A era da empatia

empatia.jpgAcaba de sair pela Companhia das Letras o livro A era da empatia, de Frans de Waal. Especialista em sociedades de primatas, nesse livro o autor inclui seres humanos em suas análises, como já fez em Eu, primata. Usando um enfoque evolutivo, ele mostra como entender as sociedades e as reações de outros animais é uma ferramenta importante para examinar as sociedades humanas – e pensar em como torná-las melhores. A era da empatia é, como outros escritos do autor, uma prosa que flui facilmente e consegue apresentar conceitos sempre de maneira acessível para leigos e enriquecedora para iniciados. Ele demonstra com detalhes como a empatia faz parte dos instintos humanos mais básicos.

“A biologia costuma ser invocada para justificar uma sociedade fincada em princípios egoístas, mas nunca deveríamos esquecer que ela também produziu a cola que mantém as comunidades unidas”, diz o autor logo no prefácio. Começando e terminando o livro com referências atuais como a crise econômica que começou em 2008 e desastres como o furacão Katrina que destruiu parte de Nova Orleans, Frans de Waal atrai e transporta o leitor.

É comum uma pessoa emocionar-se quando ouve uma história triste e, sem querer, sentir algo do que lhe é descrito. O ser humano é altamente social e por isso, como outras espécies em que o grupo é essencial à sobrevivência, tem a empatia, a moralidade e a justiça como valores arraigados em sua biologia. É isso, mais do que a agressividade, que caracteriza a natureza humana. “Quando vejo um exército marchando, não necessariamente vejo agressividade em ação. Vejo o instinto de rebanho: milhares de homens no mesmo passo, dispostos a obedecer a superiores”, diz Waal.

O primatólogo chama atenção para um dos usos errados que se faz do conhecimento científico: o que ficou conhecido como darwinismo social. A idéia de que a competição pela sobrevivência é o que rege a evolução social humana passou a ser central para justificar a sociedade capitalista. Para Waal, porém, é um erro grave construir nossa sociedade fechando os olhos para as características biológicas de nossa espécie. “Se a biologia deve informar governos e a sociedade”, alerta, “o mínimo que podemos fazer é olhar o quadro inteiro, abandonar a versão de papelão que é o darwinismo social e olhar para o que a evolução de fato armou. Que tipo de animal somos?”. E conclui: “Ideologias vão e vêm, mas a natureza humana veio para ficar.”

Sensações e reações — como risadas, bocejos, medo e até mesmo dor — são contagiosas, e não só entre pessoas. Frans de Waal apresenta exemplos em primatas e mesmo roedores, demonstrando a importância dessas conexões sociais. Será o mesmo mecanismo que permitiu ao gato Oscar, que chegou às notícias em 2007, aparentemente pressentir a morte em pacientes de uma clínica geriátrica norte-americana e passar os últimos momentos enroscado ao lado dos que se despediam da vida? O mistério permanece, assim como ainda não se sabe explicar o contágio de emoções mesmo entre integrantes de uma espécie. O fato é que inúmeros exemplos e estudos mostram que não só acontece, como está na base do impulso que animais têm de acudir um semelhante (ou nem tanto, em casos como o de Oscar) que precisa de ajuda.

As consequências de romper o equilíbrio natural que rege as relações sociais são aumentadas justamente pelo papel central que a identificação com o outro tem na sociedade. Para o autor, a desigualdade social reduz a confiança mútua e abre espaço para violência e ansiedade, com efeitos sérios não só para a sociedade, mas também para a saúde de seus integrantes.

Com a longa argumentação que passeia entre várias espécies, Waal defende que a empatia — que envolve regiões do cérebro que existem há mais de 100 milhões de anos — faz parte de nosso legado evolutivo e não pode ser desconsiderada. Para ele, em vez de exacerbar a separação entre grupos por sentimentos nacionalistas, por exemplo, as sociedades humanas só têm a ganhar unindo-se.

O começo do livro dá por vezes a sensação de que os exemplos são mais abundantes do que seria necessário para passar a ideia. Talvez sejam, mas são sobretudo marcantes e cumprem a função de levar o leitor a reconhecer-se nos estudos que examinam a empatia. E a só largar o livro depois de inteiramente lido.

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Antártica ou Antártida?

Na piauí_44, de maio deste ano, veio a seguinte carta de leitor:

Em “Ave, nigérrima ave” (piauí_43, abril 2010), o erro ficou por demais evidente – saiu já no subtítulo: lemos que “o pinguim preto que apareceu na Antártida é…” Não é. Não é Antártida. É Antártica. Primeiro temos o Ártico e depois temos o seu oposto, o Antártico. Só isso, e basta. O que passar disso é pura invenção e besteira, talvez baseada em Atlântida… algo assim.

LUIS CARLOS HERINGER_MANHUMIRIM/MG

Ao que a redação responde:

Os funcionários da Divisão do Mar, da Antártida e do Espaço, que ocupam a sala 736 do 7º andar do Anexo I do Ministérios das Relações Exteriores, em Brasília, ficaram preocupados com sua carta. E se eles também não existirem?

Uma vez a dúvida surgiu na redação da revista Pesquisa e tive que telefonar ao meu pai para perguntar por que se diz Antártida e não Antártica (que eu defendia mas não sabia justificar).

Antártida, me explicou ele, é o nome do continente. Substantivo. Antártica ou antártico, que de fato significa o contrário do ártico, é adjetivo: continente antártico, base antártica etc. Não existe o Ártido justamente porque não há um continente. Não há um objeto para ser substantivo. O Ártico é uma região, um pólo, um mar congelado.

selo antártida.jpgSe for, como sustenta o Luis Carlos Heringer, pura invenção, é uma invenção oficial. É o nome que consta nos tratados assinados pelo Brasil. Meu pai sabe disso não porque, como todo pai, é herói e sabe tudo. Nem é só porque esteve entre os três primeiros brasileiros a pisar no tal substantivo solo antártico em missão oficial, quando participou da primeira expedição brasileira à Antártida em 1982/1983 (eu, com 9 anos, passei as férias de verão colecionando recortes de jornal, mas já não sei onde foi parar a pasta organizada com tanto esmero).

Ele também sabe da terminologia porque foi um dos principais responsáveis pela redação desses tratados. Foi quem propôs, em 1985, a criação da tal Divisão do Mar, da Antártida e do Espaço, que chefiou até 1987. E participou do início do Programa Antártico Brasileiro (Proantar), fundado em 1982. Proantar que, curiosamente, defende em seu site que “Antártida” e “Antártica” são igualmente corretos – e prefere usar a segunda versão.

Extraterrestres por todo lado

micropatos.JPG
1966, Walt Disney Productions

Na reportagem de capa da revista Pesquisa deste mês, conversei com alguns estudiosos do espaço sobre possibilidades de vida fora da Terra. O assunto é absolutamente fascinante, sobretudo quando se conversa com pessoas que acham bem provável que a vida esteja disseminada pelo Universo.

Mas não se trata de homens verdes nem monstros gosmentos. Nem micropatos, como na história do tio Patinhas que o Douglas Galante me mandou. Mais provavelmente seriam microrganismos. Quem diz ser possível é a bactéria Deinococcus radiodurans, que sobrevive a níveis inacreditáveis de radiação e, se as condições experimentais revelam algo, talvez faça viagens interplanetárias agarrada a grãos de poeira.

Quando estava escrevendo, ouvi num episódio do dispersando o Fábio Almeida comentar sobre um conto que parecia caber como uma luva na história que eu queria contar. Enchi o saco de meio mundo e achei. Ou melhor, o John Wieczorek, amigo de Berkeley, recrutou a ajuda de mais um amigo e me mandou o resumo de “Pictures don’t lie”, publicado por Katherine MacLean em 1951. E que também deu origem, em 1962, a um episódio para a série de televisão “Out of this world”, apresentada pelo ator Boris Karloff.

Conto aqui rapidamente. Quem não quiser saber a história, pode pular este parágrafo. Os tais extraterrestres interceptam o sinal da televisão e aparecem pedindo permissão para visitar. Vendo pessoas parecidas conosco e falando uma língua compreensível (inglês, claro), o representante do governo obviamente aceita. Combinam tudo direitinho, vão se comunicando ao longo do caminho. Mas quando a nave pousa, não encontra o comitê de recepção. Nem os terráqueos veem os visitantes, que acusam os anfitriões de lançá-los numa armadilha, um pântano cheio de monstros que começam a devorar a nave. Pois os monstros, descobre-se no fim, eram protozoários.

O Igor achou uma sensacional versão radiofônica, que vale muito a pena para quem tem os ouvidos treinados pro inglês (ou quer treiná-los). Para um pouco da ciência que alimenta a ficção, não esqueça minha matéria!

A onda do aborto

De repente só se fala de aborto. Abortamento, explicou o Karl. Tem outra ótima análise no Brontossauros, e o Osame também entrou no assunto aqui e aqui.

Eu andei muito mal-humorada com o tema. Não por considerá-lo irrelevante, mas por ser completamente inoportuno: numa eleição presidencial, serve apenas como embate moral. E como manobra de distração. A opinião de um presidente não tem o menor efeito sobre essa legislação. Infelizmente, as pessoas não parecem tão preocupadas com isso quando se trata de eleger deputados e senadores – que, esses sim, apitam sobre o assunto.

Mas me rendo, não por ter algo novo a dizer. Porque garimpando nos arquivos deste blogue achei dois textos que são pecinhas do debate. Um da Suzana Couto, autora do ciência e ideias que teve de se retirar por questões profissionais. Por isso está apenas na nossa casa antiga, um motivo a mais para trazê-lo para cá. E outro meu sobre aborto seletivo na Índia.

Reler os textos me deu vontade de aproveitar que o tema está em pauta para recolher mais opiniões.

Cavernas, um mundo a se explorar

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Já passeou pelas cavernas do Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira, o Petar, perto da fronteira entre São Paulo e Paraná? É sensacional, já fui há anos demais.

São várias, algumas com rios e cachoeiras lá dentro, imensos salões cheios dos rendilhados das formações típicas, os espeleotemas – estalagmites, estalactites, flores minerais. Lindo, grandioso.

Pois agora ficou melhor ainda: o Bordado mostrou o novo projeto do centro de visitantes, ficou lindo. A ideia não é só orientar os turistas, mas também mostrar mais sobre toda a natureza local – bichos e plantas da mata por ali, além da fauna e da geologia das cavernas.

A linda foto é do Fernando Stankuns, peguei no flickr.

Eu sou Marina

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As eleições se aproximam. Hesito em misturar política aqui, mas é também um blogue de ideias. E a política depende de ciência, e a ciência de política. De todo jeito, já falei sobre o assunto aqui e aqui.

Chegada (quase) a hora, reafirmo e confirmo: acredito que a Marina Silva é a melhor candidata à presidência nestas eleições. Porque tem ideias mais frescas, além de alinhadas com o que quero para o país: educação, igualdade, respeito, integração entre desenvolvimento e sustentabilidade. Além de defender alianças por ideias, não por partidos ou rabos presos. Pode ser utopia, mas sem ninguém a tivesse provavelmente não tivéssemos democracia no Brasil. E um partido democrático que se preze não se aferra ao poder custe o que custar.

Não sou petista arrependida. Votei no Lula em todas as eleições em que ele disputou a presidência, e faria igualzinho outra vez. Mas agora é vez de mudar um pouco. Não para opor, mas para completar. Continuar o caminho com novas ideias, com energia. Para completar a equação descrita hoje no jornal português Público: passar de país endinheirado para país desenvolvido.

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Pantanal

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urutau.jpgZonas alagadas cheias de Tuiuiús e margens repletas de jacarés. Florestas e campos povoados de cambarás, bacuris, piúvas em flor, macacos, cutias, veados-campeiros. O urutau que se finge de galho seco dormindo esticado no meio da copa da árvore. Passei o feriado de 7 de setembro no Pantanal, que não conhecia. Lindo, mesmo bem seco como está. O que mais me chamou a atenção, porém, é que tudo isso não passaria de paisagem (e não é pouca paisagem), não fosse os pantaneiros que me contaram histórias e mostraram um pouco de seu mundo. Miguel, Márcio, Wellington e Júnior, obrigada.

piuval.jpgEstive na pousada Piuval (que recomendo, e não ganhei desconto para escrever este texto). É a primeira pousada da rodovia Transpantaneira, tanto em termos geográficos como cronológicos. E até essa história vale a pena. Antes da Transpantaneira, uma estrada feita nos anos 1970, os fazendeiros de terras lá para o fundo do Pantanal tinham que migrar antes da cheia – com gado e vaqueiros – para suas fazendas secundárias perto de Poconé. A fazenda Ipiranga – que hoje é pousada Piuval – foi fundada há cerca de 150 anos pela mesma família que hoje ainda é dona ali. Era a última fazenda da zona alagada, o ponto final das canoas na época da cheia. Era por isso pouso importante dos viajantes, sobretudo das mulheres, que ficavam para trás deixando as casas em ordem e iam de canoa (impulsionada por uma vara de bambu) com crianças, empregadas, galinhas e porcos. A fazenda Ipiranga não só dava pouso como também providenciava carros-de-boi para levar a mudança até o destino. O caderno de contabilidade ainda guarda o registro desses viajantes e está na base do livro que o dono da pousada está agora elaborando. Ou seja, a fazenda Ipiranga já era pousada antes que houvesse turismo por ali.

Fica a 10 quilômetros de Poconé, por sua vez uns 100 quilômetros de Cuiabá. Poconé já foi a aldeia indígena Beripoconé, e foi fundada como cidade lusa em 1777, em parte para defender a região de invasões hispânicas pelos rios. Hoje mantém a tradição nas cavalhadas, que acontecem em junho durante a festa de São Benedito. O torneio opõe 12 cavaleiros mouros e 12 cristãos, que disputam a rainha moura. Em sete provas que exigem destreza no manejo do cavalo e da espada, os cavaleiros competem por um dia e levantam torcidas entusiasmadas. Os postos de cavaleiros são transmitidos dentro da família, de pai para filho ou tio para sobrinho, mas mesmo assim o conselho pode retirar o título de quem não se comporta de acordo com a ética cavaleira. O Júnior, um dos filhos que hoje tocam a pousada Piuval, é cavaleiro e foi ele que me contou tudo isso até aqui.

araçari.jpgNa pousada, passeamos a pé, a cavalo, de barco e de caminhão, vimos paisagens magníficas e nos encantamos com bichos e plantas. Perdemos por pouco a florada das piúvas, como contei aqui. Por um pouco mais não vimos a florada dos cambarás (Vochysia divergens), que um mês antes de passarmos por lá estavam vestidos de amarelo. São árvores egoístas que conseguem estar muito verdinhas mesmo depois de meses de seca. E na época das cheias conseguem viver com água até o nível da copa. Diz que quando se chega embaixo dela ela parece chorar água, agora na seca. Deve ser porque tem as folhas muito lisinhas, onde o orvalho não fica preso.

Nas matas, em zonas mais altas (quase um metro acima dos lagos), muitas vezes têm bacurizais. Diz a lenda que a tribo por ali estava passando fome, tinha muita planta mas não tinha caça. O cacique fez um ritual, conversou com os deuses, sacrificou a filha (uma bacuri, ou criança) e a enterrou. Voltou algumas semanas depois e ali estava um coqueirinho que dá cachos de frutos apreciados por muitos animais. A partir daí, bastava ir ao bacurizal para encontrar cutias, pacas, macacos, aves diversas.

bacuri.jpgAs figueiras mata-pau são especializadas nos bacuris, que servem como um xaxim. elas começam a brotar mais ou menos no meio do tronco do coqueiro e aos poucos o abraçam, trançam tentáculos em torno até que o bacuri morre e sobra a figueira, já enraizada no chão e de pé no próprio tronco.

Passeando na mata, vimos macacos-prego no alto de um chico-magro (Guazuma tomentosa). Eles esfregam as frutinhas entre as mãos antes de comer. Tinha também novateiros (Triplaris americana), árvores com tufos alaranjados que parecem plumas e habitadas por formigas marrons alongadas que saem por fendas nos galhos e saltam em cima do desavisado que encoste nelas. Coitados dos novatos em comitivas de conduzir gado, “instruídos” a pendurar suas redes naquelas árvores!

As araras-azuis-grandes passam voando aos pares e pousaram no louro, coberto de flores esbranquiçadas que as araras comem. Várias delas. Um par tinha feito ninho num manduvi. Onde também estava o ninho (vazio na hora) de uns tuiuiús. Os gravetos do ninho são grudados entre si e na árvore com uma cola branca. Fezes, suponho.

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São lindos, os tuiuiús (Jabiru mycteria). Bico chega a 80 centímetros, os bichos chegam a 1,40 de altura. As pernas são da altura das minhas, acho. O macho anda mais empertigado, vigiando os bípedes ameaçadores que andam de chapéu, máquina fotográfica, caderninho, binóculo. A fêmea, cautelosa, vai mais abaixada.

A trilha sonora principal da mata é de videogame – são os chorõezinhos (Campylorhinchus turdinus), uns passarinhos marrons rajados que têm uma voz incrivelmente forte pro tamanho que têm. Gostam de ficar por baixo dos ninhos de tuiuiús, é mais seguro. Tem também as pombas

Nos campos, nas áreas ainda alagadas, tem garças, marias-faceiras (que arrepiam a crista num penteado sensacional, minhas novas aves favoritas), cafezinhos. Também anhumas, as guardiãs do Pantanal. Quando vem alguém, uma grita “vem lá” e a outra responde “veeem”.

Vimos cutias, mas paca e tatu não. Muito buraco de tatu. Diz que a coruja pantaneira serve de despertador. No final da tarde elas começam a voar em torno das tocas e gritar. O tatu, que não tem outra maneira de saber se é noite ou dia, sai pra comer. E não vira comida da coruja.

jacare.jpgPescamos piranhas. Quer dizer, eu não peguei nenhuma. Mas aprendi que ela tem uma imagem de Nossa Senhora Aparecida no céu da goela, por dentro da pele. É um ossinho que só se vê quando se limpa para cozinhar. Vem daí a força desse peixe cheio de dentes que parecem lâminas.

O gado e o cavalo pantaneiro são raças específicas de lá. Um cavalo de outra raça não aguenta a seca nem a água. Os cascos apodrecem. E que delícia cavalgar por ali, andar devagar no meio da mata, correr pelos campos.

Tanta coisa, tanta história que não cabe aqui. Fica só um gostinho.

 

As fotos são todas do João.

Árvores em flor: piúva

Pantanal_09-2010 28.jpg

Quando as piúvas estão em flor, o Pantanal fica todo pintado de amarelo e rosa. Perdi esse espetáculo por bem pouco – neste último feriado só tinha algumas poucas árvores floridas para dar uma ideia do espetáculo.

Sim, essa árvore aí do lado é um ipê (foto de Alan Krakauer – ornitólogo e meu amigo que teve a iniciativa da viagem). Foi a primeira coisa que aprendi no pantanal: lá, os ipês são piúvas.

Segundo o livro Pantanal – um universo natural em suas mãos, de Paulo Cardoso, o amarelo é Tabebuia aurea, também chamado de paratudo. Paratudo porque é usado para febre, malária, diabete, vermes, problemas gástricos. Dá para mastigar a casca ou beber a água em que ficou de molho por 24 horas. Diz que a flor tem gosto de alface! Será? Não provei.

P1120542.jpgO ipê-roxo (foto também do Alan), que segundo o livro é a que realmente se chama piúva, ou peúva, é Tabebuia heptaphylla. As flores caídas são, de acordo com Paulo Cardoso, comidas por veados-campeiros, cavalos e gado. E nas árvores fazem a festa de bugios e aves diversas. A entrecasca é usada como depurativo estomacal e bactericida.

Mais um pouco no tour 360º no site da pousada Piuval, aqui.

Tesouros da Mata Atlântica

premio.jpgOntem foi anunciado o prêmio de reportagem sobre a biodiversidade da Mata Atlântica. E quase foi responsável por uma síncope desta que escreve: ganhei o primeiro prêmio. E o segundo também. Ambos com matérias publicadas na Pesquisa.

Hesitei muito em fazer auto-promoção. E perdi a chance de dar a notícia em primeiríssima mão, mas acabei sucumbindo.

Um dos motivos é relembrar o motivo real de escrever as matérias e pelo qual elas foram premiadas: os assuntos. O primeiro lugar foi para “Jardineiras fiéis“, que saiu em julho do ano passado, conta como formigas ajudam a semear florestas. O trabalho é do grupo do biólogo Paulo Oliveira, da Unicamp. “O futuro da natureza e da agricultura“, da edição de outubro, é um apanhado de vários exemplos que usam modelos matemáticos para entender evolução ecológica e prever o que pode acontecer com plantas e bichos diante das mudanças no clima esperadas para as próximas décadas.

Quero, sobretudo, registrar meu agradecimento às pessoas que contribuíram para que eu chegasse aqui.

Minha família, claro.

Meu editor Ricardo Zorzetto, que conheci quando foi meu professor no Labjor e, sei lá como, lembrou de mim um ano depois quando precisou de colaborador. É a ele que agradeço, em primeiro lugar, por fazer parte da equipe da revista Pesquisa, da Fapesp. Claro que agradeço também à Mariluce Moura, diretora de redação da revista, que deu essa oportunidade a uma jornalista recém-nascida e nos últimos quase 4 anos manteve a aposta. E ao resto dos meus colegas, uns pela amizade e outros – Neldson Marcolin e Carlos Fioravanti – pela ação direta no meu aprendizado, como editores.

Eu não escreveria nada se não contasse com a dedicação, a paciência e o entusiasmo contagiante dos que me contam seu trabalho. Paulo Oliveira, Paulo De Marco, Natália Torres, Carlos Nobre, João Giovanelli, Marinez Siqueira, Miguel Ângelo Marini, Hilton Silveira Pinto, Juliana Fortes e José Antonio Marengo, neste caso. E João Alexandrino – meu parceiro neste blogue e na vida -, que não aparece na matéria dos modelos ecológicos (a não ser por intermédio de João Giovanelli, na época seu mestrando) mas foi quem sugeriu o assunto e me ajudou a pensá-lo.

E, claro, agradeço ao pessoal da Aliança para a Conservação da Mata Atlântica, que promove o prêmio, e ao júri que gostou do que escrevi.

Graças a toda essa gente, tenho duas lindas arvorezinhas-esculturas decorando minha casa. E um par de super havaianas com o logo da Conservação Internacional. E uma caneca nova. E um cheque polpudo. E uma camiseta. E em novembro estarei em Cancún, no México, acompanhando a COP 16.

A foto foi minha mãe quem tirou (acho, ou meu irmão), com o celular.

 

Vulcões da Amazônia

vulcão.jpg

Há uns 2 bilhões de anos, o que chamava atenção na região onde hoje é a Amazônia não era a densa floresta repleta de animais que não se vê e mosquitos que se sente. Eram os vulcões, quase um ao lado do outro, que jorravam lava e lançavam projéteis.

Foi o que aprendi com o geólogo da USP Caetano Juliani, e escrevi na edição de agosto da revista Pesquisa.

O esboço acima é dele, em cima de foto também dele. Ajuda a entender como os resquícios que permaneceram até hoje ajudam a reconstruir o passado. A seta da direita indica um cucuruto de pórfiro, uma rocha ígnea intrusiva que corresponde à antiga câmara magmática do vulcão. A cratera. A seta da esquerda indica o que restou do flanco do antigo  vulcão: depósitos de rochas vulcânicas, sobretudo ignimbritos (adoro esses nomes de rochas).

Acho lindo como o conhecimento altera o que se enxerga na paisagem. Os geólogos veem um mundo diferente daquele que entra pelos olhos das outras pessoas.

 

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