Autoria científica e ética

Segundo um Comitê de Ética na Publicação ligado à PLoS, um quinto das disputas que chegam àquela instância de julgamento dizem respeito à autoria científica. Não muito tempo atrás, este era um problema raro, já que os artigos eram assinados por um ou dois pesquisadores, mas à medida que a era das parcerias avança, estudos aparecem com centenas e até milhares de autores. Hoje, conhecer diretrizes para definir e ordenar os autores de um paper é fundamental para a boa conduta (e a paz de espírito) na academia.

Quem assina os artigos científicos? (Imagem: Antonio Litterio)

Vamos ver primeiro quem deveria ser autor de um artigo. É certo que cada área tem as suas peculiaridades, e que conhecê-las cedo é fundamental para não se envolver em disputas de autoria. Na física de partículas, por exemplo, é possível que se inclua entre os autores absolutamente toda a equipe de todos os laboratórios que coletavam dados na época em que a descoberta foi feita. Equipes de genômica chegam a formar times (teams) para assumir a autoria de artigos processados por múltiplos laboratórios. Já nas ciências humanas e na ecologia e taxonomia ainda é comum que apenas uns poucos autores assinem os artigos. Às vezes até as instruções aos autores da revista que você está almejando pode indicar diretrizes sobre a autoria. Leia esse documento com atenção antes de submeter seu manuscrito.

Algumas diretrizes são comuns a diferentes áreas e valem a pena conhecer. A partir delas fica mais fácil decidir se uma pessoa está na lista de autores ou pode figurar apenas nos agradecimentos. De acordo com elas, os autores são pessoas que:

  1. Contribuíram substancialmente para a concepção da pesquisa, o desenho experimental e a conclusão do trabalho.
  2. Participaram ativa e criticamente da coleta de dados e análise estatítica.
  3. Rascunharam ou revisaram o texto para publicação.
  4. Aprovaram a versão final do artigo enviada para a revista, sendo portanto responsáveis pelo conteúdo que está ali.

Assim, donos de equipamentos que não cumpram as especificações acima não são autores; chefes de laboratório que não conhecem a pesquisa a fundo não são autores e pessoas que abandonaram o grupo antes do artigo ficar pronto e sumiram para avaliar se concordam com a redação final também não são autores. Para todos eles existe a seção de agradecimentos (Acknowledgments).

Tudo bem, mas em que ordem colocar os autores? Em geral, as posições mais disputadas são a de primeiro e último autor. O primeiro autor tem status porque é o nome dele que aparece na maioria das citações (De acordo com Silva (2016), …). Em geral o primeiro autor é o principal envolvido no estudo, aquele que elaborou a pergunta, ficou responsável pelo processo todo de coleta e análise de dados, rascunhou o artigo. É o doutorando cujo trabalho está sendo publicado, por exemplo. Pode haver desavenças nesse ponto. Imagine que um pesquisador A elaborou todo o desenho experimental, fundamentou a pesquisa com base na literatura e analisou os dados, mas nunca foi para a bancada coletar dados. Do outro lado, um pesquisador B passou meses coletando e organizando dados e alterando protocolos experimentais que davam sempre errado até ter em mãos todas as evidências empíricas inequívocas. Em casos como este, nossa sugestão é que o primeiro autor seja o que fez o maior trabalho intelectual, no caso, o pesquisador A.

O último autor, por outro lado, costuma ser o membro sênior, que guiou o estudo devido a sua experiência e conhecimento. Um problema comum no último autor é que ele seja um figurante que ganha autorias espúrias devido ao status, o que chamam de Gift Author. Novamente, é importante que todos os autores preencham os quatro critérios acima. Também é comum que o autor para correspondência seja este último nome da lista. Será ele quem receberá as revisões e as provas do artigo para conferir, além de ficar acessível para outros pesquisadores interessados no estudo ou em separatas e para a mídia em geral. Por fim, a posição de último autor vem ganhando uma função complicada, garantir a boa conduta dos demais autores quanto a plágio, falsificação e fabricação de dados. Pelo menos esperamos que com isso menos ganância esteja em jogo na escolha do último autor.

Em todos os casos, algumas práticas ajudam a reduzir muito os conflitos de autoria num grupo de pesquisa. Decida logo no início do projeto e de maneira clara quem serão os autores e qual será a ordem da autoria. É claro que há plasticidade para ajustes durante o processo, mas mesmo essas mudanças devem ser discutidas com a equipe e seguir regras claras. Tenha uma política de autoria clara, respeitada e acordada com todos. Caso surja uma disputa de autoria, negocie com o grupo e esclareça o que se entende por contribuição substancial ou trabalho intelectual. Se seus co-autores estiverem caminhando para uma prática antiética de autoria você pode pensar em duas saídas complicadas: acusar publicamente os colegas de má-conduta ou aderir a ela e tornar-se cúmplice. Obviamente ambas são prejudiciais à sua imagem, o ideal é argumentar sobre suas apreensões em relação ao posicionamento e tentar dissuadir o grupo. De preferência isso deve ficar registrado num e-mail ou na ata da reunião em que foi discutido.

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