Pantanal

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urutau.jpgZonas alagadas cheias de Tuiuiús e margens repletas de jacarés. Florestas e campos povoados de cambarás, bacuris, piúvas em flor, macacos, cutias, veados-campeiros. O urutau que se finge de galho seco dormindo esticado no meio da copa da árvore. Passei o feriado de 7 de setembro no Pantanal, que não conhecia. Lindo, mesmo bem seco como está. O que mais me chamou a atenção, porém, é que tudo isso não passaria de paisagem (e não é pouca paisagem), não fosse os pantaneiros que me contaram histórias e mostraram um pouco de seu mundo. Miguel, Márcio, Wellington e Júnior, obrigada.

piuval.jpgEstive na pousada Piuval (que recomendo, e não ganhei desconto para escrever este texto). É a primeira pousada da rodovia Transpantaneira, tanto em termos geográficos como cronológicos. E até essa história vale a pena. Antes da Transpantaneira, uma estrada feita nos anos 1970, os fazendeiros de terras lá para o fundo do Pantanal tinham que migrar antes da cheia – com gado e vaqueiros – para suas fazendas secundárias perto de Poconé. A fazenda Ipiranga – que hoje é pousada Piuval – foi fundada há cerca de 150 anos pela mesma família que hoje ainda é dona ali. Era a última fazenda da zona alagada, o ponto final das canoas na época da cheia. Era por isso pouso importante dos viajantes, sobretudo das mulheres, que ficavam para trás deixando as casas em ordem e iam de canoa (impulsionada por uma vara de bambu) com crianças, empregadas, galinhas e porcos. A fazenda Ipiranga não só dava pouso como também providenciava carros-de-boi para levar a mudança até o destino. O caderno de contabilidade ainda guarda o registro desses viajantes e está na base do livro que o dono da pousada está agora elaborando. Ou seja, a fazenda Ipiranga já era pousada antes que houvesse turismo por ali.

Fica a 10 quilômetros de Poconé, por sua vez uns 100 quilômetros de Cuiabá. Poconé já foi a aldeia indígena Beripoconé, e foi fundada como cidade lusa em 1777, em parte para defender a região de invasões hispânicas pelos rios. Hoje mantém a tradição nas cavalhadas, que acontecem em junho durante a festa de São Benedito. O torneio opõe 12 cavaleiros mouros e 12 cristãos, que disputam a rainha moura. Em sete provas que exigem destreza no manejo do cavalo e da espada, os cavaleiros competem por um dia e levantam torcidas entusiasmadas. Os postos de cavaleiros são transmitidos dentro da família, de pai para filho ou tio para sobrinho, mas mesmo assim o conselho pode retirar o título de quem não se comporta de acordo com a ética cavaleira. O Júnior, um dos filhos que hoje tocam a pousada Piuval, é cavaleiro e foi ele que me contou tudo isso até aqui.

araçari.jpgNa pousada, passeamos a pé, a cavalo, de barco e de caminhão, vimos paisagens magníficas e nos encantamos com bichos e plantas. Perdemos por pouco a florada das piúvas, como contei aqui. Por um pouco mais não vimos a florada dos cambarás (Vochysia divergens), que um mês antes de passarmos por lá estavam vestidos de amarelo. São árvores egoístas que conseguem estar muito verdinhas mesmo depois de meses de seca. E na época das cheias conseguem viver com água até o nível da copa. Diz que quando se chega embaixo dela ela parece chorar água, agora na seca. Deve ser porque tem as folhas muito lisinhas, onde o orvalho não fica preso.

Nas matas, em zonas mais altas (quase um metro acima dos lagos), muitas vezes têm bacurizais. Diz a lenda que a tribo por ali estava passando fome, tinha muita planta mas não tinha caça. O cacique fez um ritual, conversou com os deuses, sacrificou a filha (uma bacuri, ou criança) e a enterrou. Voltou algumas semanas depois e ali estava um coqueirinho que dá cachos de frutos apreciados por muitos animais. A partir daí, bastava ir ao bacurizal para encontrar cutias, pacas, macacos, aves diversas.

bacuri.jpgAs figueiras mata-pau são especializadas nos bacuris, que servem como um xaxim. elas começam a brotar mais ou menos no meio do tronco do coqueiro e aos poucos o abraçam, trançam tentáculos em torno até que o bacuri morre e sobra a figueira, já enraizada no chão e de pé no próprio tronco.

Passeando na mata, vimos macacos-prego no alto de um chico-magro (Guazuma tomentosa). Eles esfregam as frutinhas entre as mãos antes de comer. Tinha também novateiros (Triplaris americana), árvores com tufos alaranjados que parecem plumas e habitadas por formigas marrons alongadas que saem por fendas nos galhos e saltam em cima do desavisado que encoste nelas. Coitados dos novatos em comitivas de conduzir gado, “instruídos” a pendurar suas redes naquelas árvores!

As araras-azuis-grandes passam voando aos pares e pousaram no louro, coberto de flores esbranquiçadas que as araras comem. Várias delas. Um par tinha feito ninho num manduvi. Onde também estava o ninho (vazio na hora) de uns tuiuiús. Os gravetos do ninho são grudados entre si e na árvore com uma cola branca. Fezes, suponho.

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São lindos, os tuiuiús (Jabiru mycteria). Bico chega a 80 centímetros, os bichos chegam a 1,40 de altura. As pernas são da altura das minhas, acho. O macho anda mais empertigado, vigiando os bípedes ameaçadores que andam de chapéu, máquina fotográfica, caderninho, binóculo. A fêmea, cautelosa, vai mais abaixada.

A trilha sonora principal da mata é de videogame – são os chorõezinhos (Campylorhinchus turdinus), uns passarinhos marrons rajados que têm uma voz incrivelmente forte pro tamanho que têm. Gostam de ficar por baixo dos ninhos de tuiuiús, é mais seguro. Tem também as pombas

Nos campos, nas áreas ainda alagadas, tem garças, marias-faceiras (que arrepiam a crista num penteado sensacional, minhas novas aves favoritas), cafezinhos. Também anhumas, as guardiãs do Pantanal. Quando vem alguém, uma grita “vem lá” e a outra responde “veeem”.

Vimos cutias, mas paca e tatu não. Muito buraco de tatu. Diz que a coruja pantaneira serve de despertador. No final da tarde elas começam a voar em torno das tocas e gritar. O tatu, que não tem outra maneira de saber se é noite ou dia, sai pra comer. E não vira comida da coruja.

jacare.jpgPescamos piranhas. Quer dizer, eu não peguei nenhuma. Mas aprendi que ela tem uma imagem de Nossa Senhora Aparecida no céu da goela, por dentro da pele. É um ossinho que só se vê quando se limpa para cozinhar. Vem daí a força desse peixe cheio de dentes que parecem lâminas.

O gado e o cavalo pantaneiro são raças específicas de lá. Um cavalo de outra raça não aguenta a seca nem a água. Os cascos apodrecem. E que delícia cavalgar por ali, andar devagar no meio da mata, correr pelos campos.

Tanta coisa, tanta história que não cabe aqui. Fica só um gostinho.

 

As fotos são todas do João.

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