A ética e o ensino de valores

Professores e seus alunos, como lidar com valores diferentes? (Imagem: Kevin Tong/Flickr)

Recentemente vem sendo discutido entre os educadores um projeto a lei (PL 1411/2015) que propõe a proibição do que foi descrito como uma doutrinação dos estudantes por parte dos professores, em especial no que diz respeito a posturas políticas. O projeto “escola sem partido” ou a “lei da mordaça”, dependendo do lado que você assuma no debate, discute a comunicação de valores entre o professor e seus alunos. O assunto é controverso, mas suscita uma discussão válida sobre a ética do professor que cabe ao Cientista S/A. Qual deve ser o papel do professor na transmissão de valores?

A taxonomia de Bloom propõe que o professor deve trabalhar conhecimentos e informações(domínio cognitivo), habilidades práticas e técnicas (domínio psicomotor)e também valores e atitudes dos estudantes (domínio afetivo). O cumprimento de objetivos educacionais no domínio afetivo inicia-se com a percepção de valores, segue para sua aceitação e culmina com mudanças de comportamento regidas pela aceitação desses novos valores. Portanto, segundo esse pesquisador, é papel do professor apresentar valores a seus estudantes e o máximo do sucesso seria fazê-los mudar de atitude com base nesses valores adquiridos.

Antagonicamente, é improvável que um professor consiga se eximir de transmitir valores com suas aulas. Nossos discursos e comportamentos são permeados por nossos valores e nós humanos somos habilidosos em captar essas informações em nossos semelhantes. Mesmo que se considere interessante e desejável, será difícil despir o professor de seus valores durante as aulas. Duvido que uma aula do Mauro Rebelo não transmita o valor que ele dá ao empreendedorismo. No entanto, é claro que existem diferentes graus nessa exposição de valores.

Uma coisa é apresentar seus valores e discuti-los com seus alunos; outra coisa é impor seus valores sobre eles. A idéia do domínio afetivo que apresentei acima na taxonomia de Bloom é capacitar o aluno a avaliar, julgar e construir seu conjunto de valores de acordo com o que observou. Impor um conjunto de valores sem julgamento não concorda com isso. Aí sim temos uma doutrinação ou lavagem cerebral. Portanto, atribuir notas ou punições dependendo do estudante adotar ou não os valores que você julga importantes é antiético. É necessário que ambas as partes, educadores e educandos, respeitem os valores uns dos outros.

O Professor Gilson Volpato contou uma vez que no começo da faculdade achava que não poderia ser um cientista bom sem se tornar ateu. Como o aluno é o elo frágil da relação, é fácil para o professor se tornar um doutrinador e convencer seus pupilos de qualquer que seja o seu valor. É inclusive perigosíssimo cair nessa tentação quando nosso carisma e status tendem a iludir cabecinhas mais despreparadas (para saber do que estamos falando assistam o excelente “A Onda”). É exatamente por isso que devemos estar atentos para evitar a lavagem cerebral.

De forma prática, tente identificar que valores são fundamentais para seus alunos no curso que estão fazendo. É fundamental que desenvolvam uma consciência ambiental? Você gostaria de estimular o raciocínio crítico e o ceticismo? Você busca incuti-los de altruísmo e um senso de comunidade? Em seguida, busque compreender por que esse valor é importante para você. Lembre-se de que a escolha por incluí-lo como objetivo pedagógico deve se pautar na importância para o aluno, não para você. Pense nas estratégias que usará para apresentar o valor em questão e nas estratégias que usará para avaliar o aluno quanto a isso. Certifique-se de que está pronto para escutar pontos de vista divergentes e respeitá-los. Existem técnicas para escutar melhor, como tentar repetir, aplicar a uma situação real ou parafrasear o que ouviu para garantir que entendeu direito. Faça perguntas para esclarecer o que ouviu, não para expor ou colocar em contra-senso quem falou. Mais fundamental do que tudo isso, aja rigidamente conforme os valores que prega ou contente-se com o título de demagogo.

Os valores são parte primordial da educação e, mesmo que tentemos, não seremos capazes de abrir mão de demonstrar em sala de aula nossos valores. A saída ética é fazer isso com respeito e consciência para proteger o estudante que ainda está construindo seus valores.

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Discussão - 1 comentário

  1. Carlos Santos disse:

    Esse tema é extremamente importante para o Brasil no presente momento, pois as crises recorrentes do nosso país têm suas raízes justamente na baixa qualidade ou até mesmo na inexistência de valores por parte da nossa população, principalmente da nossa elite. Se observarmos de forma isenta a questão, podemos facilmente concluir que o bem-estar e o sucesso socio-economico dos países desenvolvidos têm relação direta com os valores praticados por suas elites, que se refletem nas demais camadas da população e no desempenho social e econômico da sua nação.

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