Suzana e o Ponto Facultativo

Na sexta-feira passada a Prof. Suzana Herculano-Houzel, uma excelente cientista e divulgadora da ciência, publicou em sua página no Facebook um desabafo sobre o comportamento da equipe que trabalha em seu laboratório. Segundo ela, dos 14 membros da equipe, todos os dez brasileiros enforcaram o feriado e todos os quatro estrangeiros estavam trabalhando. Como o texto está cheio de pontos polêmicos relacionados à gestão da carreira acadêmica, resolvemos discutir aqui o assunto.

  1. Estrangeiros são mais comprometidos e éticos que brasileiros

A Prof. Suzana atribui a ausência dos brasileiros no laboratório a uma ética de trabalho e comprometimento “diferentes” da dos estrangeiros. Mais adiante no texto parece que ela acha os brasileiros menos éticos e comprometidos. O brasileiro não é pior que nenhum outro povo. Tem, sim, suas virtudes e seus defeitos. Nós mesmos já colaboramos com profissionais estrangeiros de diversas nacionalidades e observamos neles essa diversidade de virtudes e defeitos. Em outra postagem a Suzana diz que não intencionava fazer generalizações, mas comparar brasileiros e estrangeiros. Mantendo o espirito de comparação, talvez sejamos sim mais propensos a enforcar feriados, mas também somos vistos como mais criativos e colaborativos, por exemplo.

  1. Ponto facultativo

Uma das bandeiras da Prof. Suzana é a profissionalização do cientista. O cientista, inclusive os pós-graduandos, deveriam ser encarados e tratados como profissionais com vínculo empregatício e seguindo as normas institucionais. Se é assim, uma das normas deveria ser o calendário de trabalho, inclusive os pontos facultativos, finais de semana, feriados e jornadas de trabalho. Cobrar a presença do colaborador num ponto facultativo é descabido, já que este pesquisador está seguindo o calendário do estado. Ao contrário do que se pensa, trabalhar aos finais de semana ou até altas horas pode não ser um sinal de comprometimento, mas uma péssima gestão do seu tempo.

  1. Criatividade e liberdade de horários

Num texto anterior nós mencionamos que todo cientista é, por natureza, um criativo. Como todo trabalho criativo, não é possível determinar horários para que a criatividade apareça. A flexibilidade de horários deve ser oferecida aos pós-graduandos, desde que os prazos e produtos sejam cumpridos. É até possível que alguns desses membros da equipe que não foram ao laboratório tenham ficado trabalhando em casa, ambiente onde costuma ser mais fácil se concentrar. Uma gestão rígida e cheia de cobranças é excelente para exterminar a criatividade e a capacidade de auto-gestão da sua equipe. A auto-gestão, inclusive, é uma competência que será exigida dos cientistas em etapas mais avançadas de suas carreiras.

  1. Suficiência amostral

A Prof. Suzana fala na observação de fatos no post dela, mas toda conclusão científica deve se pautar por replicações das observações. Conversando com alguns colegas ou vendo os comentários ao post dela outras pessoas contaram que estrangeiros haviam faltado ou brasileiros estavam no batente naquele dia. O ponto facultativo que motivou a insatisfação da Suzana pode não ser suficiente para tirarmos conclusões, afinal, foi um só dia. Valeria a pena avaliar outras ocasiões.

  1. Exposição pública dos colaboradores

Acreditamos que o post da Prof. Suzana expôs desnecessariamente sua equipe. Mesmo sem ela citar nomes é possível descobrir a quem ela se referia. Uma bronca dessas é frequentemente necessária em qualquer equipe de trabalho, mas deve ser dada numa reunião fechada apenas com os envolvidos, no caso os pesquisadores ausentes. Os manuais de recursos humanos sugerem que, sempre que se vá elogiar um funcionário, faça-o na frente do maior número possível de pessoas, e sempre que se vá criticar ou punir, faça-o em particular. É uma questão de estilo de liderança, e também de ética, não lavar a roupa suja em público.   Todo mundo tem seus dias ruins e decepções frequentemente potencializam esses dias ruins.

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