A revisão por pares ideal

O ingrediente principal de uma revisão eficiente é a atitude, que deve ser crítica e objetiva. Faça força para se livrar de preconceitos tanto regionais, de gênero etc., quanto preconceitos teóricos. Um pesquisador cuja carreira tem focado em duvidar do valor da reintrodução de fauna pode revisar um artigo advogando em favor disso, seu ponto de vista cético seria inclusive valioso, desde que ele se ativesse a avaliar as evidências e interpretações apresentadas ali sem tratar como dogma que a reintrodução causa mais prejuízos que benefícios.

 

A revisão por pares deve ajudar o editor a decidir publicar ou não o artigo e o autor a melhorar o manuscrito (imagem: grcorporate.com.br)

 

Uma avaliação ideal deveria começar pela leitura crítica e atenta do manuscrito. Vale a pena explicitar essa leitura na revisão logo de início. Procure resumir o trabalho lido incluindo seus objetivos e principais conclusões. A apresentação desse ponto de vista não apenas situará o editor da revista, mas também permitirá ao autor enxergar se as principais novidades daquele trabalho ficaram claras. Até pontos fortes ignorados pelos autores podem vir à tona aí.

A seguir, aponte os principais pontos positivos e a significância do trabalho lido. Em que pontos o trabalho é bom? O que ele traz de novidade? Demonstrar essa compreensão quebra, logo de cara, a sensação que muitos autores têm de que a revisão só viu defeitos e, portanto, o trabalho não tem valor.

É nas críticas que a revisão se constrói. Procure apresentá-las de maneira construtiva e positiva. Seja direto e claro se houver falhas no desenho experimental. Explique onde estão as falhas detalhadamente e por que aquele desenho deixaria margem à interpretação dos resultados. Sugira melhorias no experimento ou na análise de dados que pudesse prevenir erros. Erros de desenho experimental são os mais impactantes para os autores, porque na maioria dos casos ele inviabilizará completamente o trabalho ou gerará a necessidade de recomeçar o estudo. Por isso, seja muito claro nesse tipo de crítica, mas não se esquive de fazê-las.

Também avalie a interpretação dos resultados escrupulosamente. Muitas vezes a cultura de um laboratório, instituição ou a carga de teórica impedirão um autor de enxergar seus dados por outro ângulo. Em raros casos experimentos adicionais podem ser sugeridos para resolver interpretações dúbias, mas fique atento a essa prática, já que ela muitas vezes inviabilizará a publicação.

Em todos os casos é importante embasar suas críticas na literatura. Se o desenho experimental tem uma falha, refira-se a um artigo com desenho melhor protegido contra aquele problema. Se a interpretação é dúbia, apresente artigos com pontos de vista diferentes. Se o autor atribuiu o crédito de uma ideia erroneamente, corrija apresentando o artigo que primeiro trouxe o conceito discutido. Especialmente se você entendeu que falta originalidade ao artigo, problema recorrente na ciência brasileira, cite claramente autores que já desenvolveram o mesmo estudo. Por outro lado, atenção, a revisão não é espaço para aumentar seu número de citações. Sugerir que o autor cite um artigo seu é deselegante, incoerente com o anonimato do revisor e em geral irrelevante.

Quanto ao tom da redação, lembre-se que palavras escritas não carregam consigo o tom simpático de voz ou a expressão facial que deixaria clara a sua intenção, sendo facilmente interpretadas como grosseria ou soberba. Escolha bem as palavras. Leia e releia seu texto. Se necessário peça sugestões. Mesmo que a revista exija seu anonimato, prepare sua revisão como se seu nome fosse seguir ao final do texto aberto aos autores. Qualquer frase que você não tivesse coragem de submeter vinculada a seu nome deve ser profundamente reconsiderada.

Além de praticar essa modalidade de revisão, não deixe de discutir o assunto com seus alunos para prepará-los para quando a vez deles revisarem chegar. Voltando ao ponto do sigilo, lembre-se que a revisão leva o seu nome (mesmo que só para o editor no caso de revisor anônimo). Assim, seria antiético da sua parte aceitar revisar um artigo apenas para repassá-lo a um aluno a título de treinamento. Não é assim que revisores são treinados.

Em resumo, pense que a revisão por pares deve atender a dois interessados: o editor da revista e o autor do manuscrito. O interesse do editor é tomar uma decisão acertada quanto a publicar ou não um manuscrito. É ele quem toma essa decisão. Portanto, seja claro quanto ao valor do trabalho e seu potencial. O interesse do autor é tornar seu manuscrito melhor. Aproveite também para ajudá-lo nessa tarefa.

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