hábil do que José Serra ou Dilma Rousseff, que parecem mais turrões. Puro palpite, admito.

Votei no Lula em todas as eleições em que foi candidato à presidência. Se pudesse voltar atrás, faria tudo igualzinho. Votaria igual, usaria os mesmos broches, desfraldaria a mesma bandeira, choraria de raiva e medo em 1989/1990 e de emoção nas vitórias de Lula. Me entristeço profundamente ao ver o governo preso a alianças que todos que o apoiam sempre repudiaram; preso a uma máquina política e econômica que deixa ideologias em último plano. Mas tudo isso faz parte do amadurecimento desta democracia tão jovem. O país melhorou nos últimos anos – sobretudo a vida de quem mais precisava de ajuda. É muito, e até agora para mim bastou.

Agora quero ver os Suplicys e Mercadantes dizerem e fazerem aquilo que eu esperava quando votei neles. Quero saber para onde vamos com este país. Quero cidades mais saudáveis e bem cuidadas – onde não se respire gases e partículas tóxicas, onde se possa caminhar, ir trabalhar e passear de metrô ou bicicleta, que encha os olhos de beleza. Não é cosmético: cidades assim tornam sua população mais saudável e cidadã. Estou cansada de ouvir proclamarem a dicotomia ambiente versus desenvolvimento. Os governantes brasileiros ainda não se deram conta de que, nestes tempos de revolução da natureza, as duas coisas andam de mãos dadas.

 
É hora de contar o tempo para a reunião de dezembro em Copenhague, onde serão discutidas estratégias para fazer frente ao estrago que fizemos a este planeta. Na rádio CBN, André Trigueiro avisou que está sendo lançada, pensando nessa contagem regressiva, a Campanha Global de Ações pelo Clima. Dessas medidas depende a persistência da Terra como planeta habitável pela maior parte dos organismos que agora vivem. Não exagero. Já começou, mas quando os cortes de emissões e de desperdícios virarem regra, levará vantagem quem já tiver investido em desenvolver estratégias.
 
As tecnologias existem e precisam ser melhoradas. Nada que não seja possível se visto como prioridade. O governo brasileiro parece segurar-se à riquezas petrolíferas como boia de salvação da pobreza, única chance de alçar o Brasil ao clube dos grandes. Não precisamos ser donos do petróleo: o melhor lugar para os combustíveis fósseis é debaixo da terra. Por que o governo não investe em dominar os ventos, as marés, o sol – fontes de energia que não nos faltam?
 
Entre governantes, só vejo Obama ter isso claro. Marina Silva também entendeu. “Os grandes atores da economia finalmente percebem que o meio ambiente é parte do business e que não se pode ignorá-lo, sob pena de todos perderem./As mudanças climáticas já chegaram ao mundo real do mercado, que certamente não perdeu a sua lógica, pautada pela realização do lucro. Está apenas reconhecendo, claramente, uma ruptura em curso na história. E, pragmática e inteligentemente, se adapta a ela. A uma velocidade maior do que a do sistema político, que ainda patina na sua cultura pesada, inviável, insustentável”, escreve hoje em sua coluna semanal na Folha de S.Paulo.

Por isso espero ter a oportunidade de votar em Marina Silva. Nos próximos meses, aposto como colecionarei mais motivos.

P.S. O dragão lá de cima, todo de material reciclado, encontrei numa estação de trem em Paris. Será meu símbolo da batalha que temos que enfrentar.

 

Pandemia, pandemônio

“Temos dois casos suspeitos de gripe suína”, anuncia aflita a médica de plantão no Pronto Socorro da pediatria. A seguir, o relato de uma enfermeira em tempos de pandemia.

 

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O menino Darwin

O escritório onde Darwin trabalhava tinha equipamentos modestos se comparados à parafernália de um laboratório atual. Microscópios de cobre, lupas, tubos de ensaio, livros. Mas a ferramenta mais importante não aparece na foto: a curiosidade.

Entre aulas e leituras, tenho a impressão de ter convivido longamente com Charles Darwin, e de quase conhecê-lo. Claro, o meu Darwin é com certeza diferente do das outras pessoas. É dele que falo aqui. Do menino de 10 anos que contava flores no jardim, como conto aqui, do jovem que se deslumbrou na viagem à América do Sul e do homem que se manteve maravilhado pela vida afora.

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Tecnologia versus ciência

As ferramentas de que cientistas hoje dispõem chegam a parecer ficção científica. Na semana passada estive no congresso de genética, em Salvador, e me maravilhei com lindas imagens de embriões em que as células nas quais determinado gene estava em ação emitiam um brilho verde. Ou de outras cores. E muito mais que evoca as maravilhas que a tecnologia faz pela ciência.

Estava preparada para isso, mas não para algo que para mim se tornou o grande tema involuntário do congresso: a tecnologia atrapalha a ciência.

A revelação veio logo na sessão de abertura, nas palavras do homenageado Fábio de Melo Sene (discordo do Carlos. Achei o discurso inspirador e me comovi com a reunião familiar que o congresso promoveu num momento que costuma ser formal e pomposo). Pesquisador da USP de Ribeirão Preto, Sene dedicou sua vida a estudar a evolução de drosófilas. As pobres moscas são tão conhecidas em laboratórios e fruteiras que muita gente nem se dá conta de que existem inúmeras espécies de drosófilas na natureza, sujeitas à seleção natural e tudo. Nos seus estudos, como entender a evolução exige, Sene reuniu ecologia, geomorfologia, zoologia, biogeografia, etc.

Formou pesquisadores, ajudou a desenvolver o campo da evolução na biologia brasileira. Até que, nas palavras dele, a genética de populações entrou em crise “devido ao caos dos marcadores moleculares que inviabilizaram o enfoque em populações”. Ou seja, segundo ele as pessoas passaram a seqüenciar DNA loucamente e deixaram de pensar. Passaram a limitar-se a revisões da classificação dos seres vivos e submergiram numa confusão conceitual, sem saber a diferença entre padrões e processos evolutivos. Ele lamentou que ainda agora o ensino de evolução nos cursos de biologia é muito deficiente.

No dia seguinte entrevistei o Philip Hanawalt, norte-americano da universidade Stanford que teve e tem um papel central nos estudos sobre reparo de DNA. Qual não foi a minha surpresa quando ele contou que já lhe aconteceu de ser procurado por aluno que queria simplesmente clonar um gene – sem saber por que nem ter um questionamento científico. Ele me disse que muitas das descobertas mais importantes saíram de uma boa idéia e um experimento simples, com pouca tecnologia. E é isso que ensina aos alunos: formule a pergunta que quer responder e pense na maneira mais simples de ir atrás da resposta.

Ao longo dos três dias de congresso ouvi a mesma queixa várias vezes, de pessoas diversas, de maneira independente. A tecnologia ajuda, não há dúvida. Mas há que saber usá-la, quando usá-la e por quê. A máquina mais espantosa já feita ainda está dentro do crânio de quem escreve e de quem lê blogues.

Peguei o pensador do Rodin aqui.

Este texto é parte da discussão de setembro no roda de ciência.
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