Limites do crescimento

O debate sobre o desenvolvimento sustentável tem sido polarizado por duas culturas que não falam a mesma língua: uma usa “evidências” científicas provindas de modelos complexos; outra argumentos simplificadores carregados de vieses de ordem moral e social. A guerra será eterna se o combate não for travado numa arena comum: a da política.

A economia é uma ciência de sistemas dinâmicos complexos. Lida com modelos matemáticos que têm dificuldade de descrever o todo mas conseguem lidar com as suas muitas partes. Como por exemplo a medicina, a história e a biologia evolutiva, ciências que também abordam sistemas complexos aceitando a incerteza estatística. De forma provocativa, afirmo que a economia é a rainha das ciências pois na natureza tudo pode ser descrito como um sistema de trocas e de balanços em permanente evolução, sujeito a processos de regulação: desde uma simples reação química em uma rede metabólica até à biosfera. É nesse contexto que o problema do desenvolvimento sustentável é um problema económico de dinâmica de sistemas complexos, e é aí que interessa colocar a discussão sobre os limites do crescimento. Foi aí certamente que ele foi colocado há um pouco mais de 30 anos, por um grupo de cientistas do Massachusetts Institute of Technology. No entanto, os ecos do debate ficaram perdidos durante anos, afogados pelo paradigma social dominante, amortecidos pelos anos de crescimento da economia mundial. O debate volta agora com novas roupagens, as do aquecimento global, mas os princípios não se alteraram, nada se alterou e muito pouco se fez para mudar algo. É fácil concluir que o cerne do debate não está na ciência mas nos pressupostos sociais e morais que precedem qualquer ação baseada em evidências. E aí, parecem existir claramente duas culturas que se opõem e se dispõem a lutar ad eternum. É um problema vasto e complexo demais para ser coberto pelo texto que escrevi com o Felipe Souza. Mas aqui vai.

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Ode a Damásio e o conceito de DEUS


O corpo e a mente na origem da consciência coletiva de…DEUS

Noto a seguinte citação do filósofo francês do séc. XVII Mallebranche, no livro do neurocientista português António Damásio “Feeling of what happens: body and emotion in the making of consciousness” (Harcourt Brace, 1999), publicado no Brasil com o título “O mistério da Consciência: do corpo e das emoções ao conhecimento de si” (Companhia das Letras, 2000):

É através da luz e de uma ideia clara que a mente vê a essência das coisas, números, e extensões. É através de uma ideia vaga ou através do sentimento que a mente julga a existência de criaturas e que conhece a sua própria existência.

Lendo e ouvindo o conhecimento da ciência nascente de Damásio, refinando empiricamente o pensamento de filósofos como Aristóteles, Demócrito e Descartes, entre outros, tomo consciência mais profunda do que era uma verdade intuitiva. Não existe separação entre corpo e mente, entre corpo e a alma das emoções e dos sentimentos. Um é produto do outro e vice-versa, num processo de conhecimento integrado do indivíduo, e de homeóstase do seu meio interior, e deste feito indivíduo para conhecer o meio exterior.

Milhões de enervações energizadas levam constantemente informações de todo o corpo a centros de processamento que aferem o estado do corpo. Esse estado do corpo é reproduzido sob a forma de uma consciência básica do indivíduo, a consciência de si próprio. São alterações neste estado que provocam estados de EMOÇÃO, reações básicas e inatas, que têm papel fundamental na sobrevivência do indivíduo. Estas EMOÇÕES podem parecer conscientes ou inconscientes para o indivíduo, ser processadas, memorizadas e usadas a qualquer momento, sob a forma de SENTIMENTO, existindo este já independentemente do estímulo original. Exemplo: quando sofremos uma queimadura, produz-se uma EMOÇÃO que nos leva a reagir instintivamente; essa EMOÇÃO será armazenada sob uma forma de consciência estendida, o SENTIMENTO, que poderá ser ativado sempre que pensarmos em queimadura. Esse SENTIMENTO poderá futuramente ser ativado de forma voluntária ou involuntária. Damásio mostra-nos como essas consciência básica e estendida são o fundamento de uma estrutura de consciência superior, que compreende a razão, inteligência e criatividade. Que sendo fundamental à consciencia de si, essa EMOÇÃO e SENTIMENTO estão sempre presentes nas manifestações da consciência superior.

Mallebranche, como outros antes e depois dele, parecia já intuir que embora o ser humano tome consciência superior do mundo através de sistemas de armazenamento e organização de informação e do seu processamento criativo e racional, a consciência, a razão e a criatividade são co-adjuvadas e guiadas pela emoção, como forma primeira de percepção, e pelo sentimento como forma mais avançada de processamento, mimético ou criativo, da memória das emoções. Onde isto me leva? A estabelecer uma analogia que me conduz ao conceito de DEUS, e à conclusão da sua existência.


O conceito de DEUS

DEUS existe? Estendendo livremente o pensamento de Mallebranche e a ciência de Damásio, DEUS existe como produto daquela visão mais esfumada da realidade, do seu processamento e transformação criativa. Como a ciência procura ser o produto mais representativo da consciência superior, razão e criatividade, DEUS e o seu sub-produto civilizacional, a religião, resultam da produção de um sentimento criativo de DEUS, talvez processamento da emoção com funções homeostáticas que Damásio tão bem descreve, transportadas para um contexto coletivo de construção civilizacional. Qual a sua origem? Por complexo que seja desvendar a história, algumas pistas podem ser buscadas no processo de construção de coletivos humanos gradualmente mais alargados. Deixo Damásio e procuro agora inspiração em Jared Diamond (de “Germs, guns and Steel” – Norton & Co. 1999; no Brasil, “Armas, germes e aço” – Record 2001).

Diamond apresenta-nos a ideia de como a religião organizada (diferente da espiritualidade típica de indivíduos ou de pequenos grupos, que precede a religião) acompanhou o crescimento e estruturação das sociedades humanas, desde o bando, tribo, ‘régulados’ até às grandes civilizações-estado. O título do capítulo onde o tema é abordado é interessante e revelador: “From egalitarianism to kleptocracy”. A hipótese discutida é a de que o poder secular de reis e o divino dos sacerdotes foram no início formas de transferência de poder do indivíduo, integrado em pequenos grupos aparentados (bando, tribo), para entidades representativas do interesse coletivo (?) para resolução de disputas em grupos grandes de indivíduos largamente não-aparentados e desconhecidos (‘régulados’ e estados). E isto porque no início da nossa existência como espécie, não éramos socialmente muito diferentes de chimpanzés, vivendo em pequenos grupos cujos indivíduos não hesitavam em matar qualquer indivíduo estranho ao grupo. Diamond discute evidências (baseadas em populações da Nova Guiné) de que, no início da formação de sociedades mais abrangentes, seria comum encontrar indivíduos desconhecidos tentando encontrar laços de parentesco entre si, mesmo que afastados. Poderiam demorar horas, até decidirem se deviam matar-se ou não! Conseguem imaginar? Bárbaro, mas delicioso! Bom, resumindo, existe uma tendência apoiada por fatos históricos de que quanto maior a organização política e religiosa de uma sociedade, levando a uma maior identificação do indivíduo com o coletivo, maior o sucesso dessas sociedades ao longo da história da humanidade. Daí se poder pôr a hipótese de as tendências à religião ou outras formas de poder organizado terem resultado de um processo seletivo. Faz sentido embora, como qualquer outro fato histórico, seja difícil de provar de forma completamente científica.

Onde entraria Damásio nesta história? A ciência e religião como corpos de conhecimento humano têm necessariamente uma génese comum, mas talvez com objetivos distintos, num contexto evolutivo. São transposições para uma esfera coletiva de algo que já se manifesta no indivíduo. O conceito de DEUS seria análogo
à emoção, que desempenha um papel homeostático, que nem sequer precisa ser notado conscientemente pelo indivíduo. A religião representaria então a transposição do SENTIMENTO de DEUS, advindo da EMOÇÃO, para a esfera coletiva de organização associada à ordem social. Para isso teria sido necessário inscrever o conceito de DEUS na cultura, representando-o na linguagem simbólica, dando-lhe forma, doutrina, corpo e espírito. Nesse sentido, DEUS e a religião tornaram-se omnipresentes na maior parte das civilizações humanas, de forma que até quem rejeita o conceito e as suas manifestações reais não se liberta da sua influência. A cultura como forma de memorização coletiva, um cérebro que complementa o indivíduo, e o enforma, de forma a que ele se crie sob a memória da história das civilizações. É desta forma eficiente que nos podemos transformar e evoluir mais rápido que qualquer outra forma de vida no planeta. Mesmo que as bactérias, se tivermos em conta a evolução cultural.

DEUS existe como o AMOR e o MEDO, as ESPÉCIES e sua origem pela EVOLUÇÃO ou a RELATIVIDADE. Isto é, como conceito, como forma de compreender e produzir o mundo em que vivemos. Tal como a emoção e o sentimento são essenciais para e evolução da inteligência superior, evoluida apenas nos humanos, DEUS e a religião têm acompanhado a ciência na evolução construída das civilizações humanas. Podemos argumentar sobre as diversas origens materiais deste conceitos, mas seria ilusório apoiar a imaterialidade de apenas alguns deles. Como Damásio nos ensina, não há como fugir da materialidade na produção de CONSCIÊNCIA.

DEUS existe para além da nossa consciência coletiva histórica? Não sei, como o Freud do texto do Rogério Silva, não penso nisso. Decidi que a minha consciência, seja básica, estendida ou superior, não pode debruçar-se seriamente sobre o assunto. No entanto, tenho aprendido a respeitar, e até admirar, aquelas consciências iluminadas (no sentido de Mallebranche) que o conseguem. Desde que todos tenhamos plena consciência de que a humanidade ultrapassou, em alguns lugares mais que noutros, um certo ponto da sua ainda jovem história. Assim, devemos aceitar e aprofundar a pluralidade de formas de consciência humana, entender os seus mecanismos e contextos de funcionamento, compreender que embora indissociáveis na construção da natureza humana, não devem ser confundidas. Penso que esta visão leva ao pluralismo de Isaiah Berlin, mantendo a clareza tantos dos conceitos como do entendimento da sua função.

As religiões têm capacidade de evoluir, acompanhando a ciência na sua busca de falsificação/corroboração da matéria. Isso tem-se verificado em alguns casos, como a aceitação da teoria da Evolução por parte da Igreja de Roma. Esse processo é lento porque existe uma inércia inata na evolução dos paradigmas, que também é comum à ciência. A religião deveria voltar às suas origens, buscando aquilo que ainda não pode ser abordado pela ciência da matéria, e aí procurar e satisfazer a necessidade do conceito de DEUS.


Apophenia


Vejo luz. Um caminho com atalhos e desvios que desemboca num outro que ladeia um vale apertado, onde se acoita um rio estrondoso. À luz da lua plena, noto pequenas criaturas deslizando pelas bermas dos caminhos em direção às margens húmidas dos riachos e do rio. Umas de um lado, outras do outro, daquele rio, assim separadas, se juntam aquelas e aqueloutras em orgias nupciais, apartadas. O tempo passa, as paisagens ligeiramente alteradas, pelos climas mudantes, às vezes aquelas se juntam àqueloutras em um grande bacanal. Enevoada, a visão daquele espectáculo assombroso de caudas entrelaçadas em extase não me deixa perceber exatamente por onde atravessam umas e outras, nem onde se encontram. Apenas vejo que o rio corre mais estrondosamente sobre aquele vale, às vezes. Vejo a luz, mas não consigo ver nitidamente o passado, entender a sucessão dos tempos na vida daquelas criaturas de assombração.

A luz esvai-se. Estou num quarto escuro, talvez da próxima vez dure mais tempo e consiga ver algo mais. Não desisto… A minha pesquisa encontra-se num momento chave, um monte de indícios permitem-me pintar um cenário provável, mas uma questão ainda me incomoda. Temo que dependa daquelas visões de sonho para encontrar uma solução. Sei que as emoções resultantes são uma forma de concentrar e expelir tensão acumulada, reforçando a minha paixão e perseverança no tema. Metafísica, uma certa religiosidade incidindo na forma como um dia (e até hoje!) transmitirei a minha percepção daquele mundo, real e imaginário, ao meu semelhante. Isso não transparecerá nunca nos artigos científicos que publiquei desde então. O equilíbrio, sanidade e discernimento mantêm-se intatos…


As vozes ecoam no auditório. Gospel, cânticos em Brooklyn, Nova Iorque. Algo de simples mas revelador se passa ali. Não sei a que propósito, penso que a Ciência como corpo de percepção e organização de conhecimento não é capaz de produzir aquele tipo de significados, de sentido, de reunião e pacificação das almas. Histórias religiosas são ali partilhadas, mas isso não me incomoda como nalgumas celebrações católicas me incomodara desde a infância.
“Yeah baby, Alleluiah!” Toco na sua mão, entrelaçando-a na minha. É negra, enrugada pela idade, bela e reconfortante, produz um efeito em mim como só a beleza africana é capaz. Ecos da marimbada de negros indivíduos em êxtase que presenciei aos três anos de idade. Existem ali mãos de todas as cores que se entrelaçam, mas aquela foi, por uns instantes, só minha!


Os batuques de Adnan e Stuart, ressoam na noite de Berkeley, California.
Não há nenhum negro ali, exceto eu. Sem necessitar de aditivos químicos, entro em transe, imitando o que ficou gravado no corpo-mente dos meus três anos de idade. As endorfinas produzidas pelos limites físicos da exaustão fazem ver que posso ser ou sentir qualquer coisa, sempre que quiser. É só voltar às minhas origens africanas.


O sol estende o seu ardor sobre montanhas de pedregulhos fumegantes. O Lada do nosso guia e motorista Sacha desloca-se com seus pneus gastos, ao longo da estrada deserta e da canícula. No final da nossa expedição, ainda uma viagem agora aos desertos daquele país estranho e empobrecido pelos filhos de Estaline, mas ainda muito, muito belo. Os monges não nos querem deixar entrar no mosteiro cravado na rocha, daquelas terras desérticas do sul da Geórgia, próximo da fronteira com o Azerbaijão. Entramos depois de alguma insistência dos nossos amigos, e de alguns laris para ajudar a vida simples e austera do mosteiro…. Esculpidos na rocha, mal se notando que o são, os aposentos para os hóspedes em retiro religioso, alguns em isolamento total, remetem-nos para outros tempos pouco representados no meu imaginário. Penso nos primórdios da busca por um sentido para o mundo e para vida, a génese da busca pelo conceito de Deus e, em última análise, do poder da ciência. Estes homens representam-se apenas a eles próprios, com ou sem religião, voluntários numa viagem de busca de si próprios e da natureza humana. Que filosóficas visões resultarão de tão prazerosa jornada, penosa aos olhos do homem comum. Artes de criação, como terão sido um dia as diversas criações humanas de DEUS. Percebo pela primeira vez que, também eu, sou um religioso sem religião.


V. afirmou que acredita em duendes… “V.!!!” – retorqui-lhe eu – “Olha que assim não chegas ao mestrado, pelo menos sob a minha orientação!”. Rimos todos! Por mais firme que seja, e serei[!], com a necessidade de rigor, clareza e concisão, na produção de conhecimento científico, espero que a V. continue a acreditar em duendes ou em qualquer outra entidade que, embora não tão nítida, lhe proporcione uma vida inspirada e um pouco mais iluminada. Sinceramente!


O neurocientista António Damásio mudou-se recentemente da universidade do estado de Iowa para a Califórnia para dirigir o Instituto do Cérebro e da Criatividade da University of Southern Califórnia. Se quiserem podem ouvir uma das suas últimas conferências (Princeton University, 16/10/2006) aqui.


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Fragmentos desordenados para um manifesto político

Inauguro hoje uma seção Manifesto no nosso blog. O que é e por que a necessidade de um Manifesto? Bom, primeiro, porque presunção e água benta cada um toma a que quer!

Mais seriamente, por que sou um indivíduo altamente politizado, mas sem partido. O que fazer então, quando um cidadão conclui que todos à sua volta e ele próprio parecem clamar por uma outra POLÍTICA, mas que todos se encontram paralizados, num estado de dormência consentida. TODOS parecemos conhecer as razões do mal-estar do nosso mundo, mas NINGUÉM parece ter ou querer ter a capacidade de pensar/construir um novo sistema. Complexo, muito complexo!

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Conhecimento de si no espaço/tempo

Reflectindo sobre genes no espaço e no tempo e após curto-circuito cerebral… aí vai então o produto não polido da massa cinzenta esfumaçante.

O conhecimento assenta na relação espaço/tempo. Ele emana da apreensão da diferença que se desenvolve naquele domínio. A diferença é definida como classificação ao longo de escalas observacionais, que podem ser combinadas para definir objectos.

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Determinismos…

A discussão sobre determinismo, genético ou outro, é falaciosa.

É verdade que tanto cientistas como “homens das letras”, jornalistas e “homens de poder” contribuiram muito para a sedimentação daquela discussão, típica do meio académico, na opinião pública. As repercussões da aceitação de um determinismo genético foram devastadoras na primeira metade do séc. XX, com as leis eugenistas nos EUA ou o holocausto nazi. O debate seguiu extremado, a sua ideologização reflectida também no discurso da ciência. Um exemplo foi a crítica da Sociobiologia, de E. O. Wilson, por cientistas radicais marxistas como S. J. Gould. O debate explícito sobre determinismo genético tem vindo a ressurgir ultimamente devido aos receios do impacto da biotecnologia ligada à genómica no conhecimento da vida e do ser humano, e nos usos que daí poderão advir no melhoramento genético humano. Neste contexto, são fontes recentes interessantes alguns textos jornalísticos do último número da revista ComCiência ou uma discussão recente no blog do jornalista científico Marcelo Leite (Pílulas anti-deterministas do Dr. Leite – X). Alguns textos (ex: Do Holocausto nazi à nova eugenia do séc. XXI, de Andrea Guerra) parecem imbuídos de grande parcialidade, originada quiçá em posições morais ou ideológicas, levando à difusão (manipuladora?) de mensagens codificadas, sejam as das metáforas dos cientistas, sejam as traduções sintéticas daquelas metáforas por parte dos jornalistas.

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